Apaixonado
Alguns meses antes
— Você poderia, por favor, parar de babar toda vez que ele passa na sua frente? — Pansy perguntou debochada enquanto tentávamos achar uma cabine vazia dentro do trem lotado.
Suspirei mais uma vez ao lembrar dos cabelos bagunçados escuros e dos olhos verdes de Potter, que me encarou estranhando o que eu estava fazendo, parado feito bobo na sua frente e sorrindo sem graça. Aquilo não daria em nada, eu sabia. Minha paixão por Potter seria para sempre platônica. Nós nunca fomos muito próximos, tanto pela diferença entre as casas quanto pelas poucas aulas que tínhamos juntos. Não havia muitos motivos para sermos amigos. E mesmo assim eu consegui me apaixonar por ele.
Foi no terceiro ano, na aula de Trato das Criaturas Mágicas. Hagrid nos tinha apresentado um hipogrifo, e eu, que não tinha prestado atenção em nada do que o professor tinha nos dito, fui direto com a mão no bicho, querendo fazer carinho. Só lembro de ser empurrado com força por Harry, que conseguiu acalmar o hipogrifo e ainda me ajudou a me levantar e arrumar minhas roupas que ficaram todas sujas de terra. Ele sorriu para mim e perguntou se eu estava bem. Fiquei tão entretido com seus olhos verdes brilhantes que eu nem me liguei que a turma toda estava cochichando sobre mim e minha repentina vergonha. Apenas balancei a cabeça, agradeci pela ajuda e saí correndo para o castelo, tentando entender o que estava acontecendo com meu coração que não parava de acelerar. Depois de uns dias passando por Potter, o olhando como se ele fosse um Deus, e ficando sem graça toda vez que ele me olhava, que eu fui entender onde tinha me metido.
— Aqui, gente! — Uma voz me desviou dos meus pensamentos e eu sorri ao ver Luna acenar para mim e Pansy, nos convidando a ficar em sua cabine.
— Daqui a pouco vão ter que fazer um trem maior para nos levar à escola. Tá mais lotado a cada ano.
— Não seja rabugenta, Parkinson. Eu acho ótimo essa lotação toda. Tantas carinhas para conhecer e analisar. Pena que esse é nosso último ano — Luna disse enquanto fechava o velho livro que estava lendo. — Como vai sua paixão, Draco?
Bufei irritado. Luna e Pansy eram as únicas que sabiam sobre minha paixão e isso parecia dar mais gás às implicâncias que elas gostavam de fazer comigo quando estávamos sozinhos.
— Como sempre inalcançável, Luna. Ainda mais agora que ele está namorando a ruiva lá.
Luna soltou um risinho fino, como se soubesse de algo que ninguém mais sabia. Levantei as sobrancelhas para ela, que deu de ombros e voltou a ler seu livro. Ela estava escondendo alguma coisa. Tinha certeza disso.
— O que é que você sabe e não quer contar? — Pansy perguntou antes de mim.
— Nada demais. Harry e Gina não estão namorando — ela disse simplesmente, como se aquilo não fosse uma bomba.
— Ué? Como assim não estão namorando? — perguntei verdadeiramente confuso. Os dois não se desgrudavam mais desde o ano anterior. Vivam juntos para cima e para baixo e muito mais sozinhos do que acompanhados do Weasley e da Granger.
— Simplesmente não estão. Gente, eu sei das coisas — Luna suspirou, levemente irritada por não estarmos entendendo. — Eles dois são muito amigos e só.
Pansy se virou para mim e fez aquela coisa com os olhos que ela sempre fazia quando uma ideia muito ruim passava por sua cabeça. Neguei antes mesmo de saber o que era.
— Então o Draco tem chance?
— Isso aí você vai ter que perguntar para o Harry, Pansy. — E foi como se uma varinha enfeitiçada com Lumus houvesse surgido acima da cabeça da morena.
X
A primeira aula de Poções de Snape foi bem atípica. O professor simplesmente entrou, disse que nos separaria em duplas que ficariam juntas pelo resto do ano e começou a citar os nomes. É claro que a grande ironia da vida me fez dupla de Potter, e eu tive que recolher minhas coisas e me sentar com ele. Harry parecia bem nervoso a princípio, e eu achava que era por causa do fato de eu ser um dos melhores alunos em Poções e ele, convenhamos, era um desastre. Talvez estava com vergonha de mostrar sua zero habilidade na matéria, mas eu sorri tentando o tranquilizar assim que me postei ao seu lado. Aquilo pareceu o deixar mais nervoso ainda. Pansy me mandou um sorrisinho sem vergonha do outro lado da sala, e Hermione, sua dupla, tentava entender o que estava acontecendo com o amigo, que estava com as bochechas super vermelhas.
— Potter, está tudo bem?
— Sim, sim, professor — Harry respondeu, piscando rapidamente os olhos e balançando os ombros como se estivesse se preparando para um desafio. Levantei as sobrancelhas para ele, quando o mesmo me encarou, e sorriu sem graça. — Vamos começar essa poção logo, Malfoy.
Nós nos ajudamos mutuamente, de forma que nenhum dos dois fez todo o trabalho sozinho. É claro que Harry tinha muito mais dúvidas do que eu, mas eu tentei ajudá-lo ao máximo. Até pareciamos amigos por causa de toda interação que estávamos tendo. Às vezes eu fazia alguma piada, totalmente sem graça, mas que arrancava uma risada linda da minha dupla. Eu não sei como consegui levar a aula até o final sem babar a mesa inteira ou ficar encarando os olhos e a boca de Potter.
— Ei, Draco.
— Sim?
— Você se incomoda de me dar algumas aulas de Poções?
Depois daquela pergunta eu tive um leve surto por dentro. Eu não estava acreditando que finalmente eu teria a chance de mudar minha relação com Harry. Tudo bem que eu ainda estava longe de ter o que eu queria — ele na minha cama —, mas para tudo se tem um começo. Acho que passei tanto tempo imaginando nossos encontros para estudar, depois se tornando encontros de verdade, e beijos escondidos no meu quarto, que eu só reparei que ele ainda esperava uma resposta minha quando a ruiva, Gina, o abraçou por trás e apoiou a cabeça dela no ombro dele. A voz da Luna dizendo que os dois não namoravam evaporou totalmente da minha cabeça. Eu esperava que Harry simplesmente a deixasse naquela posição, mas ele fez questão de dar um beijo na bochecha dela e a segurar pelas coxas, apoiando a garota nas costas. Meu humor caiu níveis depois daquilo.
— Claro que sim. A gente se vê. Tchau — disse o mais depressa possível, meu coração se despedaçando aos pouquinhos, enquanto a risada dos dois ia diminuindo ao passo que eu cruzava o corredor em direção ao meu quarto, onde eu poderia chorar sem ninguém ver.
X
— Ai, Draco. Eu acho que a Luna está falando a verdade — Pansy disse depois que eu contei sobre a ceninha que eu tive o desprazer de presenciar. Eu estava na minha cama, o travesseiro sobre o rosto, enquanto minha amiga estava em pé na minha frente, os braços cruzados sobre o peito. — Tanto que ele beijou ela na bochecha e não na boca, como namorados normais fazem.
— Nada a ver, Pansy. Agora só porque namora é obrigado a beijar na boca? — reclamei, levantando o torso e a olhando. Ela desistiu de ficar em pé e se sentou na ponta da minha cama.
— Você vai dar aulas para ele, certo?
— Sim, mas-
— Então essa é a sua chance de tentar algo a mais com o Harry — ela disse, não mais como a irritada Pansy de sempre, mas como a amiga compreensiva que ela gostava de ser quando eu estava mal. — É sério, Draco. Você está apaixonado por Harry há cinco anos. Nunca tentou nada por medo de ser rejeitado, como se isso fosse possível. Você é lindo, uma boa pessoa, inteligente...
— Gay...
Pansy riu. Ela sabia que sofrer represália pela minha sexualidade era o maior motivo para eu nunca ter demonstrado o que eu sentia. Ela se aproximou de mim e me abraçou. Deitei a cabeça em seu ombro e deixei mais algumas lágrimas caírem. Já estava farto delas.
— Se você nunca tentar, pode perder uma coisa incrível. E você sabe que se não der certo, eu estarei aqui para juntar todos os seus caquinhos.
Eu sorri em meio às lágrimas e decidi, no conforto daquele abraço, que eu iria conquistar Harry Potter.
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