Imortal


Os olhos da criatura brilhavam, raiva, mágoa, ódio transbordavam em forma de baba em sua boca com os dentes arreganhados e as garras armadas prontas para o bote.

No canto do beco estava a presa, e que espanto meu, narrador de tantas e diversas histórias, reconheci ali o Amor. Acuado, transpirante, lágrimas escorrendo, palavras suspiradas, ininteligíveis.

A criatura saltou e com suas garras rasgava a pele de sua presa, com os dentes afiados saboreava a carne macia e tenra. Quantas vezes aquele ser quis dominar o Amor, entender o Amor; foi consumido. E agora a vingança. Destruía aquela coisa aparentemente pequena e inofensiva.

Com o sangue a escorrer-lhe na cara, nas mãos, pelos braços chupava os ossos, tudo o que sobrara do belo, puro e grande Amor.

Suas feições voltavam ao normal. Ainda quente, o sangue em seu queixo e pescoço. Se soubesse como era doce, suave o gosto desse prato o teria provado antes e não sofreria tanto e por tanto tempo.

Olhando para os ossos sentiu um pouco de remorso. Os restos ali no chão e a criatura de cócoras olhando, entendeu o que fizera. Seu ato impensado o condenara para sempre.

Ao ser digerido o Amor fará parte de suas células, de seus genes, de sua saliva, se suas lágrimas. Estava condenado a carregar o Amor. Senti-lo em suas entranhas por toda a vida.

E do fundo da sua alma um uivo ecoou pelo céu da noite e a lua enrubescida escondeu-se atrás de uma nuvem, espiando velada.

O prazer, a dor, o Amor naquela criatura. Cheirando o ar, a procura de outra criatura que a devore e compartilhe do Amor que dilacerou e engoliu tão desavisadamente.

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