Capítulo 1

A voz empolgada do guia fazia Valerie ter fortes enxaquecas. Escorada no braço de Bob, seu namorado super gostoso, ela já sentia o arrependimento de estar ali bater.

"Não acredito que deixei ele me convencer de que transar na mata seria uma boa ideia" afinal, ela não pensou que Bob arranjaria uma desculpa tão esfarrapada para entrar ali naquela floresta estúpida quanto uma trilha.

Os mosquitos picavam suas pernas impiedosamente, já que sua saia curta de Cheerleader não escondia nem a metade de suas coxas.

O clima frio não a impediu de usar com orgulho o uniforme de líder de torcida que tanto amava. Ela olhou para os lados e seu estômago embrulhou ao ver só coisas verdes em sua frente. Uma mata fechada e de uma beleza rústica se erguia pelos dois lados, fazendo Valerie se sentir claustrofóbica em estar no meio de tantas árvores com Bob e os dois losers da escola. Ela torcia para que ninguém da escola soubesse desse passeio, se não suas amigas a zoariam pelo resto da vida.

— Aqui vocês conseguem ver uma formação rochosa bem diferente da que vimos ali atrás. — O guia aponta alegremente para uma pedra enorme coberta de musgo. A única diferença da rocha que ele mostrava agora para a anterior era que a outra não tinha tanto musgo em cima. — Vocês sabiam que fora da trilha existe um vilarejo abandonado? Dizem que aquele local é mal assombrado, por isso ninguém nunca vai para aqueles lados da floresta. — O guia agora aponta para o lado direito da floresta.

Atrás das grandes árvores, Valerie conseguia ver o que parecia ser uma pequena casinha. Aquela ideia a excitou e ela cutucou Bob disfarçadamente. Se conseguissem chegar até lá, poderiam transar sem problemas em algumas daquelas casinhas abandonadas. Seria um pouco nojento, mas ao mesmo tempo bem excitante foder num lugar tão exótico quanto aquele. Bob com certeza iria amar a ideia.

Tom, entretido em seu PSP, não prestava atenção no que o guia dizia. Mayhem 3, Zombie Shoot 5 e Horror Forest 2 era alguns dos videogames que ele havia trazido e com os salgadinhos na mochila ficaria tudo tranquilo. O suor já começava a escorrer pelo pescoço e a deixar manchas amareladas sobre a camisa branca no sovaco. Justine havia dito que adorava branco, simbolizava paz e mais algumas merdas, então ele passou em uma loja e comprou várias delas, mas depois se arrependeu ao descobrir que elas marcavam seus mamilos. Tinha que perder peso. Sabia disso. Mas os salgadinhos eram muito apetitosos e atividades como essas muito entediantes, mas muito entediantes.

— Essa floresta é tão linda! — Tom se obrigou a pausar o videogame enquanto mirava na cabeça de um zumbi para ouvir o que Justine tinha para dizer. — Sabe, eu também adoro o sol, mas esse tempo nublado e a brisa fria mostra um lado da natureza tão esplendoroso! — Ele deixou um sorriso escapar enquanto ouvia tudo, fingindo ainda estar preso no PSP. Era bom ouvir tudo o que ela dizia. Saber das coisas que gostava e qualquer coisa sobre ela seria bom para ele enfim ter uma chance.

— E aqui temos uma árvore que está aqui há pelo menos um milênio... — Ele despausou o jogo e explodiu a cabeça de um zumbi.

Justine era a única dos quatro a prestar atenção no que o guia dizia. Seus olhos curiosos e seus ouvidos atentos estavam presos em cada detalhe daquela floresta e em cada curiosidade que saía da boca do guia.

Ela conseguia enxergar beleza até mesmo nas coisas simples, como nas folhas secas de orvalho, nas ramificações dos troncos das árvores, ou na neve que caía. Tudo que envolvesse a natureza era maravilhoso para ela. Seus olhos brilhavam sempre que ela via o pôr do sol, ou quando as flores desabrochavam. Se Justine visse um animal ferido, ela o pegava para cuidar. Se um gatinho se aproximasse dela, ela lhe dava carinho.

A única coisa que a irritava um pouco era o desinteresse de Tom, seu melhor amigo, no passeio. Ele ainda não tinha largado o PSP, e só desgrudou os olhos da tela quando Justine fez um comentário sobre a beleza da floresta, ao qual seu amigo não deu a mínima.

Ela também não entendia o interesse repentino de Bob e Valerie no passeio, uma vez que eles não prestavam atenção na aula de biologia. Era nítido que eles estavam entediados, então porque se deram ao trabalho de estarem ali?

Aposto que esses manés vão aprontar alguma.

O guia avançou pela trilha e Justine o seguiu animadamente. Ela segurou o braço suado do amigo quando ele tropeçou nos degraus irregulares da trilha, impedindo-o de cair de cara no chão e, por consequência, quebrar seu precioso jogo.

Ele lhe lançou um olhar abobalhado.

— Obrigado, Just.

— Se você prestasse atenção por onde anda, isso não teria acontecido. Tome cuidado, você pode se machucar. — Ela alertou, largando o braço do amigo.

Bob desacelerou o passo e fingiu-se se entreter com uma árvore musguenta ao seu lado, foi quando ela passou em sua frente e ele pôde ver a brisa leve bater no tecido fino da saia de Valerie. Aquelas pernas o deixavam louco, não via a hora de tê-las abertas em sua frente.

Valerie se voltou para ele e cutucou em seu ombro, estava dolorido, o treino de musculação havia sido pesado ontem, afinal, para manter sua bolsa precisava manter seus resultados altíssimos nas partidas de futebol. Então ela mostrou o tal vilarejo abandonado. Ele adorou a ideia que viu no olhar devasso dela. A ideia inicial era traça-la no mato, todo mundo já havia feito isso, ele não, mas dizia que sim, precisava ter respeito entre os caras. Mesmo que acreditassem em suas mentiras, ele não gostava de parecer um nerd obeso igual o boboca jogando naquela coisa, então tinha que mentir sobre aventuras sexuais. Bob lançou uma piscadela em direção a Valerie e era isso. Tinha gostado da ideia. Não seria uma foda no mato, mas seria em uma casinha abandonada. Talvez fosse até um pouco sinistro. Fantasmagórico. Como um filme de terror.

— Logo chegaremos ao fim da trilha e poderão ter uma visão privilegiada das belíssimas montanhas da região. — O guia idiota não parava de tagarelar sobre coisas idiotas, malditos idiotas, Bob tinha algo crescendo em sua calça e não podia esperar muito mais.

O passeio para Justine estava tão bom que ela não se importava com os mosquitos do lugar como Valerie se importava, já que era só dar uma boa olhada na loira para perceber o quanto ela se batia a cada coisa que encostava em sua perna.

O guia os conduziu para uma das partes mais altas e difíceis da trilha, onde a subida ficava íngreme e os degraus, escorregadios e desiguais. Ela olhou com preocupação para Tom, que tinha guardado o jogo agora que o caminho tinha ficado difícil. Ele agora caminhava com dificuldade pelo terreno.

O guia abriu os braços e deu um sorriso.

— E aqui, meus jovens, fica a... — O guia não chegou a completar a frase. Ele emitiu um grito e se desequilibrou, caindo para trás. Justine foi a primeira a ver o que tinha acontecido, e se assustou ao encontrar o guia caído lá embaixo. Ele não se mexia.

— Jeffrey! — Justine gritou, aflita — Jeffrey!

Nenhuma resposta. A única coisa que Justine ouviu foi o som dos pássaros que cantavam nas copas das árvores.

— Será que o cara bateu as botas? — indagou Valerie, parando ao seu lado mascando um chiclete.

— Nós temos que ajudá-lo! — Justine exclamou, nervosa. Ela retirou o celular do bolso para tentar ligar para a emergência, mas seu telefone se encontrava sem sinal.

— Nós não temos como ajudar, garota! Ao menos que queira ter o mesmo destino que ele, sugiro que liguemos para a ambulância.

— Se ainda não percebeu, gênio, é o que estou tentando fazer. — Justine respondeu a contragosto, andando para fora da trilha numa tentativa de fazer o sinal pegar.

— Just, eu vou tentar também. — disse Tom, já retirando o aparelho do bolso.

— Tentem vocês dois também. — ordenou Justine, com um olhar irritado. Valerie e Bob se entreolharam e pegaram seus Iphones também.

— Essa aí tá precisando fumar um baseado pra se acalmar. — Bob sussurrou para Valerie, que deu uma risada sem humor.

Tom seguia Justine com passos atrapalhados enquanto puxava o celular do bolso. Jeffrey, maldito Jeffrey. Tom se sentia culpado. Não podia mentir, já havia desejado a morte do solícito guia. Solícito. Tom conseguia sentir de longe o cheiro de erva que emanava do casaco dele e se lembrava muito bem do que Just havia dito. Lembrava-se de tudo. Havia conhecido Jeffrey no show de reggae dos Rasta Boys. Ali tinham batido um papo, trocado drinks e agora estavam ali, convidados a participar de uma trilha terrivelmente tediosa, mas havia desejado, não para valer, mas havia e agora descendo aqueles degraus, mais ofegante do que nunca, sentia que tinha dado merda.

— Ei! Just, espere! — Tom tentou alcança-la estendendo o braço, mas acabou se desequilibrando e seu pé deslizou no barro abaixo de seus pés. Caiu perto do mesmo barranco, mas por poucos metros se salvou, tendo apenas as costas da camisa branca encharcada de barro. Respirou aliviado até que sentiu a dor estremecer seu pé. Estava torcido e ele sabia.

— Tom! — Justine havia percebido e se virou ainda com o celular em mãos, não foi mais do que alguns milésimos de preocupação e já desviou a atenção do jovem caído. Maldição, ela não ligava pra ele, não ligava nem um pouco. Só pensava naquele Jeffrey. Maldito Jeffrey. Tom se apoiou com os cotovelos e antes que pudesse se levantar viu seu PSP esmagado perto de sua perna.

— Maldito Jeffrey. — Sussurrou para si mesmo largando um suspiro.

Valerie praguejava todas as gerações de Bob por ter lhe enfiado nesse passeio ridículo. Se ele queria transar no mato, era mais fácil irem pro mato e pronto! Mas não, ela teve mesmo que cair naquela ideia idiota que a levou a presenciar a — talvez — morte de um homem.

— Não adianta, aqui não tem sinal. — disse Valerie para Justine, guardando o celular no bolso.

— Estamos perto do vilarejo abandonado. Talvez tenha alguém lá que possa nos ajudar — disse Bob, olhando para Valerie maliciosamente. Incrível como mesmo nessas horas ele só pense com a cabeça de baixo. Homens!

Tudo bem, até a alguns minutos ela também queria transar, mas a vontade passou no instante que o guia despencou do barranco como uma banana podre.

— Eu acho que devemos voltar pra estrada. Lá teremos sinal. — disse Justine, preocupada.

— Se decidam logo, eu não quero ficar plantada aqui por mais tempo. Tá cheio de pernilongos e eu não quero contrair dengue. — Valerie diz, batendo em seu braço a tempo de matar um mosquito insistente.

— Ei! Ei! — Bob estufou o peito e ergueu as mãos para o alto, o cabelo cheio de gel imóvel diante da brisa fria. — Acalmem-se, garotinhas. O cara já era. — Além dos braços fortes um lançador necessitava de olhos bons, um grande e forte gavião. — Ali no vilarejo é mais próximo e deve ter algum sinal. — Também alguma cama onde ele poderia finalmente tirar aquela saia. — E talvez tenha alguém que possa nos ajudar, alguém que saiba realmente onde está! — Tom ainda no chão bufou de raiva. Aquele cara o deixava enojado. Sempre dando uma de bonzão, mas era um bosta. Uma apertada no gatilho da Glock de seu pai e o grandalhão ia cair no chão espirrando sangue.

— Eu... — Justine começou a dizer, mas parou logo em seguida, suspirando acenou com a cabeça. Era uma ideia boa. Não podia negar. Talvez Bob não fosse tão idiota quanto pensava.

— Se já se decidiram, vamos logo. Não aguento mais essa floresta! — Valerie esfregava as picadas de insetos sobre as pernas enquanto mascava o chiclete.

— Então está decidido, bora pra esse vilarejo. — Disse Bob tomando a frente e agarrando um dos pulsos de Valerie a puxando junto.

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