Vazio (s.m.)
| É paralisia emocional. é um túnel sem fim, por onde escorre o meu ser e tu que me faz vivo. é desaprender os sentimentos. é o nada do próprio nada. é quando a ausência alcança seu estágio final. voraz. é o umbral do próprio coração. é ser consumido.
é quando o esquecimento beija a eternidade e juntos abraçam minha alma.
( João Doederlein)
~ Naomi ~
~ 1 semana depois ~
Alguns anos atrás, na minha época do colegial, eu conheci o Heron, nós viramos amigos de uma forma engraçada até.
Como eu sempre estava focada nos estudos, não tinha muitos amigos, na verdade não tinha nenhum, só tinha um pessoal que se aproveitava da minha bondade pra tirar boas notas. Quando era o horário do intervalo eu ficava sozinha, então ia pra biblioteca.
Um dia, um pouco antes do sinal tocar, um garoto chegou em mim e perguntou se eu era a Naomi, inocentemente eu disse que sim, porque nunca passaria na minha cabeça que meus "amigos" interesseiros havia dito a ele que eu dava cola de prova se me dessem um beijo.
Lembro de cada detalhe, o menino se aproximou, me beijou e então eu o empurrei assim que senti seus lábios gelados no meu. Assim que o empurrei, fechei o punho e fui em sua direção para lhe dá um soco, só que o desgraçado desviou e acertou no rosto de Heron, que estava passando na bendita hora.
Heron bateu o rosto no extintor e quebrou o dente e o menino? Bom, o menino correu assustado, porque na época, o menino que eu havia esmurrado e o feito quebrar o dente, era considerado um bad boy valentão.
O engraçado foi que depois desse dia, depois de muitas fugas minhas evitando Heron pensando que ele me espancaria, a gente virou amigos e concluímos o ensino médio juntos.
Na faculdade Heron foi morar na França com seus pais e eventualmente perdemos contato.
Então ano retrasado, ele me pediu pra me seguir no insta e voltamos a conversar, ele sempre pedia para eu visitar ele e eu dizia que estava ocupada demais com o trabalho e coisas do tipo, o que era total verdade.
Ano passado ele fez seu último pedido, pediu pra eu ir morar com ele por pelo menos um ano na França, eu trabalharia com ele como assistente. Confesso que foi uma oferta tentadora, já que ele trabalha com moda, mas na época eu recusei pois havia acabado de receber uma promoção no trabalho e iria ganhar mais, isso significava que ia finalmente terminar de pagar meu apartamento.
Porém agora, cá estou eu, arrumando minhas coisas pra ir ficar com ele por um ano. Desde que liguei pra ele tenho arrumado as coisas, não que eu tenha muita coisa pra levar, mas tinha que resolver questões sociais antes de ir.
Me demiti, avisei meus pais, que não concordaram, mas eu já sou adulta. Deixei meus animaizinhos com a vizinha e combinei de enviar o dinheiro das despesas todo mês, ela foi um amor e concordou, disse que ia amar ficar com eles.
Como meu sonho sempre foi ir pra França, comecei a estudar francês com 10 anos, ao 18 tirei meu passaporte, então nessa parte já está tudo resolvido, a coisa mesmo era a passagem, mas Heron me mandou uma mensagem dizendo que havia comprado minha passagem e que havia mandado alguém me buscar, na hora me senti um culpada por ele ter feito isso, mas ele disse que um funcionário dele já ia pra lá.
Agora estou fazendo as malas, essa coisa de viagem é muito cansativo, precisei fazer um grande esforço para acordar mais cedo hoje, para passar no médico, antes de ir.
A questão é que mês passado eu já havia ido á um consulta ao médico, pois estranhei meu comportamento, ele me passou alguns remédios e me indicou uma clínica, que desconsiderei totalmente. Com isso, ele entendeu que eu era o tipo de pessoa que prefere resolver as coisas de um jeito mais simples, então sempre quando eu ia lá, ele me passava anti-depressivos. Não sei se isso é correto, mas não falei nada, porque os remédios ajudam quando eu estou no meio de um episódio.
O meu está acabando e isso é a única coisa que faz me sentir um pouco melhor, então fui buscar mais, expliquei pra ele que iria viajar e ele me passou alguns frascos a mais, perguntei se não havia problema fazer isso e o mesmo fez uma piadinha dizendo que eu só não podia tomar todos de uma vez.
Típico de um médico meia tigela.
Pensei na hora.
Enfio os 6 frascos de remédios na mala e a fecho, olho ao redor da minha casa e sinto um leve aperto no peito por ter que deixa-la, mas isso se esvai como se algo sugasse o meu resquício de emoção quando lembro das coisas que já fiz e passei aqui.
Isso tem acontecido com frequência, não sei se é o remédio, a depressão, a dor, a tristeza, a culpa ou autodefesa, mas sempre que me lembro dos meus episódios depressivos ou dos dias em que chegava do trabalho exausta ou os dias em que eu acordava querendo não acordar, minha mente se fechava a eu me sentia vazia, como se não houvesse sentimentos, nem bons, nem ruins.
Ouço a campainha tocar me tirando dos meus pensamentos e vou atender.
Abro a porta e vejo um homem alto, jovial eu diria, ele está vestida uma camiseta social branca com uma gravata mal amarrada, as sua calças sociais estão amassadas, então acho que ele estava dormindo. Seu rosto também parece um pouco cansado e olha pra mim como se tentasse esconder isso.
- Você é a Srt. Naomi Parker?
Ele pergunta e sua voz saiu firme, mas com um resquício de cansaço.
- Sim, sou eu e você seria... - falo e levanto uma sombrancelha.
E então ele sorri, eu diria gentilmente se não fosse tão forçado.
- O Sr.Bernard me encarregou de busca-la.
Sorrio pra ele dando passagem pra ele entrar, que entra assim saio da frente.
- Só falta fechar aquela mala. - digo e percebo que minha voz está mais arrastada do que deveria, o que me faz pergunta pra mim mesma se deveria realmente ir pra lá nesse estado, talvez eu vire um peso nas de Heron e não é isso que eu quero, com certeza é melhor eu não ir.
Assim que decidi mentalmente que não iria maus, ouço o barulho da mala se fechando e o homem a minha frente segurando as duas malas que eu ia levar.
- Se é só isso, vamos indo, vai se atrasar para o vôo. - ao dizer isso o mesmo vai em direção a porta, mas para e olha pra mim - pode abrir? Por favor.
Passo por ele e abro a porta, pego o restante das minhas coisas e fecho a porta, mas antes de fechar olho novamente para o apartamento, que vai ficar sobre os cuidados da minha irmã até eu voltar.
Se eu voltar.
O pensamento passa como um carro rápido, mas é o suficiente para me deixar ainda mais insegura de ir, meu medo é de ir e ceder a minha pressão psicológica e acabar fazendo besteira lá, que nem eu estava fazendo aqui.
Novamente o homem me tira dos pensamentos me pedindo para apertar o botão do elevador pra ele, eu faço e ele agradece. Ao chegarmos no carro eu entro e espero pelo homem ao qual não sei o nome, assim que ele entra partimos para o aeroporto.
Durante a viagem de carro, fiquei com a cabeça encostada na janela, remoendo os pensamentos passados de que eu ia ser um peso pra Heron, isso me fez querer várias vezes pular do carro, mas as janelas estavam fechadas e as portas também.
Ao chegarmos no aeroporto, pegamos o vôo e era primeira classe, o que não me surpreende, já que Heron sempre pareceu ser muito rico, mesmo que às vezes parecesse que não.
Sorrio ao lembrar quando eu e Heron brigamos pra ver quem ia pagar o soverte e no fim eu paguei, porque Heron fingiu que havia perdido a carteira.
~ 14 horas depois ~
O avião vai pousar daqui a uma hora, eu acordei com a turbulência e agora estou olhando pela janela.
As nuvens parecem algodão doce de tão brancas, também se parecem com um mar, de qualquer forma é muito bonito.
Desde que eu embarquei e me acomodei, tenho dormido, tomei alguns anti-depressivos e eles dão bastante sono, às vezes eu durmo bem mais do deveria.
Olho em volta a procura do homem que estava comigo quando eu dormi, mas não o encontro, saio da "cabine" que estou e o procuro com os olhos mas não acho, decido perguntar pra aeromoça aonde é o banheiro e a mesma me informa que fica no fim do corredor, vou até ele.
Ao entrar, encaro meu rosto no espelho, minhas olheiras estão fundas e meus olhos estão caído, meu cabelo tá a pura decadência, mas mesmo que seja insuportável me ver assim, não consigo fazer o mínimo de esforço para me arrumar, então apenas jogo uma água no rosto e olho novamente para o espelho, sentido tudo ficar embaçado pelas lágrimas que insistem em querer cair.
Depois de longo tempo, saio do banheiro e volto para a cabine, ao chegar o homem de antes está lá e ele me encara. Por um segundo achei que ele ia perguntar algo, mas o mesmo apenas abaixa o rosto fica no seu celular, ao me sentar ele fala:
- Vamos pousar daqui a pouco, deveria colocar o sinto. - o mesmo diz e não há resquício de cansaço em sua voz, então acho que ele deve ter dormido.
- Ok! - minha voz novamente está cansada, porém dessa vez baixa, acho que é por eu ter dormido demais.
- Está com dor de garganta? - ele pergunta e então me olha e eu também o olho, agora finalmente reparando em seu rosto, ele não está tão cansado quanto antes, então diria que ele tem uns 30 anos, ele parece ser francês, mas seu português não tem sotaque, então não sei dizer se e é ou não.
- Não, apenas estou um pouco cansada - vejo sua sombrancelha frazirem, com certeza ele deve está me achando uma doida, alguém que dormiu 14 horas seguidas ainda está cansada é loucura. - Não dormi muito bem a noite pois estava ansiosa pela viagem. - falo forçando um sorriso para que o mesmo acredite. Não tem como eu falar pra ele que estou depressiva e é por isso que estou tão cansada e pra me ajudar fico tomando remédios prescritos por um médico que nem se importou em dizer quantos comprimidos devo tomar durante o dia.
- entendi - ele fala, mas não sei se estou louca, porém sinto que seus olhos semi serram pra ver se estou dizendo a verdade, entretanto quando vou conferir o mesmo virar o rosto de volta o celular, então concluo que eu estava pirando na batatinha.
~ 5 horas depois ~
Agora estamos indo pra casa de Heron, o caminho do aeroporto até lá é um pouco grande, então fico olhando pela janela, enquanto passa uma notícia francesa sobre as olimpíadas ser ano que vem.
Lá fora está chovendo, mas ainda assim continua uma bela vista, acho que é o efeito Paris. Algumas pessoas estão correndo para se abrigar, outras entre tanto nem se importam, há alguns casais brincando e por um segundo sinto vontade de ser eles.
Queria não estar doente, para apreciar essa visão com mais emoção, entretanto se não estivesse doente, nem estaria aqui.
Ainda olhando pra janela, direciono o olhar para o retrovisor e vejo que o homem que dirige está me olhando.
- Como você se chama? - decido perguntar, o que faz o mesmo desviar o olhar de volta pra estrada.
- Me chamo Giovanni, senhorita. - sorrio, porque ele continua a me tratar com formalidade.
- Não precisa ser tão formal, Giovanni - viro meu para ele e tenho a visão de sua nuca - pode me chamar de Naomi.
- Ok, senhori... Naomi - sorrio pra ele, eu diria que gentilmente se eu sentisse algo ao faze-lo.
Não falamos mais nada depois disso, às vezes o via me olhando pelo retrovisor, mas desviava quando eu olhava de volta.
Finalmente chegamos na casa de Heron e que casa, era tudo bem Francês e muito bonito, havia uma grande área verde e tenho quase certeza que todo terreno florestal que passamos quando estávamos chegando, pertence a ele.
Saio do carro e vou até o porta malas, porém as malas já estão nas mãos de Giovanni, sorrio pra ele.
- Não creio! Finalmente! - escuto uma voz conhecida, me viro e vejo um homem loiro com uma camiseta branca social, com alguns botões desabotoado, sua calça é de alfaiataria preta e seus calçados é um mocassim vinho, com certeza esse look duvidoso dele custa três do apartamentos.
O mesmo vem até a mim e me dá um abraço apertado e sinto o seu cheiro de lírio.
Eu tentei retribuir o abraço, mas estava me sentindo muito desconfortável, faz um bom tempo que não sinto o toque de outra pessoa. Ao me afastar vejo que ele está sorrindo, analisando o meu rosto, o que parece ser uma péssima ideia, pois seu sorriso se cessa na hora.
- Menina, vocês foram assaltados no caminho? Que cara é essa? - o seu português tem um sotaque francês, acho que é porque faz tempo que ele não usa.
- Só estou cansada, foi uma longa viagem - digo e forço um sorriso, esperando que ele acredite e não adivinhe nesse mesmo minuto que eu estou doente.
- hmm... Só isso mesmo? Ainda que eu me sinta muito feliz em ter você aqui, não parece ser o tipo de pessoa que largaria tudo o que conquistou pra vir pra cá - ele diz e analisa novamente meu rosto, procurando por resquício de mentira, ainda bem que sou uma boa mentirosa.
- Tava com saudade de um oxigenado - falo e começo a caminhar com ele - você nunca me disse que morava numa mansão, já teria vindo faz tempos de soubesse.
Ele não me respondo e então o olho, o mesmo está olhando o celular, então lhe dou um peteleco na cabeça, porém diferente do que eu esperava, sua primeira reação foi esconder o celular, o que me fez querer ter uma leve curiosidade.
- O que... - assim que eu perguntar, ele me corta e fala:
- Vamos, tenho muita coisa pra te mostrar. - ele diz e me puxa pra dentro da casa.
Depois disso foi uma longa tour pela sua casa e Heron me atualizando sobre sua vida e perguntando sobre a minha, mas eu sempre desviava o assunto. Ele me deixou no meu quarto e informou que iria dá uma saída rápida e depois iríamos jantar.
O meu quarto era do tamanho do meu apartamento, o que me fez ficar surpresa. A decoração era igual a da casa e a cama era de casal, minhas malas estavam perto do armário, então fui até ela. Como sei que não terei muita energia nos próximos dias, já organizo tudo dentro do armário e logo em seguida vou tomar um banho.
Ao sair, sei que não posso vestir qualquer trapo que nem eu fazia no Brasil, porque agora eu tenho que esconder qualquer resquício de tristeza, então por mais que eu não tenha força e nenhuma vontade, visto um vestido preto apertado no busto e cintura, mas meio justo na região das pernas, logo em seguida coloco um corset preto com bordados dourados e para combinar, coloco um salto plataforma, vinho.
Não sei bem o que fazer no cabelo, mas trato de passar bastante corretivo para esconder essas orelhas e faço uma maquiagem escura e termino com um batom marrom, mais puxado pro nude. Decido apenas prender duas mechas do meu cabelo para trás com uma presilha dourada, deixo duas pequenas mechas cacheadas soltas.
Assim que termino meu cabelo, Heron entra no meu quarto e eu o olho.
- Cadê a Naomi e o que você fez com ela? - vou até ele e bato em seu ombro, que me olha de cima abaixo - Tá querendo arrumar namorado é?
- Bom, é minha primeira noite em Paris, acho que tenho que me arrumar a altura.
Ele sorri e se senta na minha cama.
Diferente de mim, ele está vestido uma calça de alfaiataria longa, marrom clara com uma camiseta social branca, os botões estão desabotoados, dando pra ver um pouco de seu peitoral. Nos pés ele está com um mocassim igual ao outro, porém dessa vez é um preto.
- Você também está muito arrumado - semi serro os olhos pra ele - porque sinto que não vai ser um jantar normal?
O mesmo ri e vem até mim e segura meus ombros. Consigo sentir um cheiro amadeirado, diferente do que ele estava usando hoje a tarde, seu cabelo jogado em seu rosto, meio bagunçado.
- Você está em Paris, precisamos comemorar - ele diz e vejo um olhar travesso em seus olhos azuis. Conhecendo Heron, provavelmente ele vai me levar para alguma festa duvidosa. - e você também parece um pouco triste, quero te animar um pouco.
Desvio o olhar ao ve-lo comentar sobre o meu humor e forço um sorriso.
- Uma festa parece ótimo! - falo e pego minha bolsa indo até a porta do quarto.
Uma festa é tudo o que menos preciso.
Penso.
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