26, cartada final

DE ALGUMA MANEIRA A MALA parecia menor apesar de Claire não ter feito compras enquanto estava na ilha. Suas roupas não cabiam mais nas bagagens que trouxe e isso a colocou em uma longa luta contra o zíper. Luta essa que só foi vencida com a ajuda de Sarah. As duas não se desgrudaram desde quando Claire anunciou que voltaria para Paris.

Sarah odiou a notícia por um motivo bem plausível: isso significava ficar sozinha com o Rafe e essa ideia não a agradava nem um pouco. Mas no momento preferia não pensar nisso, pensar a longo prazo sempre a deixava maluca e prestes a escalar as paredes.

Claire ajeita uma pilha de roupas dentro de uma segunda mala enquanto Sarah a observava, sentada na cadeira da escrivaninha.

— O Nick não vem? — perguntou Claire, dobrando um vestido com cuidado.

— Vem sim, só que um pouco mais tarde — respondeu Sarah. — Ele está treinando pro jogo de sábado. Parece que uns olheiros das universidades vão estar lá.

— E os seus planos?

Sarah deu de ombros.

— Voltar pra escola, eu acho.

Claire parou por um momento, encarando a amiga com um olhar encorajador. Sempre foi meio estúpido pensar que a garota havia largado seus estudos por causa de um cara mas agora — em sua atual situação — até que fazia sentido. O amor realmente te deixava maluco.

— Vai se sair bem.

Sarah soltou um suspiro que parecia carregar um misto de ansiedade e resignação e então se colocou se pé.

— Eu vou sentir tanto a sua falta.

Claire sorriu, colocando o vestido dobrado dentro da mala.

— Você pode vir me visitar sempre que quiser. Podemos ir pra Itália, Portugal...

A mais nova abre a boca em surpresa.

— Nossa. Sabe que eu não tenho dinheiro pra isso, né?

— Dinheiro não é o problema, Sarah — Claire insiste, com um sorriso determinado. — Me prometa que vai me visitar.

— Acho que posso arrumar um tempo na minha agenda.

As duas riram juntas e Claire se aproximou, segurando as mãos de Sarah com carinho. As garotas se encararam, vendo na outra uma aliada.

— Eu te amo, sabia? — disse Claire, com a voz meio embargada. Pelo visto a questão de estar emotiva não valia só para o Rafe.

— Eu também te amo, frenchie — respondeu Sarah, sorrindo de lado.

Claire soltou a mão da garota, se recusando a chorar agora e se voltou a pilha de roupas.

— Agora me ajuda a dobrar tudo isso.

— Um doce, como sempre.

Claire se movia devagar pelo quarto, os gestos quase mecânicos enquanto se vestia, peça por peça, deslizando sobre seu corpo. O silêncio ao seu redor era pesado, preenchido apenas pelo som abafado do zíper e o farfalhar do tecido. Ela queria evitar pensar em sua partida, mas cada segundo parecia um lembrete cruel de que o tempo estava se esgotando e de que ninguém parecia se importar com isso além dela.

A cena com Rafe voltava à sua mente como um eco distante, ainda que não tivesse durado mais que alguns segundos. Não houve gritos, lágrimas ou palavras ditas em tom de súplica. Não houve sequer uma discussão. Apenas a frase simples que escapara de seus lábios. Eu vou embora. Ele a olhou por um momento — não com surpresa, nem com dor — apenas assentiu em silêncio, como quem já sabia e não via motivos para contestar. Depois disso, ele saiu pela porta e não voltou. Pelo menos não até agora.

Aquilo a deixava inquieta.

Ela não esperava um gesto grandioso, não esperava um abraço ou palavras bonitas que pudessem torná-la incapaz de partir. Mas ainda assim, esperava alguma coisa. Alguma emoção.

É nesse momento que Nicholas aparece na porta, encostando-se ao batente com um sorriso tímido.

— Ei.

Claire, que passava o pincel de blush suavemente por suas bochechas, ergueu os olhos e sorriu.

— Nick, que bom que você veio.

Ele entrou no quarto, os passos hesitantes, mas sua voz firme quando falou:

— Eu não deixaria você ir sem me despedir.

Claire o encarou por um momento, seus olhos brilhando com uma mistura de emoções.

— Eu sinto muito — disse ela, com sinceridade.

Nicholas balançou a cabeça, aproximando-se.

— Não, Claire... Eu sinto muito. — Ele suspirou profundamente. — Eu não devia ter agido daquela maneira... Fiquei estressado e falei coisas que não devia e...

Ela o interrompeu com um sorriso triste.

— Você estava certo.

— Não importa. — Ele se sentou na beirada da cama, os olhos fixos nela. — Você é minha melhor amiga e eu não devia ter falado com você daquela forma. Eu critiquei o Rafe por destratar você, e acabei fazendo a mesma coisa.

Claire tocou suavemente a mão dele, apertando-a de leve.

— Eu te perdoo.

Nicholas apontou para as bagagens prontas ao lado da porta.

— Não está fazendo isso por minha causa, está?

Claire suspirou, desviando o olhar.

— Não tem mais nada aqui pra mim. — Ela hesitou, mas continuou com a voz firme. — Eu fiz... Eu fiz o que pude para consertar isso, e não adiantou. Agora eu só quero que ele seja feliz e que eu possa ser feliz também.

Nicholas inclinou a cabeça, observando-a atentamente.

— Em Paris?

— Você amou Paris! — Claire tentou sorrir, mas ele permaneceu sério.

— O ponto não é esse. — Ele balançou a cabeça. — Você não é feliz lá.

Claire ficou em silêncio por um momento, depois deu de ombros, com um ar cansado.

— Eu também não sou feliz aqui.

Nicholas respirou fundo e segurou a mão dela novamente.

— Não existe só esses dois lugares no mundo, Claire. Só tenta se lembrar disso.

Ela assentiu, sorrindo levemente.

— Eu vou.

Ele se levantou, dando um tapinha de leve no ombro dela.

— Vem, vamos descer. O pessoal veio se despedir, e minha mãe até fez um bolo.

Claire arregalou os olhos, surpresa.

— Não acredito!

Nicholas riu.

— Nem eu. Deve ter ficado horrível. O Kelce trouxe mais um de garantia, só pra garantir que ninguém morra envenenado.

Claire soltou uma risada, sacudindo a cabeça.

— Certo, vamos lá.

Ele passou o braço em volta dos ombros dela e os dois desceram as escadas juntos.

A despedida, embora inevitável, parecia menos dura sob aquelas luzes e com aquela companhia que fazia parte de quem ela era. Claire ria junto deles, com um brilho nos olhos que escondia a verdade de que cada som de felicidade a cortava um pouco por dentro. Em cada abraço apertado, em cada voz que lhe dizia "eu vou sentir sua falta". Ela chorou algumas vezes, lágrimas silenciosas enquanto segurava um amigo por mais tempo do que o necessário, tentando gravar a sensação daqueles momentos na memória.

Ela sabia que sentiria falta deles — não havia dúvida disso — mas sabia também que aquela despedida tinha sido necessária.

Os passos abafados de Claire e Eric ecoam pela escada de madeira enquanto eles desciam do segundo andar, carregando as malas para a sala. Eric seguia à frente, trazendo duas malas robustas com esforço aparente, mas sem reclamar. Seus movimentos eram firmes e eficientes, como se a tarefa servisse para manter a mente ocupada.

Claire vinha logo atrás, mais devagar, carregando uma pequena maleta com ambas as mãos. Embora fosse menor que as outras bagagens, havia algo no jeito como ela a segurava — o corpo ligeiramente inclinado, os dedos crispados na alça — que sugeria um peso maior do que o esperado. Eric olhou para Claire que franziu o cenho ao notar a expressão séria em seu rosto.

— O que é isso? — perguntou, indicando a mala que ela carregava com dificuldade apesar de ser tão pequena.

Claire respirou fundo antes de responder, seus olhos fixos nele. Ele iria descobrir mais cedo ou mais tarde, então...

— Você não pode contar pra ninguém... Promete?

Ele a observou com curiosidade, mas assentiu.

— Claro.

Claire apoiou a mala no sofá e a abriu devagar, revelando o brilho inconfundível do ouro. Eric deu um passo para trás, um tanto surpreso. Não era exatamente isso o que ele esperava.

— O que é isso? — repetiu, quase num sussurro, ainda perplexo pela quantidade. O garoto nunca via visto tanto ouro junto desde a vez que entrou no cofre de sua avó.

— Você sabe o que é.

Ele ergueu as sobrancelhas, encarando-a.

— Onde conseguiu?

— Não importa — respondeu Claire, fechando a mala novamente. — Vamos levar pro meu pai.

— Por que?

Claire suspirou, desviando o olhar por um momento.

— Tem uma coisa que preciso resolver logo.

Ele franziu ainda mais o cenho.

— Não vai mesmo me dizer?

Ela finalmente o encarou, um pequeno sorriso cansado surgindo em seus lábios.

— Eu te conto no caminho. Vou mesmo precisar de algo pra me distrair.

Eric soltou uma risada curta, tentando aliviar a tensão.

— O avião não vai cair, Claire.

— Você não pode me prometer isso.

— Podíamos ter esperado o voo comercial, você sabe disso.

Claire deu de ombros, o tom ligeiramente impaciente.

— Esse ouro não ia se teletransportar pra Paris sozinho.

— Isso provavelmente infringe alguma lei.

Ela deu um sorriso malicioso antes de responder.

— É por isso que você vai ficar de boca fechada.

— Oui, mademoiselle. — concordou com um sorriso.

Nicholas e Sarah ajudam a colocar as malas no porta-malas, seus movimentos cuidadosos, como se estivessem, de alguma forma, adiando o inevitável.
Eric agradeceu com um aceno, fechando o porta-malas com firmeza, enquanto Claire permanecia próxima ao táxi, os braços cruzados como se buscasse proteger a si mesma daquele momento. Seus olhos já estavam marejados quando Sarah veio até ela, sem hesitar, e a envolveu em um abraço apertado.

— Promete que vai mandar notícias? — murmurou Sarah, a voz embargada, enquanto lágrimas discretas deslizavam por seu rosto.

— Prometo — respondeu Claire, a voz quase um sussurro. Ela fechou os olhos por um instante, como se quisesse gravar aquele abraço em sua memória.

Nicholas aguardou sua vez, tentando disfarçar a emoção com um sorriso forçado. Quando Claire virou-se para ele, ele simplesmente a puxou para um abraço forte, o tipo de abraço que diz o que as palavras não conseguem.

— Cuida de você, tá? — disse ele, com um tom mais rouco do que o habitual.

— Eu vou estar te esperando — respondeu ela.

Claire e Eric entram no táxi em seguida.

Claire olha pela janela durante todo o percurso, a paisagem corria, desbotada. Ela segurava com força suas próprias mãos, os dedos entrelaçados numa tentativa inútil de conter o turbilhão que insistia em crescer em seu peito.

Seu rosto estava silencioso, mas as lágrimas traíam a calma aparente, escorrendo finas e discretas por suas bochechas. Ela lamentava tudo — o fim abrupto, as conversas deixadas no meio, os sorrisos que agora pareciam distantes. Mas apesar de tudo, ela sabia que aquilo era o certo. Havia uma aceitação resignada no fundo de seus olhos talvez não fosse felicidade, mas havia paz na decisão. O adeus era necessário, mesmo que doesse como mil cortes invisíveis.

Sentado ao seu lado, Eric a observava de relance, como quem quer dizer algo mas temesse interromper. Claire ergue o rosto em sua direção, limpando as lágrimas com uma rapidez quase infantil. Ela sorriu. Um sorriso pequeno, contido, mas sincero — o tipo de sorriso que carrega gratidão e uma força silenciosa. Eric sorriu de volta, a compreendendo sem que as palavras precisassem ser ditas.



Rafe caminhava de um lado para o outro, os passos rápidos e inquietos, como se o próprio chão o incomodasse. Ele sussurrava palavras que ninguém conseguia entender, enquanto passava a mão pelos cabelos repetidamente. Sua expressão era de quem estava sendo assombrado por algo impossível de ignorar. Havia certa agonia em seu peito, um desespero ansioso que crescia a cada segundo enquanto sua cabeça só conseguia projetar suas melhores a mais especiais imagens de Claire.

Como isso havia acontecido?

— Ela vai embora — murmurou, para si mesmo.

Esse pensamento lhe causou enjoo. Por que isso o incomodava tanto? Por que ele não conseguia só relaxar e seguir em frente? Sarah, que estava largada no sofá assistindo TV, ergueu a cabeça ao ouvir as palavras.

— O quê?

— Ela vai embora — repetiu, respondendo a pergunta de sua irmã.

Claire ia embora, ele estava deixando ela ir embora. Ela voltaria pra França com aquele francês metido e provavelmente se casaria com ele dentro de alguns anos enquanto ele... Seria sozinho e patético pelo resto da vida por saber que permitiu tudo isso.

Nicholas, sentado ao lado de Sarah, apertou o botão de pausa do controle remoto, interrompendo o filme no momento mais intenso. Ele suspirou, claramente irritado.

— Olha aqui, cara, tem que surtar logo na melhor parte do filme?

Rafe o ignorou completamente, os olhos fixos no chão, como se estivesse tentando organizar seus pensamentos.

— O pai dela não vai deixar ela tocar.

Ela seria infeliz pelo resto da vida, comandando joalherias e casada com um boneco de cera.

Nicholas revirou os olhos.

— Era só o que me faltava.

Sarah sentou-se, com um ar mais sério agora, tentando entender o que se passava com o irmão.

— Ela vai resolver isso, Rafe.

Foi então que Rafe pareceu perceber que estava sendo ouvido. Ele olhou para os dois, os olhos arregalados, como se finalmente tivesse entendido a gravidade da situação.

— E se não resolver?

— Bom, isso não é mais problema seu — Sarah responde, cruzando os braços.

Rafe balançou a cabeça, visivelmente agitado.

— Claro que é problema meu... Ela foi embora por minha causa. É por minha causa. Eu... Eu não consegui dizer. Não posso deixar ela ir... Ela odeia andar de jatinho.

Sem esperar uma resposta, ele saiu da sala apressado, as palavras ainda ecoando pelo corredor:

— Ela odeia andar de jatinho!

Sarah se levantou de um salto.

— Rafe! — chamou mas não obteve resposta.

Nicholas e Sarah se encaram, parecendo surpresos em um tanto em dúvida do que fazer agora.

— Porra — ela resmunga.

— E gente vai ficar aqui?

— É claro que não — responde e os dois automaticamente se levantam. — Onde está a chave do carro?


O rugido da moto cortava o ar como uma ameaça, a velocidade absurda transformando cada segundo em uma eternidade. Rafe apertava o guidão com força, o vento açoitando seu rosto enquanto a pista de decolagem parecia se estreitar diante dele. O jatinho avançava, os motores rugindo num barulho quase ensurdecedor. Ele não sabia se o piloto teria tempo de parar, mas não podia pensar nisso agora.

Ele não tinha escolha.

Quando os pneus da moto derraparam, parando poucos metros antes do nariz da aeronave, o silêncio que se seguiu parecia irreal. O jatinho estava imóvel, seus motores ainda roncando em alerta. Rafe permaneceu ali, parado, o peito subindo e descendo enquanto lutava para recuperar o fôlego. O som de seu coração era tudo o que ele conseguia ouvir, ecoando como uma batida descontrolada nos ouvidos. Suas mãos tremiam sobre o guidão, os lábios ressecados movendo-se em um murmúrio inaudível, talvez uma prece ou um mantra para se manter firme. Ele não tinha certeza de onde havia tirado coragem para aquilo, mas não importava. Estava feito. Agora, era encarar o que vinha a seguir.

Suas mãos trêmulas vão até seu capacete e ele o retira, sentindo o vento atingir seu rosto.

A porta do jatinho se abriu com um estalo metálico, e Rafe ergueu os olhos, o peito ainda pesado. A figura de Claire surgiu no topo da escada, o vestido esvoaçando levemente com o vento que cruzava a pista. Seu rosto estava pálido, os olhos arregalados de puro choque enquanto encarava a cena diante de si. Que merda Rafe estava pensando?

Provavelmente esse foi o mais perto da morte que Claire havia chegado, seu coração quase parou enquanto ela gritava incessantemente para que o piloto freasse.

Ela fica imóvel por alguns segundos, os dedos apertando o corrimão da escada como se precisasse de apoio para não desabar. Mas à medida que o tempo corria o susto dava lugar a raiva. Seus ombros tremeram e ela desceu os degraus com passos decididos, embora seu coração ainda estivesse disparado.

Quando chegou ao chão, suas mãos tremiam tanto quanto as de Rafe. A vontade de atravessar a pista e dar um tapa nele era quase irresistível. Ela podia ver o quanto ele estava abalado mas a cena de segundos atrás ainda estava gravada em sua mente e a fúria queimava dentro dela.

— Você perdeu o juízo, Rafe? — gritou, a voz mais alta do que pretendia.

Ele não ouviu uma única palavra que saiu da boca da garota.

— Não vai com ele — ele disse, a voz baixa, mas firme.

— Você poderia ter se machuca...

— Não vai com ele — repetiu Rafe a interrompendo. A intensidade de suas palavras parecia queimar o espaço entre eles, os envolvendo em uma aura própria.

Os dois se encararam, o silêncio pesado como chumbo enquanto ambos pareciam pensar no que dizer. Eric aparece no topo da escada, observando a cena com uma expressão desgostosa.

— Claire, nós...

— Cala a boca, Eric! — Claire e Rafe disseram ao mesmo tempo, com uma sincronia tão perfeita que mais parecia combinado.

O francês solta alguns xingamentos mas não os interrompe. Rafe dá alguns passos a frente, se aproximando da garota. Ele hesita por um momento, mas então as palavras começaram a sair, rápidas e sem filtro, como se ele tivesse segurado aquilo por tempo demais.

— O que você fez... Provavelmente é a pior coisa que alguém poderia fazer comigo. Eu não consigo pensar em nada pior. Mas, mesmo assim... Mesmo você tendo feito o que fez... Eu ainda te quis.

Ele fez uma pausa numa tentativa de entender o que se passava dentro de si.

— E isso foi assustador pra caralho, porque... Que merda de sentimento é esse que faz com que eu seja capaz de perdoar até mesmo os seus maiores erros, né? Mas eu amava ele... Meu pai. Mesmo com todas as coisas ruins que ele fez comigo e com os outros, mesmo que ele não merecesse. Eu passei minha vida inteira perdoando tudo, por mais que isso me destruísse por dentro. E agora... Não preciso mais fazer isso.

Rafe respirou fundo, a voz quebrando.

— E esse alívio... Esse alívio fez com que eu me odiasse. E eu descontei isso em você. Me desculpa, Claire. Me desculpa pela Hanna, pela Sofia, por todas as coisas ruins que eu disse pra você. Me desculpa por ter feito você sofrer. E... Me desculpa por não ter te impedido de fazer suas malas e entrar nesse avião com esse francês metido.

Claire revira os olhos pela alfinetada gratuita.

— Mas eu estou aqui agora. E eu te amo, Claire. Mais do que qualquer coisa na minha vida. Mais do que todos os grãos de areia dessa maldita ilha.

A garota dá um passo a frente, forçando sua voz a sair por mais que se sinta engasgada.

— Rafe...

— Me desculpa — ele disse novamente, o desespero aparente. — Me desculpa, me desculpa. Eu faço qualquer coisa pra você...

— Cala a boca.

Então o beijou, com toda a intensidade de quem segurava aquilo por tempo demais. Ao fundo, os gritos de Sarah e Nicholas ecoaram, celebrando o momento como espectadores barulhentos. O coração de Claire batia tão forte dentro de seu peito que mal conseguia ouvir o que estava a sua volta. Tudo que ela sentia envolvia Rafe... Seu cheiro, seu gosto, seu toque. Era tudo que ela precisava, tudo que ela queria e agora... Era dela.

— Eu também te amo, Cameron — murmura, seu nariz contra o dele.

O garoto abre um sorriso e a puxa pela nuca, a beijando novamente. Ele não queria solta-la... Queria carrega-la até em casa, arrancar suas roupas e faze-la sua. Várias vezes, quantas fosse preciso até que Claire tivesse a certeza de que ele jamais a abandonaria de novo. Ele jamais permitiria que ela se afastasse minimamente sequer.

Quando se separam Rafe percebe o piloto o observando de longe.

— O que está olhando? — ele gritou. — Tira as coisas dela daí logo!

Eric aparece novamente no topo da escada, uma expressão dividida no rosto. É claro que ele não gostava do que estava vendo e já havia percebido que suas chances estavam arruinadas.

— Seu pai vai ficar irado — comentou casualmente.

Claire virou-se para ele com um sorriso confiante.

— Manda um beijo pra ele e diz que eu não vou voltar pra casa.

Eric deu de ombros, resignado.

— Boa sorte, Claire.

Ele voltou para dentro do avião. Rafe, cruzando os braços, repetiu com um tom carregado de sarcasmo:

— Boa sorte, Claire.

— Você estava mortinho de ciúmes — provocou, a voz ainda carregada de emoção, mas agora mais leve, quase divertida.

— Eu odeio esse cara — respondeu ele, o tom carregado de uma honestidade quase infantil, como se estivesse admitindo algo que não queria.

Rafe segurou Claire pela cintura e a puxou para um abraço apertado, quase desesperado. Ele a levantou do chão com facilidade, como se quisesse mantê-la perto o suficiente para que ela nunca mais pudesse escapar. Claire soltou uma risada curta, enquanto se agarrava a ele, sentindo a força de seus braços e a intensidade daquele momento.

Por um instante, o mundo pareceu desaparecer ao redor deles. A pista, o avião, Eric, os olhares curiosos... Nada mais importava. Era apenas eles dois, ali, finalmente no mesmo lugar, no mesmo instante. Seus corações batiam no mesmo ritmo.

— Rafe Cameron, você é um drama ambulante — sussurrou ela, passando os dedos suavemente pelo rosto dele.

Rafe a colocou de volta no chão, mas não se afastou. Seus olhos fixaram-se nos dela, e ele abriu um sorriso torto, o tipo de sorriso que sempre fazia o coração dela acelerar.

Ele era o que ela desejasse que fosse.

Nicholas e Claire estavam parados um pouco mais afastados, observando a cena como se fossem os únicos com um pingo de sanidade naquele momento.

— Eles são completamente malucos, não são? — Sarah comentou ao lado de Nicholas, com um tom divertido enquanto cruzava os braços.

Nicholas soltou uma risada baixa.

— Completamente. E o pior é que eles não têm a mínima ideia disso.

— Não vou ser eu a dizer — Sarah respondeu, inclinando a cabeça para o lado. — Acho que, por enquanto, as amarras da sociedade estão limitando um pouco as loucuras deles.

Nicholas fez uma expressão exageradamente séria, como se estivesse considerando algo realmente profundo.

— Que Deus nos proteja se eles perderem o limite.

Claire olhou para eles e em seguida para Rafe, que lutava bravamente com as malas que havia obrigado o piloto a descarregar. Ele estava determinado, mas a imagem era quase cômica.

— Dá pra ajudar? — perguntou, com um tom misto de irritação e diversão, apontando para o caos nas mãos de Rafe.

Nicholas arqueou as sobrancelhas, mas um sorriso preguiçoso apareceu em seu rosto enquanto dava alguns passos em direção a ela.

— Sabia que não ia me livrar de você tão fácil — comentou, pegando algumas das malas antes que Rafe soltasse outro palavrão.

— Ainda tenho muito a fazer por aqui — Claire rebateu, com um brilho provocador nos olhos.

Rafe, finalmente aliviado por ter ajuda, lançou um olhar de cumplicidade para Nicholas.

— Bem-vindo ao clube, irmão. Aqui, a gente se inscreve sem querer e nunca mais sai.

Nicholas bufou, mas não conseguiu evitar um sorriso enquanto seguia os dois. Sarah os observava de longe, sacudindo a cabeça com uma risada leve.

— Eles são um circo inteiro — murmurou para si mesma, antes de correr para alcançá-los.


O quarto estava mergulhado em uma atmosfera tranquila, os lençóis bagunçados cobrindo parcialmente os dois corpos nus entrelaçados. Claire e Rafe estavam deitados lado a lado, ainda se recuperando das horas anteriores. Ele acariciava o rosto dela com os dedos e Claire sorria suavemente, encantada pela imagem a sua frente, sentindo o calor confortável que só aquele instante podia oferecer.

— Eu gostaria muito de dormir — Claire admite, sentindo que mal conseguia manter os olhos abertos por mais que quisesse.

Depois de tanto tempo longe de Rafe, a última coisa que ela queria fazer é dormir.

— Você teve muito tempo pra isso.

Claire abriu um olho, lançando um olhar exausto e impaciente para ele.

— Sim e você acabou com toda a minha energia em apenas algumas horas — rebateu, a expressão meio emburrada mas com um toque de humor que não conseguiu esconder.

Ele ergue as mãos em rendição, fingindo ser o culpado perfeito. Isso arranca um sorriso de Claire. Antes que ela pudesse abrir a boca a porta se abre bruscamente, cortando a tranquilidade como uma faca.

— Claire, você está... — começou Rose, mas a frase morreu na garganta assim que seus olhos captaram a cena diante dela.

O tempo pareceu congelar por um instante, com os três se encarando em puro choque. Rose estava de pé na porta, as mãos ainda segurando a maçaneta, os olhos arregalados de incredulidade. Sua filha... Sua filha estava nua embaixo dos lençóis com seu enteado.

Isso a deixa zonza por alguns instantes.

— Rafe? — ela disse finalmente, a voz carregada de uma mistura de surpresa e confusão.

Rafe se sentou instintivamente completamente em choque enquanto uma parte de si estava decepcionado por terem companhia.

— Rose? — indagou, completamente surpreso, como se confirmar a presença dela fosse tornar a situação menos absurda.

Claire, ainda deitada, levou as mãos ao rosto, completamente mortificada. Seu tom de voz saiu alto e agudo, cortando o silêncio desconfortável.

— Mãe!






Não sei se gostei mas ta ai!!
Me digam o que acham e o que esperam pro futuro dessa história, tô curiosa com as teorias de vocês.
300 votos de meta (tô sonhando alto

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