14. Consequências

🦋 CALLIE

Conseguia ouvir um barulho distante que se assemelhava a passos. Como se andassem por toda minha casa enquanto eu dormia esperando acordar com um careca gostoso bem do meu lado. Resmungo enquanto tateio a cama a procura de Rafe e me decepciono da mesma maneira quando não o encontro.

Abro os olhos e o vejo em frente o espelho, passando a mão no rosto enquanto se admirava no reflexo. Eu também o admirava muito daqui.

— Bom dia — murmuro, coçando os olhos. — Está fugindo de fininho?

Rafe sorri pra mim enquanto se enfia em sua camiseta. Suspiro. Eu ainda não havia me acostumado com isso, em acordar e ter essa visão que me enchia de tesão e fazia com que eu quisesse arrancar a minha roupa. Apesar de eu não estar vestindo nenhuma. 

— De jeito nenhum, eu até comprei o café — responde e se aproxima pra dar um beijo no topo de minha testa.

Sorrio com seu toque, me sentindo perfeitamente bem após seu carinho. Nós usamos três camisinhas na noite passada, ele fez carinho em mim até que eu dormisse e ainda ganho um café da manhã? Eu definitivamente poderia me acostumar com isso.

— E o que temos pra hoje? — pergunto, segurando o lençol para conseguir me erguer sem ficar pelada.

— Panquecas, iogurte e um sanduíche.

— Meus preferidos.

— Eu sei — admite, com um sorriso nos lábios.

Me enrolo no lençol conforme me aproximo da pequena mesa no canto do quarto. Percebo que tudo parecia mexido e a embalagem de panquecas estava pela metade. Ergo minha sobrancelha em direção a Rafe que a essa altura calçava os sapatos.

— Você já comeu? — pergunto.

Ele ergue seus olhos até os meus.

— É — confirma, acabando de amarrar o tênis. — Eu não quis te acordar, você parecia cansada.

— Eu estou — admito, me sentando a mesa.

Confesso que estou menos animada agora que percebi que Rafe está prestes a sair. Coloco uma colher de iogurte na boca.

— Tenho que ir lá em casa, sabe... Ver o meu pai e ver como estão as coisas.

— Claro, eu entendo — murmuro em resposta, com a boca cheia.

Rafe se agacha na minha frente e sorri pra mim enquanto passa a mão nos meus cabelos. Seu olhar tão doce faz com que as palavras fiquem na ponta da minha língua mas não me atrevo a dize-las. Ele se aproxima e sela nossos lábios em um beijo carinhoso.

— Você está linda — diz assim que se afasta.

Seu comentário me faz sorrir. Eu não havia penteado o cabelo ou ao menos lavado o rosto, só me enrolei em um lençol e sentei a mesa e ele ainda tinha coragem de dizer algo assim.

— Rafe...

— É verdade — diz, me interrompendo. — É a mais linda do mundo.

Seu sorriso e a convicção com que diz isso me faz derreter em alegria.

— Obrigada — é tudo que consigo dizer.

Isso o deixa satisfeito e o observo enquanto Rafe corre os olhos por meu quarto que agora mais parecia nosso. Parecia procurar alguma coisa.

— Eu acho que consigo voltar antes de você ir pro trabalho — diz, pegando sua carteira que estava caída atrás da cama. — Que horas você vai mesmo?

— As duas — respondo.

Ele pega seu capacete.

— Certo. Eu te mando mensagem.

Rafe deposita um beijo no topo de minha cabeça.

— Tchau — murmuro, fechando os meus olhos pra senti-lo melhor.

Quando abro ele já está passando pela porta me dando a privacidade necessária para devorar toda essa comida sem nenhuma educação. Eu estava faminta!


🦋


Meus pensamentos me levaram a pequena casa a dois quarteirões da minha. A parte boa de ficar com o Rafe é que eu esquecia os meus problemas e essa também era a parte ruim. Eu devia ter vindo ver o JJ assim que descobri sobre o John B mas eu... Não consegui. Eu senti medo e fui insensível porque só me importei com meus sentimentos.

Eu fui egoísta, assim como das outras vezes e JJ não merecia isso.

Engulo em seco e junto a coragem que me resta para avançar pelo jardim, seguindo o barulho que vinha da garagem. Vejo JJ agachado em frente sua moto enquanto usava a chave de fenda em alguma coisa. O encaro por vários segundos até fazer minha garganta funcionar.

— JJ — o chamo e ele automaticamente se vira pra mim. — Oi.

Seus olhos são duros... Tristes.

— Eu estava me perguntando quando você iria aparecer — ironiza, continuando o que estava fazendo.

— Me desculpa, eu estava ocupada...

— Com o Rafe — me interrompe, atirando a chave de fenda no chão.

Engulo em seco, sentindo a culpa me atingir.

— Levei ele pra ver a minha mãe.

Isso faz com que eu consiga sua atenção. JJ larga o que está fazendo e se ergue, ficando de pé.

— Agora está falando com sua mãe?

Eu conseguia sentir a incredulidade em seu tom de voz.

— Não! Eu só... Acho que nessa ilha só ela pode ajuda-lo.

Isso faz com que ele sorria.

— Não sabia que ela fazia milagres.

— JJ... — o censuro, desviando o olhar.

Jamais admitiria que seu comentário me magoou mais do que deveria.

— É verdade — JJ insiste, aumentando o tom de voz. — Ele é viciado, perigoso e um assassino.

Não sei por quantos segundos eu fico em silêncio enquanto processava o que havia acabado de ouvir e pensava em uma resposta a altura. Qualquer coisa. Mas eu não sabia o que dizer e isso me descontrola. Sinto meus olhos lacrimejarem.

— Eu não devia ter vindo — murmuro, dando de ombros.

— Ah, você deveria sim! Eu sou seu amigo Callie, praticamente desde quando nasci e me deixa puto assistir toda essa situação calado.

— Eu estou bem — garanto, olhando em seus olhos.

— Ele está manipulando você!

— O Rafe me ama.

A expressão em seu rosto me faz duvidar até mesmo se a grama abaixo de nós é realmente verde. Então entendo que JJ jamais acreditaria em nada que envolvesse o nome de Rafe.

— Ele não consegue amar nem a si mesmo.

— Ele tem um problema, JJ — explico, aumentando meu tom de voz. — O que quer que eu faça? O abandone? Ele não tem ninguém pra apoia-lo.

— Por que será?

— Talvez porque não o entendam, assim como você.

Ele dá uma risada irônica, sem nenhuma real emoção além de deboche e incredulidade. Isso me irrita e me faz querer bater nele assim como fazíamos quando crianças.

— Não acredito que veio até aqui pra defender aquele cara.

— Não. Eu vim até aqui pra ver como meu melhor amigo está.

— Eu estou uma merda! — grita, agitando os braços. — O John B e a Sarah... Provavelmente estão mortos e em algum momento os corpos devem aparecer boiando ali na praia. Minha melhor amiga namora um maníaco homicida e realmente acredita que ele tem salvação. Perdi meus dois melhores amigos, o ouro e meu emprego mas meu pai continua vindo todas as noites e usando tanta droga ao ponto de não conseguir levantar do sofá.

— Você não me perdeu — é tudo que consigo dizer.

— Claro que perdi, Callie — se lamenta, seus olhos duros ganham um ar de tristeza. — Eu não reconheço você. Queria que só por um momento você conseguisse ver a situação de fora, queria que compreendesse melhor a marca no seu pulso.

Isso desmonta minha expressão e imediatamente abro a boca para me defender, mas qual seria a defesa? Somente nos encaramos, ele em silêncio e eu com a boca entreaberta como alguma idiota qualquer. Eu me sentia assim. Devia ter imaginado que JJ não deixaria algo assim passar.

— É. Eu percebi quando fui pedir sua ajuda. Pensei em falar algo, pensei em meter a mão na cara daquele mauricinho mas eu não fiz nada disso porque eu sabia que te magoaria — JJ dá de ombros, sua voz agora é embargada. — Ele está machucando você.

— Ele estava em surto, não foi a intenção dele — explico.

— Mas ele fez, Callie! — grita, apontando seu dedo pra mim. Seus olhos agora tomados por lágrimas. — Ele é igual ao meu pai e você... Em breve vai estar como a minha mãe.

Engulo em seco, sentindo vontade de chorar.

— Eu não sei o que dizer — admito em um sussurro.

JJ dá passos rápidos em minha direção e toma minha mão na sua, a apertando com seus dedos. Seus olhos cheios de lágrimas buscam os meus e encara-lo assim de perto faz com que a tristeza em meu coração aumente. Então eu choro como uma criança.

— Eu amo você, Callie. Com todo o meu coração. Eu espero que você consiga enxergar o que realmente está acontecendo e espero que ele possa te deixar ir.

— JJ — me lamento, tentando segurar sua mão para que ele não se afaste.

Seus dedos são como sabonete e escorregam por entre os meus enquanto ele fugia de mim.

— Não posso ser seu amigo agora — murmura, dando de ombros. — Desculpa.

Choro por todo o caminho até chegar em casa e acendo um baseado para tentar me acalmar, o que não adianta e só me deixa mais sensível e mais chorona. Tomo quase um litro de água até me recompor e abuso de corretivo e rímel para ficar com uma cara decente.

Quando Rafe estaciona em frente minha casa eu me sinto perfeitamente apresentável e entro no carro, colocando o cinto de segurança.

— Oi — ele diz e beija o topo da minha cabeça.

— Oi.

Rafe sempre me beijava, a todo momento. Quando me via, quando ia embora, quando sequer se afastava de mim por dez segundos. Como se eu fosse todo o seu mundo. Isso fazia algum sentido? Será que o cara que matou a xerife é mesmo capaz de sentir algo por mim? Ou por alguém?

Não sei quanto tempo se passa até que eu perceba que já estávamos longe da minha casa. A música country antiga tocava baixinho e Rafe para de cantarolar para me olhar nos olhos. Percebo em sua expressão que ele havia percebido que algo não estava certo.

— Está bem? — pergunta, diminuindo a velocidade.

— Eu fui ver o JJ — admito, olhando pra janela.

— Ah...

— Por que está comigo?

— Espera, o quê?

— Quero saber por que está comigo — repito, me virando pra ele.

As mãos de Rafe se tornam firmes no volante.

— Por que?

— Porque eu preciso saber.

— O que o JJ falou? — pergunta, seu tom de voz ficando ríspido.

— Nada, tá legal? Eu só... Eu preciso saber, Rafe. Você é Kook.

Ele bufa.

— E lá vamos nós de novo...

— É sério! — insisto. — Por que ficaria com alguém como eu?

Em um movimento brusco Rafe enfia o carro no canto da pista e freia, fazendo com que eu balance abruptamente no banco do carona. O encaro chocada quando ele se vira pra mim.

— Eu amo você Callie! — exclama. — Eu amo sua franja que nunca para no lugar, amo os chutes que você me dá durante a noite e como seu rosto fica quando está brava comigo. Amo o fato de que você é teimosa e amo você por ser a única pessoa capaz de me entender. Também amo quando goza chamando o meu nome. Está bom pra você?

Engulo em seco enquanto absorvia o que Rafe havia acabado de dizer. Seus olhos claros como o mar me encaravam, quase como se procurassem algo no fundo da minha alma. Eu entendo o que ele tanto procurava.

— Eu não disse de volta — digo.

Ele passa a mão na cabeça procurando ajeitar seus cabelos que agora não existiam mais.

— O quê?

— Quando disse que me amava eu não disse de volta — explico.

Rafe desvia o olhar.

— Eu não esperava que dissesse.

— Mas eu amo e é por isso que não sei se estou fazendo a coisa certa. Eu sempre tive minhas... Convicções, mas agora me vejo passando por cima delas o tempo todo porque eu amo você.

Um sorriso surge aos poucos em seus lábios e Rafe se vira pra mim.

— Pode dizer isso de novo?

— Rafe... — resmungo.

— Só mais uma vez.

— Eu te amo — digo, sentindo cada palavra na ponta da minha língua.

Rafe segura meu rosto com as duas mãos e me beija.

— Eu também te amo, Atwood — responde.

Isso parece tão certo que me deixa tonta por alguns segundos. Permaneço em silêncio enquanto Rafe volta pra estrada, continuando nosso caminho até o Malone's. Minha cabeça é inundada por imagens dele e por seu cheiro e seu carinho. Me viro em sua direção, observando suas mãos no volante e suas sobrancelhas franzidas.

— Eu... Esqueci o que ia falar — admito, sentindo meu rosto quente. — Por que está com um carro afinal de contas?

— É do meu pai.

— Como foram as coisas?

— Ele não quer que eu dirija uma moto porque segundo ele é perigoso, então me emprestou um dos carros — explica, dando um sorriso de lado.

— Não é disso que eu estou falando.

O sorriso desaparece.

— Meu pai está... Estranhamente calmo mas bebendo bem mais do que o normal. Já a Wheezie não está falando muito o que realmente é um problema.

— E você? — pergunto, me sentindo tensa por sua resposta.

— Eu não acredito que ela morreu.

Isso gera um gosto amargo em minha boca.

— Nem eu.

— Você nunca me disse como se sentia sobre isso.

Como eu me sentia sobre? Eu engoli todos os meus sentimentos para apoiar o Rafe, com medo de que o pior acontecesse. Eu ignorei completamente o fato de que eu nunca mais vou ver o John B e que sua última lembrança de mim foi uma demonstração terrível de fraqueza e traição. Ele não merecia isso... Não de mim.

— Eu conheço o John B desde criança e... — controlo meus lábios trêmulos. — Eu amava ele. Ele era um dos meus melhores amigos. Não parece real que ele tenha morrido. É como uma grande mentira.

Rafe suspira e reflete por alguns segundos.

— Acho que vou voltar pra casa — murmura, ignorando o que eu havia acabado de dizer.

— É, certo — concordo, agradecendo por já estarmos chegando.

— Você não gostou.

— Rafe...

— Eu sei, eu sei. Mas é bom saber que vai sentir minha falta.

Reviro os olhos enquanto ele estaciona, pensando de onde saem essas ideias.

— É óbvio que vou sentir sua falta mas está fazendo o certo — respondo. — Precisa ficar com sua família.

— Mas ainda não estou pronto pra abrir mão de você, te busco assim que seu turno acabar e você vai dormir lá em casa.

Faço careta.

— Não acho que seja uma boa ideia.

— Meu pai nem vai te ver entrando e podemos tomar um banho de banheira, só eu e você.

E suas mãos cheias de dedos. Rafe me beija, sua língua dessa vez não tinha gosto de álcool e sim de menta, uma evolução e tanta. Talvez eu realmente devesse acreditar na sua evolução.

— Eu vou pensar no seu caso — murmuro quando nos afastamos.

Ele sorri pra mim e me observa enquanto eu saio do carro.

— Te vejo as dez!

Dou de ombros.

— Tchau.

— Eu te amo! — ele grita.

Me viro só pra vê-lo na janela, com os braços pra fora e um sorriso gigante em seu rosto. Engraçado como o amor me fazia ter certeza de nada seria mais lindo que isso.



Boa noite galera! Vocês votaram tanto e tão rápido que me senti na obrigação de soltar mais um. Obrigada pelos votos e comentários! 🩷

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