𝗖𝗮𝗽𝗶𝘁𝘂𝗹𝗼 𝟬𝟵❄

𝗟𝗮𝗹𝗶𝘀𝗮 𝗠𝗮𝗻𝗼𝗯𝗮𝗻.


— Acho que terminamos por hoje — a treinadora Lee gritou de onde estava, a alguns metros de onde eu tinha aterrissado depois de ser lançada para o alto.

Respirando pelo nariz e expirando pela boca, tentando evitar ofegar depois de um treino que me fez suar tanto, eu assenti. Já era hora. Eu estava cansada e sabia que Jungkook também. Eu senti o quanto ele teve que se esforçar para me lançar na última vez.

Além disso, não ajudava em nada que eu tivesse tido uma noite de merda. Eu exagerei na noite anterior por ter treinado tanto, quase que além do que meu corpo permitia. Por dentro e por fora, e meu corpo não me perdoou por não tratá-lo tão bem quanto eu normalmente fazia.

Foi a forma que eu encontrei para acabar com a minha ansiedade pelo nosso campeonato estar tão próximo. Já tem dois meses que Jungkook e eu começamos a treinar e daqui a pouquíssimos meses será nossa competição. Ainda temos muitas coisas para melhorar, e isso tem me deixado desesperada.

— Vá com calma e descanse um pouco, Lisa — disse a treinadora Lee enquanto patinava em minha direção e me dava um olhar sério.

Eu só consegui concordar. O que mais eu poderia dizer ou fazer?

— Vejo você amanhã cedo — ela terminou, tocando as pontas dos dedos no meu ombro por um breve momento antes de tirá-las e patinar para longe.

Colocando as mãos nos quadris, continuei tentando recuperar o fôlego enquanto olhava ao redor da pista, observando as outras seis
pessoas ainda praticando, aproveitando os últimos minutos antes que o tempo privado no gelo terminasse e se abrisse para as aulas em grupos.

ㅡ Ei ㅡ A voz de Jungkook soou atrás de mim, enquanto ele cutucava minha cintura ㅡ Quer parar no caminho para jantar?

Respirei pelo nariz por um momento, e quando estava prestes a dar de ombros, assenti. Eu devia isso a ele. Ele merece, por ter vindo atrás de mim aqui ontem a noite sem que eu pedisse e arrastar minha bunda para casa antes que eu me matasse de exaustão.

Me virei para ele em cima dos patins e sorri:

ㅡ Se você não tiver mais nada para fazer ㅡ Me certifiquei de que minha voz soasse agradável.

ㅡ Não até mais tarde.

O que ele faria mais tarde? Gostaria de saber...

ㅡ Abriu um restaurante de comida chinesa perto do campus, as meninas falaram que é muito bom lá.

ㅡ A gente para lá, então. Vou segui-la — disse ele, soando como sempre vinha fazendo... sem o sarcasmo. — Se você conseguir não dirigir como uma psicopata, seria ótimo.

E lá fomos nós.

— Eu dirijo no limite de velocidade.

Aqueles cílios grossos e escuros piscaram sobre seus olhos.

— É assim que você chama?

Eu fiz uma careta.

— Eu nunca recebi uma multa.

— Ãh-hã.

Revirei os olhos e mal consegui não lhe lançar um olhar carrancudo.

— Vou esperar por você na porta da frente, sr. Eu-sigo-todas-as-regras.

Um canto de sua boca estremeceu... mas ele baixou o queixo.
Ele piscou para mim.
E eu pisquei de volta para ele.
Então o outro canto de sua boca também se contraiu.

— Você é um idiota — xinguei antes que pudesse me conter.

— Você é mais — ele respondeu antes de começar a patinar para trás. — Te encontro em dez minutos.

Torci o nariz e segui meu caminho para sair do gelo, chegando à abertura nos painéis logo após Jungkook. Coloquei meus protetores de patins, observando-o me olhar, percebendo pela minha visão periférica as famílias começando a aparecer a caminho das arquibancadas.

Mas não discutimos. Eu saí e fui em direção aos vestiários, não querendo ser a última a chegar às portas da frente. Preferiria esperar por ele do que fazê-lo esperar por mim.

Eu fico muito feliz que conseguimos seguir em frente como se nada tivesse acontecido, e sem estranhezas depois daquele beijo. Nós não termos tido nenhuma outra aproximação íntima como aquela ajudou bastante.

Dobrei a primeira esquina, e segui em linha reta. Vi as duas adolescentes do lado de fora imediatamente. As duas garotas sempre foram legais comigo.

Então, assim que me aproximei da porta, elas se viraram e me deram
sorrisos tímidos.

— Oi, Lisa — cumprimentou uma delas enquanto a outra gritou:

— Oi.

Pensei nas palavras de Jungkook na noite anterior e sorri para as duas enquanto passava por elas.

— Oi. — Minha mão foi até a porta para abri-la... e parei antes de dizer: — Tenham um bom treino.

— Obrigada! — a segunda basicamente gritou quando entrei.

Assim como todo sábado à noite, o vestiário estava cheio de adolescentes entre 13 e 18 anos. Elas estavam falando tão alto que meus ouvidos doíam. Fui para o meu armário, lançando um olhar de soslaio ao redor e vendo que eram todos rostos familiares sem nome, e depois dei as costas para elas. Não demorou muito para abrir meu armário e tirar minhas botas, bolsa e colocar meus patins em sua capa protetora antes de pegar meu telefone, mexer os dedos dos pés. Colocando meus chinelos e mexendo os dedos dos pés enquanto
esticava as costas, peguei minhas chaves, a bolsa e me levantei,
curvando-me para agarrar a alça da mochila. Coloquei o cadeado de volta no meu armário e fui em direção à porta.

— ... feia e gorda naquele collant.

E lá estava.
Crianças. De treze, talvez quatorze anos, do lado de fora da porta. Duas adolescentes que se pareciam muito com as duas que estavam falando merda sobre mim semanas atrás.

Estavam em pé na frente das duas meninas que sempre me cumprimentavam. As meninas meigas, mas engraçadas, que sorriram para mim cerca de cinco minutos atrás, agora estavam de costas para a parede e tinham olhos vidrados que pareciam muito como se estivessem à beira das lágrimas.

Droga. Por que isso tinha que acontecer comigo?

Eu queria ir embora. Eu realmente queria. Já tive a minha cota de merdas e não queria entrar nelas de novo e arriscar-me a ter problemas.

Mas…

Minha amiguinha simpática tinha lágrimas nos olhos, e uma daquelas filhas da mãe havia acabado de chamá-la de gorda e feia, e eu não concordava com esse jogo de intimidação.

Então, parei e fiz contato visual com minhas duas amigas, levantando uma sobrancelha.

— Vocês duas estão bem?

A mais extrovertida das duas secou o que pareciam ser lágrimas, e a ação instantaneamente fez um sentimento estranho subir pela minha espinha, então eu estreitei os olhos enquanto olhava para as duas garotas malvadas que pareciam se arrepender do que tinham feito enquanto eu estava no vestiário.

Quando nenhuma das duas meninas mais agradáveis concordou que estava bem, a sensação desagradável se intensificou, e eu
reconheci como sendo: proteção. Eu odiava valentões. Eu realmente odiava valentões.

— Elas estavam implicando com vocês? — perguntei calmamente, mantendo meu foco nas duas meninas legais.

— Não estávamos fazendo nada — uma das idiotas tentou argumentar.

Deslizei meu olhar para quem havia falado e disse:

— Eu não estava perguntando a você. — Então, voltando à que estava com lágrimas nos olhos, indaguei novamente: — Elas estavam provocando vocês?

Elas hesitaram um pouco antes de concordar. Ambas. E esse sentimento no meu peito só ficou mais forte.

Mordi o interior da minha bochecha antes de perguntar:

— Você está bem?

Seus pequenos acenos de cabeça quase partiram meu coração. Mas o que elas conseguiram fazer com sucesso foi que eu focasse nas duas idiotas, quando minha melhor expressão de vadia surgiu enquanto eu dizia beeemm devagar, usando aquele sorriso que Rosé chamara de medonho em mais de uma ocasião:

— Se eu ouvir ou ver vocês mexendo com elas, ou com alguém deste complexo, de novo, vou fazer com que as duas se arrependam do dia em que decidiram ter aulas aqui, entenderam?

Nenhuma delas assentiu ou disse que sim, e isso só fez o formigamento na minha coluna tornar-se mais forte. Uma pessoa
melhor teria acrescentado alguma merda inspiradora. Mas não eu.

Voltei minha atenção para as duas meninas simpáticas.

— Se acontecer de novo, venham me dizer, ok? Eu vou lidar com isso por vocês. Amanhã, no próximo mês ou daqui a um ano, não fiquem com vergonha, se eu estiver aqui, cuidarei disso.

Eu sabia muito bem. Já tinha passado por isso o suficiente. Em troca, recebi dois olhares vazios, mas, se estavam com medo ou não, eu não fazia ideia. Então as duas garotas assentiram bem rápido.

E eu sorri para elas, dizendo que estava tudo bem. Eu cuidaria delas. Nem todo mundo era terrível, mas os mais cruéis tornavam fácil esquecer isso. Eu deveria saber.

Mas então olhei de volta para as duas merdinhas e deixei o sorriso desaparecer enquanto focava em seus rostos mesquinhos.

— E vocês duas, se eu as pegar fazendo isso de novo, vou jogar um pote de bosta inteiro em vocês, suas m...

— Lisa! — Ouvi uma voz masculina familiar gritar perto, mas não tão perto.

Obviamente, erguendo os olhos, encontrei Jungkook no corredor, uma
das mãos contra a parede. Ele estava longe demais para eu ver mais dele, mas sabia pela silhueta e comprimento que era ele. Isso, e eu
reconheceria aquela voz em qualquer lugar.

— Vamos, estou com fome — ele falou sem motivo, pensei, até que me dei conta.

Ele me ouviu. Foi por isso que gritou e me impediu de chamar essas garotas de merdinhas, como eu havia planejado.

Não teria sido uma boa ideia, mas, bem, tanto fazia. Elas mereciam.

— Não sejam idiotas — apontei para as duas merdinhas antipáticas, depois me virei para as outras garotas —, e vocês me avisem se elas as atacarem novamente.

Quando recebi dois acenos em resposta, certifiquei-me de lançar às outras um olhar desagradável, como se eu estivesse de olho nelas, antes de seguir pelo corredor em direção a Jungkook, que ainda estava lá esperando, exceto que eu podia vê-lo balançando a cabeça por alguns instantes, a metros de distância. No segundo em que cheguei perto o suficiente, percebi que ele estava sorrindo. Aqueles dentes brancos e brilhantes estavam todos de fora, enquanto ele perguntava:

— Hoje é o seu dia de implicar com crianças pequenas?

Revirei os olhos quando fiquei na frente dele, tendo que inclinar a cabeça para trás para olhá-lo nos olhos.

— Aquelas são monstros, não crianças.

Seus olhos estavam focados nos meus quando o sorriso dele se alargou, e ele disse:

— O que eu quero saber é...

Sem saber o que estava prestes a perguntar.

— Onde posso conseguir um pote inteiro de bosta?

Eu não queria sorrir. Eu realmente não queria.

Mas não pude evitar.

Sorri tanto que minhas bochechas doeram instantaneamente e disse a única coisa que me veio à mente:

— Você é um idiota.

• • •

ㅡ Minha mãe me ligou pedindo para que eu fosse na casa deles visitar meu pai. Ele se operou recentemente, e está se recuperando em casa, mas sinceramente, não quero ter que ouvir mais merdas vindo dele ㅡ Desabafou.

Estamos jantando em um restaurante simples de comida chinesa na caixa. Jungkook está me contando um pouco mais sobre esse lado da sua vida que envolve seus pais, principalmente o pai.

ㅡ Quanto tempo tem que você não vê ele?

ㅡ Acho que faz seis meses desde a última vez.

ㅡ Você se sente melhor estando afastado dele?

ㅡ Sinceramente? ㅡ Me olhou por baixo dos cílios, com a cabeça um pouco baixa sem esperar uma resposta ㅡ Não, eu me sinto tão podre quanto ele. Mas não consigo, Lisa. Não consigo ficar cara a cara com ele, sabendo o quanto aquele homem já me fez mal, me proibiu de praticar um esporte que eu amava, quando era só uma criança, para fazer oque ele queria.

ㅡ Eu até te entendo, Jungkook, mas como você disse, está agindo como ele. Já tentou jogar as cartas na mesa, mostrar e falar como tudo te afetou? ㅡ Questionei, bebendo um pouco de água.

ㅡ Não. Eu sempre evitei direcionar qualquer palavra à ele.

ㅡ Você deveria fazer isso. Deixar a mágoa e orgulho de lado, eu juro que ajuda. Era isso que eu fazia com a minha mãe, hoje em dia nós combinamos um pouco mais.

ㅡ Acha que eu deveria ir lá? ㅡ O olhar que ele me direcionou, era como se realmente minha opinião fosse importante.

A intensidade dos olhos do Jungkook sobre mim, ardeu mais do que a pimenta que acabei de engolir. Senhor. Me ajuda.

Tomei todo o resto da água no meu copo antes de responder.

ㅡ Acho. É o melhor que você pode fazer. Faça isso por você ㅡ Sorri.

ㅡ Obrigado ㅡ Retribuiu o gesto, mantendo o olhar sobre mim.

Não acredito que esse cara tá conseguindo me deixar desconfortável. Eu comecei a rir meio que de desespero enquanto colocava mais molho na minha comida. Levei a mão a boca, tentando abafar o som do meu riso.

ㅡ Para de ficar me encarando, Jungkook, você tá me deixando com vergonha.

Foi a vez dele começar a rir.

ㅡ Você literalmente não tem vergonha na cara, nunca! Nem vem com essa!

ㅡ Você está me encarando como um psicopata!

ㅡ Única psicopata aqui é você quando dirige ㅡ Revirou os olhos, colocando um pedaço de cenoura na boca com seu hashi.

Jungkook levou um chute na canela por debaixo da mesa.

ㅡ Imbecil, foi você quem me ensinou a dirigir!

ㅡ E você deu um jeito de aprender da pior forma.

Fiz um "shiuuuu" pra ele, extremamente longo enquanto balançava a cabeça.

ㅡ Para com isso, você vai cuspir arroz na minha comida, sua nojenta! ㅡ Ele quase gritou e eu tive um quase ataque de riso.

ㅡ Para, Jungkook! ㅡ Dei um tapa no braço dele enquanto tentava me recuperar da sua cara forçada de nojo.

Quando eu estava finalmente sob controle, falei a ele algo que estava na minha mente o dia todo.

ㅡ Sábado eu vou sair com minha irmã, quer ir com a gente? Acho que ela vai gostar de você.

ㅡ A que tá grávida?

ㅡ Não, a caçula.

ㅡ Depende do horário.

ㅡ Por volta das sete horas da noite.

ㅡ Beleza, eu vou ㅡ Sorriu.

ㅡ Legal. Só se lembre que ela é uma adolescente, ou seja, pode se apaixonar por você ou te odiar mortalmente.

ㅡ Prefiro a primeira opção, é mais fácil de lidar.

ㅡ Exatamente. Então, boa sorte para nós para agradar aquela menina...

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