Único: Tudo que pode dar errado

"Wabi-Sabi, me tire, me tire daqui
Wabi-Sabi, me deixe, me deixe perto
Eu gosto de tudo que está errado em você
Eu gosto de tudo que você não faz"

Wabi-Sabi - The Ting Tings

Havia aquelas luzes vermelhas e azuis piscando por toda parte. Havia ambulâncias e viaturas. Havia Harry James Potter sentado com um garoto que, mesmo depois de xinga-lo e usar sua voz determinada e poderosa para gritar sob o efeito do mais puro terror nas últimas horas, segurava sua mão com firmeza, completamente perdido e desesperado por um porto seguro, por algo que o tirasse daquelas luzes. Um lugar para descansar seu corpo e sua mente cansada.

Eles estavam sentados no banco frio e solitário do hospital, era tão tarde, provavelmente passava das quatro horas da manhã. Harry não sabia, sua mente tinha simplesmente desistido de continuar pensando sobre tudo ao redor de si, em um profundo estado de choque que até tinha demorado a chegar e, assim que chegou, o atingiu com toda força que possuía. As pupilas mirando os ladrilhos brancos, nenhum som em todo o seu redor. Nem passos, nem respirações.

Havia sangue nos seus punhos e um corpo em coma em uma das salas daquele hospital.

Um homem uniformizado, muito provavelmente, o policial encarregado do caso, não parecia tão chocado quanto os dois garotos. Na verdade, parecia bastante tranquilo, um pouco estressado talvez - mas isso devia ser uma consequência da idade. Pacientemente, perguntou:

- Qual dos dois vai me explicar o que aconteceu?

Draco Malfoy o olhou, pela primeira vez naquela noite, completamente vulnerável para Harry Potter. Seus olhos azuis e perdidos como o de uma criança, desesperados e cheios de emoções conflitantes entregues apenas para si. E ele entendeu e prosseguiu:

- Eu vou.

"É somente outra segunda-feira maníaca
Eu gostaria que fosse domingo
Porque é meu dia divertido
Eu não preciso passar o dia correndo"

Manic Monday - The Bangles

- Você já sabe qual vai ser o seu conceito pra aquele trabalho lá? - Ronald Wealsey, com seu exorbitante prato de almoço, perguntou de boca cheia enquanto olhava fixamente para Harry Potter, seu melhor amigo. Eles estavam em uma conveniência de quinta categoria que se localizava perto do prédio da faculdade que cursavam, mais ou menos umas duas ruas de distância. Harry estudava fotografia e Ron arquitetura. E assim como todos os outros universitários comuns, eles não tinham muito dinheiro para gastar. Logo, refeições de um dólar em lugares de procedência desconhecida se tornavam bastante atraentes.

- Comer de boca cheia é nojento e mal educado, Ron. Você tem quase vinte anos e não cinco, ew. - Hermione, com uma careta, se pronunciou. Ela estava fazendo faculdade de física e se encontrava obcecada com algum livro entupido de teorias das quais faziam o cérebro de Harry pifar na primeira linha. Ron engoliu a comida, parecendo nem um pouco envergonhado.

- Meu tema é diversidade. Eu quero fazer um ensaio que mistura a natureza e a diversidade de pessoas. Vou pedir ajuda para a ONG de apoio a pessoas LGBTQ+ que a Luna participa em busca de pessoas interessadas em modelar por uma tarde. Ela acha que pode ser de grande ajuda para arrecadar mais doações. - Instituto Beaux, era o nome da ONG, a qual tinha o objetivo de fornecer cursos em diversas áreas para as pessoas. Luna Lovegood, sua amiga, fazia parte de uma oficina de artes como ajudante de uma das professoras - o que combinava demasiadamente com sua personalidade criativa e expansiva.

- Isso é uma excelente ideia! - Hermione sorriu, gentil. - Confesso que não esperava um tema tão delicado quanto esse vindo de você. Suas fotos sempre são meio...

- Depressivas, cara. Parece aquelas fotos de destroços de guerra ou sei lá em preto e branco. Sempre são simples e assimétricas e sei lá. Quietas e ao mesmo tempo desesperadoras. Você querer fazer algo colorido e diverso é novidade. - Ronald deixou seu bife e legumes de lado por um tempo, o observando de olhar arregalado. - Você está ficando doente.

- Eu gosto de me inspirar no conceito Wabi-Sabi, por isso que elas são tão quietas. Sabe, existe beleza na simplicidade, na imperfeição. Por isso minhas fotos mais antigas são assim. - Harry deu um sorriso pequeno, ele adorava falar sobre seu trabalho. - Mas, todo bom artista tem que sair da zona de conforto de vez em quando, então...

- Fala a verdade, sua professora te deu um puxão de orelha e você não quer ficar de recuperação nessa matéria. - Ron interrompeu e logo depois começou a rir quando o garoto jogou uma batata frita no seu rosto, meio zangado consigo por ter lhe entregado sem dó.

- Honestamente, vocês dois... - Hermione revirou os olhos, parecendo alheia a imaturidade deles, contudo, internamente se divertindo. - Vocês também receberam o convite da Ginny?

Harry ouviu a bufada audível do ruivo sardento a sua frente e se segurou para não rir. Ginevra - ou melhor, Gina, caso você não queira apanhar de uma ruiva de meio metro muito irritada - Weasley é a irmã caçula de Ron e que, assim como ele, até o ano passado detestava um certo grupo de adolescentes muito ricos, os quais estudavam em uma faculdade particular não muito longe do centro. Eles eram famosos no Instagram, mal falados nas ruas e um deles era vizinho de apartamento de Rony. Eram conhecidos por suas festas extravagantes e por acabar com o sossego dele e de todos os outros do prédio.

Então, de repente, Gina tinha ficado muito amiga de uma das garotas do grupo. Era uma tal de Pansy Parkinson, a qual cursava moda e era uma das menos quietas de todos eles. Ela tinha um comportamento ácido em suas redes sociais, gostava de dar sua opinião como quem gosta de atirar gasolina no fogo apenas para ver chamas queimando. Extremamente bonita com seu cabelo escuro curto, cílios longos e roupas de marca - Ronald gostava de dizer que era para disfarçar sua falta de personalidade. Mas Harry estava evitando julgamentos alheios com base em absolutamente nada, ele confiaria na opinião de seu melhor amigo, claro, mas Ronald estava tirando suas opiniões diretamente do seu ódio. Ele nunca havia nem visto pessoalmente o rosto de Parkinson, quem dirá ter alguma conversa.

Ronald Weasley tinha nascido com oitenta e cinco anos nas suas costas, tornava-se rabugento e corcunda - talvez esse último possa ser atribuído às suas milhares apostilas, todavia, deixamos isso em aberto - e definitivamente não precisava ouvir ela cantando mal alguma música da Britney Spears em um karaokê com outros cinquenta estudantes às três da manhã. No volume máximo em uma caixa de som vagabunda. Como ele sabia que se tratava de uma caixa de som vagabunda? Ah, aquele chiado maldito, ele conhecia aquele maldito chiado.

O convite tinha sido uma mensagem os chamando para mais uma dessas festas, bem direta e sucinta como era a própria Gina Weasley:

DÁ DEZ PASSOS PRA DIREITA QUANDO CHEGAR NO APARTAMENTO DO RON, ÀS NOVE HORAS. - Enviado às quatro da manhã, segunda-feira.

E a reação de Rony fez Harry pensar que ser direto e sucinto era uma coisa de linhagem sanguínea:

- Eu devo ter atirado pedra na cruz e depois enfiado na bunda pra merecer uma coisa dessa.

- Ou feito um pole dance. - Harry adicionou, bem humorado a sentença do melhor amigo. Hermione deixou uma risada curta escapar, fechando seu livro pela primeira vez desde que chegara ali. Ela tinha pedido um sanduíche de atum, o qual tinha sido comido em três bocadas sem nem ao menos saborear. A garota visivelmente tinha sua prioridade em outro lugar - o que deixava Harry e Rony com vontade de arrancar seus cabelos de preocupação. Ela precisava mesmo relaxar, não importava que prova ou teste estivessem vindo por aí.

Hermione Granger decidiu que gostava de surpreender as pessoas:

- Acho que eu vou nessa festa.

Ronald Weasley piscou incrédulo, como se suas pálpebras fossem asas de borboleta.

- Até tu, Brutus?!

- Também queria saber o porquê disso. Você costuma dizer que festas são uma perda de tempo. - Harry indagou, brincando com a beirada de seu suéter marrom, ele não parecia tão surpreso assim.

- E eu ainda acredito profundamente nisso. Mas eu quero fazer um experimento envolvendo a Lei de Murphy durante essa festa e ver o que acontece.

- Lei de Murphy? Traduz, por favor. - O ruivo perguntou, colocando mais uma garfada de comida na boca.

- Tudo o que pode dar errado, vai dar errado. Se você passar a manteiga em um lado do pão e ele cai no chão, o lado que cair sempre será o que estiver com manteiga por cima.

- Eu acho que esse Murphy só era um pouquinho pessimista demais. - Harry deu uma risada baixa. - Qual o lance das pessoas de exatas que elas são tão céticas?

- Te darei a resposta no instante em que você me responder o porquê dos artistas serem tão emocionados. E tão gays.

- Olha, eu não sou emocionado. E também não sou gay, eu sou bi. Respeite a sexualidade alheia, Mione.

- Oh, claro que não é emocionado. - Hermione deu risada. - Harry, estamos com você desde que você era criança. Lembra de quando seus pais contaram pra você a história de como se conheceram pela primeira vez? E, principalmente, de como você ficou uma semana falando de que provavelmente era assim que você conheceria o amor da sua vida? Tenho certeza que você ainda pensa assim.

- E como ele não pensaria? - Rony se intrometeu na conversa. Aqueles dois... A prova viva de que todo casal saudável tinha como base falar da vida alheia e fofocar. Mais provas de que a verdadeira idade de Weasley se encontrava na casa dos oitenta. - Todo almoço e jantar lá em casa tem o tio James contando de como ele não desistiu da tia Lily mesmo que ela tivesse falado que não sairia com ele nem se ele fosse o último homem da terra. E você sabe como nós temos muitos almoços e jantares lá em casa.

- Ok, talvez eu seja um pouquinho sensível. Mas, tipo, todo mundo ao meu redor viveu um grande romance. O Sirius fugiu de casa pra se casar com o Remus. A Molly foi pedida em namoro na torre Eiffel com direto a uma banda marcial tocando no fundo. Vocês viveram um romance desde que eram criancinhas... Até a Ginny! A Ginny pediu a Luna em namoro no meio de uma parada LGBTQ+, com um carro de som! Eu tenho uma família praticamente perfeita, como não ficar feliz e emocionado com tudo isso?

Hermione semicerrou os olhos, parecendo curiosa. Muito possivelmente analisando e produzindo uma teoria ou lógica muito complicada, a qual apenas fazia sentido para ela e somente ela.

- Talvez, a história mais emocionante e completamente dramática esteja guardada pra você. Opostos se atraem. Quem seria o seu completo oposto?

- Um mafioso! - Ronald interviu, parando uma garfada de purê de batata na metade do caminho até sua boca.

- Oh, espera, além de um artista emocionado vocês também acho que eu sou tipo, um garoto bonzinho? - Harry abriu a boca, pronto para provar o contrário. Ele era um garoto alto, forte, a pele negra e brilhante, com olhos verdes misteriosos que sempre encantava a todos que conhecia. Todos diziam que ele tinha um ar sério, meio estoico mas muito, muito bonito. Harry, por causa de suas expressões mais fechadas, sempre acabava se passando por um garoto rebelde. E mesmo que ele fosse um doce de pessoa, ele gostava da fama de garoto contra a humanidade. - Sabe, eu acho que sou um pouco ácido demais as vezes pra isso.

- É, tem razão... Em alguns momentos. Nós lembramos de você saindo mais cedo do colégio por ter um comportamento muito inadequado em sala de aula quando ainda estávamos no ensino médio. - Ron finalizou seu prato, o afastando de si quando terminou. - Não que eu esteja criticando, eu amava cada resposta que você dava pro Snape, aquele velho seboso.

- Sabe quem realmente seria seu oposto, Harry? - Hermione começou, Harry ergueu uma sobrancelha, divertido. - Um completo idiota. Tipo, não um mafioso ou uma pessoa cruel. Você é tão gentil, confiante, bom e impulsivo. O seu oposto seria alguém metido, tão arrogante que chega a quase ser um babaca patético. Inteligente e obstinada mas muito, muito vaidosa e insegura. O tipo de pessoa que todos odeiam e que odeia a todos, mas, você, conseguiria ver dentre todas as imperfeições dela e se apaixonaria perdidamente. Por que é isso que você faz, Harry. Você vê a beleza nas coisas.

- Hermione, isso foi lindo. Wow, eu tô... - Harry começou, Ron parecia encantado, observando sua namorada falando com um brilho nos olhos. Se Harry transmitia uma energia mais fechada, ela era o contrário. Ela tinha a pele retinta, sempre usando roupas claras que a fazia se ressaltar. Casaquinhos em tons pastéis, o cabelo volumoso e crespo sempre preso por presilhas coloridas. A davam um ar sutil e gentil, o completo oposto da sua força e energia de quando falava sobre um assunto que gostava mas, o qual também fazia jus ao seu lado mais carinhoso. Hermione fez um sinal com o dedo indicando que não tinha terminado de falar e continuou:

- Todavia, analisando esse fatos e indo pelo caminho da lógica e da probabilidade, as chances de você encontrar seu cara certo é menos de zero, vírgula, zero, zero, zero, zero, dois por cento. Ah, e nesses dois por cento ainda tem a chance de alguma catástrofe acontecer com vocês ou vocês nem ao menos se apaixonarem, vocês podem acabar se odiando. Emoções humanas são sempre um fator estável e uma margem de risco.

- Sabia que você estava sendo muito romântica, essa é a Hermione que eu conheço. Fria e calculista. - Disse Harry, com a voz carregada de ironia.

- Eu não sou fria. Mas, sabe, eu trabalho com fatos e teorias com embasamento. Sua vida amorosa é comprovadamente terrível e as teorias vindas disso tem resultados ainda piores. Quero dizer, a garota que você namorou por seis meses se descobriu lésbica e terminou por ligação.

- Você falando assim faz a Ginny parecer uma pessoa terrível e que partiu o coração dele. - Ronald disse, prendendo um riso. - E todos nós sabemos que ele queria esse término tanto quanto ela. Tipo, você lembra de como ele ficou completamente corado só com um olhar daquele tal de Cedrico, o garoto de educação física?

- Eu nem estava preocupado com a minha vida amorosa tanto assim, mas, wow, vocês acabaram comigo. No aniversário de namoro de vocês vou fazer questão de fazer um PowerPoint só das brigas ridículas que vocês dois tem a cada cinco dias na semana.

- Nós não brigamos tanto assim... - Ronald interviu, um pouco rabugento, Granger cruzou os braços o olhando. - Tá, já calei a minha boca.

Potter deu uma risada meio alta, bebendo um pouco da água que tinha comprado. Hermione estava completamente errada, ele nunca que era alguém tão profundo para amar alguém como ela descreveu: um bastardo caótico.

Era difícil achar alguém que chamasse atenção dos seus olhos de retratista, não intencionalmente obcecados por imperfeições.

"Eu amo a todos porque eu te amo
Eu não preciso da cidade e eu não preciso de provas
Tudo que eu preciso, querido
É de uma vida com o seu formato"

Strawberry Blond - Mitski

Harry Potter não morava mais com os pais. Não porque eles queriam, por Lily e James, Harry continuaria eternamente com onze anos de idade. Aquela energia ingênua e adorável das crianças, as bochechas gordinhas, a facilidade na convivência.

Mas Harry gostava de ter seu próprio espaço. De ser independente. Ele trabalhava como garçom de meio período na cafeteria de seus tios como gerente, vivia completamente do seu salário, em um apartamento pequeno que, basicamente, consistia da sala integrada com a cozinha, um banheiro e uma escada que levava a uma parte superior, a cima da cozinha, onde ficava seu quarto. Tinha uma estética limpa e o ambiente estava sempre iluminado por conta das enormes janelas, as quais cercavam uma de suas paredes, dando espaço para uma pequena varanda. Está a qual ele, influenciado pelos seus tios, começou a encher de plantas. Portanto, durantes suas tardes mais tranquilas, quando ia molha-las, sempre aproveitava para observar aquele mesmo garoto, o qual dançava graciosamente sob o terraço de um prédio cinza logo ao lado do seu.

Ele sabia que aquele terraço pertencia a uma academia de dança mas, nunca pesquisou sobre, nunca se deixou levar pela curiosidade, portanto, sabia absolutamente nada sobre. Eram apenas alguns minutos em completo transe, ele mal conseguia discernir as feições do garoto. Apenas seu cabelo loiro balançando no ar, a música completamente deixada de fundo e seus passos firmes e graciosos tomando todo o protagonismo.

Talvez fosse por isso que as plantas de Harry acabavam morrendo mais rápido do que deveriam. Elas sabiam que não tinham chances em competir por atenção com o dançarino ao lado. Ou, o mais provável, Harry se esquecia completamente delas até mesmo quando sua hipnose passava e com aquele calor escaldante, o garoto ganhava o prêmio de pior pai de planta do universo.

Quando ele fechou a varanda, vendo que já estava escurecendo, ocupado com a tranca, não percebeu quando Draco Malfoy desligou seu som, olhando admirado para a janela ao longe. Intrigado para saber quem era o dono daqueles cachos e olhos bonitos.

"Verde como passe livre
Isso é tudo que eu sei
E quando eu saio, estou no controle
Não importa o que eles dizem"

Get Dat - Rayelle

- Draco Malfoy, você é um grande bastardo caótico filho da mãe idiota e que se não fosse meu melhor amigo, eu já teria te jogado em um tanque cheio de tubarões a muito tempo. - Pansy Parkinson praticamente gritou, ela estava saindo do banheiro do apartamento e dando passos firmes até a sala, uma toalha em suas mãos secando o cabelo furiosamente, fazendo seus fios se assemelharem a um porco espinho. Ela usava uma camiseta muito grande e muito velha de alguma banda underground, a qual, muito provavelmente, nem ao menos pertencia a ela.

Draco, por outro lado, estava impecável como sempre. Em pé atrás de um balcão de mármore, preparando um pouco de café na cafeteira elétrica. Seu cabelo comprido e loiro caindo como uma cascata pelos seus ombros, usava uma calça de pijama preta e uma camiseta branca de algodão que abraçava seu torso de forma perfeita. Ele apoiou o rosto na palma da mão e ergueu uma sobrancelha.

- Eu não fiz porra nenhuma.

Pansy largou a toalha de qualquer jeito sob os ombros, indo se sentar em um dos banquinhos que ficavam rente a bancada.

- Você convidou a Ginny pra festa, seu traíra. - Draco se afastou do balcão, indo pegar algumas xícaras no escorredor ao lado da pia. A cafeteira apitou, indicando que estava pronto, ele começou a servi-los. Pansy na xícara que dizia #1 BEST LESBIAN FRIEND e Draco na xícara que dizia #1 BEST GAY FRIEND, ambas com a mesma tipografia preta. É, eles eram cafonas de vez enquando. - Você não podia ter feito isso, seu loiro oxigenado.

- Não fala do meu cabelo. - O garoto fechou a cara. Ele colocou a jarra de café de volta na máquina e deu um gole do conteúdo em sua xícara. - Eu não entendo o porquê de você estar reclamando. Você gosta da Ginny!

- Sim, Draco, exatamente. - Pansy bateu com as mãos no balcão, chamando a atenção dele. Ela tinha seus olhos arregalados como os de um desenho animado. - Eu gosto-gosto dela.

- Tá... - O loiro continuava com uma expressão suave. - E ela gosta-gosta de você.

- Eu não sei se a faculdade de dança acabou com seus últimos dois neurônios mas, me escuta bem, ela NAMORA. Ela tem uma NAMORADA. Ela não vai largar com tudo por minha causa. - Pansy suspirou, batendo com a testa no mármore e enterrando os dedos nos seus fios molhados. - Isso não vai dar certo.

O loiro deu um sorrisinho de canto.

- Mas... Você sabe que a Luna também gosta-gosta de você.

- ...Dray, não... Isso, isso não vai dar certo.

- Por que não? Elas não são exclusivas, você sabe disso. Elas gostaram de você, você gostou delas. A única coisa que te impede de continuar é essa sua teimosia.

- Não é uma teimosa é só que... - Pansy levantou o rosto suspirando, desviando os olhos. - Eu me sinto insegura. E se elas enjoarem de mim ou verem que eu não sou a pessoa que elas pensavam que eu era? Eu nunca me senti assim!

Malfoy suspirou.

- Pans, você não precisa se sentir assim. Eu sei que você não teve muitos relacionamentos...

- Nenhum, para ser mais exata.

- Mas, não é tão difícil assim. Você tem que respirar fundo e deixar as coisas acontecerem. É assim que as coisas funcionam, não é? Você vai vivendo elas, não fugindo delas.

- Soa meio hipócrita você falar qualquer coisa sobre não fugir. - Pansy, irritada, não controlou sua boca, se arrependendo no minuto que disse isso, mas Draco apenas parou por um instante e agiu como se nada tivesse acontecido no outro. Internamente magoado, talvez, nas sua amiga nunca saberia.

- É diferente. Eu fugi porque eu justamente queria poder viver. - Draco terminou seu café em uma golada só, se virando em direção a pia para lavar a louça.

A garota de cabelo escuro comprimiu os lábios, meio culpada.

- Desculpa eu... - Ela enterrou o rosto nas suas mãos. - Eu vou tentar fazer isso funcionar. - Draco não respondeu mais nada, então, ela tirou as mãos do rosto. - Ele já tentou te ligar?

- Meu pai não ligaria pra mim nem se eu sofresse um acidente de carro. - Draco suspirou novamente, mas não demonstrava tristeza em sua voz, ou raiva, parecia muito mais indiferente do que qualquer outra coisa. Não que Pansy confiasse em suas reações, ele era alguém difícil de se compreender. - Lucius deixou bem claro que não quer um filho gay e dançarino. Ou melhor, um filho com opinião própria.

Os lábios da garota se franziram em uma linha reta e descontente. Ela caminhou em sua direção e o abraçou em uma tentativa de transmitir algum conforto.

- Acho que se minha mãe ainda estivesse aqui ela conseguiria fazer ele mudar de ideia. Sabe, ela sempre estava ajudando todo mundo, doando para instituições, sendo uma mulher incrível... Eu a admiro tanto.

- Não pense nisso...

- Tudo bem. Eu estou bem. - Draco sorriu, bagunçando o cabelo dela. - Mas chega de conversa triste! Precisamos nos encontrar com Blaise no shopping. Eu quero comprar algumas coisas e você sabe como eu não suporto filas.

- E atendentes te oferecendo cartão, e aglomerações, e pessoas e... Espera, por que nós ainda vamos no shopping mesmo?

- Cala a boca. - Draco revirou os olhos e saiu do seu aperto, começando a caminhar em direção a um dos quartos do apartamento. O qual não era não grande, contudo, era perfeito para uma pessoa morar. Draco usava e abusava da herança de sua mãe, Narcisa Black, cuja conta fora a única que Lucius não conseguiu fechar quando ele fora expulso de casa. Como o número ali estampado era demasiadamente extenso, ele conseguia levar uma vida bastante confortável e até um pouco extravagante quando lhe batia a vontade.

O último som que ele ouviu antes de fechar a porta de seu quarto para se trocar foi a risada de Pansy, escandalosa e desajustada. Exatamente como ela. Exatamente como o som que o fazia se sentir em casa.

Não que ele fosse alguém de declarações.

"Será que eu vou passar no teste?
Você sabe o que dizem
Os loucos não tem descanso
Você pode ter meu coração, em qualquer lugar, a qualquer hora"

Trouble - Cage The Elephant

- Se existisse um deus da parada gay, ele com toda certeza, seria você agora. - Blaise Zabini, o amigo deles que cursava engenharia, tinha raspado o cabelo e pintado de rosa - o que contrastava perfeitamente sua pele negra - usava uma jaqueta estilo Bomber em tons de azul e um sorriso largo e divertido. Ele era lindo como uma visão do paraíso.

Draco, para quem o comentário tinha sido direcionado, não segurou sua risada. Era verdade. Seu visual tinha sido completamente baseado em tons neons. Delineados coloridos se encontravam nas suas pálpebras e escorriam por causa do suor e vibravam por conta da falta de luz do apartamento. Ele usava uma camiseta branca com estrelas coloridas bordadas nas bordas e uma calça preta, juntamente de um sapato plataforma holográfico. Pansy tinha tirado diversas fotos dele antes da festa começar para postar em sua conta. Ele era o anfitrião, ele quem gostava de estar mais chamativo.

- Vou levar isso como um elogio. - Respondeu. Puxando seu amigo pela mão para dentro do apartamento. O som era alto, brusco, violento. Atingia seu corpo e te obrigava a se mexer conforme o ritmo. Havia tantas pessoas ali, tanta movimentação, tantas luzes coloridas. Blaise logo encontrou seu lugar nos braços de estranhos e na risada alta.

- Ele abandonou a gente, mas já?! - Parkinson falou um pouco alto para que Malfoy pudesse ouvir. Ela segurava três garrafas de Heineken em suas mãos, pronta para dividir entre eles. Draco deu uma risada alta.

- Você sabe como ele tem um parafuso a menos quando participa de uma festa. - Se aproximou do ouvido da amiga, para que não precisasse abusar tanto de sua garganta para ser ouvido. - Mas eu acho que sei quem gostaria dessa bebida.

Ele assistiu o rosto dela ficar sério, seus olhos circundados por cílios postiços gigantes piscaram algumas vezes e ela somente balançou a cabeça várias vezes confirmando.

- Eu vou lá! - Draco reagiu com um "Isso!" Bem alto como resposta e ela continuou repetindo - Eu vou lá... Eu vou lá... - durante todo o caminho onde Luna abraçava o pescoço de Ginny, sendo rodopiada no ar pela namorada.

O garoto sentiu um calorzinho crescendo em seu peito quando a assistiu de dando bem com as duas garotas. Ele caminhou até a porta de entrada, indo ver se mais alguém tinha chegado e se surpreendeu quando viu rostos novos ali parados. Com toda certeza não faziam parte de seu círculo social. Draco Malfoy conhecia cada rosto que era filho, sobrinho e neto de burguês daquela cidade e nenhum daqueles três pertencia a nenhuma daquelas classificações.

- Oi, eu sou a... - A garota foi cortada rudemente por um grito ao fundo, Draco reconheceu como sendo Ginny.

- SÃO MEUS AMIGOS! DEIXA ENTRAR! DEIXA ENTRAR! - E ela ria como se nada importasse, talvez fosse a bebida, talvez fosse algum alucinógeno, talvez fosse somente ela sendo ela. Não importava muito, na verdade.

- Hermione. - A garota terminou de dizer. - Esses são Ron - Ela apontou para o garoto ruivo em roupas verdes tom camuflagem ao lado dela. - e Harry. - Ela apontou para o garoto negro, usando roupas monocromáticas. Draco engoliu em seco. O garoto ruivo parecia um pouco ranzinza, mas completamente livre de perigo. Hermione parecia um doce de garota mas Harry... Harry...

Tinha algo encantador nele. O jeito que seus olhos verdes não saiam de cima de si, de como pareciam surpresos de certa maneira - Será que eles já se conheciam?

Draco Malfoy ignorou tudo, sorriu e os deixou entrar.

"Você quer tomar um copo da terra prometida
Você tem que limpar a sujeira de suas mãos
Cuidado, filho, você tem planos de sonhador
Mas vai ficando difícil de suporta-los"

Soldier - Fleurie

Harry Potter estava voltando para casa. Deviam ser umas duas e meia da manhã e a teoria de Hermione em relacionar Murphy com jovens drogados tinha dado muito certo, o que ela apenas não contava era que si mesma também fazia parte da equação. Então, ela em algum momento tinha perdido seus sapatos - eles estavam na mão de Weasley - e a sua dignidade - a qual não estava com Weasley, esta tinha ficado junto com seu vômito na calçada, bem ao lado do pneu do carro do Uber. Ela definitivamente era fraca para bebida e iria se arrepender completamente no dia seguinte, quando o sol aparecesse, juntamente de sua ressaca mortífera.

Ele decidiu não atrapalhar o casal e começou a caminhar pela madrugada, tentando encontrar por um motorista que estivesse disponível a essa hora. Quando viu que o próximo chegaria apenas em meia hora, bufou, a temperatura estava na média fria e morrer congelado. Ele com certeza não queria passar tanto tempo ali. Resolveu andar mais um pouco, talvez chegar na próxima quadra e ver se assim conseguia um carro mais próximo.

Ele enfiou as mãos frias no bolso da sua jaqueta jeans. Todas aquelas estrelas brilhando sob si. Ele começou a ter aqueles pensamentos sem sentido que apenas pessoas na linha tênue entre o sóbrio e o bêbado tem. Naquele garoto de cabelo rosa realizando uma performance magnífica de um pop muito chiclete com uma outra garota de cabelo preto. De como Ginny e Luna distribuíam beijos no rosto dessa mesma garota um tempo depois, em um canto, abaixo de uma luz arroxeada. Ele lembra de muitas pessoas contando os shots que Hermione bebia na cozinha, a encorajando a beber ainda mais. Ela sendo carregada como uma rainha por todas aquelas pessoas em direção o centro da festa, as luzes brilhando sobre seu corpo como se estivessem em um ritual e ela fosse uma deusa.

Ele lembra de dançar com aquele garoto loiro. Ele tem quase certeza de que seu nome é Draco Malfoy, não, ele tem completa certeza disso. Ele, sob toda aquelas luzes, com todo aquele brilho, envolvia seu corpo como se estivesse o enfeitiçando e extasiava sua mente cansada para que acompanhasse seus movimentos. Ele era tão parecido com o garoto que dançava no térreo. Só que seria muita coincidência, não é?

- Você é viciante. - Ele tem certeza que Draco disse isso em seu ouvido, suave, alto.

- Você ainda nem me beijou para dizer isso. - Harry aproximou seus rostos. - Por que você é tão intrigante?

Ele respondeu com um beijo, apressado, faminto. Como se ambos quisessem ceder e não ceder ao mesmo tempo, ritmos tão estranhos que pareciam uma batalha. Era bom, muito bom. Tinha gosto de cerveja e Ice de limão. Algo amargo, cítrico e delicioso.

Ele sabia que continuaria com isso. E iria mais e mais fundo, até que não houvesse mais música alguma além deles repetindo seus nomes como em uma oração. Mas, quando Harry encontrou o quarto de Draco, ele não estava mais lá.

Ele não estava em lugar nenhum.

E foi aí que as coisas pareciam muito mais apressadas e sem sentido. Alguém gritou sobre a vizinhança ir chamar a polícia por causa do som alto e então alguém disse que precisava correr porque tinha maconha no banheiro. E muitos outros entãos, coisas sem sentido acontecendo e todo mundo já estava indo embora dali. Ronald Weasley estava furioso, todavia, sua preocupação pela namorada bêbada evitava dele pensar em qualquer outra coisa se não levar ela para casa em segurança. A mente de Harry repetia em seu subconsciente como um mantra: Onde ele está? Onde ele está? Onde ele está? Até o ponto em que percebeu que o loiro deveria ter tido alguma emergência ou simplesmente não queria ter nada consigo de verdade e só estava tentando se livrar de sua pessoa. Que idiota, pensou.

Sua visão periférica encontrou a sua esquerda, a exatas uma atravessada de distância, uma pequena mercearia vinte e quatro horas - a gigantesca placa neon em sua frente não deixava mentir. Tirou as mãos do bolso e decidiu entrar, sedento por um pouco de água fresca. Conferiu se ainda tinha algum dinheiro no bolso e milagrosamente ele tinha algumas notas. Sorriu para si mesmo e decidiu atravessar.

Apesar do letreiro chamativo, aquela rua era bastante escura, uma casa de distância e ele não conseguiria ver nada. Entretanto...

Harry ainda conseguia ouvir. E muito bem.

- Você está errado. Você sabe que envergonha o seu pai! Eu me recuso a deixar uma criatura nojenta e derrotada como você...

- Você não sabe absolutamente nada sobre mim! Você é um idiota, um canalha. Quem pensa que é?

- Ah, eu vou te mostrar quem eu sou.

Existia um motivo para seus amigos, Hermione e Ron, o considerarem uma boa pessoa. Harry simplesmente não conseguia ficar parado vendo algo dando errado. Assistir sem fazer nada alguém se machucar ia contra toda a sua natureza - um maldito complexo de herói. Quem poderia culpa-lo? Além de sua preposição a ajudar tudo e a todos, tinha um de seus piores defeitos para melhorar - ou piorar - tudo; sua impulsividade.

- Larga ele, agora! - Praticamente rosnou, um homem visivelmente mais velho tinha suas mãos atracadas na garganta de alguém. O sangue de Harry ferveu. Mas tudo que o homem fez foi apertar mais e mais.

Harry não estava pensando quando ele se jogou em cima daquele homem, quando, subitamente, eles estavam em uma briga fervorosa. Harry queria apenas imobiliza-lo, tempo suficiente para chamarem a polícia ou que o garoto contra a parede - cujo rosto ele nem teve tempo de analisar - pudesse fugir, mas não foi isso, nem de longe, o que aconteceu. Aquele homem estava irritado, via Harry como seu saco de pancadas particular e tentava acerta-lo o máximo que podia. Potter podia ser ágil, porém, não o suficiente para desviar de todos os seus avanços, algumas joelhadas tinham sido dadas em seu estômago e quando não aguentava mais, ele deu um soco forte no rosto do outro, fazendo com que seu nariz provavelmente quebrar, por conta do sangue em seu punho e que escorria no queixo alheio.

Ele se afastou e o homem também. Harry continuou de pé mas o outro não, em vez disso, o estranho caiu, batendo com a traseira de sua cabeça no chão, bem em cima de uma pedra.

E seu peito subia e descia, ofegante, desesperado, aliviado, tudo se misturando com a adrenalina em seu corpo.

Mas ele não via os mesmos movimentos naquele corpo estranho ao chão. Ele não via nada, absolutamente nada vindo do outro corpo.

Em vez disso, ele os via em Draco Malfoy, seu acompanhante, cujo desespero reluzia em seu olhar assustado, tanto quanto as marcas de mãos em seu pescoço. Os lábios do loiro tremeram de medo e o coração de Harry apertou.

- Ele está morto? - Sua voz foi como um sussurro. Só que nem um pouco bom, não. Foi como uma navalha.

Harry foi honesto.

- Eu não sei.

"Oh, estou uma confusão agora
Virado ao avesso
Procurando por uma doce rendição
Mas esse não é o fim"

I'm a Mess - Ed Sheraan

- Bom, vocês aparentemente tem bastante sorte. Ele não está morto mas vai ficar um bom tempo desacordado. Talvez uma concussão cerebral, olha, eu não sei ao certo. Mas, eu já vou te adiantando, garoto, se você não tiver como provar que estava tentando se proteger, nós vamos ter que...

- Fazer o que?! - A voz de Malfoy, pela primeira vez até então, se sobressaiu. Ele parecia feroz, irritado. - Eu tenho marcas de agressões! Eu quase morri e esse cara só estava tentando me ajudar! Se você estivesse um pouquinho, só um pouquinho mais disposto a fazer seu trabalho saberia que tem a porra de uma câmera naquele beco, vinda da mercearia. Você pode comprovar e ter toda a certeza do mundo que as vítimas nessa história toda somos nós! Não aquele nojento, desgraçado e homicida naquela cama!

- Olha, agora, garotinho, eu estou fazendo apenas o meu trabalho. Seu... Seu amiguinho aí, tentou tirar a vida de um homem que é inocente até que se prove o contrário.

- Você ouviu o que eu acabei de dizer ou é naturalmente um puto ignorante?!

O polícial estava com seu rosto ganhando três tons a mais de vermelho raiva. Harry apertou a mão de Draco, como se pedisse por calma de uma maneira silenciosa, ele estava acostumado com pessoas duvidando do seu caráter. Ele sabia como lidar com isso.

Mas ele não precisou, em vez disso, um outro homem apareceu ao lado do policial. Alto, feições absurdamente similares às do loiro ao seu lado - embora muito mais duras, retas, como se ele carregasse o peso e a angústia do mundo em suas costas - e nem um pouco suaves como as de Draco. Mas bastante imponentes e sérias para serem consideradas de um Malfoy.

- Oficial, com sua licença, porém, acredito que o jovem Potter esteja sendo completamente honesto em sua versão dos fatos. Seus subordinados estão esperando com uma cópia da gravação das câmeras na cafeteria do hospital, recomendo analisar isso de forma justa antes de prestar qualquer tipo de queixa ou dar razão, como Draco muito bem disse, um homicida.

- Achei que Tom Riddle fosse um de seus clientes mais fiéis, advogado. - Lucius respirou fundo antes de responder.

- Minhas linhas de contrato não fazem parte da sua ossada, oficial. Tenha uma boa noite. - Praticamente cuspiu as palavras, o policial acatou sua revidada a contragosto e deixou os três sozinhos. Lucius se virou para o filho, com a testa franzida. - Draco, não sabe o quão decepcionado eu estou com você.

- Sim, pai, é claro que eu sei. Você disse a mesma frase semana passada quando me expulsou de casa. - O garoto revidou, frio. Potter sentiu-se como um intruso. Ele não deveria estar assistindo aquela lavação de roupa suja, não fazia parte da família ou era próximo o suficiente para isso.

- Não seja tão sensível. O que eu estava fazendo era para seu bem, para ver se você voltava a sua plena consciência. A sua... Seus... Gostos diferenciados são uma coisa que eu posso começar a aceitar. Porém, você tem o meu sangue e o da sua mãe correndo pelas suas veias, desperdiçar seu talento em dança! Podendo ser um advogado formidável...

- Eu não vou ficar aqui ouvindo isso. - Ele se ergueu, irritado. - Eu não sou obrigado a ouvir suas reclamações egoístas e sem fundamento sobre mim. Minha mãe se sentiria orgulhosa independentemente do que eu fizesse, porque diferente de você, ela me amava! - O loiro não tinha soltado a mão de Harry em nenhum instante, fazendo Lucius segurar uma feição desgostosa de aparecer, mantendo, então, uma raiva neutra. Malfoy, o filho, saiu batendo o pé do hospital com Potter ao seu encalço. E ele caminhava com fúria, como se pudesse causar um terremoto abaixo de seus pés.

- Draco, calma, vamos conv...

- EU NÃO QUERO! - Draco parecia tão quebrado. - Eu não quero... - Potter assistiu seu rosto ser iluminado por lágrimas e fungadas, suas bochechas ficando vermelhas, ele soltou sua mão, parecendo uma criança perdida. - Eu não quero mais falar nada. Sobre nada. Eu só quero dormir.

Potter relaxou os ombros, o outro achou que ele fosse embora e tudo bem, ele podia lidar com isso. Entretanto, em vez disso, sentiu o peso de um tecido grosso sendo posto em seus ombros com gentileza.

- Se você quiser, pode dormir no meu apartamento, não é tão longe daqui e eu sei que o seu deve estar destruído a esse ponto.

- ...Obrigado. De verdade. - Ele disse baixinho, Harry respirou fundo, começando a caminhar ao seu lado de uma forma lenta.

- Está tudo bem. Foi uma noite bem estranha. Nós dois precisamos descansar.

Draco acenou com a cabeça, deixando a calmaria de Harry passar para si em meio ao silêncio e conversas sem sentido.

"Insensível, dirigindo por aí
Seguro de mim mesmo, seguro do agora
Mas você estava lá parado tão próximo de mim, como o futuro deveria ser"

Taxi Cab - Vampire Weekend

Harry Potter acordou no outro dia com mil e uma ligações no seu celular, Draco Malfoy acordou com mil e duas. Ambos ignoraram todas elas. Em vez disso, eles estavam apoiados na varanda, cada um com uma xícara de café entre os dedos e um pratinho com omeletes entre eles. Aparentemente, existia alguma coisa no código de conduta Malfoy que o impedia de não devolver gentilezas para as pessoas com quem eles simpatizavam e o código de conduta dos Potter possuía uma cláusula muito importante que nunca negava comida caseira.

- Você às vezes treina ali, não é? - A voz rouca do cacheado atravessou os ouvidos do loiro. Ele estava agora com uma camiseta e shorts muito largos que definitivamente não pertenciam a ele - o mesmo nunca usaria algo assim, mas Harry estranhamente achou que combinava perfeitamente.

- Você por acaso fica me espiando? - Draco perguntou, um pouco brincalhão, voltando aos poucos a ser ele mesmo. O outro garoto deu uma risada baixinha.

- Se te incomoda, posso sempre fechar as cortinas. Eu assistia porque acho lindo você dançando... Você é incrível isso. Sou fotógrafo, observar as pessoas é o que eu faço.

Draco sorriu e desviou o olhar.

- Você tem passe livre para me fotografar sempre que quiser. - Seu sorriso morria aos poucos. - Sobre ontem...

- Qual parte de ontem?

- Eu acho que você merece explicações sobre o que aconteceu, principalmente envolvendo o Riddle.

- Eu gostaria mas... Por favor, não se sinta obrigado a nada. Eu vi como seu pai pode ser um homem difícil.

- Ele é, não é? - O loiro suspirou. - Tom Riddle é dono de uma empresa famosa e meu pai é seu advogado particular. O que significa que ele dá uma grana muito boa para os Malfoy... Ele é uma pessoa complicada e muito pertubarda desde que eu era criança. Se trata de um narcisista, principalmente, acredita que tudo que faz é certo. Quando eu fugi de casa, ele prometeu ao meu pai que me "consertaria". E eu... - Ele encarou seu café, respirando fundo e apertando seus dedos contra o objeto até que ficassem brancos, reunindo forças. - Eu não sei o que ele ia fazer. Não sei se ele queria me matar ou só me machucar... - Harry o envolveu em seu braços com cuidado.

- Está tudo bem agora. Nada vai acontecer com você.

Draco relaxou seus ossos sobre o torso de Harry.

- Por que está sendo tão gentil comigo?

- Porque você acabou de passar por um momento horrível e seria cruel te deixar sozinho. - Potter sorriu pequeno. - Acho... Acho que devíamos ter um encontro mais apropriado. Eu conheço uma cafeteria incrível.

- Talvez devêssemos deixar o encontro entre só nós dois para amanhã e marcar com nossos amigos hoje, sabe, nossos celulares não param de vibrar. - Malfoy voltou a ficar tenso. - Pansy, minha melhor amiga, ainda tinha esperanças que eu fosse me resolver com meu pai.

- Eu não conheço ele então... Não posso opinar com total certeza. Mas... Eu acho que ele te ama, apesar de toda a opressão. Ele parecia bastante disposto em te proteger ontem. Talvez demore um tempo, mas ele pode acabar te aceitando em algum momento.

- Sou impaciente. - O loiro bufou. - Você vai descobrir isso logo, logo.

- Você beija como se você sua última vez, eu já suspeitava disso. - Harry provocou propositalmente apenas para ver Draco se envergonhando, ele prendeu um riso e o loiro deu um tapinha em seu braço por estar tirando uma com sua cara.

- Conversa pra amanhã, Potter. - Ele pronunciou seu sobrenome com um sotaque engraçado e Harry não conseguiu mais segurar a risada por mais tempo. Draco repetiu um "seu grande idiota" como um mantra até que ele parasse de constrage-lo

- Eu estou curioso... Você parece tão tranquilo pra alguém que socou o rosto de um cara com tanta facilidade. Eu sinto como se não tivesse processado tudo que aconteceu.

- Não foi nenhum um pouco fácil. - O garoto tensionou o corpo. - Quase não consegui dormir pensando nisso... Mas... Eu parei para pensar que se eu não tivesse feito alguma coisa, você poderia ter se machucado, uma pessoa inocente. Não acredito que os fins justificava os meios ou que qualquer coisa se resolve com um violência, foi um acidente aquela pedra estar ali. Só queria poder segura-lo. - Harry franziu o cenho. - Eu não vejo as coisas como preto no branco. Muitas coisas estavam dando errado ontem. Simplesmente... Aconteceu.

- Me conhecer foi uma das coisas que deram errado?

Harry voltou a relaxar o corpo, olhando fundo nas íris acizentadas de Malfoy.

- Não, definitivamente, não.




Notas Finais.

Espero que tenham gostado da fanfic, não esquecem de acompanhar o perfil do projeto dezdrarry para acompanhar esse mês cheia de autores incríveis! Quem fez essa capa lindíssima foi a psychocover  e a betagem foi feita pela taegilover_watt , comentem bastante e divulguem o projeto se possível no twitter ou em outras redes. Adoro vocês. <3

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