Capítulo 54

Com muita dificuldade, minhas mãos soltam os puxadores do guarda-roupa. E em um movimento lento, viro-me, ficando frente a frente com o inimigo.

— Achou que conseguiria escapar de mim, bonitinha? — Dá um passo em minha direção, à medida que eu me choco com a porta de mdf na tentativa de recuar.

— Fique longe de mim! — Minha voz sai como um sussurro.

Tento manter a calma e ser ameaçadora, mas tenho certeza que não surtiu o efeito esperado, pois o homem solta uma alta gargalhada. Os pelos da minha nuca se arrepiam e eu engulo em seco.

Senhor, tenha misericórdia!

— Acha que me colocará medo dessa forma? — Aproxima-se ainda mais — Tsc, tsc, tsc... Pobre iludida!

— O que quer? — Questiono, mesmo já sabendo a resposta.

— Acho que já sabe... — No segundo seguinte, ele avança rapidamente pressionando seu corpo contra o meu com força, sem me dar ao menos uma chance para raciocinar.

Agradeço ao Senhor pelo rápido reflexo ao virar o rosto, quando ele tenta unir nossos lábios.

Uma ânsia toma conta de mim, levando-me a fazer uma grande estupidez.

Cuspo em seu rosto, em seguida uno minhas forças e o empurro para longe, a fim de me ver livre daquele ser desprezível.

— Eu disse para ficar longe de mim! — Digo e me ponho a correr.

Entretanto, mal consigo passar por ele, pois o mesmo é muito mais rápido do que eu. Com um simples puxão em meu braço, joga-me contra o guarda-roupa.

— Ai... — Solto um gemido de dor, e isso parece agrada-lo ainda mais.

— Assim é bem melhor, bonitinha! — Agarra minha cintura com tanta força que a machuca.

Sem saber mais o que fazer, fecho os olhos, já sentindo as lágrimas rolarem, e começo a orar, esperando a terrível cena que viria. No entanto, o que sinto em seguida é a mão dele sendo afastanda de mim, e um vento tomando conta do espaço que antes era ocupado por ele.

Abro os meus olhos a tempo de ver Vicente acertar o primeiro soco no rosto do líbio com o seu braço bom.

— Não... Toque... Na minha... Mulher! — Diz entre socos.

No quarto soco o cara já estava desacordado. Ainda sem conseguir associar o que acabara de acontecer, permaneço parada no lugar.

— Meu amor! — Ele corre em minha direção e segura meu rosto com ternura e preocupação — Esse monstro te machucou?

Nego algumas vezes, sem conseguir dizer nada. Percebendo meu estado de choque, Vicente me toma em seus braços e eu desato a chorar, como uma criança.

— Shhhh, estou aqui! Não vou permitir que ninguém te machuque, Gatha! — Beija minha testa com carinho — Ninguém!

— O-Obrigada! — Falo após sentir o nó em minha garganta se desfazendo.

A porta do guarda-roupa bate em minhas costas e eu dou um pulo, mas logo suspiro aliviada com Lara saindo de lá.

— Está bem? — Pergunta com lágrimas nos olhos — Eu ouvi tudo.

— Sim, o Vicente chegou a tempo. — Olho para ele, que observa o cara caído no chão.

— Precisamos sair daqui. Ele despertará em breve e os outros poderão chegar a qualquer momento. — Concordamos e o seguimos para fora do quarto.

— Para onde estamos indo? — Lara pergunta enquanto corríamos corredor a fora, após analisarmos o ambiente.

— Para o esconderijo onde nossos amigos estão nos esperando. — Vin para após virarmos outros corredores, olha para os lados e abre uma das portas.

— Uau, que biblioteca linda! — Lara diz admirada.

— Venham! — Vicente nos chama para perto dele.

O mesmo aperta um botão localizado atrás de um dos livros, e uma porta escondida é aberta. Entramos rapidamente em um longo corredor. Seguimos alguns metros até encontrarmos outra porta que dá para uma escada.

Antes mesmo de começarmos a descer, Aisha e Théo aparecem em nosso campo de visão.

— Louvado seja Deus! — A líbia glorifica, nos abraçando em seguida.

— Foi por pouco! — Sussurro.

— Imagino! — Diz e se afasta.

Só então pude observar o local. Era uma espécie de sala de segurança, com diversos monitores espalhados pelas mesas, revelando imagens ao vivo de todos os cômodos, ou quase todos, da casa.

Nos acomodamos com o restante do pessoal, enquanto os homens se reúnem para estirarem os próximos passos.

— Está gelada, Ju! — Digo após tocar sua mão.

— Aqui embaixo está bem frio. — Diz antes de se abraçar.

— O papai está tão agitado que esqueceu de ligar o aquecedor. — Aisha se levanta e caminha até um painel. Liga o aquecedor e volta para o seu lugar — Em minutos ficará bem melhor — Sorri para Ju.

— Obrigada! — A jovem agradece.

— Tudo aqui é de alta tecnologia! — Comento.

— Tudo isso graças ao trabalho do meu pai no governo.

— Faz sentido. — Digo.

Samanta, que estava quieta ao nosso lado, se levanta.

— Águi, podemos conversar por um minuto?

— Claro! — Ponho-me de pé e a sigo — Aconteceu algo?

— Na verdade sim, muitas coisas! — Aponta para o redor e dá risada.

— Que pergunta a minha! — Reviro os olhos, mas me uno a ela.

— Eu quero te parabenizar pelo seu ato ao ir atrás da Lara. Foi muito corajosa! — Sorri.

— Sabe, às vezes eu gostaria de enxergar essa mulher corajosa que vocês tanto veem em mim. — Miro o chão — Se soubessem o pavor que sinto em meu interior, só de pensar em ter sido capturada... — Rio secamente — Retirariam imediatamente esse pensamento da cabeça de vocês.

Ela fica em silêncio por um tempo, mas logo começa a falar.

— Esse tempo que passei ao lado da Sabrina, aprendi muitas coisas sobre essas questões psicológicas e tudo o mais. — Sorri — O medo é um sentimento de autoproteção que pode surgir diante de alguma ameaça iminente, quer seja ela real ou imaginária.

Concordo.

— A Bíblia vai dizer que depois de desobedecer a Deus e cometer pecado, o homem teve medo e se escondeu de Deus. Embora esse sentimento seja uma realidade desse mundo caído em pecado, Deus é a fonte de amor, esperança, perdão e salvação. Ele nos encoraja em cada situação das nossas vidas. Ele diz: Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a minha destra fiel.

— Amém. Mas você não me entendeu...

— Deixe-me terminar, dona Agatha! — Repreende-me com um sorriso no rosto — O que eu quero dizer é que todos, sem exceção, temos medos, receios, pavores... — Frisa a última palavra — Mas o que realmente torna uma pessoa corajosa, é ela não recuar ou desanimar, mesmo diante dos riscos. Elas encaram os todos eles de frente. E em seu caso, o mais admirável é que você encarou os seus temores por causa de outra pessoa! — Segura minha mão — Então você é sim uma mulher forte e corajosa! E eu me sinto muito honrada de estar cumprindo o meu chamado ao seu lado! — Me abraça com carinho.

— Pessoal! — Habib chama nossa atenção — Eu gostaria de me desculpar pelo que fiz. Se não tivesse convidado aquelas pessoas para estarem aqui, talvez tudo isso não teria acontecido.

— Não diga isso! — Julia diz — Deus preparou todo esse momento por causa de duas almas.

— É verdade, Habib! — Gio se manifesta — A senhora e a sua filha, a Laila, elas ficaram espantadas e impactadas pelo que houve na van, enquanto levávamos seu esposo e pai para o hospital.

— Sim! Elas viram o poder do nosso Deus, o Deus que está em todo o tempo ao nosso lado, nos protegendo e livrando. Tanto viram que quiseram conhece-lo um pouco mais — Julia se põe de pé — E no fim, um pouco antes do filho as tirar do quarto, elas se renderam aos pés de Jesus!

— Louvado seja Deus! — O anfitrião diz abismado.

E eu estou da mesma forma, completamente abismada e emocionada com as coisas que Deus fez, tem feito e ainda fará.

— Sendo assim, digo por todos, que estaríamos dispostos a passar por tudo isso novamente, se o resultado for duas almas salvas pela graça de Deus! — Gabriel diz.

— Se eu fosse você não pediria por isso... — Uma voz diferente, não muito estranha para mim, nos faz dar um pulo.

Olhamos para o topo da escada, e lá haviam três homens armados acompanhando nossa pequena reunião. O que fala é o líbio que tentou me agarrar à força. Seu rosto estava machucado e com um pouco de sangue.

— Infelizmente o trabalho de vocês, cristãos... — Cuspe ao pronunciar a última palavra — Foi em vão, pois neste exato momento, há três corpos estirados no jardim de vocês, completamente sem vida por falarem demais.

— O que fizeram? — Habib dá um passo a frente, mas logo para ao ver todas as armas apontadas em sua direção.

— Ei, ei, ei! — O líbio, que supostamente era o líder, fala — Calminha aí! Em breve você estará juntinho com eles. — Sorri maquiavelicamente.

Dou um passo para trás, tentando me esconder de sua vista, mas meu pequeno movimento chamou sua atenção.

— Eu disse que não conseguiria fugir de mim, bonitinha... — Diz com um entortar de cabeça.

Vicente me puxa para si e isso fez o homem gargalhar. Seus capangas se unem a ele.

— O amor é realmente lindo, mas... Ele acaba levando a morte! — Diz fitando Vicente com ódio.

— Você tem razão! — O líbio olha para Théo — Basta olhar para o sacrifício de Jesus. Por amor, ele morreu por nós! Inclusive por vocês!

Ele desce as escadas com uma fúria fora do comum. Pressiona o revolve na cabeça do doutor e rosna.

— Está querendo ser o primeiro a morrer, grandão?

— Eu posso até morrer, mas não deixarei de falar do amor de Cristo! — Devolve com cautela.

Fecho os olhos, tamanha era minha angustia pelo meu amigo. Escuto um barulho que me faz abrir os olhos novamente. Théo cobre um lado da face com uma das mãos.

— Isso é para você aprender a ficar quietinho! Sua hora chegará em breve! — Sussurra — Agora andem! Quero todos subindo! — Ordena com um grito.

Em uma fila indiana, todos começam a subir os degraus. Ao passarmos pelo homem, ele agarra o braço machucado de Vicente e pressiona sua ferida. O mesmo solta um grito ensurdecedor.

— Você irá se arrepender do que fez! — Sussurra para Vin, mas eu consigo ouvir — Este daqui terá um fim especial! — Fala para os seus companheiros.

— NÃO! — Grito, agarrando-me ao meu noivo — Não faça isso, por favor! — Agarro o rosto de Vicente com força e fito seus olhos. Os meus ficam embaçados devido às lágrimas — Por favor, me leve no lugar dele!

— Não! — Vicente responde com desespero. Ele tenta me afastar, mas não permito.

— Sinto muito, bonitinha, mas o final de vocês não será muito diferente! — sorri com deboche.

Sinto mãos fortes segurando minha cintura, tento me soltar, mas não consigo. Olho para cima e vejo Théo, me levando para longe do meu amado.

— ME SOLTA! — Digo, mas sou ignorada — EU DISSE PARA ME SOLTAR, THÉO! — Com as técnicas de autodefesa que aprendemos, piso em seu pé e dou-lhe uma cotovelada no abdome.

Quando ele me solta, corro para Vicente e agarro seu rosto, unindo de uma vez por todas os nossos lábios. Ele segura minha cintura com força e me puxa ainda mais para si. Nossas lágrimas se misturam a medida que rolam de nossos olhos.

Infelizmente não consigo descrever o beijo, pois a mistura de emoções é enorme. Entretanto, a única coisa que sinto com força em meu peito é a dor. A dor de estar perdendo o amor da minha vida, antes mesmo de ter tido a oportunidade de iniciar uma vida ao seu lado.

Sinto outra vez alguém me puxar para longe.

— Eu te amo! Não esqueça disso, Gatha! — Sussurra me olhando com intensidade.

Tento dizer algo, mas não consigo, apenas choro. Nem forças para me debater eu tinha mais. À medida que íamos nos afastamos, a sensação que tenho é de que uma parte de mim estava sendo arrancada com força, e o buraco em meu peito aumentava cada vez mais.

Entretanto, a dor atravessa o meu corpo quando o barulho ensurdecedor de um tiro seco ecoa atrás de nós. Tento me virar, mas o que vem a seguir é uma forte pancada na cabeça, levando-me à escuridão. 


>>>><<<<


Um emoticon define tudo o que eu sinto no momento: 😭

Dito isso, até amanhã! Ou quem sabe mais tarde...


Att.

NAP 😘

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