Capítulo 48
Com os olhos brilhando, observo a água cristalina cintilando com a luz do sol tocando sua superfície.
— Tem certeza que deseja fazer isso, querida?
A voz de papai me tira do transe. Viro em sua direção e digo com convicção.
— Mas é claro que sim, papai! — Ponho a mão na cintura e aponto para o céu — Recebi instruções do alto.
— Eu disse para o senhor que ela não desistiria dessa ideia, tio! — Hel, que estava ao meu lado, revira os olhos e eu a empurro com o corpo.
— Vocês não compreendem, mas eu sinto que preciso fazer isso.
— Realmente, não compreendemos, mas estamos ao seu lado, amiga! — Helena segura minha mão — Agora vamos começar logo, antes que eu mude de ideia.
Papai ri de seu comentário, e eu faço o mesmo.
Seu Bruno pega o relógio, onde cronometrará o tempo, e senta em uma das espreguiçadeiras.
— Basta falar quando estiver pronta, minha criança. — Diz.
— Tudo bem! — Tiro meu roupão das meninas super poderosas e entrego para a minha melhor amiga.
Sinto a água gelada em minha pele à medida que desço os degraus da piscina.
— Águi, espera! — Olho para trás e vejo Hel tirando o seu roupão, também das meninas super poderosas. Ela corre até mim.
— Sem correr, pequena Hel! — Papai a repreende.
— Desculpa, tio Bruno! — Comenta sem graça, antes de entrar na piscina.
— O que foi? — Questiono, não entendendo o que ela fazia.
— Eu não deixarei você sozinha! Estarei segurando as suas mãos para que não tenha medo.
Abro um sorriso ao ouvir seu comentário.
— Obrigada, amiga! — Envolvo ela com os meus braços e finalizamos o percurso.
Ela segura minhas mãos e me olha com seriedade.
— Haja o que houver, não se desespere e não solte minhas mãos! — Assinto em concordância — Eu sempre estarei aqui! — Pisca para mim — No três. Um... Dois...
E no três, pela primeira vez em minha vida, eu submergi.
Ainda temendo, abro os olhos lentamente e vejo boa parte da luz do sol penetrar a água transparente da piscina. Sorrio com a bela visão, mas logo vejo o olhar duro da minha amiga, me incentivando a fechar os olhos e me concentrar.
Assim eu o fiz.
Todo o medo de não conseguir foi sendo substituído pela confiança. Concentro-me no silêncio e na leveza das águas tranquilas, mesmo sabendo que muito em breve meus pulmões protestariam pela falta do ar.
O sorriso que brincava em meus lábios é desfeito, quando sinto fortes apertos em minhas mãos. Abro os olhos, e rapidamente volto à realidade.
A bela visão, da luz do sol penetrando a água transparente, é substituída pela escuridão do lago artificial.
O aperto em minhas mãos se intensifica. Lídia começa a se debater e tenta se soltar. Tento segura-la mais firme, porém não adianta.
A loira consegue se soltar, e rapidamente emergir.
Cogito fazer o mesmo, mas sinto uma mão segurando o meu braço.
Permaneça!
Meu coração se aperta e em pensamento começo a debater com o Senhor.
Preciso ajuda-la, Pai! Ela irá morrer. Eu vi!
Mas nada escudo. Apenas o silêncio.
Fecho os olhos e volto a me concentrar. Sinto meus pulmões reclamando, mas permaneço ali, como ordenara o Senhor.
Não faço ideia de quanto tempo fico submersa nas profundezas das águas escuras, mas assim que sinto o aperto em meu braço afrouxar, subo rapidamente. Já na superfície, expiro profundamente. Abro os olhos e não vejo ninguém. Nenhum sinal de Lídia ou dos homens.
Nado depressa até a parte rasa do lago. Assim que meus pés alcançam o chão, corro para longe das águas.
O vento, agora gelado, castiga minha pele molhada, mas não me importo com o frio. Precisava encontrar a minha amiga.
— Onde você se meteu? — Sussurro, mas minha vontade era de gritar por seu nome.
Olho para o lado direito, nada. Olho para o lado esquerdo e algo chama minha atenção.
Corro até lá.
A respiração falha e os meus olhos ardem.
— Não...
Caio ajoelhada na areia, ainda sem acreditar que aquilo estava acontecendo.
— Não, meu Deus... Não é possível! — Um soluço alto e doloroso corta minha garganta, enquanto as lágrimas rolam livremente.
Pego o tecido rasgado em minhas mãos, e vejo a pequena mancha de sangue carimbada nele. É o mesmo tecido da blusa que Lídia vestia.
O choro compulsivo toma conta de mim. Sem entender, olho para o céu em busca de respostas.
— O que está acontecendo, Pai? — Fecho os olhos com força — Por favor, me acorde desse pesadelo!
Mas não era um pesadelo, pelo contrário. O que mais temia estava se tornando real.
Em meio às lágrimas e soluços, deito-me na areia em posição fetal. Não tinha mais forças para nada. Nem mesmo para fugir dos meus adversários.
***
— Ela está aqui!
Alguém grita.
— O que aconteceu?
Outro pergunta.
Sinto meu corpo sendo suspenso.
Tento abrir os olhos, mas as pálpebras estão pesadas demais.
— Agatha!
Essa voz eu conheço de longe!
— Ela está bem, Vice! Vamos cuidar dela.
Essa eu também conheço!
As vozes ficam cada vez mais distantes. Até que o sono me envolve novamente.
***
Viro-me de um lado para o outro. Meu corpo anseia descansar mais um pouco. Já minha mente deseja o contrário.
Abro as pálpebras devagar e encaro o teto amarelo. Sinto a cabeça explodir e volto a fecha-lo ao mesmo tempo que um gemido sai dos meus lábios.
Escuto uma risada. Imediatamente um alerta soa em minha mente, mas logo sou tranquilizada ao ouvir a voz conhecida do doutor.
— A dorminhoca acordou! — Olho em sua direção e sorrio — Ficamos preocupados. Você apagou por um bom tempo.
Sento-me na cama e o encaro.
— Por quanto tempo?
— Quase um dia. — Arregalo os olhos e ele abre um pequeno sorriso, não o sorriso costumeiro.
Apoio a cabeça na cabeceira de madeira e fecho os olhos. Uma lágrima rola, e o aperto em meu peito aumenta ao lembrar dos últimos acontecimentos.
— O que aconteceu, Théo? — Minha voz sai como um sussurro.
O doutor solta um suspiro e se aproxima da cama.
— Não sabemos ao certo. Nós a encontramos nas margens do lago ontem à noite. Você estava encolhida, gelada. Achamos que estava... — Engole em seco — morta.
Nego com a cabeça algumas vezes.
— Não comigo! — Minha voz sai desesperada.
— A Lídia... — Ele fita o chão.
— Eles a mataram! — A dor se intensificam ao externizar tais palavras.
— Quem te disse isso? — Me olha com confusão.
— Eu vi! — Ergo minha mão, mas logo percebo que não seguro mais o pedaço de pano ensanguentado — Sua roupa estava suja de sangue!
— Ela deve ter se machucado em algum lugar, mas eles a levaram com vida, Águi! — Meu rosto denuncia minha nítida confusão — Nós escutamos o grito da Lili, pedindo por socorro. — Ele fecha os olhos, possivelmente lembrando da terrível cena — Vicente e eu tentamos correr atrás deles, mas Hassan foi mais rápido.
Sento-me ereta.
— Ele conseguiu? — Uma pontada de esperança surge.
— Infelizmente o levaram também. — Baixa o rosto — Eram muitos homens, Agatha.
Tapo a boca com a mão e começo a chorar novamente.
— Jesus! Irão matá-los, Théo!
— Só Deus sabe onde eles estão e o que acontecerá! Vamos continuar orando e intercedendo por eles. — Concordo, mas sem encará-lo. — Vou avisar ao Vicente que você já acordou. Ele estava aqui até pouco tempo. Saiu apenas para fazer uma ligação.
— Théo, eu quero ficar sozinha. Por favor, diga isso a ele! Não conseguiria encará-lo agora...
— Você que sabe! — Ele se levanta, deposita um beijo em minha testa e se afasta — Só lembre que ele também está sofrendo com o que aconteceu.
— Posso imaginar — Suspiro e olho ao redor, finalmente notando o local desconhecido — Onde estamos?
— Em um hotel no meio da estrada. Estamos indo para Bani.
— Bani? — Questiono.
— Sim, o restante do pessoal conseguiu um voo para o aeroporto Bani Walid. — Sorri sem mostrar os dentes.
— Uma boa notícia...
O doutor meneia a cabeça e sai do cômodo.
As horas passam e eu continuo trancada. Apenas Deus, eu e minhas indagações. Palavras não saíam, mas minha mente traiçoeira não hesitava em questionar e tentar entender a permissão de Deus para tudo aquilo.
É natural do ser humano fazer questionamentos quando algo que não estava programado, acontece. Principalmente sendo algo ruim.
A bíblia nos instruí a depositarmos TUDO perante o Senhor. No livro de Filipenses, capítulo 4, diz que não devemos estar inquietos por coisa alguma. Todos os nossos anseios devem ser conhecidos diante do nosso Pai. Entretanto, isso não nos dá o direito de colocarmos o Todo Poderoso contra a parede.
E era exatamente isso que eu fiz naquele momento. Uma luta estava sendo travada entre a fé e a razão. Entre a confiança e o medo. Apesar de toda revolta para com o Criador do universo, o Espírito Santo da verdade, aquele que convence o homem do pecado, da justiça e do juízo, deu-me uma palavra que me calou por completo ao me levar em Isaías.
"Ai daquele que contende com seu Criador, daquele que não passa de um caco entre os cacos no chão. Acaso o barro pode dizer ao oleiro: 'O que você está fazendo? ' Será que a obra que você faz pode dizer: 'Ele não tem mãos? '
Ai daquele que diz a seu pai: 'O que você gerou? ', ou à sua mãe: 'O que você deu à luz? ' "
"Assim diz o Senhor, o Santo de Israel, o seu Criador: A respeito de coisas vindouras, você me pergunta sobre meus filhos, ou me dá ordens sobre o trabalho de minhas mãos?
Fui eu que fiz a terra e nela criei a humanidade. Minhas próprias mãos estenderam os céus; eu dispus o seu exército de estrelas."
À noite Júlia, que divide o mesmo quarto que eu, entra no cômodo trazendo um pouco de comida para mim.
Conversamos;
Choramos;
Desabafamos;
Oramos.
Por fim, ela dormiu. E eu permaneci acordada. Não parava de pensar em Lídia e no seu rosto pálido me encarando.
Nunca um sonho tinha sido tão real como aquele estava sendo.
Pego o Hijab, coloco na cabeça e saio do quarto. Não conheço o local, mas Ju tinha me dito que no nosso andar existia um espaço reservado para os hospedes. Uma espécie de sala de estar.
Sigo até lá, e me surpreendo ao perceber que não estava sozinha.
>>>><<<<
Prefiro me manter calada a partir daqui 🤭
Ahhh, faz tempo que eu não peço.. não esqueçam de votar ⭐️ se estiverem gostando, é claro 😬
Att.
NAP 😘
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top