Capítulo 2: Bombardeio, Vida nos Estados de Exploração

Will

6h12 AM

Estado de Exploração Tressla, domínios de Arcádia.

Quando amanhece em Tressla, um dos Estados de Exploração de Arcádia eu estou acordado e a fome já corrói meu estômago e domina minha mente, mas a imagem de Lair muito debilitada deitada na cama ainda assim sorrindo permanece em minha cabeça e isso me dá forças para continuar golpeando a parede branca à minha frente, golpeio ritmadamente ignorando o cansaço de todo meu corpo e a lancinante dor da fome.

Um repentino corte na palma de minha mão começa a sangrar, a fecho com mais força no cabo de madeira e golpeio mais uma vez desferindo o que resta de meu vigor, uma pedra grande se desprende da parede e cai aos meus pés, então toda a mina treme como em um terremoto, todos param o que estão fazendo e ficam quietos.

Na ausência do trabalho braçal e tendo como a única iluminação a luz vermelha das velas a câmara parece muito sinistra, a luz é o suficiente para eu apenas poder ver as silhuetas dos mineradores, então surge no silêncio o som de um golpe, o estalo do metal batendo contra a rocha, ele ecoa por todos os túneis, todos esperam e então aos poucos voltam a trabalhar, pego novamente a picareta com as duas mãos e também retomo o trabalho, ainda tendo que encher mais quinze carrinhos-baú e eu não posso parar por qualquer tremedeira ou não conseguirei atingir minha cota do dia.

Mais algumas batidas e a mina volta a tremer, agora as madeiras de sustentação que seguram o teto rangem querendo ceder e ouço um estrondo vindo da parte sul das cavernas e a terra desliza sobre os garimpeiros, ouço muitos gritos de dor e desespero e quero ir ajudar os feridos, mas não posso, então finjo que não consigo ouvir os gemidos e gritos de dor e volto a bater a picareta nas pedras, tentando abafar o som com meus golpes.

Logo consigo encher o último carrinho e deixar a mina, hoje doze pessoas se feriram levemente e continuaram trabalhando, três morreram e muitos ainda estão soterrados entre as pedras, quero ficar e ajudar a resgatá-los, mas como muitos eu não posso.

Peso na balança da usina minha última carga e recebo cinco notas como recompensa pelo meu trabalho. Quando estou deixando o pátio da usina meu amigo me alcança, ela acelera o passo para me acompanhar.

- Você me deu um tremendo susto cara, eu não vi você sair da mina, achei até que tinha sido soterrado.

- Não dessa vez. - minha voz soa melancólica ao pensar em todas as pessoas que morreram assim ou perderam seus familiares com o garimpo, mas Jin acha engraçado e dá risada.

- Como está a saúde da sua irmã?

- Igual.

- Que bom. - é um milagre que ela não tenha piorado ainda, o Siruss rapidamente evolui e tornasse cada vez pior. - Tome. - diz ele me estendendo uma nota como havia prometido.

- Você tem certeza que não irá fazer falta?

- Sim, meu pai e eu conseguimos sempre mais do que usamos e sempre sobra uma nota, você também precisa mais que eu. - não quero pegar o dinheiro que ele trabalhou arduamente para conseguir, mas ele tem razão, eu realmente preciso muito.

- Sabe que algum dia vou te devolver isso.

- Veja como um presente meu para a Lair.

- Obrigado.

Assim que agradeço nos separamos, ele volta para a fila de pagamentos para ficar com o pai e eu vou para o mercado, troco quatro notas, inclusive a que o Jin me deu por um comprimido do Soro Sigma para a Lair e as outras duas por alimentos, o suficiente apenas para hoje.

O sol já está no auge do céu quando eu chego à casa que moro com a Lair desde que nossos pais morreram e o dia já está muito quente. A exaustão está em cada célula de meu corpo, mal consigo continuar a andar, desejo apenas me deitar e dormir, mas não posso, Lair precisa muito de meus cuidados.

A casa era muitíssimo pequena quando o mundo ainda não era tão ruim, mas agora parece uma mansão se comparada às demais, há dois quartos, cozinha, sala e banheiro, mas todos estão muito vazios, parece até que os donos se mudaram já que quase todos os móveis que eram de madeira eu tive que usar para manter a lareira acesa e nos aquecer no inverno. Há apenas metade de um armário, uma mesa de metal e uma churrasqueira na cozinha e a cama da Lair de frente para a lareira na sala.

Rasgo um pedaço da manga de minha camisa já muito remendada e rasgada e a amarro em minha mão cortada para esconder o corte que fiz enquanto eu trabalhava, então destranco as diversas fechaduras que instalei na porta para manter a Lair segura e quando abro a porta vejo a Lair sorrir para mim. Ela está sentada na cama me olhando com enormes olhos brilhosos.

- Will... - é visível a felicidade dela em me ver, acho ela tão bonita quando sorri, ela fecha os olhos e destaca suas bochechas redondas e seus dentes muito brancos.

Mesmo estando doente e sua pele muito pálida seus lábios continuam muito vermelhos como o de nossa mãe. Por outro lado seus cabelos já estão completamente brancos por causa da doença. Eu já vi muitos casos assim, todos já viram, quando todos os fios de cabelo se tornam uniformemente brancos a pessoa tem apenas mais um ano de vida. Limpo a mente, eu não posso pensar desse jeito, mesmo que nunca tenha acontecido e o Siruss seja uma doença terminal tenho que acreditar que juntos nós iremos superar isso.

- Como foi o trabalho hoje?

Ela continua a sorri, mesmo estando doente e nossa vida sendo um verdadeiro inferno Lair sempre sorri como se nada mais no mundo importasse, apenas nós dois estarmos juntos.

- Foi bom, está cada vez mais fácil, acho que é por que estou me acostumando. - minto, na verdade foi um inferno, ninguém nunca acostumará a trabalhar doze horas por dia quebrando pedras e carregando peso no calor infernal de baixo da terra.

A única coisa que consegui com isso foi cansaço, muitos calos, machucados, um pouco a mais de músculos e dores, isso porque sempre tive a sorte de não ser soterrado em um desabamento como acontece com muitos, mas ela não precisa saber de nada disso, só o que importa é que enquanto eu fizer isso ela terá o que comer e isso já é o bastante para eu suportar qualquer coisa, é tudo que preciso para viver.

- Você parece muito cansado irmão. - observa ela, Lair sempre foi minuciosa e detalhista e por isso é muito difícil esconder as coisas dela.

- Eu estou bem. - minto novamente, não quero que ela se preocupe comigo e por isso sempre finjo ser muito mais forte do que realmente sou e eu sou muito bom nisso, mas mesmo assim ela sempre se preocupa.

Aproximo-me dela, mas não a toco, eu não quero sujá-la com o que trouxe das ruas ou da mina.

- Você se feriu?

- Não foi nada, vou tomar um banho, tá?

Ela balança a cabeça assentindo, deixo as sacolas na mesa e vou para o banheiro pegar o balde pensando que terei que pegar água lado de fora, mas ao entrar vejo que ainda há um pouco de água na banheira. Antes de sair deixei água quente e mandei a Lair tomar banho, disse que ela poderia usar toda a água, mas não fez isso e deixou um pouco para mim. Meu peito se enche de ternura por ela se preocupar tanto comigo.

A água obviamente está gelada já que eu a esquentei ontem e está um pouco branca com sabão do banho da Lair. Eu tomo um banho rápido e retiro toda terra que estava em meu corpo. Lavo as roupas que uso no trabalho e para poder tocar na Lair visto as de casa, são roupas impecavelmente limpas e novas assim como eu sempre mantenho as da Lair.

Saio do banheiro e coloco as roupas para secar, dentro de casa mesmo, elas são peças muito velhas e são praticamente farrapos, mas isso não impede de a roubarem e se isso acontecer eu não terei com o que trabalhar.

Abro as embalagens de comida e as coloco na churrasqueira, há muito não temos mais combustível, eletricidade e gás então quebro nossa última cadeira para acender as chamas e poder aquecer nossa única refeição que terá que ser o suficiente como nosso almoço e janta.

Como faço todos os dias a deixo esquentando e vou pegar um pouco de água da cisterna no quintal, ultimamente tem chovido muito pouco e por causa dos constantes bombardeios a água da chuva sempre tem gosto de metais.

Volto para dentro de casa, encho o cantil da Lair, encho nosso único copo de água e dissolvo o Soro Sigma, ela faz uma careta horrível ao toma-los, mas ela não reclama por nenhum momento, eu nunca a vi reclamar de nada. Volto para a cozinha e encho novamente o copo e tomo em um único gole, estava morrendo de sede, sei que agora posso ficar mais um dia sem beber água que não morrerei desidratado por isso e então encho uma última vez para a Lair tomar enquanto come.

Nesse meio tempo a comida já está quente. Na embalagem da comida pronta que o governo vende há uma pasta marrom feita de feijão e carne e um pouco de uma massa branca que eu não sei o que é, acho que ninguém sabe, é isso e um pão, como não é em quantidade suficiente nem para a Lair eu coloco metade do meu para ela e volto para a sala.

- Fica com uma parte da minha. - pede ela estendendo a embalagem de papel alumínio para mim, sei que está morrendo de fome, mas assim como eu faço todos os dias ela quer ser altruísta e se sacrificar para o meu bem estar. - Você é maior e precisa ficar forte para trabalhar.

- Não precisa, estou bem.

- Mas eu estou doente, não vou...

- Pare de pensar desse jeito. - a repreendo lhe interrompendo, mas não sou rude, sei que ela queria dizer que não viverá muito e por isso eu posso comer sua comida, não quero que ela pense desse jeito e nem que sofra. Eu me aproximo dela e sento-me ao seu lado, então passo um braço por cima de seus ombros e a abraço. - Por isso mesmo, você precisa comer bastante para ficar forte e se recuperar.

- Certo. - diz ela novamente com um sorriso no rosto, mas eu queria que esse sorriso fosse mais feliz.

- Ultimamente tem vindo mais comida. - comenta ela enquanto comemos.

- É mesmo. - desde que o governo reduziu a quantidade de comida eu tenho dado uma parte minha para ela e digo que como a outra metade durante o serviço, Lair parece nunca ter suspeitado disso, mas está cada vez mais difícil vivermos com tão pouco, sinto tanta fome durante a madrugada quando estou trabalhando que parece que eu vou morrer de tanta dor no estômago, no entanto eu trabalho tranquilo por que sei que ela está dormindo tranquilamente, segura, quente e sem sentir fome, é reconfortante saber que ela não passa por tudo que eu passei e que não sente tudo que eu senti.

Eu jamais permitirei que isso mude, ela já tem nove anos, mas sempre será meu bebê e eu a manterei em segurança não importa quanto tempo se passe e ela nunca irá entrar em uma mina para ser escravizada.

Conversamos por pouco tempo, não temos muito que falar, mas o principal motivo é que depois de passar a madrugada toda trabalhando eu estou exausto e morrendo de sono e ela sabe disso. Se me pedisse eu ficaria toda a tarde acordado lhe fazendo companhia e iria trabalhar mais doze horas sem dormir, porém ela faz o oposto, ela deseja que eu descanse mesmo isso diminuindo nosso tempo juntos e nosso convívio, pelo menos assim ela fica menos preocupada comigo.

Deito-me no chão e me enrolo em meu cobertor, por estar no meio do dia está muito quente do lado de fora, contudo ignoro completamente isso e logo consigo dormir, um sono bem pesado devido ao cansaço.

Acordo com um som alto e estridente o reconheço imediatamente, já ouvi esse som tantas vezes, tenho tanto medo dele, é o som de uma sirene, soando tão alto sobre toda a cidade, no entanto o meu medo não é dele, mas sim do que ele nos alerta.

Não temos tempo para nada, logo chega a nós o som alto da esquadra de aviões sobrevoando nossa casa e começam os estrondos das bombas explodindo as ruas, as casas e as pessoas.

Eu me levanto em um sobressalto e vou até a Lair, ela está encolhida em sua cama chorando de medo, assim como a mim ela reconhece os sons de um bombardeio, foi como a mamãe morreu pouco depois do papai ir para a guerra.

Encolho-me com ela e a abraço. Não temos um lugar seguro para nos escondermos. Praticamente todo o dia Altair nos bombardeia e apenas por causa do apoio de outras nações ainda resistimos. Normalmente as esquadras de aviões chegam de madrugada para pegar todos dormindo, mas agora atacaram cedo, estão cada vez mais frequentes.

A cada bomba que atinge o solo a casa treme como se estivéssemos em um terremoto e isso leva muito tempo até passar, quando tudo está ficando calmo novamente e as bombas menos frequentes, há uma explosão muito próxima e metade da casa desaba.

Chego a pensar que seremos soterrados ainda vivos pelas paredes e pelo teto, mas alguns cômodos resistem.

Estamos em guerra há dez anos porque Arcádia é uma das pouquíssimas nações ainda rica e mesmo após a decadência do mundo ainda tem muitos recursos naturais necessários na metalurgia e por isso muitos cobiçam nossos estados de exploração pelo que eles oferecem mesmo cada um deles não sendo nada, apenas algumas casas antigas e um mercado livre em meio a um deserto sem fim com centenas de minas que foram abertas quando a Grande República tentou criar cidades subterrâneas. Não temos florestas ou rios como os setores de Altair, mas temos matérias-primas que são vitais para a indústria.

Logo o bombardeio para, ainda ouço a esquadra de aviões, mas está ficando cada vez mais distante, até que fica tão baixo que o som da sirene se sobrepõe e não posso mais ouvi-los. Quando a Lair está mais calma levanto-me e ando pela casa que está muito destruída, as paredes foram rachadas, a escada desabou e o teto se sustenta em uma parede que parece querer ceder, não há a mínima possibilidade de continuarmos morando aqui, mesmo que não desabe completamente sozinha a casa não resistirá a outro bombardeio.

Onde era a cozinha agora é um buraco que dá para a rua, não apenas a nossa casa, mas toda a vizinhança está destruída e há destroços por todo lado, casas desabadas e ruas esburacadas, o bairro está praticamente irreconhecível em meio aos escombros, vejo algumas pessoas tentando encontrar feridos para resgatá-los e uma gigantesca coluna de poeira tensa ainda paira no ar como a Tempestade Siruss após os bombardeios virais de Altair sobre alguns estados de exploração ou bairros periféricos de Iroh.

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