Oblívio (s.m.)

|é um coração abandonado. é o sentimento de te procurar infinitas vezes sem resposta. é um grito no vazio. é a saudade em corpo frio. é a falta da própria falta. é brindar sozinho num bar.

é a sentença final da existência.
(João Doederlein)

~ Naomi ~

Eu não sei exatamente quem eu queria enganar, talvez eu mesma, talvez o Heron, talvez o pessoal daquela festa, talvez os meus pais ou o pessoal do trabalho, mas eu sei que não funcionou.

Sei disso porque agora estou aqui, alguns metros abaixo do Rio Sena.

E todo aquele papinho que contei de "é só uma viagem", "estou bem", "é só cansaço", vão tudo por água a baixo quando descobrirem como eu morri.

Tudo começou quando Heron e eu chegamos a festa, de primeira vista estava tudo bem, socializei com algumas pessoas, bebi algumas bebidas, porém isso durou só os primeiros 40 minutos da festa, pois logo eu não via mais Heron e estava sentada em um balcão na minha quinta dose de Whisky.

Lembro de um cara asiático de cabelos loiros chegar em mim, ele parecia alegre e tinha um sorriso quadrado.

- Bebendo sozinha? Aceita uma companhia? - ele disse e se sentou no banco do meu lado.

O vi pela visão periférica sinalizar para o garçom e pedir o mesmo que eu.

- Bem, você já se sentou. - falei não dando muito bola e terminando a minha bebida, logo pedindo para o garçom trazer mais uma dose.

- Posso saber quem magoou essa linda dama? - o mesmo disse e percebi que seu corpo estava virado pra mim e ele me encarava.

Não sabia responder sua pergunta, porque nem eu tinha a resposta, então apenas virei o copo de whisky na minha boca e sai, tive uma leve impressão de que o mesmo me seguiu, mas quando olhei para trás, não o vi.

Depois disso, tentei procurar Heron para dizer que ia embora, entretanto acabei me irritando com o ambiente e apenas sai.

Tentei chamar um táxi e também um Uber, porém nenhum dos dois aceitou, então pensei em andar um pouco para passar o efeito da bebida e como estávamos no centro, fui para a ponte do Rio Sena.

Melhor seria se eu não tivesse isso, pois no caminho, olhando a cidade me senti muita triste por não conseguir aproveitar aquilo como eu queria. A luzes de Paris eram realmente incríveis e aquela torre era de tirar o ar, o meu eu de 16 anos estaria tendo muitos surto se estivesse ali naquele momento, entretanto quem estava ali era o meu eu de 28 anos, que estava em uma luta se vivia ou morria, o segundo lado estava ganhando.

Entre tantos pensamentos eu decidi tomar alguns remédios e quando cheguei na ponte eu me sentia meio sonolenta.

Eu sabia que se eu ficasse lá eu ia acabar caindo, sabia que me pendurar para olhar o rio não era uma boa ideia, mas outro lado meu falava que não tinha problema, então eu o escutei.

Entretanto, eu deveria ter escutado a minha intuição, pois acabei caindo depois do meu salto escorregar e agora estou aqui, afundado.

Não é que eu não saiba nadar, é só que eu não quero. Mesmo com os meus pulmões queimando e eu sentindo que não irei aguentar por muito mais tempo, as bolhas de ar que saem da minha boca e sobem, me fazem eu me sentir mais tranquila e pensar:

Não é tão ruim assim morrer.

Eu me sinto como se estivesse flutuando e a falta de ar é algo que já estou bem familiazada, parece que estou realizando um sonho que eu nem sabia que tinha, tudo aqui parece está ótimo, mas não consigo deixar de pensar em como Heron reagiria, em como meus pais reagiriam ao receber a notícia, em como a minha morte ia ser encarada pelas pessoas que eu amo.

Isso me faz exitar e querer nadar até a superfície, que agora parece está longe demais.

Sinto um desespero ao tentar subir novamente e ver que estou perdendo a consciência, acho que dessa vez eu me arrisquei de mais.

Minha visão está ficando escura, vejo uma última bolha de ar sobe e... Cabelos loiros?

Não sei se é uma alucinação, mas sinto alguém me carregar, em alguns momentos em que consigo abrir os olhos, só consigo ver lindo cabelos dourados.

Isso são as últimas coisas que sinto e vejo, depois tudo ficou escuro e silêncioso e o meu último pensamento foi:

Se isso é a morte...

Então quero continuar morta.

~ Tae ~

Terminando a apresentação, decido ir beber uma bebida, vou até o balcão, porém algo me chama atenção.

Uma mulher, sentada sozinha, bebendo whisky, ela é incrívelmente linda. Seus cabelos são cacheados e logos, e uma parte dele está prendido em uma presilha dourada, seu vestido de alcinha com o corset parece ter sido feito para seu corpo e sua pele é tão brilhante.

Me aproximo e vejo a mesma levar o copo de whisky até a boca, dando uma grande golada.

- Bebendo sozinha? Aceita uma companhia? - falo me sentando no banco ao seu lado e podendo finalmente ver seu rosto.

Era delicado, parecendo ter sido pintado por Van Gogh, porém seus olhos pareciam triste, a seriedade em seu rosto me faz perguntar oque havia lhe acontecido.

Faço sinal para o garçom e peço o mesmo que ela e vejo que a mesma que já havia terminado a bebida em seu copo.

Logo em seguida ela me responde em um tom indiferente:

- Bem, você já se sentou. - ela fala e pede para o garçom mais uma dose.

Me viro para analisa-la, por mais que em tudo nela indique que está tudo bem, seu rosto e sua voz aponta outra coisa, mas não sei exatamente oque, então decido perguntar.

- Posso saber quem magoou essa linda dama? - a mulher a minha frente apenas virou a bebida que havia no copo em sua boca e se levantou, indo embora.

Falei algo errado?

Penso.

Me levanto indo atrás da mesma para me desculpar, mas a perco de vista, procuro em volta, porém não a encontro.

- Caramba Tae, ainda bem que te achei! - Louis diz e toca em meus ombros, eu o encaro, mas logo volto minha atenção ao redor, para ver se eu a encontro.

- Bora cara, nós tem que voltar a tocar - o mesmo diz e me puxa.

Decido ir com ele e nós volta a tocar, a música da vez "flower" de Johnny Stimson.

No versos "what can I do?", "What can I say?", "To convince you", "To stay", percorro meus olhos pela multidão, finalmente a encontrando.

A mesma estava passando pela multidão, meio irritada, parecia está procurando alguém, mas logo desistiu e começou ir em direção a saída.

Terminei a música e desci do palco indo atrás da dela, ouvi Louis dizer algo, porém ignorei.

Chegando lá fora não a encontrei, olhei ao redor e vi um grupo de pessoas, então fui até eles.

- Excusez-moi, Avez-vous vu passer une femme en robe noire, avec un corset et des cheveux bouclés? - pergunto para eles se eles a haviam a visto e eles dizem que viram alguém parecido indo na direção da ponte do Rio Sena, então fui na mesma direção.

Não sei se isso pode ser explicado, mas estou com um terrível sentimento de que algo ruim está acontecendo.

Faltando apenas algumas ruas, eu consigo ver a ponte e lá está ela. A mesma está parada, parece está observando a vista. Porém, a mesma começa a subir e se pendurar, talvez ela só queria se sentar, entretanto quando a mesma se inclina e cai, eu entendo que não era isso que ela estava fazendo.

Corro em sua direção, tentando a todo tempo correr mais rápido, mas minhas pernas estão fazendo tudo oque podem.

Já na na ponte, olho lá para baixo, não há nada, ela não subiu para superfície, confirmando meu pensamento:

Ela está tentando se...

Se matar.

Logo pulo e mergulho tentando acha-la em meio aquela escuridão que o rio era de noite.

Subo de volta para superfície para recuperar o ar e logo mergulho novamente, indo mais fundo. Vejo algo brilhar no fundo, nado até lá.

É ela.

Não consigo ver bem seu rosto, mas parece está desacordada, a seguro pela cintura e começo a nadar para cima. Fico intercalando meu olhar dela, para a superfície e quando finalmente chegamos, recupero meu ar e a olho.

A mesma não parece está respirando e está pálida, bato em seu rosto levemente para ver se a mesma tem alguma reação, mas nada.

Começo a nadar até terra firme, a carregando,que continua a não apresentar nenhum sinal de vida.

Quando chegamos, a borda do rio, a deito e começo a fazer respiração boca a boca e tento reanima-la com massagem cardíaca, porém seus olhos continuam fechado e seu rosto continua sério, entretanto sereno.

- Vamos lá! - falo e volto a fazer a respiração boca a boca.

Toda a situação me leva a pensar o porque a mesma faria algo tão horrível consigo mesmo e o quão machucada ela poderia estar. Não é que eu não o que ela está sentindo, pois eu entendo bem, mas é frustrante saber que o único jeito que ela achou de cessar a dor era se matando.

Depois muitas tentativas de reanima-la, a mesma finalmente começa tossir e cuspir a água que havia engolindo, o que me deixa aliviado.

Me jogo do seu lado pois tudo aquilo havia me cansado demais. Entretanto o meu descanso não durou um minuto, pois quando olhei para a garota ao meu lado, vi que a mesma estava chorando.

Logo me levantei e coloquei minhas mãos em seus ombros, porém ela me afastou e abraçou seus joelhos, afundado a cabeça e chorando.

- Ei, está tudo bem? - perguntei, mas logo me arrependi dessa pergunta, era óbvio que ela não estava bem - quer dizer...

- Porque você se intrometeu? Não podia ter só seguido com sua vida? Ninguém pediu para me salvar - a mesma dá uma pausa e limpa as lágrimas de seu rosto - Eu não pedi para me salvar!

Suas palavras me atingem em cheio, não esperava que ela me agradecesse, mas também não esperava ouvir palavras tão duras. Eu sabia bem como ela se sentia e assim como eu pensei que ela ia querer que alguém a salvasse.

- Eu só... só pensei... - ela me interrompe.

- Pensou errado, eu não queria se salva, eu só... - a mesma começa a chorar.

- Me desculpe - falo e encaro o chão.

A sinto me encarar por um tempo, mas longo se levanta e sai andando, me levanto também para segui-la, porém a mesma para e se vira pra mim

- Não me segue! - a mesma diz e sai andando.

Por mais que eu quisesse, não fui atrás dela, fiquei lá, a vendo ir embora.

~ Naomi ~

Enquanto ando pelas ruas de Paris, só consigo me lembrar do rosto do homem que havia me ajudado e sinto culpa por tê-lo tratado tão mal.

Ele não tem culpa nenhuma em tudo isso, entretanto eu o tratei como se tivesse em vez de agradecê-lo por te me salvado. Já pensei várias vezes em voltar lá, mas nessa altura ele já deve ter ido embora e eu, bom, eu estou perdida nessas ruas.

Olho em volta e vejo algumas placas, não há nenhum táxi passando ou alguém para eu pedir ajuda, o que é compreensível já que é umas três da manhã. Também estou sem minha bolsa, que estava com meu celular dentro, deve ter ficado no rio.

Como sai sem uma direção depois de quase morrer, não faço a menor ideia para qual lado fica o rio ou a festa onde estava, sei que estou longe pois não consigo avistar a Torre Eiffel.

Que droga.

Vou até um banco que havia e me sento, abraçando meus joelhos.

- Se ao menos eu não tivesse sido tão babaca com aquele cara, agora ele estaria me ajudando - suspiro - Sua burra!

Deito a minha cabeça no joelho.

Ouço alguns passarinhos cantar, isso significa que deve amanhecer logo, então logo aparecerá alguém para que eu possa perguntar como voltar para a ponte.

Suspiro e levanto a cabeça, observando a rua vazia e me sinto sozinha.

Me pergunto se Heron está procurando por mim ou se meus pais estão sentindo saudade, ou se talvez, minha ex-chefe deve estar desejando que eu volte.

No fundo, eu sei que nada disso está acontecendo, Heron deve tá pegando alguém, meus pais devem está trabalhando e falando o quanto estou desperdiçando a minha vida e minha chefe, bom, ela deve está me xingando por ter deixado tanto trabalho para trás.

Solidão é algo que sempre me acompanhou, desde pequena. Minha mãe dizia que eu era muito madura e que sabia fazer as coisas muito bem sozinha, mas na realidade, eu me sentia um fardo, então me sentia na obrigação de cuidar de mim mesma. Na escola, não consegui fazer amigos porque estava focada demais nos estudos e todas as oportunidades que eu tive, as joguei fora por mais uma hora de cursinho.

Todos as noites sozinha, todas as refeições que eu preparava e comia sozinha, todos os intervalos sozinhos, todas voltas pelo bairro para matar o tédio por ficar tá tô tempo em casa nas férias, em tudo isso eu me senti extremamente sozinha, mas nunca me senti no direito de sentir isso.

Mesmo quando eu estava com os meus colegas de trabalho, parecia que eu estava conversando com sacos de batatas e sempre me senti culpada, por querer mais do que conversas vazias.

Talvez tenha sido por aí que comecei a negligenciar meus sentimentos negativos.

- Excusez-moi!

Ouvi uma voz feminina, que me tirou dos meus pensamentos. Olhei para cima e vi uma garota de cabelos lisos castanhos, ela vestia um grande casaco e seu rosto estava corado, o azul intenso de seus olhos me encaravam.

- Sim? - falei e a mesma analisou o meu rosto antes de falar

- Eu moro ali naquele prédio - ela apontou para o prédio que havia do outro lado da rua - e vi que você já está um tempo aqui - a mesma deu uma pausa e me analisou - não costuma ter pessoas assim, sentadas nesses bancos, então imagino que você não seja uma mendiga, então vim ver se você precisava de alguma ajuda.

Que gentil.

Pensei.

- Ham é que eu estou meio perdida. - falei e olhei para os lados - e perdi a minha bolsa, então pensei em ficar aqui até amanhecer.

Meu Deus, como eu sou patética!

- Quer ficar no meu apartamento? Eu posso te dá roupas secas e uma cama para dormir e amanhã você liga para algum conhecido.

Pensei um pouco, pois não queria ser um incomodo, mas olhei em volta e a rua parecia um pouco assustadora.

- Eu adoraria!

A mulher em minha frente sorriu e fez um sinal para eu segui-la.

Seja lá quem for que mandou esse anjo, eu o amo.



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