秋 (Aki) - Memórias de nosso cômico passado (parte III)

Aviso: Este capítulo marca uma nova adição a história, algo que na versão antiga da obra existia, mas que era inviável devido a meneira como a personagem estaria sendo apresentada e a quantidade de capítulos seria muito grande apenas para fazer com que a obra atingisse esse momento atual. Então espero que agora parte do motivo da alteração faça mais sentindo.




Presente (03/12/2020 - outono)

Desde bem pequena cresci ouvindo de meu pai sobre os três dogmas que nesta família estão enraizados por ele e seus irmãos, por seus pais e avós. Dogmas que transcendem a barreira de ideia e palavra, que ferem a alma, ferem emoções tão saudáveis gerando instabilidade.

Em primeiro dizia que jamais deveria haver desobediência por mais certo que estivesse; o segundo régia a ordem de que os mais velhos seriam os únicos a proliferaram a família; por fim o último que pregava a abominação do relacionamento entre pessoas de mesmo sexo.

Vivi minha infância e adolescência rodeada por tais leis e por elas fui moldada até meus dezesseis anos, naquela época eu acreditava veementemente que pessoas de sexo diferentes eram as únicas formas de casais. O homem por trás de cada Hoshino inibiu até mesmo as crenças de um dos meus autores favoritos, um homem morto, Han Hattori, escritor de obra favorita chamada "When The Weather Is Fine"... aprendi que mesmo um inverno rigoroso não dura para sempre e ele não estava errado.

Frente ao primeiro evento intimo tão carmesim que minha juventude poderia enfrentar descobri através de um feminino olhar a beleza deste mundo e suas emoções tão marcantes, vividas como nenhuma outra, a cintilante beleza da coloração esmeralda me salvou e após uma visão ilustre do disparar de sua seta percebi que pessoas do mesmo sexo poderiam sim, ter algo além de amizade ou companheirismo comum.

Naquela época entendi que as coisas eram maiores que palavras, atitudes e até mesmo a lógica por trás da razão de uma pessoa.
Percebi pela fechadura de meu coração que o mundo poderia ter mais cor, que nem tudo era preto e branco como as grades de meu quarto ou gritos de aflição tão presentes em minha alma suja de sangue.

Centrada é algo que nunca fui, por mais muitos não conseguissem ver sempre fui destruída emocionalmente e até mesmo hoje percebo poucos foram meus avanços em direção à melhora.

Porém, não ligo para tais visões, não, tem algo mais marcante e importante para meu crescimento... a juventude... naquele passado vi não o mais belo sorriso e tão pouco era o olhar penetrante. Mas para minha juventude tudo aquilo era o bastante para fazer meu peito palpitar, a cada aproximação sua, a cada toque e até mesmo o mais lúdico sorriso foram o suficiente para tomar meu peito numa extensa tempestade de emoções.

Teve um instante em meu segundo ano onde subimos no alto de uma colina e frente à mais bela paisagem sombria trocamos votos para um futuro, uma amizade eterna, naquele momento eu sabia que algo era diferente.
Frente as estrelas eu li mentalmente um poema e rezei em quietude para que tudo aquilo fosse real em minhas memórias que pouco a pouco se formavam frente a sua presença.

Hanzo fez sua investida e com palavras tomara minhas esperanças, tolice minha, mas a verdade é que eu não estava preparada para admitir que uma garota movia as engrenagens de meu coração. Mesmo as histórias que tanto amei não souberam explicar o fator primordial e nas palavras de minha irmã descobri algo que não esperava em hipótese alguma e mesmo que naquele ano eu tenha a perdido para a distância descobri que era normal sentir tudo aquilo que carregava no peito.

Em suas palavras disse que conheceu alguém que era livre e por uma menina se interessou... para minha surpresa a irmã do mesmo homem com quem eu disputava atenção.
Fui contagiada pela liberdade de seus sentimentos, mas logo minha chama foi apagada pela sua partida repentina por ordens de um homem que jamais conseguiu aceitar sua liberdade incondicional.

Instável pelas emoções de conviver com a ausência de minha irmã eu apenas explodi de ciúmes, inveja e toda emoção ruim pelo fator de não conseguir ser livre, não conseguir assumir aquilo que desejava perante ela.
Mergulhei na pior essência de minha alma atingindo o poço... no dia em que ganhou lembro de como fiz minha rotina, principalmente da carta que escrevi para ela. Entretanto, fui alvejada pela surpresa de sua ação, naquele dia me senti a garota mais feliz deste universo por saber que meus sentimentos eram correspondidos na mesma intensidade.

A felicidade que senti durou pouco tempo, alunos espalharam um rumor que pouco a pouco cresceu numa imensa bola de neve que no primeiro dia de inverno estourou em nossas vidas que pela transição entre duas fases passavam. Presenciei o afastamento de todos com o início de tal rumor e a quebra de nosso perpétuo juramento que por mais tolo que possa ser, ainda era algo em que eu usava para retirar forças em minhas horas mais escuras.

E como em tal tempo tão distante aqui estou eu frente a seu olhar esperando pelo momento certo, eu queria poder abraçar ela e sentir o calor que a distância nos fez conviver e assim sentir que todo meu caminho valeu a pena.
É frente a este olhar que percebo, não, possuo certeza de que meu maior castigo não fora as punições e nem mesmo o cárcere... nada disso se compara a distância entre nossos corações tão singulares.

Sinto o aproximar repentino... está tão próxima em simultâneo, em que tão distante. Meu coração palpita apenas de fitar este seu atraente olhar, o que eu faço? Eu queria tanto, mas não posso nem sequer tentar.

Nessas eu queria você ao meu lado... vocês duas foram as únicas mulheres com quem eu poderia contar neste instante, as únicas coisas que um tive eu já tive em vida. A lágrima escorre em minha face, seu toque, por quê tão terno? É uma tortura para minha alma.


— Por que está chorando? Murano?

— Naomi, vamos manter assim, por favor. Será ruim se começarem a ter uma ideia errada de novo... aquela época.

— Ela fere meus sentimentos também.

— Machuca de tantas formas diferentes que eu mal sei por onde começar.

— Desde que foi embora diversas perguntas cruzaram por minha cabeça. Qual foi a melhor coisa que perdemos? Qual foi a pior coisa que ganhamos?

— Naomi.

— Esse tipo de questão tem circulado por minha mente de tantas e tantas formas diferentes que eu mal consigo buscar uma resposta.

— Naomi, me desculpa.

— Eu tenho me perguntado sobre o que fazer, o que eu faço, como faço, se existe uma forma... no final tudo se apaga e você permanece em minha mente.

— Deveria ter esquecido de mim.

— Eu tentei com todas as forças que carregava, mas no final nada mudou. Estudei como uma prisioneira, formei, trabalhei como professora e bebia sempre que podia... nada alterou meu coração.


O olhar suave busca em minha expressão a desaprovação, algo que não terá de mim, proximidade é o que possui e a cada vislumbre percebo aquilo que soube sempre. Eu não superei o passado, dói, mas eu nunca consegui suprimir esses sentimentos mesmo depois de toda a dor que eles me causaram.

Fecho meus olhos sentindo sua presença, o calor em minha face, pelo imaginário sou alçada e nas infindáveis linhas que considerei plausíveis para esse encontro nenhuma envolvia isto. O toque sutil sela através de seu contato nossos lábios. Caloroso? Divertido? Suave? Todas as palavras se mostram vazias demais para descrever essa emoção que se expande como o universo em meu peito.

Jamais estive fora de sua teia e agora eu possuo certeza de que isso é um fato que não posso negar, o lugar à qual pertenço sempre foi ao seu lado e por mais que doa admitir isso neste instante em que o mundo parece estagnado, eu desejo voltar para este lugar.

O som do romper de um galho move meu corpo que em seu reflexo a empurra para longe, bruta, droga. Desvio meu olhar, mas ignorando está tola visão que possui de mim, vem de encontro a meu abraço envolvendo meu corpo.
Talvez seja covardia de minha parte, medo e receio, afinal está é minha exposta fragilidade da qual muitos sabem. Não me sinto bem aqui, não sinto conforto e tão pouco apego para simplesmente abraçá-la..., mas não quero que este momento fuja de minhas mãos como em nossa adolescência ou há dois anos quando partiu sem se despedir.


— Peço perdão, não é minha intenção atrapalhar. — com um sorriso no rosto surge em meio às flores que coloquei de decoração. — Vi que estavam aqui e decide que seria melhor interromper antes que alguém indesejável surgisse. 

— Desculpa — sussurra. — não precisava ter vindo até aqui.

— Fico feliz por esse encontro, mas precisamos ir Naomi. — esse homem, nunca o conheci pessoalmente... sempre o vejo nas entrevistas que ela dá. — Você deve ser a famosa Murano Hoshino, seu restaurante ficou bem famoso na França e deve se orgulhar das quatro estrelas que possui. Parabéns.

— Obrigado, senhor?

— Kazui Hisagi, pode me chamar apenas de Kazui.

— Obrigado pela opinião Kazui. — tomo distância do abraço de Naomi fitando seu olhar penoso. — Foi através de muita angústia e esforço que atingi esse patamar.

— Imagino, Kataomoi, acredito que sei de onde veio a ideia para tal nome.

— Fica um tanto óbvio quando se observa um pouco do meu passado, ele era o sonho de uma pessoa muito importante e eu decide seguir ele.


Vejo o olhar carinhoso focar Naomi e seu estado estranho de inércia, ela está desnorteada, não sei se isso é algo bom ou apenas um lado ruim sendo mostrado.
Talvez eu tenha feito a escolha errada quando aceitei este contato, tarde demais para pensar em prós e contras... por hora vamos apenas deixar assim e manter essas emoções sobre controle.


— Até outro momento Murano.


A vejo virar-se carregando no olhar o marejado, na face o caminho que suas lágrimas outrora percorreram. Isso machuca ela mais do que eu mesma e ainda assim sinto que nós duas nãos aprendemos nada com o passado.

Suspiro aliviada, mas por sua mão sou alvejada e no tocar de meu ombro sinto minha estrutura balançar como se nada eu fosse. O calafrio percorre minha espinha e logo o som de seu apoio caindo ao chão escuto, pela fraqueza cedo caindo sobre meus joelhos.


— Pelo visto nem mesmo o tempo curou essa doença. É como catapora, com o efetivo certo pode erradicar, entretanto, você é tola e insiste em demonstrar essa imoralidade.

— Pai.

— Continue afastada dela e verá como sua existência melhorou, aquela mulher não presta para nada além de vulgaridade.


Vejo seu caminhar em direção a fonte, com cuidado se senta à beira do pequeno lago tendo como visão os dois peixes solitários.


— Eu nunca apreciei às vezes em que fui obrigado a te punir, minha melhor filha, todas aquelas punções foram para te tornar à melhor entre os melhores e ainda assim continua demonstrando falhas.

— Pai, agora que estamos aqui eu volto a afirmar o que disse-lhe na sala de jantar, irei me divorciar daquele homem deixando de lado todas essas mentiras.

— Divórcio, quer um divórcio do Hanzo com qual finalidade? — seu olhar recai sobre o meu, não gosto deste olhar. — Não me diga ser por ela. Precisa parar com essa doença, vai viver como sua mãe e irmã? Terá o mesmo final infeliz.

— Vou me divorciar e mudar meu nome, não se preocupe com sua imagem ser manchada, pois, não espero carregar mais seu nome.

— Vai me desafiar então... tudo bem faça como bem entender, estou cansado de vocês todos, sua mãe e irmã levaram meu último resquício de vida há muito tempo.

— Você matou elas quando deu a ordem de perseguição a elas. Sabe tão bem quanto eu que o sangue de ambas corre em suas mãos.

— Você é igual a ela, vejo em seus olhos a tolice de acreditar cegamente que pode viver apenas com aquele restaurante... as mulheres ficaram mais burra com o tempo, esse mundo não é seu, mas vá em frente e tente.

— Por isso minha irmã foi embora, você matou às duas filhas que julgava importante por mero ego.

— Ego? Sua mãe foi uma promíscua que adorava mulheres, tudo que pedi foi para que parece e a louca fugiu.

— Sempre foi assim tão duro e incapaz de aceitar a diferença? Primeiro foi minha mãe morta em um acidente como você diz, depois minha irmã a quem você conseguiu mandar para a UTI... não enxerga que suas punições são o ponto que mais provocam nossa separação.

— Se espera que eu peça perdão tire tais conclusões de sua mente frágil, não me arrependo, de qualquer forma logo irei morrer e assim poderá viver como bem entender.

— Escolheu seu caminho e por ele foi punido.

— Apenas dizendo, faça o que bem entender da sua vida, não me importo com a desgraça que vai fazer em sua vida.

— Eu pedi para que até a morte conseguisse redimir, mas estou errado, espero que não sofra mais com a solidão que tanto preza.

— Cuidado, pode não acreditar, mas eu espero que você viva o suficiente para perceber o quanto sua escolha é errada... existe algo que é melhor não descobrir.

— Quem decide isso sou eu, e agora eu estou decidindo que não devo permanecer como um membro desta família que vive de seus horrendas mentiras.


Mesmo acostuma a palavras tão frias e distantes da realidade a qual eu esperava, algo mais alegre e tranquila, admito que não sou mais capaz de sentir raiva dele por essa escolha e decisão. Quando minha mãe partiu eu senti meu mundo cair em um limbo e no sumiço de minha irmã tive certeza de que nenhum sentimento de raiva as traria de volta para meu conforto emocional... no final eu sei que sua escolha teve um preço e que agora ele pagará não importa como.
Ainda que eu conviva com toda essa existência fria e solitária que ele criou eu não irei odiar este homem que espera tal emoção, uma das últimas palavras que ouvi de minha mãe fora que por mais triste e distante que estejamos, por mais dolorosa que seja sua partida repentina eu deveria viver, pois, enquanto eu estivesse viva nenhum inverno duraria para sempre.

Tenho ciência que minhas palavras não lhe atingem, mas eu gostaria que fosse possível para enfim realizar o último desejo dela, transmitir para este homem o poema que dividimos em minha juventude.

O mergulho na noite encerra o evento enquanto minha permanência se faz presente nesta sala escura e sem vida, agora que estou aqui, nessa posição tão elevada posso perceber como nada neste mundo de riqueza me interessa.
Na última gaveta em minha mesa busco meu caderno de anotações, lado a lado com o brilho da luminária me sento folheando as manchadas páginas do que um dia foi minha história.
Fotos são os únicos fragmentos que guardei de cada um dos pontos vividos por mim, lagos, fontes e trilhas, mãe e irmã, todas as memórias de minha juventude aqui vivem.

Meu celular ressoa com o brilho de sua mensagem, Hanzo, não que eu o odeie, mas não consigo suportar a ideia de viver longe do que desejava apenas para casar com um homem que nunca amei. Antes que pudesse respondê-lo escuto as batidas à porta, no abrir sou surpreendida pela visão mais eufórica de meu passado que não importa como sempre voltará com sua intensidade marcante.

Ofegante se põe a ficar sobre os joelhos encarando uma visão minha mais melancólica que a comum, quando foi que está mulher de tornou tão segura para realizar esses encontros tão inoportunos, é irônico quando lembro de sua fatídica frase...


— Eu faço meu Destino, Murano, eu irei embora apenas após você escutar tudo que tenho para dizer.

— (...). — apenas balanço minha cabeça.

— Que bom que concorda, não foi fácil passar pela Reii.


Mesmo o tempo não conseguiu apagar a ferocidade que percorre seu olhar, obrigado Naomi, fico grata por ao menos você conseguir continuar vivendo após aquele entardecer sombrio que quase a levou.


— Sobre o que você deseja falar então? Não posso demorar muito, se puder...


Entre nós a distância cortada por seus passos mais ágeis, agora que percebi o fato de até mesmo de roupas ter trocado.


— Eu não sei o que eu estou fazendo aqui e provavelmente você vai pensar que estou sendo precoce em estar tão desesperada para te ver.

— Bem... por um lado. — acabo sorrindo ao notar sua expressão, essa confusão no olhar é encantadora. — Então diga, já que se deu o trabalho de vir até aqui nesta hora da noite.

— Eu quero pedir desculpas por minha há dois anos, desde aquele verão eu não tenho conseguido focar em mim, não sabendo que deixei com que você partisse.

— Não é apenas sua culpa, mas sendo sincera não precisava pedir desculpas por isso.

— Murano, eu nunca tive uma oportunidade clara de revelar tudo e agora que estou aqui penso em como fui falha.

— Falha?

— Seja há dois anos ou há quinze anos, falhei com você nas duas datas e agora aqui estamos uma frente a outra. Desde minha tola tentativa de sumir carrego uma ferida incurável no peito e mesmo sobrevivendo eu nunca consegui realizar algo que desejava.

— Agora pode, vou ouvir sem filtros o que pretende me dizer.

— Eu vivia reclamando de como a minha vida tinha fica uma merda frustrante, porém eu nunca fui capaz de... agradecer você por salvar minha vida.

— Eu não fiz nada de mais, nada que você também não faria.

— Você sempre foi minha luz e nós momentos mais difíceis onde eu ficava perdida, questionando-me sobre o que fazer era você quem vinha em minha mente dizendo que eu deveria tentar.

— Naomi...

— A luz da minha juventude que sempre me direcionou para um horizonte mais memorável foi você, quando pensei no fim foi você que veio, quando estive presa no limbo você veio, quando me tornei professora você veio... em todos esses momentos de importância a fonte de minha força sempre foi você.

— (...).

— Pode soar estranho o que estou dizendo afinal fomos obrigadas a viver distantes uma da outra, porém, eu nunca esqueci de você. Sua imagem sempre esteve ao meu lado em todos os momentos mais importantes de minha vida.


Sua presença distante se esvai e frente a seus olhos vislumbro a paisagem da qual jamais esquecerei em minha vida, algo que nem mesmo a tortura de uma passagem de tempo pode apagar. Antes que minhas palavras pudessem escapar da tortuosa prisão são minhas cordas vocais, seu corpo encaixa-se ao meu, a face percorre meu ombro e logo a umidade passa a tingir o tecido azul.
Afago suas costas com meu toque, está é uma visão que eu nunca tive desde os tempos mais distantes. Conheci sua fragilidade, mas nunca ela tão exposta quanto neste instante... me sinto culpada por ser a causa deste momento de fraqueza.

Seu olhar vem ao encontro do meu e entre as lágrimas uma imensurável beleza, toco as maçãs de seu rosto levando seu foco somente a minha presença. É como se aqui dentro algo ruísse para o nascer de um desejo marcado nas linhas de nossa história, afável é selar de nossos lábios, frente o escuro desta sala que reflete meu coração.
Meu coração pula e contagiado por emoções tão fortes e inexplicáveis para minha racionalidade acelera levando meu corpo a um estado de calor do qual pouco me lembrava. A mente ressoa o esbranquiçado e como num passe de mágica sinto-me flutuando em um céu azul que ressoa a beleza do mais belo verão.

Naomi... afasto nossos lábios buscando o repouso em sua testa, o sorriso em seus lábios, a maneira como deixa tudo tão natural me cativa construindo em mim algo que pensei estar distante de minha realidade massiva de monotonia e responsabilidades.
Encontro seu olhar, amanhã eu sei que tudo estará perdido e eu novamente serei presa nesta vida... queria acreditar que algo assim seria possível, porém não há alternativa que permita tal escolha sem que uma de nós duas pague um preço alto demais.


— Eu vi a pulseira ontem, você guardou ela e isso mexeu comigo... pensei que depois da minha partida você ficaria com ódio.

— Lógico que eu iria guardar ela como se fosse minha, um pedido seu, não posso recusar... é uma promessa de que em algum momento iremos nos reencontrar.

— Perdi minha postura, passei a madrugada pensando e hoje enquanto estava no carro e na festa pude encontrar uma resposta.

— Não mentir e dizer que não sinto, mas não temos como seguir. Não há o que fazer.

— Existe uma forma, tem que existir.

— Não existe, eu tenho uma filha e uma marido... você é casada até onde eu saiba então não existe maneira de seguir com um relacionamento desses.

— Sou divorciada, mas preciso esperar o julgamento ainda para revelar e você pode deixar o Hanzo.

— Nem tudo é simples como pensa Naomi, minha filha, pensar nela sendo criada longe do pai dói em mim.

— Eu sei... só queria que tudo isso fosse mais fácil de lidar e que, não sei, por quê quando é sobre nós tudo é tão difícil?

— É complicado Naomi, não tem resposta, as coisas apenas são assim.


Vejo o abrir da porta revelar sua presença, o semblante de pesar no olhar... Reii... posso dizer que graças a você estamos aqui, mas sinto que também se entristece a cada barreira que surge entre nós duas.


— Sinto atrapalhar, mas o Hanzo voltou para te buscar.

— Estou indo. Melhor ir também Naomi.

— Tudo bem, estou acostumada a essas despedidas surpresas.


Em silêncio caminho seguindo assim para fora e no limiar de nossos caminhos buscamos lados opostos, sem olhar adentro o veículo ignorando a partida de Reii e Naomi. No seu semblante noto a confusão, pelo visto ele percebeu o que acabará de acontecer.


— Seus lábios estão borrados.


Não há como negar que o silêncio permeia nossa existência matrimonial tão conflitante e que ainda assim sobrevive por respiros de consciência entre nós. Insatisfação é o nome da emoção que o consome agora, mesmo que sinta tristeza por ser um empecilho ainda não consegue negar a frustração que é ter minha presença marcada nos sentimentos dela.

Distância, silêncio e monotonia definem este casamento... mesmo que doa em meu peito fico na dúvida se manter este casamento é o melhor caminho para criar minha filha. No estacionar frente a mais bela casa desta rua deixo o veículo em silêncio, saí como entrei e mais uma vez tudo parece ter o mesmo final de sempre. Parte de mim vê essa rotina como estar na França, onde eu passava o dia no trabalho com minha filha e a noite voltávamos juntas ou explorávamos a cidade, a única diferença é que agora seu pai se mostra presente e ao mesmo instante sem presença.
Subo até o segundo andar adentrando meu quarto, sobre os lençóis encontra-se dormindo tão calma e meiga, desligo o projetor encerrando a iluminação no quarto e sigo para o banheiro. No encher das águas termas adentro a banheira e pelo calor deixo meu corpo entrar em repouso sentindo o toque terno sobre minha pele... essa sensação é semelhante à ambos os momentos que desfrutamos juntas. Pensar no fato de meu mundo ter parado com apenas um toque seu me incomoda, sinto o arder em minhas vistas, pensar nela me faz sentir essa imensa vontade de chorar.

Por muito tempo após deixar ela de lado compreendi que não poderemos ficar juntas, existem muitas adversidades. Talvez eu seja pessimista ao ponto de não enxergar nada no futuro, presa, assim é a sensação que carrego aqui dentro de mim.

Levanto das águas e me envolvo no roupão, em minhas roupas pego novas peças íntimas e algo mais confortável para vestir. Passo o tecido felpudo da toalha em meus cabelos envolvendo-os e andar abaixo sigo buscando sua presença. Baixa é a luminosidade que escapa de sua sala através da fresta da porta que entre aberta se encontra, seu olhar recluso visa as folhas marcadas pelo tempo, poucas foram às vezes em que estive aqui dentro e ainda assim me pergunto como este homem consegue manter tantas memórias presas aqui.


— Imaginei que fosse estar aqui, esse lugar é algo que não pode deixar de lado não importa o que ocorra... entendo, todo mundo tem seus esconderijos.

— Como foi reencontrar com ela? Passaram um tempo considerável juntas pelo que eu imagino.

— Foi o que precisava ser, não tem nada de mais, não além de conversas. — seu olhar distante recai sobre. — Não me diga que está com ciúmes.

— Não estou, apenas curioso para saber qual seria seu plano, pois não esperava que você fosse encontrá-la tão rápido e nem mesmo que o contato seria tão precoce.

— Não foi rápido, você foi o primeiro a apoiar esta ideia então por favor explique seus sentimentos caso isso te machuque.

— Estou apenas curioso, até anteontem parecia irredutível.

— Ela veio até mim com dúvidas e eu respondi, mas tem razão, sinto que não tenho necessidade disso, entretanto vou responder sua dúvida... sim, nós duas nos beijamos.


Olhar distante como sempre e no final ele apenas reafirma aquilo que soube desde o início apesar de suas falas tão favoráveis, por mais que apoie ele não aceita essa aproximação, pois não é ele, não ser ele a pessoa que habita no coração de Naomi traz dor para seu ferido coração há qual o tempo e suas vertentes destroçaram... no final também sente inveja como qualquer outro ser humano.

Mesmo que segredos sejam compartilhados vez ou outra, nossas dores expõem o central deste relacionamento inexistente que jamais irá mudar. Somos portas trancadas um para o outro e isso jamais será alterado não importa o quanto tentemos muda existem coisas que não podem ser transmutáveis.

Hanzo Hattori, me pergunto se também pensa em nosso casamento com um teatro mal-executado e repleto de falhas que vão da imoralidade até submissão cega a ordens que não nos cabem mais, mesmo que em sua essência a palavra significa um local ou apresentação. Em nossas vidas não passa de uma forma trágica de prosseguirmos com essa farsa que chamamos este casamento por tantos anos consecutivos de dor e sofrimento.

Estendo minha mão tomando o livro de sua visão obrigando seu olhar a cair sobre mim, essa foto eu enviei há dois anos no instante em que viajei para Veneza com Suyen.
É curioso pensar que quando decidimos comprar uma casa pequena era para não criar memórias, mas agora que moramos em Nagasakamachi, percebo como essa escolha mudou drasticamente devido a minha ausência com Suyen... eu obriguei este homem a comprar algo que o faça ter laços mesmo que distante de nós.


— Agora entendo o motivo de querer tanto esta casa, é aqui que guarda suas memórias, me faz pensar no que anda circulando em seus pensamentos. — busco seu olhar. — Você carrega muitos mistérios e isso é algo que me incomoda um pouco.

— Murano, o que sentiu quando beijou ela? Não entra em minha cabeça.

— Não acredito que essa conversa precise deste rumo Hanzo. Melhor pararmos por aqui.

— Por favor, eu preciso saber, o sentimento é esse que envolve vocês antes de contar algo que ocultei por tantos anos.

— Não me faça dizer algo que odeio, certas palavras não precisam ser ditas por nós dois pelo simples fato de levarem ao caminho da briga.

— Murano, a culpa de estar comigo agora é apenas minha... eu comecei aquele rumor que acabou levando ao seu pai sobre o beijo entre você e Naomi. — contou? Não estendo, mas… — Sei que não deveria ter feito isso, porém fiz por sentir ciúmes de vocês. Imaturidade de minha parte.

— Hanzo? Não...

— Conversei com Naomi e ela disse que se eu almejava um relacionamento correto com você deveria começa pela verdade... eu quero ser verdadeiro agora apesar de tanto tempo ter passado entre nós.


Dou as costas para sua presença e sigo escadaria acima, ouvir isso mostra que no final tudo que sofri foi por mero capricho deste homem? As agressões e o jeito como fui espancada naquela tarde não se comparam a nada e tudo isso por ciúmes... bato a porta do quarto e me sento atrás da mesma, não consigo respirar direito, minha cabeça lateja, impotência é o que define minha vida desde que me casei.


— Desculpa — sua voz abafada ecoa em minha mente. — eu não queria que fosse desta forma.

— Por isso não voltou ainda? — mordo meu lábio e por seu ferimento o gosto ferroso se espalha por minha boca. — Não era mais capaz de olhar em meus olhos por isso fugiu.

— Parte sim, me senti arrependido e frustrado por não conseguir tornar sua vida minimamente agradável... saber que a culpa por tantos problemas era minha, não consegui aceitar.

— Odeio você Hanzo... se ao menos tivesse contado antes teria sido mais fácil, contar agora apenas reafirma tudo que eu já sabia e tinha medo de admitir, sou uma idiota por um dia ter confiado em você.


Parte de mim questionava as razões e os porquês que envolviam a descoberta daquele beijo, porém saber que o homem ao meu lado é causa de toda essa desgraça em minha vida... não facilita nada, eu não posso confiar nem mesmo em meu marido e agora eu tenho certeza de que ele não é alguém em que eu possa me apoiar.


Por um tempo eu questionava as razões e os porquês que envolviam a descoberta daquele beijo, porém saber que o homem ao meu lado é causa de toda essa desgraça em minha vida... não facilita nada, eu não posso confiar nem mesmo em meu marido e agora eu tenho certeza de que ele não é alguém em que eu possa me apoiar quando sentir dor. 


— Murano, peço desculpas por isso. Eu realmente desejava que fosse de uma maneira diferente.

— Então me queimou por ciúmes? — minha voz de embola com as lágrimas... eu não consigo as segurar. — Tudo isso para no final não mudar nada.

— Sei que é burrice, infelizmente foi tarde quando percebi que afundei a vida de vocês duas.

— Dane-se que foi tarde! Não é sobre tempo e sim liberdade... me prendeu às minhas correntes e no final mergulhou minha alma na sua podridão.


Levanto de trás da porta abrindo-a, nossos olhares se encontram e ele nem ao menos demonstra estar triste com essa decisão... esse homem é um peso que não aguento mais carregar, não, eu quero distância de tudo que envolva ele.

Agarra meu punho puxando meu corpo contra seu abraço, empurro-o, miserável. Impulsividade, raiva, dor, quando percebo minha mão se choca contra sua face provocando o estalo, por entre meus dedos sinto as gotículas vermelhas e na face um talho feito pelo anel. 

Puxar de minha veste revela sua presença tomada pelas lágrimas, eu fiz ela chorar, não queria que ela estivesse aqui... sobre os joelhos me ponho acolhendo seu corpo em meus braços, afago seus cabelos e entre eles deixo um beijo, a única pessoa que não merecia isso é ela, minha filha, desculpe à tolice de sua mãe que sempre te põe nessas situações.


— Desculpa por isso, — fito o olhar de Hanzo, o marejar toma seus olhos. — vai dormir Hanzo, chegar de machucar os sentimentos alheios.


Fecho a porta em sua face e ali permaneço em silêncio agarrada a sua presença e apesar da idade, ela mal pode dizer algo, pânico, quando meu pai e minha mãe brigavam eu fazia a mesma coisa e permanecia calada até ser minha vez de apanhar por dizer que minha mãe estava certa... pensar que eu trouxe esse mesmo problema para ela traz peso a minha consciência.
Sinto que fui falha como mãe, pensei proteger quando, na verdade, tudo que fiz foi piorar seu emocional para uma cena como essa. Agora entendo o sentindo de distância, eu poderia ter evitado, mas fui fraca e cedi as minhas emoções mais humanas... diante desta visão sinto o ruir em meu coração por saber que lutei tanto para evitar esses conflitos para no final ser a agressora.

Levanto-me carregando em meus braços seu ser de olhos tão vermelhos quanto a camisa que veste, inerte permaneci ao seu lado até que o choro fosse uma mera lembrança e o sono voltasse a ser parte de seu semblante.

Deixo a cama buscando minha bolsa, desbloqueio o celular, uma hora da manhã e eu aqui sem saber para aonde ir. Busco o frasco e no encontra despejo quatro comprimidos em minha palma, no virar engulo todos e volto para a cama ficando.
Olhar para ela me faz lembrar dele e do momento mais sombrio de minha vida, naquele hospital um mês após dar a luz suas palavras foram a primeira coisa que ouvi quando dei-me conta da situação e agora o mesmo diz coisas que me fazem perceber o quanto tenho sido instável durante nosso casamento.

No final não há como enganar minha mente, talvez seja loucura negar, erramos iguais e não possuímos distinção quando o resultado é uma convergência de brigas e dor... o divórcio será a melhor forma de encerrar esse ciclo sem fim de combates tão dolorosos, por lado irá doer nela, pelo outro seremos livres um do outro acabado assim com o sofrimento desnecessário.

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