𝐯𝐢𝐢𝐢. 𝘵𝘩𝘦 𝘨𝘭𝘢𝘴𝘴 𝘤𝘢𝘨𝘦

CAPÍTULO OITO
A GAIOLA DE VIDRO


━━━━ i hope our paths
meet again.























MEDO. SOFRIMENTO. RAIVA. Esses eram os sentimentos que emanavam dos ares conturbados que circulavam pelo acampamento em Kribirsk. Aquele lugar era um retrato da Guerra que estava destruindo, gradativamente, todo seu país. A cidade, que costumava ser um grande centro comercial, se tornou uma das bases do Exército ─ em razão de sua divisa com a Dobra ─ e, agora, tudo que restava eram destroços e ravkanos que se preparavam para entregar sua vida pelo país. Entregar sua vida por uma luta que nunca foi deles.

Três dias haviam se passado. Há três dias ela havia acordado de um pesadelo que nunca pensou que teria fim e havia descoberto os poderes que estavam adormecidos dentro de si. Em três dias, ela viu toda sua vida mudar. Em três dias, ela passou de ser uma refém da morte para se tornar a esperança de um povo. Mas, às vezes, a esperança podia ser mais mortal que sua ausência.

Anastasia sempre sentiu como se estivesse lutando contra a maré, tentando não deixar que as águas levassem o resto de oxigênio de seus pulmões. Mas era inevitável, ela se afogaria em algum momento. Agora, as águas não pareciam mais tão turbulentas, entretanto, sempre existia uma calmaria antes da tempestade.

Ela foi colocada em uma cabana afastada e cercada por guardas Grishas. Nesses três dias, ela havia voltado a ser um pássaro indefeso preso em uma gaiola de vidro. Todos seus passos eram observados, ninguém podia se aproximar perto demais e ela precisava ser mantida escondida. Presa. Por sua própria segurança. Naqueles três dias, muita coisa havia mudado, menos o alvo em suas costas. Ele continuava lá, sua marca de nascimento, o presente que seu sobrenome havia lhe dado.

No entanto, agora, ela não era um alvo apenas por ser a princesa de Ravka. Agora, ela representava o fim da guerra. Ela era uma lenda que se tornou realidade. Mas e se ela não conseguisse? E se ela não fosse capaz de destruir a Dobra? Anastasia passava horas encarando suas mãos, esperando que luz aparecesse, mas ela sempre acabava mergulhada na escuridão. A realidade era que ela não sabia como havia conjurado o Sol, ela nem ao menos se lembrava. A verdade era que ela não conseguia acreditar. Talvez ela tenha passado tanto tempo ouvindo que era fraca que isso acabou se tornando sua única realidade.

Mas aquela sensação que sentiu quando Kirigan cortou seu braço ainda percorria por suas veias. Poder. Ela queria aquilo de novo. A sensação de quando a mão do Conjurador das Sombras tocou sua pele ainda perambulava por seus pensamentos. Naquele toque não existia apenas poder, havia algo a mais. Algo que ela sempre encontrava nas palavras dele, em seus toques. Algo que ela desejava. Algo que ela precisava.

Todas as manhãs ela se pagava ansiando pela visita do Conjurador em suas noites. Ele aparecia rapidamente, perguntava como ela estava se sentindo e contava sobre as medidas que estava implantando no Segundo Exército para sua segurança. Toda noite, Anastasia queria pedir para que ele ficasse. Mas ela não conseguia. Ela acabava todas as noites mergulhada em sua solidão. E, a solidão que costumava ser sua companheira, se tornou apenas um lugar vazio depois que ela o conheceu.

Anastasia se olhou no espelho à sua frente, notando as mudanças em sua aparência. Seus cabelos escuros, antes secos e opacos, brilhavam enquanto ela passava os dedos pelos fios. Seus olhos não estavam mais afundados, suas bochechas pareciam mais saudáveis e seus lábios vermelhos se destacavam em seu rosto. Sua feição doente teria desaparecido por completo se não fossem as olheiras embaixo de seus olhos.

Os pesadelos a mantinham acordada. Eles haviam piorado tanto que Anastasia tinha medo de fechar seus olhos. Porque ela sabia que quando os fechasse, ela estaria a esperando. Olhar para ela seria como encarar seu próprio reflexo em um espelho se não fosse pela diferença nos olhos. O olhar da mulher de seus pesadelos era cheio de raiva, de mágoa. Anastasia via a maldade naqueles olhos.

A princesa não entendia o que estava acontecendo. No começo, achava que estava enlouquecendo. Mas, quando as marcas começaram a aparecer em seu pescoço e pulsos, ela soube que aqueles pesadelos eram reais. E eles estavam se tornando cada vez mais verdadeiros. Anastasia queria pedir ajudar, contar a alguém seus medos, mas ela não podia. Ninguém podia descobrir sobre os pesadelos. Ela não queria correr o risco de a considerarem doente de novo.

A morena esperava encontrar as respostas que buscava nas bibliotecas de Os Alta e faltava apenas um dia para ela retornar ao seu lar. Kirigan havia levado alguns dias para preparar a viagem, alegando que todas as estradas precisavam ser vigiadas para sua segurança. Entretanto, olhando para a pequena fresta em sua cabana, observando os soldados de longe e ouvindo os sons das vozes dos habitantes de Kribirsk, Anastasia sabia que ainda precisava fazer algo antes de partir.

Ela precisava encontrar a única pessoa que viu com clareza o que aconteceu naquele dia. O dia que mudou tudo. Ela precisava encontrar Malyen Oretsev.

"Você está bem, Princesa. Você está segura." A voz do rastreador do Primeiro Exército foi a primeira coisa que Anastasia se lembrou quando acordou. Foi aquela voz que trouxe segurança à ela, que a encontrou. Foi a voz de Malyen que colocou um fim nos dias mais tenebrosos de toda sua vida. Ele a salvou quando ela pensava que ninguém a salvaria.

Desde seu primeiro dia em Kribirsk, Anastasia pedia para ver Malyen. Ela queria agradecê-lo e descobrir o que realmente aconteceu naquele dia. Mas a desculpa para a proibir de vê-lo sempre era uma diferente. Ela não devia confiar em ninguém e não podia colocar em risco sua segurança. Entretanto, para a princesa, o rastreador não era uma ameaça.

Para sua sorte, Anastasia nunca foi o tipo de seguir as regras que eram ditadas à ela. E o que Kirigan não sabia é que uma das especialidades da princesa era escapar de guardas destinados a vigiá-la. Agora, com o capuz escondendo sua face, ela caminhava pelo longo terreno da base militar em busca do rastreador.

Ela andava lentamente, tomando cuidado com tudo a sua volta, não deixando que nenhum guarda a enxergasse. Seu plano era voltar antes que alguém notasse sua ausência, mas olhando para o Sol sumindo de sua vista, ela soube que talvez não conseguiria. Kirigan sempre a visitava de noite.

As cabanas do Primeiro Exército eram menores e a maioria estava em um estado deplorável. Inúmeros soldados dormiam juntos e o luxo do Segundo Exército não existia para os ravkanos que dependiam apenas de suas armas ultrapassadas. Alguns soldados estavam na fila para se alimentar, conversando e rindo. A morena sorriu. Era bom escutar o som de risadas. Era bom saber que mesmo no meio de uma guerra, eles conseguiam encontrar um resquício de felicidade.

Mas a maioria dos soldados não estava ali. Quase todas as cabanas aparentavam estar vazias. Ela pensou em desistir, mas viu dois homens caminhando em direção ao Sul da base, resolveu segui-los. A dupla parecia estar indo para uma enorme cabana central e, conforme seus passos se aproximavam do local, o som de gritos e aplausos invadiam seus ouvidos. Era uma multidão.

Quando conseguiu entrar, se deparou com inúmeros soldados, de todas as idades, gritando, como se estivessem torcendo por alguém. Ela tentava passar pela aquela aglomeração de pessoas, empurrando-as com seus braços. A princesa se aproximou o suficiente para conseguir enxergar o que tanto chamava atenção de todos aqueles indivíduos.

Era uma luta. E, no centro dessa luta, estavam o rastreador que a salvou e um homem que parecia ter o dobro de seu tamanho. Malyen era rápido, conseguia facilmente desviar dos golpes do homem e atingi-lo quando surgia a oportunidade. Mas, quando os olhos escuros de Malyen encontraram os olhos assustados de Anastasia, o rastreador se distraiu. O soco atingiu sua cabeça e tudo que ele viu antes de desmaiar foi a princesa correndo em sua direção.

O rastreador soltou um leve gemido quando sentiu o pano molhado ir de encontro com sua pele machucada. ─ Isso dói. ─ Ele disse, arrancando um sorriso da mulher a sua frente.

─ Tenho certeza que aquele soco doeu mais. ─ Ela respondeu, molhando o pano novamente e agora passando pela ferida nos lábios do rastreador.

Ele a olhou por alguns segundos. Ela estava próxima de seu corpo, permitindo que ele analisasse todos os seus traços. Ela estava ainda mais linda. ─ O que está fazendo aqui, Princesa?

Anastasia suspirou, mudando a direção de seu olhar. Depois que Malyen foi nocauteado, seus amigos ─ que se apresentaram como Dubrov e Mikhael ─ o carregaram para fora e, quando o moreno abriu os olhos, se deparou com a face da princesa. Ele a levou para um posto de vigia vazio. Era alto e seguro. De lá, ela tinha uma visão perfeita da Dobra das Sombras.

Aquela escuridão que dividia seu país. A noite havia chegado e parecia que deixava a Dobra ainda mais poderosa. Aquelas sombras. Pareciam que a chamavam. Dizendo para atravessá-las. E uma parte dela queria.

─ Por favor, me chame de Ana. ─ Ela pediu. ─ Eu vim agradecê-lo. ─ A jovem confessou, voltando a cuidar dos machucados de Malyen. ─ Você salvou minha vida.

O rastreador deu um pequeno sorriso. ─ Eu não te salvei. ─ Ele respondeu, tentando ignorar a ardência em seu rosto. ─ Você mesma se salvou.

A princesa o olhou surpresa. A luz da Lua iluminava a face de Malyen. Anastasia, pela primeira vez, notou como ele era bonito. Ela balançou a cabeça, afastando aqueles pensamentos. ─ O que aconteceu naquele dia, Malyen?

─ Estavam procurando você e seu irmão há dias, mas ninguém conseguia encontrar nem um rastro de vocês. ─ Ele começou. ─ Eu e mais alguns soldados nos voluntariamos para participar na busca. Eu pensei que mais olhos ajudariam, mas a neve estava atrapalhando tudo. ─ Malyen disse.

─ Nós nos separamos, tentando cobrir mais terreno. Eu estava quase desistindo quando notei que algumas árvores tinham uns cortes estranhos. Não pareciam naturais. ─ Ele contou.

─ Eles marcaram o caminho. ─ Anastasia concluiu e o rastreador assentiu com a cabeça.

─ Fez sentindo quando descobri que eles eram fjerdanos. Eles não conhecem nossas florestas. ─ Malyen afirmou. ─ Então, quando eu estava tentando encontrar onde estavam mantendo vocês, você veio correndo até mim. ─ O moreno deu uma leve risada.

Anastasia sorriu, ainda mantendo seu olhar fixo em Malyen. ─ Por que você se voluntariou? ─ A princesa perguntou.

─ Todo mundo aqui sabe o que você fez. Eles sabem que você se importa com o Primeiro Exército. ─ O moreno disse, olhando para os soldados que caminhavam pela base. ─ Eles admiram você. Eu admiro você.

─ Obrigada, Malyen. ─ Ela respondeu, sentindo suas bochechas queimarem. ─ E o que aconteceu depois? Quando eu achei Vasily. ─ Ela pediu.

Malyen soltou um suspiro. ─ Você colocou seu corpo na frente dele. Eu pensei que aquela flecha te atingiria, mas então... ─ O rastreador a olhou. ─ ... Então uma luz iluminou tudo. Era você. A luz vinha de você.

Anastasia encarou suas mãos. ─ Você realmente não sabia? ─ Malyen questionou e a princesa respondeu que não com a cabeça.

Antes que Anastasia pudesse falar algo, a movimentação no acampamento chamou a atenção dos dois. Grishas caminhavam apressadamente, revistando as cabanas do Primeiro Exército. Ela sabia que estavam procurando por ela. ─ Eu preciso ir. ─ Ela disse, correndo em direção da escada.

Antes de descer, ela olhou para o rastreador com um sorriso em seu rosto. ─ Eu espero que nossos caminhos se encontrem novamente, Maly.

O rastreador sorriu de lado. ─ Eu também, Ana.

Eles se olharam pela última vez, sem saber que seus caminhos já estavam interligados e que eles se encontrariam de novo, mais cedo do que imaginavam.

A chuva ia de encontro com sua pele. A água gelada fazia com que ela abraçasse seu corpo, tentando se proteger do frio. Quando se despediu de Malyen, as primeiras gotas d'água começaram a cair. Agora, próxima de sua cabana, tudo em volta estava em silêncio. Silêncio demais. Não existia nenhum guarda em volta de seu cômodo.

Ela entrou com passos leves, tentando não fazer barulho. No momento que seus pés tocaram o tapete, ela notou as velas acesas e, em uma poltrona no fundo, ele estava sentando a esperando. ─ Onde você estava? ─ Ele perguntou. Sua voz era séria assim como a expressão em seu rosto.

Ela podia sentir um misto de sentimentos em seus olhos. Decepção, mágoa, raiva. As sombras os cercavam enquanto seu olhar estava fixo na princesa. ─ Eu fui ver Malyen. Eu precisava vê-lo.

O Conjurador trincou seu maxilar ao escutar o nome do rastreador sair dos lábios da princesa, se levantando e indo na direção de Anastasia. ─ Arriscou sua vida por um otkazat'sya? ─ Ele questionou com desprezo em seu tom.

─ Otkazat'sya? Então por que ele não é Grisha ele é inferior? ─ Anastasia respondeu, olhando para o Conjurador à sua frente. ─ Eu era uma otkazat'sya até três dias atrás. ─ A morena disse, claramente irritada.

─ Você sempre foi uma Grisha. ─ Kirigan afirmou. ─ Você é a Conjuradora do Sol. Você não pode colocar sua segurança em risco por causa de um soldado.  ─ O moreno continuou enquanto as sombras os cercavam.

─ Malyen salvou minha vida. ─ Anastasia disse, sua face estava séria e seus punhos fechados. ─ Para você um soldado otkazat'sya pode não valer nada, mas eu devo a minha vida a um deles. ─ A morena suspirou.

─ Todos os soldados do Segundo Exército estão ocupados te procurando. Você não entende como é importante para Ravka. ─ Ele contou. ─ Quando vai parar de agir como uma princesa mimada? Eu te disse para ficar aqui.

Anastasia o olhou com lágrimas em seus olhos escuros. ─ Princesa mimada? ─ Ela repetiu as palavras do General.

─ Ana, eu não... ─ Antes que pudesse continuar, a princesa o interrompeu.

─ Você está certo. ─ Ela disse. ─ Eu sou a Princesa de Ravka. Sou a sua Princesa. Você não me dá ordens. ─ Anastasia afirmou. ─ Se lembre com quem está falando.

O General abaixou seu olhar. ─ Claro, Princesa. ─ Ele respondeu. ─ Me desculpe, Vossa Alteza. ─ Ele pediu, sua voz e sua feição demonstrando como aquelas palavras haviam o magoado. ─ Vou deixá-la sozinha. ─ Ele disse, saindo da cabana.

─ Droga. ─ Anastasia sussurrou para si mesma. No momento que as palavras escaparam de sua boca, ela sabia que se arrependeria delas.

A princesa correu para fora de seu cômodo, ignorando a chuva que caia em sua pele. ─ Kirigan, espere! ─ Ela gritou, segurando o braço do moreno.

─ Sim, Princesa? ─ Ele pediu, se virando para encontrá-la e afastando o toque de Anastasia.

─ Por favor, pare. ─ Ela afirmou. ─ Não era o que queria dizer. ─ Anastasia confessou. ─ Mas eu te pedi para ver Malyen, Kirigan. Era importante para mim. ─ Ela disse, seu vestido e cabelo agora molhados. ─ Por que tudo precisa ser tão difícil com você?

─ Eu estou tentando te proteger, é tão difícil de entender? ─ O moreno questionou, as sombras começaram a se espalhar em volta dele. ─ Eu deixei de te proteger por um minuto e... ─ O Conjurador suspirou, passando a mão pelos seus cabelos. ─ ... E você foi sequestrada. ─ Ele disse, quase como um sussurro. ─ Eu não vou cometer esse erro de novo. Eu não vou te perder de novo.

Seus cabelos escuros estavam molhados. As gotas escorriam pelo seu kefta preto. A água tocava gentilmente sua pele. A troca de olhares entre os dois era intensa enquanto as sombras os cercavam.

Anastasia segurou a mão de Kirigan e, em alguns segundos, a luz começou a se misturar com a escuridão. Eles mantinham o olhar um no outro. ─ Você não vai me perder. 

Kirigan repousou a mão na nuca de Anastasia e a puxou fortemente, repousando seus lábios nos lábios da princesa. O beijo dele era poderoso. Quente. Vivo. Ela queria mais. Mais dele. Mais de seu toque. Mais da sensação que ele dava à ela.

Ele segurava seu pescoço, a mantendo presa pela cintura. Ela passava a mão pelos cabelos dele, sentindo o beijo se aprofundar.
Ela não se importava mais com sua roupa encharcada ou com a chuva que continuava caindo. Tudo que importava naquele momento era ele.

Anastasia estava presa nas sombras de Kirigan. E ela ainda não sabia o quão viciante era estar mergulhada naquela escuridão.




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