秋 (Aki) - Transitando entre emoções

Presente (02/12/2020 - outono)


Na mesa tomo meu assento percorrendo as faces já familiares e aquelas a qual desconheço por falta de convívio, é estranho pensar que tudo isso é feito durante as aulas. Difícil se acostumar com certas realidades, mesmo diante desses rostos tudo que posso pensar é sobre minha época como uma estudante comum que frequentou essa instituição devido ao medo de meu pai e minha mãe.

O brilho tímido de um raio de sol rompe as cortinas pairando sobre a face desatenta do homem em minha frente, Jun Shimizu, quem diria que a pessoa que roubou meu primeiro beijo seria aquele que eu iria encontrar após tantos anos distantes.
Esse lugar parece diferente daquela á qual eu lembrava, não é mais uma simples sala com poucas cadeiras, fico feliz em ver que o gerenciamento de meu pai gera frutos tão importantes para essa escola. Espero que possa continuar mantendo o bom desempenho dele sem deixar que as coisas fujam do controle sempre que se encontram complicadas demais para se resolver de imediato.


— Meu comunicado será rápido para não tomar muito do tempo de vocês presentes, logo irei me aposentar por isso quero preparar meus diretores para esse momento. O primeiro anúncio será que a próxima diretoria, Naomi Minamoto, participará da preparação das provas no quesito de auxílio ao diretor Jun Shimizu.


Ao menos não é um trabalho pesado que irá consumir minha vida, apesar de gostar eu ainda sinto que não estou pronta para lecionar, não após todo aquele conflito em Tóquio.


— Continuando meu anúncio, quero dizer que em breve teremos uma comemoração. A prefeitura convocou os representantes da escola para fazer parte deste evento. Jun, Naomi e Kazui serão os presentes... desculpem avisá-los de última hora, recebi o convite de última hora.


O desconforto invade meu corpo, esse mal-estar é horrível não importa quantas vezes eu presencie essa cena. Levanto-me da cadeira e sigo para o banheiro, diante do vaso vejo meu reflexo e no mesmo despejo o líquido mucoso seguido pelo sangue... essa sensação de nauseá é o inferno, aperto o botão de descarga e me volto ao espelho do banheiro.
Ligo o jato de água e nele limpo minha boca, encho um punhado de água em mãos e molho minha face. Olho-me no espelho e que expressão mais acabada essa que eu carrego, sentir saudades do tempo onde não carregava essa bomba relógio é inevitável.


— Droga.


Noções como espaço e tempo sempre se alteram quando a dor veem ao meu encontro, é difícil respirar e até mesmo pensar se torna um objetivo complexo de se realizar. Talvez se eu pudesse voltar, faria diferente, infelizmente esse é um eterno talvez que eu não sei se consigo lidar, a mera sombra de uma realidade diferente perturba minhas emoções.


— Não está tudo bem, assim que acabarmos aqui iremos até o hospital. — seus olhos escuros e a face clara não mudam mesmo, às vezes, não, quase sempre sinto falta do tempo em que fomos apenas dois entusiastas. — Quer um tempo aqui?

— Não, eu estou bem, posso continuar.

— De qualquer forma não tem muito o que pensar, sei pai terminou a reunião, porém seu amigo Jun pediu para encontrar ele na quadra.

— É estranho encontrar velhos rostos por aqui, eu não esperava.

— Eu fico feliz pela sua surpresa, mas se estiver boa por favor seja rápida. Quanto mais cedo for feita a sucção melhor será o resultado.

— Eu vou falar com ele, mas antes eu preciso te perguntar sobre seu problema... conseguiu resolver?

— Talvez. Não sei dizer e de qualquer ficara para outro momento, agora eu preciso que faça aquilo que eu digo.


Com o destrancar da porta sigo para fora deixando para trás Kazui, fico triste em saber que não conseguiu resolver seu problema familiar. Precisar quando se ama outra pessoa é uma dor que eu não desejo a ninguém devido à sua grande proporção de destruição, para muitos um psicológico destruído não é nada, porém aqueles que conhecem a dor sabem que basta apenas uma ruptura para gerar uma onda de transtornos emocionais tão fortes que conseguem implodir um mental abalado.

Volto para a sala, esse lugar mesmo visualmente diferente permanece com a simplista aura que carregava no passado, por um momento eu havia me esquecido do quanto essa escola sempre foi boa para minha formação como pessoa... se eu apenas ignorar tudo de ruim ainda posso dizer com afinco que gostei dos dias que passei aqui, gostei de como eram as dinâmicas e o principal de como eu era perante a sociedade de alunos.

Estar nessa mesma posição traz as memórias daquele tempo onde eu era apenas uma primeiranista repleta de medo de entrar em contato com algo relacionado ao meu avô.
Lembro de como eu inspirava e expirava, das contrações que senti em meu peito... é quase como se eu conseguisse sentir a mesma coisa daquela época, ficar três meses fora do ambiente escolar realça essas emoções.
É quase como se eu estivesse iniciando a carreira de professora, o nervosismo e a empolgação na mesma medida são algo que sou incapaz de esquecer e ficaram certamente marcados para sempre em mim.


— É engraçado pensar que você se tornou algo que te prende. — sua voz mais grossa é algo que sentia falta, faz anos, desde meu primeiro ano no ensino médio. — Após tanto tempo é estranho pensar nesse encontro.


Parece que a mudança de diretor trouxe a mais atual mudança para este lugar, eu nunca iria imaginar que alguém tão preso a certos costumes conseguiria fazer uma revolução no passado e através dela trazer o futuro.
A escola está mais atual ainda mais quando comparo com as sedes de Okinawa, Quioto ou Tóquio, essa mudança é algo que me alegra profundamente, pois é o legado de meu pai sendo deixado nas mãos da próxima geração de competentes.


— Você fez uma incrível mudança nesse lugar Jun, eu estou realmente impressionada com seu empenho em manter o legado de meu pai.

— É um prazer ser escolhido por ele, apesar do atual problema de nossas famílias eu devo dizer que me sinto honrado pela concessão dele.

— Agora eu quem deveria ficar surpreso, sua presença ilustre, quando seu pai me avisou ontem eu mal acreditei que iríamos enfim nos encontrar, — o vejo transitar de sua mesa para a máquina de café. — eu costumo acreditar apenas naquilo que meus olhos podem ver e quando eu vi você na mesa não acreditei.

— Eu admito que ando meio sumida do mundo moderno. — devolvo o sorriso. — Isso me faz lembrar do passado, você sendo um adolescente nada convencional para seu tempo e que do nada foi embora, mas que retorna agora como o diretor de sua antiga escola.

— Tem razão, eu jamais poderia imaginar tal posição. Porém, a confiança de seu pai é algo que me motivou a tornar possível tal passo.

— Jun, sabe, esse cargo de diretor combina com você. Mesmo que tenha saído da escola foi um grande aluno, o melhor aluno no arco é flecha na época e sem dúvidas o melhor presidente do conselho estudantil.

— Não é para tanto, o nome em primeiro nos murais é o seu.


Dou um passo à frente, pelo olhar caridoso sou agraciada e com um gesto de calor meu corpo é envolto em seus braços largos, ele ficou mais forte, diferente do menino que me recordo.
Desfaz o toque e logo sua mão viaja em direção à minha franja, afaga meus cabelos com seu toque suave. Lembro deste seu hábito de fazer isso por eu sempre ser baixa demais, certas coisas realmente não mudam.

Sento-me diante de seu olhar, de minha presença se afasta tomando proximidade da máquina ao fundo da sala mais uma vez. O apito sonoro desperta minha visão e logo o vejo retornar carregando as canecas em mãos um par de cabeças.


— Lembro de quando costumava estar sentada aqui, a maioria era por razões erradas.

— Sempre teve um ímpeto para ir atrás de coisas novas e suas aventuras. Por isso não me admira que tenha tantas recordações desta sala.

— Infelizmente muitas vezes cometi tal erro, chega a ser engraçado.

— Agora que está diante de mim, concordo com os rumores, parece preparada para assumir, entretanto, fica evidente o estado de saúde debilitado.

— Apenas palidez. Nada de tão grave.

— Espero que sim, não falta muito para você ser nomeada. — esse seu sorriso mudou tanto, se não fosses amigos diria que está me cantando como fazia com outras. — Mais cedo seu pai havia me contado sobre essa possibilidade, gostei de ver os rumos que está tomando.

— Acredito que posso dizer o mesmo, sinto que estou fazendo algo que realmente desejo após muito tempo.

— Bom que esteja gostando, sabe que não terá muito tempo para o pessoal não é? A instituição consome todos, se estiver em um relacionamento será difícil equilibrar ambos.

— Não estou então guarde suas preocupações quanto a isso.

— Soube que sua mãe está mal, da última vez em que fui visitá-la ela havia dito que você andava longe.

— Eu ainda não fui visitá-la, pretendo ir em algum momento após o evento. Mas deixe de lado isso, quero saber quais coisas mudaram.

— Muita coisa mudou, se estiver curiosa pode vir comigo. Posso te mostrar para aonde vai orçamento que seu pai aprovou futura presidente.

— Aceito.


Energético é seu sorriso tão luminoso, ele mudou tanto que não consigo reconhecer aquele menino tímido que vivia aí dentro.
Guiada por seus passos fui seguindo por corredores vazios e estantes carregando a nobre honra de estudantes do passado desta escola, pelo quadro dos melhores da escola passamos e o mesmo sempre me traz dois pensamentos distintos.

Por um lado acho válido a ideia deste quadro por justamente estimular competição entre os mais inteligentes e aqueles que almejam algo maior, entretanto também servem de âncora aos sonhos e geram desconforto naqueles que apenas desejam seguir estudando sem apressar as coisas... não sei se existe um pensamento correto, porém, são às duas ideias que veem em minha mente nesse momento.

Caminhos por alguns clubes vazios e por fim nossa última parada, o lugar onde conquistei minha maior glória nesta escola. Na área exterior o local onde disputei minha competição mais importante e o lugar em que descobrir algo sobre minha essência que desconhecia até aquela tarde.


— É maior, na minha época era um espaço bem menor.

— O investimento valeu a pena, o clube de arquearia é um dos mais visados pela alta taxa de competições durante o ano e seus famigerados pontos extras, fora a oportunidade de competir para ingressar na equipe olímpica.

— Na minha época não tinha tanta facilidade assim, realmente o tempo passa e certas coisas ficam melhores que o esperado.


Seu olhar muda, viso o local que desperta agora sua atenção e no mesmo uma jovem de cabelos cumpridos, sem perder seu foco tensiona a corda e em seu soltar a seta viaja atingindo as proximidades do ponto vermelho em seu centro. Esse olhar baixo... entendo esse olhar de frustração, carreguei muitos até chegar no pódio e jogar as nacionais.


— Katsumi, não deveria estar aqui agora.

— Eu sei, peço desculpas, mas ganhei a liberação do professor para treinar.

— As provas finais começaram logo, precisa estar pronta, fora que ano que vem teremos o nacional e você precisa estar com a média boa para competir.

— Vou manter minhas notas boas, também irei entrar na turma em uma turma avançada, eu sei disso. — essa falta brilho em olhos tão jovens, se assemelha um pouco comigo naquela época. — Peço licença para trocar-me.

— Pode ir.


De cabeça baixa segue seu caminho indo de encontro a porta, algo me diz que essa garota carrega algo diferente das comuns e essa expressão nos olhos de Jun fazem trazem essa confirmação... talvez seja válido manter os olhos nela.


— Quem é aquela garota?

— Katsumi Taniguchi, é uma das alunas que carrega a melhor nota entre todas as escolas.

— Lembro de seu nome no mural dos cem alunos, outro aluno daqui também está no mural.

— Sim, Akechi Mitsuhide, ele ocupa a primeira colocação na classificação dos cem melhores alunos da instituição Minamoto. É uma joia que bem lapidada terá um futuro brilhante.

— E pensar que este colégio teria dois alunos muito importantes.

— Porém ambos são estranhos digamos assim, Akechi parece não viver fora de sua bolha sobre estudo e Katsumi é uma aluna complicada.

— Gênios tem seus problemas.

— Claro, mas algo me diz que ambos passam por problemas que não conseguem superar.

— Cabe a você como diretor buscar soluções, confie em seu potencial, sei que pode resolver.


Fito seu olhar por uma última vez antes de focar na imagem da flecha.


— Bom preciso ir embora, tenho que passar no hospital para resolver alguns problemas.

— Tudo bem, mande um "olá" para a Nori caso encontre ela.

— Aviso ela.


Seu sorriso é a última imagem que guardo antes de sair deste lugar cheio de novidades e pessoas diferentes. Sigo para meu carro e pelo seu olhar sou recebida, entrego em suas mãos a chave do carro e sento no banco carona.
Estou cansada e entendiada, seguimos pelas ruas e pouco tempo depois cá estamos nós dois diante do maior hospital desta montanhosa cidade.

No segundo andar paro diante de sua sala de consulta, ao meu lado essa tensa presença, Kazui se preocupa mais com minha saúde do que eu mesma, esse seu olhar sem expressão sempre me pega de um jeito estranho.
Ela é a incógnita que eu estranhamente me sinto tentada em resolver quando nem mesmo minhas questões consigo resolver, eu apenas queria entender melhor ela e quem sabe deixar de ser rancorosa de maneira excessiva.


— Fez a escolha correta, enterrar você não é uma escolha que eu deseje executar, tão pouco acredito que nosso pai gostaria... obrigado por trazer ela Kazui, tentar conversar com ela é difícil.

— Eu sei o que passa, também tenho essa dificuldade.

— Gosto de pensar que essa evasão dela é algo que torna meu trabalho mais trabalhoso ainda, fora que seria irracional fingir não ver sua doença enquanto eu posso ajudar.

— Agradeço seu empenho Nori, duas mentes juntas funcionam melhor. Naomi pode não gostar dessa ideia, porém eu adoro.

— Que bom! Aprecio seu entusiasmo Kazui, o seu também Naomi, finalmente enxergou que a única coisa que vai te manter viva é o tratamento corredor.


Deito-me sobre a cama hospitalar... essa sensação será como uma descida ao inferno, não importa como eu veja esse procedimento ele sempre será ruim e desconfortável. Após minutos de conversa e preparo o pequeno tubo é introduzido em minhas narinas, desconfortável é o seu avanço, mas tem o movimento parado. A suave vibração do vácuo anuncia o sugamento de secreções.
Estes são os minutos mais infernais que alguém pode viver enquanto porta essa doença, maldita sejam as águas de inverno daquele dia... com o final dos minutos infernais sou obrigada a soprar o tubo como um exercício respiratório por mais algum tempo... tedioso como eu disse.
O livramento enfim chega interrompendo tais procedimentos violadores de nariz ou exercícios tediosos de respiração aos quais tanto odeio devido o tempo necessário para sua realização.


— Seus níveis de secreção diminuíram, fazia tempo que não realiza o procedimento de aspiração... espero que compreenda que ele é importante para você continuar viva.

— Ela tem razão Naomi, é importante que mantenha em mente esse detalhe. A cada semana faremos de duas a três aspirações, por você levar tempo para acumular secreção acredito que teremos um resultado melhor.

— Será tedioso, mas não irá morrer e isso é o que todos querem, — vejo um sorriso em seus lábios, deprimente. — de qualquer forma apresentou melhores resultados e isso que importa no momento.

— Lembrei de algo, Jun mandou um oi.

— Não mude o foco da conversa.

— Também conhece o diretor da escola?


A vejo fechar seus olhos, achei onde seu desconforto ataca.


— Se acabaram de falar podem ir embora, estão liberados.

— Olhando o relógio é? Vai sair com ele? Não sabia tem interesse dele. Amor a primeira vista?


Antes que eu pudesse dizer algo mais o travesseiro acerta minha face, então ela não é tão fechada quanto eu imaginei. Eu sabia que algo seria importante para ela, porém não imaginava o que seria esse algo.


— Já que está perdendo energia com piadas ruins deveria ir ver sua mãe. Ela está neste mesmo andar, não iria demorar.

— Não, — retiro o travesseiro de meu rosto. — dispenso o convite.

— Por que não? Algum motivo em particular para isso?

— Não tenho interesse nisso.

— Espero que quando ela morrer você não incorpore uma mulher frustrada pela perda da mãe.

— Não irei.


Tomo o levantar desta cadeira como opção, no final ainda somos bastante diferentes para entrar em um consenso quando se trada daquela mulher a quem devo respeito. Seguro a maçaneta, não vou negar que parte de mim, uma pequena parcela quase inexistente espera por seu retorno como mãe, entretanto, eu odeio precisar admitir isso perante meus pensamentos. O toque em meu braço, pronto, receberei outro sermão de alguém que nasceu pouco tempo antes de minha existência. Viro-me encarando seu olhar, quando mais próxima percebo como esses olhos são bonitos, o verde musgo, sua íris é perfeita ao ponto suprir sua falta d e elegância... a tese de que os olhos são por muitas vezes para o coração nesse caso não é mentir.


— Tenho um tempo agora, horário de almoço, vamos aproveitar e almoçar juntas.

— Oi?

— Não é surda Naomi, você entendeu o que eu disse perfeitamente. Fora que pela cara eu imagino que o Kazui prefira descansar ao invés de ser sua babá.

— O que leva você a acredita que eu irei?

— O estômago roncando mais cedo? Ou quem sabe o fato de você não ter mais nada para fazer aqui?

— Tudo bem, você tem o ponto, porém não entendo o motivo de desejar almoçar comigo.

— Não pretendo te matar ou algo do gênero caso esse seja seu maior temor no momento, apenas aceite de uma vez a caridade.


Abro a porta da sala e seu olhar mais recluso é aquilo que percebo diante de mim, a luz ressoa em sua íris revelando a cor semelhante à pedra de jade, o desgarrar dos lábios revela a claridade tímida da coloração rosada que percorrer seus pequenos lábios.
Sua pele parece brilhar em contato com a luminosidade acima de nossas cabeças, suponho que esteja no ápice de sua jovialidade inconstante, o olhar estreito marcado pela vida e a beleza do semblante risonho, todas essas qualidades aliadas da beleza de seu cabelo na altura de seus ombros, em seu mais belo e suave tom natural. Então essa é você atualmente? Continua bela para alguém que cresceu neste fim mundo que chamamos cidade natal.


— A última das irmãs surgiu — sua voz mais tímida ecoa por meus ouvidos, mais um caso como Nori. — faz tempo desde que veio para casa, pensei que não voltaria mais.

— Não gosto deste lugar. Evito ele sempre que possível, porém, desta vez não pude.

— Assim como mal gosta de nossa mãe presumo eu, — em outro momento certamente revidaria, mas dadas as circunstâncias apenas acho curioso. — de qualquer forma eu não vim por você.

— Bom, pois também não vim atrás de você. Não espere esse tratamento.

— Vocês duas são um saco. Podem para com essa discussão sem sentido, Kazui pode deixar comigo agora.



Cortando meu espaço o vejo cruzar a porta sendo recebida pelos olhares do projeto de adulta, é curioso como ela mal cresceu e pensa que pode ser atrevida.


— Eu tenho algo para resolver, vou te mandar o endereço do lugar onde irei ficar assim que chegar.

— Tudo bem.


E assim se foi partindo para o elevador, agora somos apenas nós três uma diante da outra... eu realmente não queria precisar lidar com este encontro agora. Um desperdício de tempo para algo sem sentido.

Sem questionar apenas segui o rumo que ambas levam, pela calçada caminhamos e poucos passos depois do hospital chegamos a um tradicional restaurante e pelo aroma, tonkatsu, o roncar de meu estômago entrega para ambas minha maior vontade... às vezes seria bom se tivéssemos controle absoluto sobre nossos corpos, eu conseguiria esquivar dessas situações um tanto quanto constrangedoras.
Sentamos a mesa e após pedir nossos pratos o silêncio permeia o lugar, o olhar da mais jovem recai sobre mim... que merda eu fiz da minha vida quando aceitei vir com elas, se sairmos vivas daqui podemos dizer que o milagre que nosso pai tanto espera ocorreu.


— Armou tudo isso Nori? — reclina-se no assento, e ainda me dizem que sou desconfiada de tudo. — Você, eu e Naomi juntas. Apenas acredito que isso seja sua armação.

— Quem dera, mas não, porém é bom que isso ocorra afinal somos irmãs antes de qualquer coisa.

— Odeio ter que concordar com você Nori, mas está certa.

— Agora que percebi, está vestindo algo que não seja um pijama. Parece que finalmente superou o término.

— Hum? — um homem? Desde quando minha irmã tem interesse nesses assuntos. — Pensei que você não gostasse deste assunto Nana, lembro que não gostava de lidar com homens.

— É contínuo pensando assim.

— Ou você que se apaixona fácil demais? — Nori a fita, na minha perspectiva ambas são ruins para esse assunto. — Na minha visão você é muito nova por isso se enrola demais com as próprias emoções.

— Não consigo julgar — tomo um pouco da água em meu copo. —, apenas acho estranho que vocês duas se importem com isso agora.

— Você não pode julgar mesmo, até porque é a única divorciada aqui, mesmo que tenha acabado ainda houve um casamento.

— Nori tem razão, mal ou bem você ainda casou Naomi. É um passo a frente de nós duas, mesmo que saibamos das consequências desse casamento.


O silêncio volta a mesa e em cada olhar percebo o desejo por trás, então essa é a sua vertente, quer saber por que tudo acabou... faz sentindo já que eu nunca contei para elas.


— Pode não parecer, porém quando eu soube da verdade fiquei preocupada. Não é sempre que sua irmã se torna alvo de agressões domésticas e vai parar nos jornais.

— Está no passado.

— Nana tem razão, podemos não ser o exemplo de união familiar, entretanto, foi bem comum a reação de espanto quando todos nós soubemos do ocorrido envolvendo aquele homem.

— Tudo isso está no passado de qualquer forma, não é nada que eu deva recordar agora.

— Naomi, me responda com sinceridade, — o olhar mais escuro recai sobre o meu. — voltou para evitar um escândalo maior não foi?

— Eu já sei o resultado da investigação, porém não é o motivo pelo qual eu voltei..., na verdade, não sei o motivo pelo qual voltei.

— Você pode até dizer que não se importa e demonstrar essa postura mais forte — Nana me fita com seu olhar mais vivido. — porém eu sei que você sentiu dor, está marcado em seus olhos, não pode mentir para sempre, Naomi.

— Tem certeza disso?

— Tenho.


A presença em seu olhar é algo novo que remete aquela pequena fagulha que conheci quando decidi sair de casa. Ela cresceu mais do que eu imaginava, se tornou uma mulher forte apesar de ser facilmente coagida por palavras.
Essa sua afirmação, quando paro percebo o quão correta está, não em sua totalidade, porém possui sua veracidade em partes. Saber que eu quase morri não é um fato que eu esteja disposta a encarar sempre, mesmo que eu tenha concordado em pagar tal preço pelo topo ainda me assusta pensar que ali poderia ter sido meu final.


— Como ficaram sabendo? Por nosso pai ou pelo noticiário?

— Nosso pai, lembro que na época ele disse que daria um jeito tirar você dos focos, mas logo vazou para o jornal. — é incrível pensar que a Nori demonstrou interesse neste caso. — Goste ou não, mas era inevitável não se preocupar.

— Entendo. Não julgo ponto.

— Antigamente eu acreditava que nenhum homem poderia encostar em você, por isso quando vi a notícia fiquei chocada. — até mesmo Nana parece diferente quando fala, que pensamento mais infantil. — Foi estranho lidar com essa nova realidade.

— Aqueles laudos são reais caso essa seja sua dúvida, nem mesmo eu sei como consegui me mover e bem... vocês sabem.

— Esqueça esse assunto, não é confortável debater ele à mesa. — Nori desvia seu olhar para a porta. — Fora que ninguém além dela vai compreender a dor, apenas esqueça Nana. Você ainda é nova demais para compreender certas coisas Nana.

— Talvez não seja sobre ser nova ou velha demais, eu conheço minhas irmãs bem o suficiente para ver quando não estão bem.

— (...).

— Naomi, Nori, às duas podem possuir suas idades mais avançadas e até mesmo um conhecimento maior que o meu nesse momento..., mas não podem esconder os sentimentos que guardam aí dentro. Cada uma de vocês duas carrega mágoas difíceis de lidar, podemos não ser íntimas como um dia fomos, porém, eu vejo.


Pela primeira vez em anos posso dizer que fui calada por palavras, essa é a minha irmã mesmo ou apenas uma alteração anormal da mesma? Agora que percebo, ela calou a Nori também, essa é a atual fase de Nana então, quando foi que ela deixou de ser mais imprudente e evoluiu para algo bom... essa família é algo estranho demais para tentar explicar com palavras simplistas.


— Espero que um dia possamos voltar aquele estado.


Entre nós três uma barreira foi colocada há muito tempo, logo após aquele inverno eu decidi sair de casa e viver com o Kazui fora do país e meses antes daquela viagem eu recebi a visita desta irmã mais velha... não vou mentir, gostei de saber que eu teria alguém, porém saber que nosso pai traiu minha mãe era doloroso e eventualmente eu acabei descontando minhas frustrações nela.

Nana apesar de ser nova acabou virando meu refúgio antes da viagem e certa vez ela disse desejar ser como nossa mãe, eu fiquei com raiva e simplesmente acertei seu rosto com uma tapa. Lembro até hoje de suas lágrimas frias, após tudo isso eu apenas fui embora, ignorei às duas e nossa mãe até agora.


— Me desculpa. — digo recendo a atenção de ambas. — Pretendo dizer apenas uma vez então escute, desculpem minha imaturidade e falta de zelo por vocês duas... eu fui uma péssima irmã.


Salva pela comida, antes que pudessem dizer algo à comida é deixada sobre nossa mesa, agradeço unindo as mãos e diante dos olhares perdidos mordisco o lombo de porco e seu molho... pelas suas caras eu tenho certeza de que não vão conseguir dormir está noite.

Após o almoço deixo a mesa por um instante seguindo para o lado de fora do estabelecimento, próxima da entrada paro para respirar um ar diferente e sem o pertinente cheiro de comida. Não costumo passar por aqui, mas aquele lugar ao lado da biblioteca, será um restaurante inusitado para se montar neste lugar tão isolado.
"Kataomoi"... que nome inusitado para um lugar onde as pessoas normalmente comem, mas ele é bonito de jeitinho diferente, parece familiar de alguma forma que não consigo recordar.

Por entre as nuvens de chuva o sol surge brilhando em seu pôr alaranjado, esse brilho incandescente quase tão belo quanto a lua me lembra uma pintura que comprei para recordar a imagem que carregava de você naquela época... uma chama tão forte que nem mesmo mil escuridões poderiam te apagar.

O brilho ilumina meu rosto, esse calor é aconchegante, e pensar que eu teria um dia monótono se não fosse por essa vinda até o hospital... reencontrar pessoas pode ser legal, mas essa conversa com às duas pessoas que compartilham de meu sangue, melhor, conversar com minhas irmãs é algo que estranhamente aquece meu peito, talvez eu realmente esteja morrendo para dizer tais coisas tão pegajosas.


— Acredito que eu realmente gosto de matar o tempo com vocês duas... espero que possamos repetir isso em outro momento.


Afasto-me dá mureta, pela primeira vez sinto que posso ser sincera comigo mesma depois de muito tempo tentando e falhando. Esse lugar é tão pacato e ver essas pessoas na rua se movendo em direção às suas casas, talvez agora eu entenda o motivo de muitos desejarem permanecer neste lugar tão distante do moderno que pouco a pouco cresce nesse país... acho que posso dizer que este pacato trouxe um aprendizado que eu não poderia ter absorvido em melhor momento.

Dou um passo em direção a entrada e por algo sou abalada, o trombar de nossos corpos leva minha postura à inexistência provocando o balançar de minha estrutura. O soprar dos ventos leva aos meus olhos a fina camada poeira, por ela minha visão se ausenta trazendo com sua ausência a cegueira, seu toque é quente e tão familiar, sinto suas mãos em meus braços e graças à sua ajuda consigo manter-me inteira mesmo que a postura inclinada não seja das mais confortáveis.

Busco a abertura de meus olhos e por eles sou fito seu rosto quase oculto pelas sombras que a esfera solar provoca em suas costas. Se eu fosse citar esta certamente seria a maior das peças que meu destino poderia articular contra minha existência tão confusa e cansativa.
Raptada pela essência de seu perfume sou conduzida as sensações mais eloquentes que um frágil coração poderia ter diante desta presença.
O loiro platinado percorre seus ombros e pelos ventos se mostram esvoaçantes, essa cor traz ao seu semblante uma aura que instiga toda e qualquer existência à se aproximar de seu encanto, encanto este que parece tão forte, questões como lugar, hora e noção são meramente ignoráveis quando tudo que seus olhos podem ver é este brilho incandescente.

Minha mente parece perdida, não, ela está perdida diante dela e toda essa beleza que eu mal conseguia recordar... beleza que tive tanto medo em relembrar, tudo parece tão calmo e distante da realidade que nos rodeia.


— O-obrigada.


O frio na espinha gela meu corpo que perante a coloração ametista de sua íris perde-se no meu mundo de devaneios, a fraqueza se espalha como um vírus e logo minhas pernas cedem aos tremores. Em seu apoio busco a estabilidade e por seu abraço sou envolvida, eu sinto que estamos atraindo olhares desnecessários, porém não possuo forças para sair de seu toque... eu não quero... sair.

Meu coração parece correr contra algo que desconheço, esse sentimento de calor que sobe por meu peito, eu não entendo, eu tento e tento, mas nada vem a minha mente conturbada.
Esse nervosismo. Esse frio na barriga. O que houve comigo? O que você fez comigo?
Eu não sei, não consigo controlar a mim mesma, tenho medo? Receio ou aflição? Essas perguntas tão vazias ao mesmo instante em que estão tão cheias de sentimentos... tudo que consigo compreender é que não possuo forças diante de sua existência.

O desgarrar de seus lábios tão belos é uma imagem que desejo guardar para sempre em minhas memórias. Se pronunciaram algo admito que não consigo escutar a melodia de sua voz, eu admito que tudo aqui dentro está bagunçado.


— Naomi, — escutar o meu nome... sinto minha respiração oscilar. — faz algum tempo. Não é mesmo?

— Sim, — busco seus olhos e tudo que recebo é o desviar deste encontro. — bastante tempo.


É estranho como tudo parece rodar de maneira mais lenta, soa como se estivéssemos em nosso próprio mundo... nosso próprio domínio onde ninguém além de nós duas pudéssemos adentrar.
Piso em falso e novamente sou socorrida por seu cálido abraço, nossos olhares, estamos tão próximas uma da outra. Até mesmo o ritmo de seu coração eu consigo ouvir, sentir, tudo é tão intenso que mesmo que se resuma ao abraço.

Fito seu olhar, o descompasso em meu peito, apenas de olhar para ela eu sinto que as coisas não vão bem comigo... eu sinto a saudade aumentar, desde aquele dia eu não consegui esquecer de tudo que envolve seu ser.
Busco na face e da mesma retiro a mecha platinada que persiste em atrapalhar sua visão, o rubor que percorre as maças de seu rosto é tímido e, em simultâneo, tão encantador.


— Me desculpa pela cena. — desvio meu olhar fitando suas mãos tão delicadas.

— Está tudo bem, — o timbre suave que transparece calmaria, é reconfortante de uma maneira única. — entre nós duas tudo pode acontecer não é?

— Tem razão, até mesmo o impossível se torna possível.


E com sua risada contagiante eu pude sentir algo inexplicável, nem mesmo se eu conseguisse explicar teria sentido. Essa confusão que permeia minhas tempestuosas emoções são enigmáticas demais para poderem fazer sentindo em poucas palavras.

Minúsculas são gotículas de água que tocam minha pele, sinto o frio de cada uma que de pouco em pouco se transforma em chuva.
Abaixo deste céu tenho diante de mim a visão mais celestial que poderia, eu não sou de demonstrar, mas estar diante dela quebra toda e qualquer regra que eu possa criar.
Não existem lógicas ou o mais simplista ato de pensar, apenas de estar diante dela eu vejo meu mundo se transformar em algo que os anos de estudo que passei para dominar palavras não servem de nada quando não podem nem mesmo decifrar esse ímpeto cálido que percorre minha estranha essência.

Os rigorosos ventos de outono puxam-me para a realidade desta vida e por eles sinto minha fraqueza esvair. Seu olhar se mostra distante agora que estamos mais afastadas, hoje eu fiz coisas estranhas em momentos estranhos... eu estou morrendo, essa é a única explicação possível para tantas coisas ocorrem ao mesmo instante.


— Se recuperou... que bom não ter se ferido.


A mania comum que nunca perdeu, desconcertada busca os fios rebeldes prendendo-os atrás de sua orelha... agora que paro para observar, aquele bracelete, a flor-amarela. Eu lembro dele, lembro como se fosse ontem.


— Naomi.

— Mãe.


Ágil são seus passos e em poucos instantes a menina de cabelo escorrido, tão escuro quanto a noite, tem seu andar cessado ao lado de Murano, tem os olhos da mãe.
Agora que testemunhei com meus próprios olhos... nossos mundos mudaram, não somos mais duas garotas no ensino médio, droga, me sinto péssima agora por demonstrar emoções apenas por estar diante de você, Murano.

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