chapter one, the summer.
CHAPTER
ONE !
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JANE ACORDOU SUBITAMENTE, com a testa levemente suada e respiração ofegante, descompassada. Seu peito descia e subia rapidamente, como quem acaba de acordar de um pesadelo. De fato. Tirou a coberta que estava na altura das coxas e levantou-se da cama, calçando as sandálias enquanto as lembranças do sonho ruim dançavam em sua mente em uma trilha sonora perturbadora.
Tudo havia começado desde que havia passado a primeira noite em Derry, Maine. Claro que a ideia da cidade carregar tempestuosos segredos não lhe passava a cabeça, afinal, o que poderia acontecer de tão mal em uma cidade tão pequena, sendo assim, pacata? Os pesadelos constantes estavam mais ligados a outras coisas, tinham algum significado por trás. Jane gostava de pensar dessa forma, assim poderia dormir mais tranquila mesmo que o ciclo se repetisse na noite seguinte.
— Bom dia, tia. — A morena vozeou sonolenta, sentando-se a mesa dando um meio sorriso a Richie que se lambuzava nas panquecas envolvidas a mel. O prato preferido de ambos.
— Bom dia, querida. Dormiu bem? — Maggie Tozier indagou sorridente, colocando o prato de Jane de frente para ela.
— Sim. — Jane respondeu antes de dar sua total atenção às panquecas.
Enquanto comia, Richie observava a prima. Ele a conhecia melhor do que ninguém, talvez melhor do que ela podia conhecer de si mesma. Estava mais do que claro que Jane não estava bem, muito menos dormindo direito. Não sabia exatamente o motivo de tal fato, mas se preocupava o suficiente para descobrir, mesmo que sua boca falasse outras coisas. Na maior parte do tempo Richie podia ser um babaca, mas sempre protegeria as pessoas que amava. Jane estava inclusa nesse grupo.
Após terminarem o café da manhã, Richie deixou um beijo silencioso na mãe e se aproximou da prima antes de pegar a mochila da escola, rumando ao último dia de aula antes do verão.
— Se cuida, boca de foça. — Richie debochou do secreto palavreado de Jane. Em um movimento discreto, a garota lhe mostrou o dedo do meio.
— Vai a merda, Richie — Sussurrou, antes de ver ele ir embora.
Exalou uma risada nasal, ajudando a tia a tirar a mesa. Naquele dia poderia ir para a escola do primo, conhecer as pessoas com quem ele se metia pessoalmente, mesmo já tendo ouvido alguns nomes a solta em casa proferidos pelo Tozier. Stan, Eds (Jane tinha quase certeza que o nome da pessoa não era esse, apenas um apelido idiota aplicado por Richie, como o de costume), Bill Denbrough. Esse nome e pessoa, sim, ela conhecia. E estava para nascer quem não conhecesse a desgraça que, infelizmente, se aplicou dentro daquela família. O irmão mais novo de Bill, Georgie, havia desaparecido sem deixar rastros. Muitas crianças estavam desaparecidas, e a cada dia se via nos jornais e noticiários meninos e meninas sumindo sem explicações plausíveis. A teoria mais aceitável naquele momento de horror seria um serial killer, no mínimo um pedófilo. Era pra ser um verão calmo em Derry, mas o circo de horrores havia acabado de chegar depois de 27 anos parado.
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Jane pedalava pelas ruas de Derry enquanto observava seus habitantes. Alguns apenas caminhavam calmamente, enquanto outros soltavam gargalhadas enquanto falavam com outra pessoa. A garota não conseguia tirar da cabeça as perguntas: "Por que essas pessoas estão rindo assim? Elas não estão vendo o que está acontecendo? Por que não procuram por essas crianças?". Tais indagações faziam questão de assolar a mente de Jane.
Por alguns postes por onde passava estavam panfletos, estampando os rostos, nomes, e dados das crianças desaparecidas. Todos em Derry apenas queriam suas crianças de volta, sãs e salvas. Filhos, netos, sobrinhos. Muitas pessoas estavam perdendo crianças queridas, onde muitas eram o ponto de paz de mães e pais de Derry, e agora estavam passando por esse desespero de ter um filho perdido e, eventualmente, morto. Jane não conseguia imaginar a dor.
Mas quando a Tozier afastou esses pensamentos tristes, já era tarde. Passando já na frente da escola onde o primo estudava, chegou muito perto de atropelar um garoto. Por reflexo dele e, também, de Jane, ela conseguiu frear a tempo e ele segurou nos guidons da bicicleta, mirando os olhos na responsável por um quase acidente que poderia ter machucado feio um dos dois.
— Puta que pariu, Jane! — A voz familiar de Richie despertou-a, a fazendo olhar para o primo. Ele, como sempre, revoltado com tudo e com todos. — Você não olha por onde anda?
— Me desculpe, eu... Você se machucou? — Voltou a atenção para o garoto que quase atropelou, descendo da bicicleta.
— Está t-tudo bem, não precisa s-se preocupar. — O garoto respondeu timidamente, escondendo as mãos nos bolsos da calça.
— Essa é a prima que você falou? — Um garoto de cabelos castanhos claro apontou para Jane, a mencionando como se ela sequer estivesse ali. E isso a incomodou.
Se tinha uma coisa que a irritava, era pessoas falarem dela como se ela não estivesse presente ouvindo tudo, coisa que seus pais constantemente faziam. Apenas sabiam discutir quando Jane fazia uma besteira, sugerindo entre si qual poderia ser o castigo que ela levaria em determinadas vezes.
— Eu tenho um nome. É Jane. — A garota acenou para os demais. — Sim, sou prima desse cuzão.
— Eu gostei de você. — Um magro e baixinho se pronunciou. A julgar pelo seu jeito, poderia chutar que ele era o mais responsável de todos ali, carregava até uma pochete. — Sou Eddie.
— Então você é o famoso "Eds"? O Richie vive falando de você. — Ela soltou uma risada fraca, e Eddie revirou os olhos, como se quisesse gritar "retiro o que eu disse". — E vocês? Quem são? — Jane se atreveu a perguntar aos outros dois.
— B-Bill. — O menino a quem quase machucou disse, nervosamente. Jane já havia notado a dificuldade dele em falar sem gaguejar. E o achou extremamente fofo apesar de, naquele momento, saber exatamente quem ele era e o que havia acontecido em sua família. Queria dizer que sentia muito, mas sabia que não era o momento para isso. Não queria ter que lembrá-lo, por um momento, que o irmão dele ainda estava sumido.
— Stanley. — Outro respondeu com indiferença. Ele aparentava ser muito certo, e pouco divertido. Jane não gostava de pessoas monótonas. Já havia ido para a casa da tia para se afastar de monotonia, e o que encontrou em Derry foi desespero de famílias.
— Bom... O que vão fazer amanhã? — Perguntou Eddie, jogando o caderno e os lápis no lixo. Jane o olhou torto. Richie, Stan e Bill também acompanharam os movimentos do Kaspbrak, jogando todos os materiais fora, se livrando de mais um período do ano e dando as boas vindas ao verão. E que verão.
— Vou começar meu treino de Street Fighter. — Richie arrumou os óculos no rosto. Jane quase riu em sua cara. O Tozier era péssimo jogando.
— Nem com todo treino do mundo, Richie. — Jane debochou. Richie lhe mostrou o dedo do meio.
— É assim que você quer passar o verão? Dentro de um fliperama? — Eddie riu, arrancando risadas juntas e pouco sincronizadas de Bill e Stanley. Jane observava os dois conversarem e, disfarçadamente, se alfinatarem.
— Melhor do que passar dentro da sua mãe! — Richie respondeu sem limites, fazendo um high five com Stanley. Jane se segurou para não rir, e Bill a olhou de canto. O Denbrough percebeu ela era exatamente como o primo: sem educação, sem limites e divertida.
— E se a gente for pra pedreira? — Stan sugeriu, levantando os braços em rendição. Eddie deu de ombros, esperando que os outros opinassem sobre como poderiam se divertir no verão. Isso até verem uma mulher adulta à alguns metros deles que esperava pela filha. Mas ela não iria sair da escola.
— É a mãe da Betty Ripsom. — Afirmou Eddie. A morena olhou na mesma direção dos garotos. Era de partir o coração ver esperanças infundadas na volta de uma filha que, com certeza, já estava morta.
— Ela está mesmo esperando a filha sair da escola? — Perguntou Jane, com uma tristeza palpável na voz e na expressão. Alguém tinha que avisar aquela mulher que a filha poderia estar em qualquer lugar de Derry, menos dentro do colégio.
— Vai saber. Como se a Betty estivesse escondida na escola todo esse tempo. — Disse Eddie, como se pudesse ler os pensamentos de Jane.
— Vocês acham que vão encontrar ela? — Stan engoliu em seco.
— Claro. Em uma vala toda em decomposição, coberta por germes e moscas. Como a cueca do Eddie! — Richie apontou para o amigo. Jane o repreendeu com o olhar.
— Para com isso, seu nojento! — Eddie respondeu, chocado com o comentário de Richie.
— E-Ela não tá morta, tá d-desaparecida. — Bill corrigiu, se apoiando no lixo. Jane sorriu discretamente. Era bom que Bill pensasse assim, dessa forma seria mais fácil de ele e a família pensarem que Georgie também poderia estar vivo, mas sendo mantido em cativeiro por alguém.
— Ah, desculpa aí, Bill. Só tá desaparecida. — Richie comentou, com um tom claro de ironia.
— Até que o esgoto de Derry não é uma má ideia! Quem não curte brincar em uma água cheia de cocô? — O Tozier vozeou começando a caminhar lado a lado com Bill.
Jane subiu na bicicleta, pronta pra acompanhar eles pedalando lentamente. Isso até Richie ser puxado pela mochila vazia por um rapaz alto, musculoso e acompanhado de mais dois outros garotos da mesma idade que ele. O típico cara valentão da escola que se endeusa, se acha melhor que todos e acha conveniente fazer comentários ofensivos e estupidos. Aquele era Henry Bowers.
Instintivamente, Jane desceu da bicicleta para ajudar e defender o primo. Richie podia ser um idiota, mas era inofensivo. E Jane o defenderia, assim como ele sempre defenderia ela.
— Frisbee maneiro, bichona! — Disse Patrick Hockstetter, um dos colegas de Henry, após pegar a boina de Stanley.
— Devolve isso! — Jane reclamou, tentando pegar o objeto das mãos do rapaz, mas o moreno o lançou contra a janela de um ônibus.
Victor Criss, outro colega de Henry, arrotou contra a orelha de Eddie, o assustando. O mais novo se afastou deles antes que Henry esbarrasse propositalmente em seu ombro. Jane cerrou os punhos. Se perguntava como existiam pessoas tão babacas a esse ponto. Eram mais infantis do que ela que ainda era uma criança.
— V-você é um b-bosta, Bowers! — Bill gritou, e Henry parou de andar.
— Cala a boca, Bill. — Eddie o repreendeu, engolindo em seco. Bowers se virou na direção deles, se aproximando gradativamente e com um tom ameaçador. Até Jane sentiu medo de que ele espancasse Bill ou qualquer um dos meninos até que pedissem desculpas por falar os fatos.
— Você d-d-disse alguma coisa? — Henry debochou do problema de Bill. — Eu peguei leve com você esse ano por causa do seu irmão, mas a moleza acabou, Denbrough. — Finalizou, estando a centímetros de Bill.
— Deixa ele paz! — Jane se pronunciou, se colocando ao lado de Richie, atrás de Bill.
— Qual foi, garotinha? — Bowers partiu para a Tozier, mas antes que pudesse tomar uma atitude a respeito, notou que dois policiais observavam toda a situação, apenas esperando que ele fizesse alguma besteira. — Esse verão vai pegar fogo pra você e pras suas amigas bichinhas. — Se afastou, por fim indo embora.
Bill soltou um ar que nem sabia que prendia. Os 5 se enfileiraram, observando o trio ir embora em um carro. Jane segurou no braço de Richie, mania que ela tinha de fazer quando queria proteger ele de alguma coisa. Richie a olhou de canto e sorriu.
— Queria que ele desaparecesse. — Comentou o Tozier.
— Vai ver ele é o sequestrador. — Eddie fez a perigosa sugestão, com raiva de Bowers. De fato, Henry tinha cara de ser um maníaco. Mas o grupo afastou o medo que sentiam dele, e seguiram para algum lugar que Jane não imaginava onde era. Onde Richie fosse, ela também iria.
E esse era seu maior erro.
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