Capítulo 52
As horas passam e aos poucos o tiroteio e a gritaria vão diminuindo, não completamente, mas diminuem. Théo e Lara, agora permanecem ao meu lado. Vicente continua em um sono profundo devido a medicação.
Avisto Aisha e Gio em outro canto. Ainda não tinha conversado descentemente com as duas desde quando chegaram.
— Théo, você poderia ficar de olho no Vicente? — Pergunto ao doutor.
— Claro, Águi! — Assente.
Ergo um pouco a cabeça do homem desmaiado em meu colo, enquanto Théo a segura para eu me levantar. Pego uma mochila e coloco no lugar de minha coxa.
— Obrigada! — Digo e chamo Lara com a mão.
A morena se levanta e me segue.
— Estou exausta, Águi! — Comenta com desanimo na voz.
— Imagino! Nem deu tempo de descansar da viagem. Por que não tira um cochilo, aproveite que as coisas estão tranquilas por enquanto. — Abraço-a lateralmente.
— Não consigo com todo esse barulho. Queria eu estar como o Vice neste momento. — Rimos baixo — E pelo visto vocês dois estão muito juntinhos.
— Isso é papo para uma outra hora. — Corto qualquer chance de perguntas.
Aproximamo-nos das duas mulheres. Aisha olha para nós e dá um sorriso lateral, sem mostrar os dentes.
— Podemos? — Pergunto apontando para o lugar ao lado delas no chão.
— Fiquem à vontade! — Diz.
Sou a primeira a sentar, Lara o faz em seguida.
— Como estão? — Tento iniciar uma conversa, sem saber por onde começar.
— Confesso que já estive melhor! — Aisha comenta com um pouco de ironia.
Compreendo o seu humor azedo.
— É, acho que posso dizer o mesmo. — Gio responde docemente, rindo em seguida.
Sorrimos para a italiana, que tenta criar um clima descontraído.
— Vocês se lembram daquele pesadelo que tive lá na Espanha? — Pergunto, encarando as duas. Elas assentem e eu continuo — Pois foi exatamente o que aconteceu com a Lídia... Mas em meu sonho, erámos apenas ela, eu e os dois traficantes. Não havia mais ninguém Aisha. — Tomo sua mão — Eu não sei o porquê do Hassan ter feito o que fez.
— Eu sei! — Diz com a voz embargada, mas sem chorar — Eu conheço o meu irmão e ele faria qualquer coisa para salvar a vida de alguém! Qualquer coisa mesmo. Principalmente depois que nossa mãe se foi.
Apoia a cabeça na parede e olha para o teto.
— Ele sempre teve um coração lindo... Puro! — Sorri com as lembranças — Deus só foi aperfeiçoando à medida que ele O conheceu.
— Seu irmão realmente é uma pessoa especial! — Olho para Habib, que conversava com um homem líbio, e sorrio — Você tem uma família linda e muito amada por Deus!
— E eu O louvo por isso! — Exclama.
— Vocês são abençoadas por terem nascido ou por terem sido criadas em um lar cristão. — Lara se pronuncia. Ela já tinha me contado sua história durante nosso tempo no CEM — Eu sou a única cristã em minha casa, todos os meus parentes são ateus. Quando contei que faria missões, eles me colocaram no olho da rua... Se não fosse pelo meu pastor e sua família, não teria nada!
Aperto seu ombro em sinal de apoio.
— Mas Deus é tão bom e misericordioso que me presenteou com uma família maravilhosa lá no CEM! — Olha para mim e sorri — A Águi, a Lili, o Caio, a Sam e todos os outros foram os melhores presente que Deus poderia ter me dado!
— Nossa, que lindo! — Gio comenta emocionada.
— Sabe, eu quase desisti quando eles me excluíram da família. Pensei por um breve momento "que Deus permitiria algo assim acontecer com um filho?". — Ri secamente — Mas aí eu me lembrei que Ele não poupou a vida do Seu filho unigênito. Antes, pensou nestes seres humanos falhos. — Aponta para nós — Depois disso, eu só consegui enxergar o amor que Ele tem por nós. Entendi que as adversidades da vida nos aproximam de Deus e elas também podem aproximar outras pessoas de Deus. E vocês viram o que o Gabriel falou lá na casa de seus avós, Aisha. A Lídia e o Hassan, seja lá onde eles estiverem neste momento, estão lutando o bom combate!
— Amém! — Aisha olha com admiração para minha amiga, e eu abro um sorriso cheio de orgulho.
— Como diria mamãe, que criança sábia! — Bagunço seu cabelo e ela sorri.
— Falando nela, como está tia Fernanda? — Pergunta.
— Nem me lembre... — Solto uma risada — Coitada, deve estar desesperada, pois da última vez que nos falamos, mal nos despedimos, e ela estava ciente do que poderia acontecer conosco.
— Oh, Águi, nem me fale! — Gio se inclina em nossa direção — Vovó ficou com o coração apertado quando falei com ela esta tarde! E a coitada estava no aeroporto embarcando para a França.
— Que chique! — Lara comente.
— É, eu também queria estar embarcando com ela para lá. Minha prima irá casar. — Alarga o sorriso — Está toda feliz!
— Sério? Que maravilha! — Digo.
— Ah, ela é brasileira, assim como vocês! — Comenta com orgulho.
— Sua família não é italiana? — Aisha pergunta, entrando na conversa.
— A maioria sim, mas quando vovó foi para o Brasil, o meu tio Samuel, que já era maior de idade, permaneceu por lá. Ele conheceu uma mulher brasileira e eles se casaram. Desta forma eu tenho duas primas brasileiras.
— Que legal! Mas sua família também é cristã né? — Lara questiona.
— Sim! Pela misericórdia e bondade de Deus! Todos nós somos.
— Estava pensando aqui, a maioria dos nossos familiares estão orando por nós neste momento. No entanto, muitos se encontram aflitos e preocupados. — Analiso — O que acham de levantarmos um clamor por eles?
— Ótima ideia! — Gio comenta.
Damos as mãos e fechamos os olhos. Quando estamos prestes a iniciarmos nossa oração, escutamos duas vozes que nos despertam.
— Não! — Gabriel grita ao mesmo tempo que um outro homem.
— O que estão fazendo? — Pergunta o líbio que conversava com Habib.
Arregalo os olhos me dando conta do que acamamos de fazer. Levantamos rapidamente, em questão de segundos a maioria dos irmãos estavam ao nosso lado.
— Vocês são cristãos! — O mesmo homem exclama desacreditado.
— Me perdoem, a culpa foi minha! — Digo com pesar.
— Não é verdade! Nós concordamos! — Aisha diz com firmeza.
— Como vocês tem coragem de prestar culto ao seu Deus em nosso país? — Exclama algo em líbio que não consigo entender.
— Tenha mais respeito com a minha família! — Habib diz. No momento meu coração se enche de alegria ao ver a consideração que ele tem por nós — Não estamos fazendo mal a ninguém.
— Vocês são a escória dessa sociedade! Uma vergonha para o nosso povo! — Diz e cospe no rosto do anfitrião.
— Querido! — A esposa tenta acalmar o marido.
— Me deixe, mulher! — Puxa o braço que a mesma segurava — Essas pessoas verão que não se devem brincar de igrejinha aqui no meu país. Alá, esse sim é o único Deus! Que ele faça vocês queimarem no fogo do inferno!
A raiva daquele senhor era tão grande, que meus olhos se enchem de água.
Pai, tenha misericórdia dessa alma! Clamo internamente.
De soslaio percebo Vicente se mexendo. Sem pensar duas vezes corro até ele.
— O que está acontecendo? — Questiona ainda sonolento enquanto tenta se erguer.
— Ei, não se mexa muito ou...
— AGUATHA!
— ÁGUI!
Escuto gritarem o meu nome, mas não chego a virar em suas direções, pois sinto um aperto forte em meu braço. Em seguida, um forte latejar em minha cabeça.
— Ai! — Resmungo colocando a mão na região dolorida. Percebido a umidade e logo me dou conta que está sangrando.
— ÁGUI! — Vicente e Gabriel se aproximam rapidamente. O primeiro chega perto de mim, segurando o braço já ensanguentado.
— Seu braço! — Aponto e ele me repreende com o olhar.
— O meu braço é o de menos! Sua cabeça está sangrando, amor! — Tenta me erguer, mas com um dos membros ruins não consegue — Droga de braço! — Resmunga e eu sorrio. Sento-me sem muita dificuldade.
— Fique tranquilo, Vin, estou bem! — Tento falar, mas sou ignorada.
— Gabriel, você poderia trocar de lugar com o Théo? — Olho para a direção onde os outros estavam e vejo Habib e Théo segurando um homem enfurecido.
— Claro! — Nosso líder se levanta e segue até o grandão.
Em seguida, o doutor se aproxima de nós. Abaixa ficando em minha altura, e retira o Hijab de minha cabeça.
— Vejamos o que temos aqui... — Ele toca a ferida em meu couro cabeludo, e eu solto um pequeno gemido.
— Não parece ser nada sério. — Falo, porém, mais uma vez sou ignorada.
— Ela bateu com força, Théo. — Vicente fala.
— Mas eu estou bem! É o couro cabeludo, por isso tanto sangue.
— Sim, abriu um pequeno ferimento, mas vamos fazer um curativo, Vice.
— Quem precisa de cuidados é o Vicente, não eu! Olhe para o braço dele! — Já ficava nervosa por estar sendo ignorada pelos dois.
Ferraço revira os olhos e segue até uma das bolsas. Entrega alguns materiais para Théo e ele limpa o local com habilidade e rapidez.
— Dá para vocês pararem de me ignorar? — Falo alto e os dois me encaram — Finalmente! — Puxo a gaze das mãos de Théo e pressiono o machucado. Ponho-me de pé e aponto para Vicente — Agora trate de ficar quieto aí e receber o atendimento necessário! — Viro para o doutor e aponto em sua direção — E você, trade de fazer o seu trabalho!
Viro, deixando os dois para traz. Ainda segurando a gaze no ferimento.
— Acalme-se, querido, por favor! — A senhora continua tentando acalmar o seu esposo.
— Está melhor? — Lara pergunta e eu simplesmente assinto.
— E ele? — Aponto para o homem desestabilizado, que nos olha com fúria.
— É obvio que não é ele... — Aisha se aproxima — O inimigo está completamente furioso.
— Não sessem de interceder, — Gabriel olha para o nosso grupo — estamos em guerra!
No momento em que levantamos um clamor, mesmo baixo, o homem se solta dos braços de Habib e do nosso líder.
— Verão o que irá acontecer com vocês, seus cristãos *** — Não consigo entender o final, mas com toda certeza foi uma palavra de baixo calão.
Dito isto, ele corre para a porta e a destranca com facilidade.
— Khalil, não!
— Não, papai!
Sua família grita em desespero.
Os homens correm atrás dele em completo desespero, mas para nossa infelicidade, o líbio se expões ao fogo cruzado e acaba sendo atingido.
— NÃO! — Sua esposa grita se jogando no chão, completamente arrasada.
Sons de espanto saem de nossos lábios.
Cardoso, Gabriel e Habib, vão até ele, com todo o cuidado necessário. Entretanto, com a quantidade de tiros recebido, é quase impossível que o homem esteja vivo.
— Meu marido! — A senhora chora agarrada aos seus filhos.
Assim que eles voltam para o beco carregando o corpo, e passam pela van, corro até eles e verifico o estrago. Abaixo-me para avaliar a frequência cardíaca. Desacreditada, coloco os dedos indicador e médio na artéria radial, que está localizada na parte interna do pulso, próxima ao polegar, a fim de sentir a pulsação.
— Senhor Jesus! — Meu espanto é notório.
>>>><<<<
Oiiieeeee e Tchauuuu!! HAHAHAHA, brincadeirinha!
Que capítulo!! Fortíssimas emoções, e isso é apenas o começo da nossa reta final!
Uma perguntinha, alguém aí conseguiu reconhecer quem são as primas da Gio?? 🤔🤔
Nos vemos na segunda!! Ou quem sabe Deus toque em meu coração e eu poste algum capítulo neste fim de semana 🤭🤷🏼♀️ Vão orando! Kkkkk
Att.
NAP 😘
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