34 - Mulher das cavernas

Toda essa merda me deixou extremamente transtornada. Caio tem sentimentos por mim? Sério? 

Sei que o que temos vivido nas últimas semanas tem sido intenso, por mais que estivéssemos tentando evitar esse contato mais íntimo. O foda é que, por algum motivo, eu e ele próximos parecemos álcool e gasolina. 

A promessa de que nos daríamos bem e aproveitaríamos as três semanas que temos à frente como se tudo isso fosse real durou muito pouco. As coisas ficaram tão ruins que, ao que tudo indica, de namorado falso, Caio vai virar meu ex-namorado falso. 

Mas acho que seria melhor assim, para ser sincera. Nos pouparia de ter que inventar desculpas do porquê o término precoce do relacionamento que, na teoria, teria acabado de começar. Só que sinto no fundo do meu âmago que suas palavras mexeram comigo.

Já se passa da meia-noite e nada de Caio falar comigo. Na verdade, não o vejo há horas, porque estou afastada de todos, na sacada da varanda da casa, observando o mar e lidando com meus próprios demônios. Ou, em outras palavras: recalculando a rota. Enquanto isso, o restante das pessoas que estão nessa maldita "semana de festa" estão enchendo a cara no luau. Pelo menos Dona Flávia deve estar feliz, porque hoje não teve nenhuma briga.

Tenho meus pensamentos interrompido quando uma mão desconhecida alcança minha cintura. 

— Por que uma mulher tão linda assim está aqui sozinha, distante de todos? — Um homem mais velho pergunta e eu o encaro de cima a baixo, já afastando sua mão abusada de minha cintura.

— E quem o senhor pensa que é para pegar na minha cintura assim, seu abusado? — Devolvo o questionamento e o homem me encara indignado.

— Oh! — Ele até solta uma risadinha. — Estou apenas tentando entender por que uma mulher tão bonita como você está a sós, mas acho que já entendi. Uma gata arisca. — Ele sorri debochado e eu reviro os olhos. 

— Seu tapado, eu sou a namorada do Caio, o aniversariante. Não acho que ele gostaria de saber que um quase idoso como você está dando em cima da mulher dele. — Cruzo os braços o encarando incisivamente. 

— Quase idoso? — Ele cruza os braços de volta. — Eu muito mal sou uns dez anos mais velho do que você, garota. E, me perdoe, pensei que a namorada dele fosse a garota com quem subiu para o quarto. Sou filho do amigo do Maurício, Alvim. Não estou muito a par das relações aqui. — O homem dá uma risadinha. — Mas acho que sua situação no momento não é a melhor.

— Mulher? Quarto? — Dou um sorriso confuso. — Alvim, você só pode ter fumado maconha estragada. 

— E além de corna você é abusada. Caio subiu com uma loira gostosa. Tal de Guta. — Alvim rebate e eu reviro os olhos, já seguindo em direção à entrada traseira da casa e batendo os pés em direção à escada.

Recuso-me a acreditar que, depois do surto de hoje cedo, Caio esteja aprontando uma merda desse nível e pegando a prima bem debaixo do meu nariz. Isso é uma falta de respeito do caralho, não tenho nem palavras para definir.

Eu e Enzo temos uma história por trás, precisávamos encerrar assuntos pendentes e deixar os três anos que estivemos juntos para trás. Mas o que ele tem com essa Guta? Porra nenhuma, essa merda não se passa de uma vingancinha de merda para que eu me sinta mal. Tudo porque não assumi que estou mexida com nosso envolvimento, tenho certeza.

Ele queria o que? Que ignorasse o fato de estarmos vivendo uma "farsa" e fingisse que nunca namorei com o irmão dele? Porra, isso é impossível, não vivemos na droga de um conto de fadas. Mas é isso, se Caio queria me irritar e magoar profundamente, acabou de conseguir. 

Sinceramente, nem deveria estar ligando. Somos solteiros, não é? Gostaria que meu coração conseguisse "me ouvir", porque a cada degrau que subo, ele acelera mais um pouco.

Chego à porta do quarto que eu e Caio estamos dividindo e não ouço um pio sequer saindo do cômodo. Meu rosto esquenta com a possibilidade do tal "Alvim" estar mentindo e eu estar assim, revoltada, à toa. 

Estava prestes a me fastar quando acabei ouvindo uma risadinha feminina. Diante disso, abro a porta agressivamente e flagro Caio e a vadia da prima se pegando freneticamente na sacada do quarto. 

A primeira coisa que faço é agarrar um de meus coturnos e atacar nos dois. O sapato bate na bunda de Guta, que dá um grito de susto. Só então os dois percebem a minha presença. 

— Que bonito, não é, Caio Valentine? — Esbravejo encarando os dois. — Fez um estardalhaço da porra por conta do que aconteceu mais cedo pra terminar a noite fodendo uma vadia no quarto onde estamos dormindo? Que porra você tem na cabeça, seu jogadorzinho de merda? Se inspirou no Neymar, foi? — Levo as mãos à cintura e Guta se afasta do primo com um sorriso envergonhado e cínico no rosto. 

— Oh! Ele disse que vocês tinham terminado... — Guta se pronuncia e vira na direção de Caio. — Se queria trai-la, não precisava ter mentido. Eu teria vindo de qualquer forma, principalmente depois que vi o gostoso que havia se tornado com o passar dos anos. Repetir o que fizemos mais novos seria uma honra. — Guta acaricia o peitoral desnudo do primo, que segue me encarando com um brilho raivoso nos olhos.

Caio sabia que eu flagraria essa situação. Era isso que ele queria, me ferir. E conseguiu. Péssima forma de descobrir que nossos sentimentos, de certa maneira, são correspondentes. 

— Querida, uma honra vai ser te tirar desse quarto na base da porrada. — Me aproximo bruscamente e agarro os longos cabelos loiros de guta por baixo, já puxando em direção à porta. — Está maluca se acha que vai falar dessa forma sobre o meu relacionamento na minha frente e vai sair de boa.  

— Me solta sua louca, meu mega-hair! — Guta arranhava minha mão que estava enrolada com força em seus cabelos. Caio tentava nos afastar, mas em vão. — Se estragar você vai pagar, sua troglodita! Mulher das cavernas! — Dou uma gargalhada de suas ofensas.

— Luna, largue a minha prima, pelo amor de Deus! — Caio expressa desespero. Então eu rio ainda mais.

— Ah, pobre vadia. — Finalmente alcanço a porta, que estava aberta. — Mal sabe fazer uma ofensa digna, não é? Mas também, com esse cérebro minúsculo, que se dedica apenas à destruir relacionamentos alheios, não deve sobrar espaço para pensar. — Cuspo as palavras e arremesso-a longe. — Vá embora, sua ridícula, senão a mulher das cavernas aqui vai atrás de você. — Ordeno e bato a porta, já virando o corpo na direção de Caio.

— Você só pode ter surtado, Luna Simões! —  Caio começa a falar enquanto entrelaça os dedos em seu próprio cabelo e joga o corpo para trás na cama. — Eu sinceramente não consigo te entender.

 Agarro o par do coturno que havia lançado em Guta anteriormente e atiro em suas pernas, que estavam para fora da cama. 

— Ah, Luna. — Ele senta rapidamente. — Essa merda é pesada e dói. — Reclama e eu sigo batendo os pés até ele, parando à sua frente com as mãos na cintura. 

— Que porra foi essa, Caio? Pretendia transar com essa garota no quarto em que estamos dividindo? O que você tem na cabeça?! — Questiono irritada e ele me lança um sorrisinho.

— Pensei que não teria problemas, diante do que fez hoje à tarde. Entendi bem o recado, querida. Fique com quem quiser, não vou incomodar durante o restante da semana, nem nas outras duas. — Explica debochado, me deixando ainda mais revoltada.

— Você não entendeu nada ainda, Caio. — Respiro profundamente, exausta dessa merda. Em seguida, sento ao lado dele. — Enzo me chamou para admitir que transou com Samantha, mas jurou de pés juntos que o que fizeram não engravida ninguém. Pediu desculpas por ter estragado tudo e disse que está afim de Lina. — Explico sem encará-lo. — E pediu um último beijo, de despedida. — Finalmente viro para ele. — Nós quase noivamos, Caio. O nosso término não foi por falta de amor, não acha que merecíamos uma despedida digna? — Questiono chateada.

— Não me peça para aceitar, Luna. Você sabe dos meus sentimentos. — Caio afirma evitando cruzar o olhar com o meu. 

— Um ciclo precisa ser encerrado para que outro seja iniciado. — Profiro e ele finalmente me encara. — Eu sei dos seus sentimentos, mas você não faz ideia dos meus. — Começo a desabafar. — Eu e Enzo temos uma história. E você e aquela vadia da sua prima? Só repetindo um lance de quando eram mais novos, não é? — Dou uma risadinha. — Fez questão de fazer isso aqui para que eu flagrasse e ficasse mal, não é? — Balanço a cabeça negativamente. — Foda-se, você está liberado, Valentine. Não há vingança no mundo que me faça aceitar uma humilhação desse nível. 

Caio agarra meu braço antes que pudesse me afastar dele, me fazendo virar a cabeça em sua direção. 

— E quais são os seus sentimentos, Luna? — Pergunta e eu sorrio desgostosa. — Se não assumi-los, não vou saber como agir ou o que fazer em relação a nós dois, entende isso, não é? 

— E o que vai mudar agora saber que gosto você também? — Cuspo as palavras. — Saber que tudo isso que fizemos mexeu comigo vai mudar algo na sua vida? Acho que, no momento, só serviria para massagear ainda mais ainda o seu ego... Afinal, o Valentine mais novo é muito desejado, não é? Tem uma lista extensa te querendo. A prima, agora a ex-namorada do irmão. Foda-se, eu preciso sair daqui. — Tento puxar meu braço, mas ele permanece segurando.

— Como eu poderia ter agido diferente se você se recusa a ser real comigo, Luna? Você vive no seu mundinho, simplesmente só abre a boca para brigar. — Explica chateado. — Eu não sou a porra de um vidente.

— Foda-se, Caio. Já deu dessa conversa, eu preciso sair daqui. — Puxo o braço e saio do quarto batendo a porta.

Os irmãos Valentines são ótimos em despedaçar a porra do meu coração. Sinceramente, só não  deixo tudo para trás e vou embora dessa casa de praia nesse instante porque preciso ter o prazer de ver Samantha sendo desmascarada. 

Ainda temos mais dois dias e meio pela frente nesse lugar que mais parece um sanatório. Mas depois disso, que se foda, não quero mais ver um Valentine na minha frente.

Saio batendo os pés pelas escadas e sigo em direção à praia, onde fico caminhando distraidamente pelo resto da madrugada, apenas para esquecer essa merda de dia. Por mim, ele facilmente seria excluído do calendário, assim como também gostaria que esses sentimentos conflituosos evaporassem do meu coração. 

NOTA DA AUTORA

Não passou por revisão ortográfica. Peço desculpas por qualquer erro que possa ser encontrado. Peço que me avisem caso encontrem alguma atrocidade.

Não esqueçam de votar e comentar bastante para engajarmos a obra.

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