_ᴀ ᴅᴇsᴄᴏʙᴇʀᴛᴀ_

A chuva caía fina naquela tarde de domingo, encharcando as ruas de Stonebridge. Emma observava as gotas escorrerem pela janela do sótão enquanto separava as últimas caixas de uma arrumação que parecia interminável. Um lugar esquecido, abafado e cheio de segredos que pareciam estar à espreita sob cada camada de poeira.

Emma, com seus cabelos cacheados e volumosos presos em um coque desajeitado, amava aquele silêncio. Era o único espaço da casa que parecia exclusivamente seu, foi quando encontrou um baú antigo e pequeno, escondido em um canto escuro, sentindo seu coração acelerar.

Com cuidado, abriu o baú. Dentro, havia apenas um objeto: um diário de capa preta, adornado com um fecho dourado envelhecido. Ele parecia intacto, apesar de estar em meio a tantas coisas deterioradas pelo tempo, mas ao tocá-lo, sentiu um leve arrepio passar por todo seu corpo.

Curiosa, abriu o diário e para sua surpresa, as páginas estavam em branco. Ou quase. A primeira folha trazia uma frase em uma caligrafia elegante:

"Escreva aqui o que não deseja lembrar."

O que a deixou intrigada, ela virava as páginas, mas todas que restavam estavam vazias.

Resolveu tentar não pensar muito sobre o assunto naquele momento, guardou o diário na mochila, imaginando que talvez fosse algo valioso ou apenas mais um dos mistérios que o sótão guardara.


Na segunda-feira, o dia começou como qualquer outro na escola de Stonebridge. Os corredores estavam cheios de vozes e risadas abafadas, mas Emma caminhava sozinha, como de costume. O diário agora estava em sua mochila, e a sensação estranha que ele causava parecia acompanhá-la.

Na aula de Literatura, ocupou seu lugar de costume no fundo da sala. O professor discutia a simbologia em histórias clássicas, mas mal conseguia prestar atenção. Ela estava distraída, pensando no diário enquanto rabiscava no caderno, porém algo chamou sua atenção: a cadeira ao lado, que sempre era ocupada por Alex, estava vazia.

Alex não era alguém com quem Emma falava muito, mas ele sempre estava ali, pontual. Era um garoto sorridente, sempre rodeado de amigos. E, naquela manhã, parecia que ninguém sentia falta dele.

- Professor, o Alex faltou hoje?
- perguntou, curiosa.

O professor franziu a testa.
- Alex? Quem é Alex?

Emma congelou.

- O... Alex, da nossa turma, ele senta aqui do meu lado.

O professor olhou para a turma em busca de confirmação, mas todos pareciam confusos. Uma das colegas cochichou:

- Emma, você está bem? Nunca teve ninguém sentado aí.

Emma sentiu um frio percorrer sua espinha. Como assim? Ela se lembrava claramente de Alex, do jeito que ele mexia no cabelo e fazia piadas sem graça. Mas, de repente, parecia que ela era a única a lembrar dele.

No intervalo, sentada sozinha com o diário em mãos, decidiu o abrir novamente. Na segunda página, havia uma nova frase que não estava lá antes:

"O esquecimento é a dádiva daqueles que escrevem aqui."

Ela passou os dedos pela página, sentindo um arrepio ainda mais forte. Lembrou-se da frase na primeira página: "Escreva aqui o que não deseja lembrar." Apesar de nunca ter escrito nada no diário, começou a se perguntar: será que só tocar ou abrir o diário era suficiente? Será que ele havia apagado Alex de alguma forma?

Antes que pudesse pensar mais sobre isso, Ivy sentou-se à sua frente no refeitório, com uma maçã em uma das mãos e o olhar atento.

- Ei, tudo bem? Você está com uma cara péssima.

Emma levantou os olhos devagar. Ainda estava com o diário na mão, mas o fechou rapidamente.
- Não dormi bem.

- Percebi. - comentou mordendo a maçã e apoiando o cotovelo sobre a mesa, como quem estava disposta a continuar a conversa. - E aí, qual o problema? Algum drama da Emma que eu ainda não conheço?

Emma suspirou. Ivy era sempre assim, direta e desconfiada, mas também a única pessoa que parecia se importar minimamente.

- Você se lembra de um garoto chamado Alex? - Emma perguntou, sem rodeios.

Ivy parou de mastigar, franzindo a testa.
- Alex?

- Ele era da nossa turma. Sentava do meu lado na aula de Literatura.

Ivy inclinou a cabeça, como se estivesse tentando se lembrar de algo, mas logo balançou a cabeça.
- Nunca ouvi falar. Tem certeza de que ele existia?

- Claro que tenho! - Emma rebateu, mais alto do que pretendia, mas depois se calou.

Ivy a encarou, inclinando-se mais perto.
- Você está estranha. Não é só sobre esse tal Alex, é?

Emma hesitou, o diário pesado na mochila. Não podia contar tudo. Ainda não.

- Não importa. Esquece.

Ivy deu de ombros, pegou a maçã e começou a se levantar.
- Certo. Mas, se quiser falar sobre o que realmente está te deixando assim... você sabe onde me encontrar.

Emma ficou olhando enquanto Ivy se afastava. Por um momento, quase a chamou de volta, mas engoliu as palavras.


Emma hesitou. Pela primeira vez, sentiu que o diário tinha algo a ver com isso. O vazio nas memórias das outras pessoas, a nova frase que surgira... tudo parecia interligado.

Decidiu que precisava de respostas. E, no fundo, sabia que Ivy talvez fosse a única pessoa capaz de ajudá-la a desvendar aquele mistério.

Enquanto a chuva voltava a cair em Stonebridge, Emma fechou o diário, sentindo que havia acabado de abrir a porta para algo muito maior do que imaginava.

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