Capítulo 58
Zyan estaciona o carro do lado de fora do abrigo, assim como os outros que nos seguiam. A movimentação do lado de dentro é intensa. Muitas pessoas passando de um lado para o outro carregam suas bagagens.
Lídia sai do veículo e eu ameaço fazer o mesmo, contudo, Vicente me impede.
— Gatha, o seu tornozelo está torcido, você não vai conseguir andar sozinha.
Olho para o local e vejo a luxação.
— Estou sentindo dores fortes em todo o corpo, mal percebi o estado do meu pé. — Digo por fim — Você poderia me ajudar?
Com um sorriso lateral nos lábios, ele se inclina e facilmente me pega no colo. Envolvo seu pescoço com as mãos, segurando bem firme para não ter nenhum risco de cair. O que faz Vicente rir.
— Eu não vou te deixar cair, amor! Relaxa!
Sinto fortes dores na região das costelas estando naquela posição, mas precisava suportar pela necessidade de locomoção.
Ao sairmos do carro, vejo Hassan e Zyan conversando com algumas pessoas. Este gesticula bastante enquanto tenta explicar algo.
— Ela precisa de atendimento médico urgente, senhora! — Aponta para mim.
— Meu Deus! O que fizeram com você, menina? — A mulher comenta com espanto ao perceber meu estado.
— Estou tão mal assim? — Tento aliviar o clima, mas ela me ignora e trata de chamar alguém no rádio.
A mulher nos explica que um pequeno navio de resgate espanhol acabou de chegar para prestar socorro aos refugiados, e essa movimentação toda é devido a isso. Ela também nos diz que será difícil encontrarem lugares para nós, pois há muitas pessoas e o navio não é tão grande. Se houver uma superlotação, há grandes chances de um naufrágio no meio do Mediterrâneo.
— Nós não nos importamos com conforto, senhora. — Vicente diz — Apenas precisamos sair daqui o quanto antes.
— Você e todos os que estão aqui, meu jovem! — Diz amavelmente — Mas nós faremos o possível para encaixá-los.
Começo a tossir, uma tosse seca e constante. Tais movimentos apenas intensificam as dores que vinha sentindo. O incômodo estava tão forte que eu já não aguentava mais. Começo a sentir falta de ar, deixando Vicente em alerta.
— Vin. — Ele me encara com preocupação — Me coloca sentada em algum lugar... Por favor! — Minha voz começa a falhar.
— Sigam-me, tem uma tenda aqui! — A mulher nos chama.
Fecho os olhos e tento controlar a respiração.
— O que está sentindo? — Ele pergunta ao me colocar em um banco dentro da tenda.
Não digo nada, apenas ergo uma parte da blusa, que claramente não era minha, e me assusto com as marcas roxas e amareladas. Tinha mais hematomas do que outra coisa. Vicente cerra o punho com força antes de começar a me analisar.
Quando toca na região da costela, onde sinto mais dor, solto um grito.
— Provavelmente sua costela está fraturada, por isso está com dificuldades para respirar. E com certeza pioramos a situação ao te abraçarmos sem tomarmos os devidos cuidados. — Diz com pesar. Vira-se para a senhora, que se aproxima com outro homem ao seu lado, e diz — Ela precisa de um atendimento urgente. Somos médicos, mas não podemos fazer muita coisa sem os equipamentos necessários. Por favor, nos levem nessa viagem.
O homem analisa o nosso estado por um momento, mas no fim concorda.
— Venham! Sei onde coloca-los.
Agradecemos a senhora que prontamente nos ajudou e seguimos o homem para dentro da pequena embarcação que se encontrava lotada de pessoas.
— Não terão conforto algum, mas poderão ficar debaixo da escada, próximo ao capitão da embarcação. — Aponta para o local — Algumas pessoas já estão lá, mas eles não se importaram em dividir o espaço com vocês.
— Muto obrigado! — Hassan agradece.
— O prazer é meu por conseguir ajuda-los. — Diz e se retira.
Apoio minha cabeça entre a curva do pescoço de Vicente. Vendo minha exaustão, ele se apressa e segue na frente dos outros.
— Vicente? — A voz de Julia me faz encarar a jovem.
— Ju! — Digo com emoção. Ao seu lado está Sabrina, olhando para nós com uma alegria contida.
— Águi! — Em um outro canto, Lara se levanta e nos fita com incredulidade — Deus, vocês estão vivos! — Ela se aproxima apressadamente, acompanhada de Gio. A intenção é de nos abraçar, mas estaca no mesmo lugar ao perceber nosso estado — Estão muito machucados! O que fizeram com vocês?! — Leva as mãos à boca com o espanto.
— Longa história, amiga! — Sorrio em meio as minhas crises de tosse. Ela se aproxima e segura a minha mão com os olhos cheio de água. Aponto para trás e digo — Temos uma outra surpresa.
— Lili! — A morena grita e corre em direção à loira, desviando-se das diversas pessoas sentadas no chão do pequeno navio.
— Deus é bom! — Vicente sussurra em meu ouvido, enquanto me coloca sentada. Ele se acomoda ao meu lado e passa o braço pelos meus ombros — Estamos voltando para casa, amor. Logo tudo isso irá acabar.
— Louvado seja Deus! — Quanto mais eu falava, a tosse só piorava.
— Eu sei que não será uma viagem tranquila, principalmente por causa do frio e das dores, mas qualquer mal estar que você sentir, não hesite em falar comigo. Ok?
Assinto, observando os meus irmãos e amigos se abraçando, chorando e glorificando. Porém, a ausência de duas pessoas não me passa despercebida.
— Ele não está aqui! — Sussurro para Vicente e ele aperta minha mão com força.
— Eu percebi... — Fala no mesmo tom — Assim que as meninas voltarem, a gente conversa com elas e procura saber o que aconteceu, onde eles estão... — Suspiro com dificuldade e concordo — Agora descanse, meu amor.
Fecho os olhos e sinto um beijo suave em minha testa.
— Eu amo você! — Digo.
***
— AGATHA! ACORDE, MEU AMOR!
— ÁGUI!
As vozes gritam desesperadamente ao meu redor. Quero abrir os olhos e acalmá-los, dizendo que estou bem e estou aqui, mas não encontro força.
— SAIAM DE CIMA, ELA PRECISA DE AR!
— POR FAVOR, FIQUE COMIGO, MEU AMOR!
O desespero na voz de Vicente me deixa agoniada. Eu só queria tirar essa dor do meu amado. Tento gritar, mas parece que ninguém me escuta, nem mesmo eu me escutava.
A exaustão toma conta de mim novamente, e eu simplesmente me rendo, calando as vozes ao meu redor.
***
Movo as pálpebras lentamente, e quando abertas meus olhos contemplam uma forte luz branca. Fecho-as com força.
Não é assim que a bíblia descreve a nova Jerusalém...
Analiso internamente. No entanto, um barulho muito conhecido por esta médica do monitor de frequência cardíaca me traz de volta à Terra.
Não, eu não morri!
Volto a abrir os olhos, desta vez viro o rosto para não mirar a luz branca da lâmpada. Suspiro com a visão do homem mais lindo desse mundo, sentado em uma cadeira ao lado da minha maca. Uma de suas mãos segura a minha, o que me faz sorrir e suspirar.
Acaricio seu dorso com o polegar, e logo ele desperta.
Seu sorriso ao me ver acordada é radiante, e isso me faz admirá-lo ainda mais.
— Eu te amo! — Digo, mas a voz sai rouca e completamente baixa.
Ele se aproxima e acaricia meu rosto com ternura.
— Eu amo mais! — Sorri de lado, antes de depositar um longo beijo em minha testa e se levantar — Preciso avisar ao médico que você acordou.
— Mas eu já tenho um. — Ele sorri à medida que seus olhos ganham um brilho diferente. Mesmo assim Vin se afasta, deixando-me sozinha.
Tento encontrar alguma coisa naquele quarto de hospital que revele minha localização, porém não é necessário, pois um médico entra no cômodo, sendo seguido por Vicente.
— Buenas tardes, señorita Agatha! — Cumprimenta em seu espanhol perfeito.
— Espanha! — Digo e ele franze o cenho.
— Ela está se localizando, doutor Ruan. — Vicente sana a dúvida estampada no rosto do médico.
— Ah! Isso mesmo! A senhorita está na Espanha.
Nas próximas horas, fui examinada de diversas formas possíveis. Deram-me alguns remédios para dor e me colocaram a par de toda a minha situação.
Segundo Vicente, tive uma convulsão e duas paradas cardíacas durante a viagem de volta à Europa, enquanto ainda dormia. Eles tentaram me reanimar das duas vezes, mas parece que meu coração parou de bater por alguns segundos da última vez.
Quando acharam que esse tinha sido o meu fim, lá do céu Papai bradou mostrando que a obra que ele tem em minha vida ainda não tinha chegado ao fim.
E para se tornar um lindo testemunho, centenas de pessoas viram o poder do nosso Deus através desse milagre.
Ao chegar no país, fui levada ao hospital mais próximo, que no caso é este, onde fizeram todos os procedimentos necessários para estabilizarem meus sinais vitais. Após terem descoberto os meus reais problemas, passei por duas cirurgias nas costelas.
Em uma delas, encontraram um pequeno orifício em meu pulmão direito devido a perfuração de uma costela que estava quebrada. Dessa forma, cada vez que eu respirava, ela entrava pouco a pouco em um dos órgãos mais importantes do meu sistema respiratório. Para finalizar, eu entrei em coma.
E hoje, após um mês e meio, despertei.
O mais impressionante de tudo, é que eu despertei como alguém que acaba de acordar de uma boa e restauradora noite de sono. Deus realmente conhece nossas necessidades, e ele sabia que a filhinha dele precisava de um tempo de descanso.
No fim de toda aquela história, eu só sabia rir e chorar de gratidão.
— Tem algumas pessoas aqui fora que estão loucas para te ver. — Vicente diz acariciando minha mão.
Ergo uma sobrancelha, já imaginando uma Lara histérica e uma Lídia acanhada.
— Pode manda-las entrar! — Digo.
Ele sela nossos lábios com carinho e sai do quarto. Quando a porta volta a ser aberta, meus olhos se arregalam e as lágrimas começam a rolar.
— Mãe! Pai!
— Minha filha! — Mamãe corre até minha maca e envolve o meu pescoço com cuidado — Como estávamos preocupados, minha criança! — Assim como eu, ela chora.
— Agora estou bem, mamãe! — Digo sentindo o cheiro de seu perfume — Que saudades!
Seu Bruno aparece do outro lado da maca, olhando para nós duas com lágrimas nos olhos.
— Papai! — Minha mãe me solta, dando lugar ao meu progenitor.
— Minha querida, como estou orgulhoso de você! — Seus lábios tremem e a voz falha — Louvado seja Deus! Eu sabia que você voltaria para nós!
— É, o senhor sabia! — Alargo o sorriso e ele se afasta — Como estão o Ângelo, a Verônica e a Ângela?
— Ah, querida! Eles estão ótimos, principalmente com o novo membro da família. — Mamãe diz com os olhos brilhando.
— Como assim? — Pergunto, mas não deixo de sorrir. Estou feliz demais por tê-los comigo.
— Bom, você é titia novamente! — Meu pai responde.
— Sério? — Olho de um para o outro — Isso é incrível! Com quantos meses a Verônica está?
— Querida, o Alexandre já nasceu. Está com três meses. — Arregalo os olhos com as palavras de mamãe.
— E vocês não me contaram nada da última vez que nos falamos! Por quê? — Tento entender.
— Porque a Verônica ainda não estava grávida. — Papai diz com cuidado.
— O quê? — Exclamo com confusão — E quando foi isso? Quando foi a última vez que nos falamos?
Eles se encaram de forma estranha, depois olham para Vicente, que até então estava na porta nos observando. Ele se aproxima com cautela e pega minha mão.
— Gatha, vocês ficaram sem se falar por quase um ano.
— Não é possível! — Começo a rir de nervoso, mas eles permanecem sérios — Está me dizendo que ficamos naquele cativeiro por quase um ano? — Ele assente e as lágrimas começam a jorrar — Mas o tempo não pareceu demorar tanto assim!
— Deus foi misericordioso conosco, e isso é o que mais importa agora, meu amor! — Enxuga minha face.
— O seu noivo tem razão, filha! — Olho para papai e depois para Vicente.
— Contou a eles? — Pergunto.
— É claro! Foi uma das primeiras coisas que eu fiz quando os seus pais chegaram. — Sorri docemente.
— E o que vocês acham? — Questiono com incerteza, mais em relação ao meu pai, pois nem preciso dizer que mamãe deve estar radiante com toda a novidade.
— Sua mãe e eu sempre aprovamos este relacionamento. Orávamos por vocês mesmo antes de descobrirem que estavam apaixonados. — Comenta dando uma pequena risada — Além do mais, o Vicente tem mostrado ser um homem valoroso. Ele cuidou e tem cuidado do nosso bem mais precioso com sua própria vida. Nunca terei como agradecê-lo o suficiente! — Bate no ombro do genro.
— E eu já comecei a preparar o casamento de vocês! Será lindo! — Mamãe me abraça mais uma vez.
— Oh, não! — Resmungo.
— Boa sorte, minha filha! Irá precisar! — Papai diz e os dois homens presentes riem.
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