Capítulo 44
— Bom dia! — Saúdo Théo e Hassan ao entrar da cozinha.
— Bom dia! — Respondem junto. Como sempre, o doutor me recebe com seu sorriso marcante. Não sei se já falei sobre isso, mas sua alegria constante me contagia. Para ele não havia dia ruim.
— Como passou a noite, doutora? — Leva sua xicara de café até a boca — Está com a aparência melhor do que ontem.
— Eu deitei e capotei! — Pego uma xicara e derramo um pouco do líquido quente.
— E a perna? Melhorou? — Ele mastiga alguns biscoitos e me lança um olhar curioso.
— Acordou bem melhor sim. — Dou-lhe um pequeno sorriso e como um pedaço de pão.
— Vicente é um bom médico e tendo você como paciente, tenho certeza que deu o melhor de si.
O pão que estava em minha boca voa para o lado de fora. Minha tosse constante preocupa Hassan. O pobre rapaz não compreendia que tal crise foi o fruto das gracinhas ditas por Théo, em português.
— Está tudo bem, Agatha? Quer um copo de água? — Pergunta com receio.
— Não! Obrigada! — Crispo os olhos em direção ao doutor que continua rindo descaradamente — Estou bem!
— Brincadeira! — Sorri — Não totalmente, porque ele é realmente bom no que faz.
— É, ele é... — Minha mente navega para a noite de ontem, o cuidado, a paciência e a atenção de Vicente para comigo. Ainda não tive a oportunidade de vê-lo em ação, mas creio que não seria diferente. Seria?
— Agatha, estava dizendo para o missionário Théo que o meu pai pediu para eu apresentar a propriedade a vocês. — Hassan comenta com animação — Precisamos fazer isso enquanto é dia.
— Por quê? — Curiosa como sempre...
— Nos fundos da propriedade tem um lago artificial, mas é um lago. E mesmo com os muros que cercam nosso terreno, qualquer um conseguem passar despercebidos durante a noite, através das plantações.
— Entendi. — Termino de comer e lavo minha louça — Onde estão os outros?
— Habib e Vicente foram até a cidade para encontrar com Gabriel, Lídia e Julia. — Explica Théo.
— Deus! Tinha me esquecido dos três. Virão hoje para cá, não é?
— Sim.
— Vamos? — Hassan nos convida, já abrindo a porta da cozinha.
Fico impressionada ao contemplar a beleza da área externa. Um belíssimo jardim rodeava uma grande piscina, que aparentava não ser usada há bastante tempo.
— Este é o nosso quintal. — O proprietário aponta para o local.
— É lindo! — Digo, observando a paisagem.
— Costumávamos aproveita-lo bem mais quando nossa mãe era viva, mas vocês têm liberdade para usá-lo, se assim desejarem. — Continua a caminhada — Ah, vocês não podem nem se quer cogitar a possibilidade de orar ou...
— Nós sabemos! — Théo sussurra — Apenas no interior da casa e em baixo tom.
— Infelizmente, mas é necessário. — Nos afastamos da casa principal até chegarmos em um pequeno galpão.
— Para que serve este galpão? — Théo pergunta analisando a edificação de madeira e vidro.
— Como tinha dito, no final da propriedade temos uma plantação. Ela não está totalmente ativa, pois não há mais pessoas de confiança que possam cuidar delas para nós. — Retira uma chave do bolso e destranca a porta do local — Este é um pequeno galpão, barra estufa, onde deixamos os poucos legumes que ainda nascem aqui na plantação.
— Mas se não há quem cuide, como eles continuam nascendo? — Questiono. Isso não fazia sentido.
— Bom, esse é mais um dos mistérios que não conseguimos explicar! — Dá de ombros — O lado positivo, é que conseguimos vender nossos próprios tomates e cebolas no mercado.
— Verdade! — Rimos juntos.
— Eu tenho uma pergunta, Hassan. — O jovem olha para Théo com os braços cruzados na altura do peito, e este continua — Como vocês fazem para não serem capturados? Digo, em relação a religião. Alguém sabe sobre a fé de vocês? — Pergunta em baixo tom.
Nosso anfitrião olha para o lado de fora, um pouco incomodado com o assunto, mas responde.
— É complicado, principalmente para o meu pai... Como vocês sabem, 96% da população daqui é mulçumana, a maioria dos nossos amigos e conhecidos desconfiam de Habib, mas não têm certeza. Diante do que aconteceu com nossa mãe, eles acham que meu pai não arriscaria passar por isso.
— Então Habib esconde sua verdadeira religião? — Pergunto.
— Não exatamente. Porém, ele também não sai espalhando para todos sobre isso. E o que tem facilitado, é o fato de sermos discretos e não recebermos muitas pessoas em nossa casa. — Ele se volta para mim — Para as pessoas que nos observam, os homens que aparecem por aqui, como Theo e Vicente, são figuras importantes vindas de outros países. Por isso não mostrarmos que há presença feminina em nosso lar, isso atrairia ainda mais atenção.
— O seu pai estava nos explicando um pouco a respeito, quando viemos de carro com ele. As pessoas pensam que somos colegas de trabalho. Por isso a necessidade de chegarmos com roupas socias.
— Exato! Como ele trabalha no governo...
— Espera, o seu pai não era dono de um mercado? — Pergunto. Minha mente já ficava confusa.
Ele sorri ao perceber minha confusão.
— Na verdade, os donos do mercado somos eu e minha irmã. Mas atualmente apenas eu cuido dos negócios.
— Ah! — Exclamo, um pouco envergonhada pelo mal entendido.
— Dessa forma, como o meu pai trabalha no governo, as pessoas sentem um certo receio de mexer com ele. Mesmo desconfiando de algo.
No momento em que conversávamos, uma música alta ressoa do lado de fora, fazendo-me pular de susto.
— Não se preocupem, é apenas o Adhan. — Hassan nos assegura.
— Imaginei! — Digo, colocando a mão no coração — É o chamado que anuncia a hora da oração, certo?
— Certo! — Responde.
— O que devemos fazer nessa hora? — Théo questiona, aproximando-se de mim.
— Nada! Vocês são turistas, mas nosso conselho é que permaneçam em casa, ou onde estiverem.
— Seu pai e o restante do pessoal estão na rua agora. — Sinto uma preocupação por eles.
— Não! Provavelmente eles já estão aqui. — Diz, nos convidando a sair da estufa.
— Como tem tanta certeza? — Continuo com minhas perguntas.
— Agatha, vivemos assim há anos, Deus foi nos dando estratégias para lidar com algumas situações como essa. — Sorri. Ele tranca a porta e nos leva em direção ao final da propriedade — Ali é o início da plantação, mas vocês mulheres estão proibidas de ir até lá, principalmente à noite. Nunca aconteceu nada, com a graça de Deus, mas precisamos vigiar!
— Ok! — Digo e encaro Théo, que olha atentamente para algo além de mim.
— Por favor, não grite! — Pede em um sussurro.
Viro-me a tempo de ver Lili prestes a gritar, mas é impedida por Julia, que tapa sua boca com a mão.
A loira se desculpa, mas logo corre em nossa direção. Seu abraço me sufoca, mas a alegria em tê-la ao nosso lado me faz suportar um pouco mais de tempo.
— Águi! Deu tudo certo, que bom! — Diz com emoção na voz.
— Sim, Lili! Deus é bom!
— Vicente nos contou o que aconteceu com você! Que livramento, amiga! — Se afasta para me encarar.
— Foi um grande livramento para nós! — Aponto de mim para Hassan, que estava parado ao meu lado esquerdo — Aliás, este é o filho do Habib, Hassan. Hassan, esta é a Lídia.
— Ah! — Olha para o rapaz — Prazer!
— O prazer é meu! — Cumprimenta com um aceno de cabeça.
— Como é bom revê-los! — Gabriel diz ao se aproximar. Ele nos cumprimenta, assim como Julia.
A euforia por ter chegado mais pessoas era grande, todavia, precisávamos manter o tom de voz baixo, principalmente nas periferias do terreno, onde não sabíamos quem poderia estar à espreita escutando o que era dito.
— Está melhor? — Vicente se aproxima, enquanto caminhamos de volta para a casa.
— Muito! Obrigada mais uma vez! — Ofereço um sorriso singelo.
— Não precisa agradecer, Águi! Estamos aqui para servirmos uns aos outros, faria isso por qualquer um. — Sua afirmação me causa certa alegria e um pouco de decepção, pois no meu íntimo desejava ser tratada de forma especial por ter um lugar diferente em seu coração. Doce engano.
— Esse é o meu bom doutor! — Théo bate no ombro do amigo e passa por nós.
Reviro os olhos e sigo o fluxo.
***
Mais uma semana se passara desde a nossa chegada à Líbia. Estávamos alegres e sentíamos uma paz soberana em nosso meio. Habib nos mostrou um cômodo especial dentro de sua casa, uma espécie de porão. Era o local onde fazíamos nossos cultos todas as noites. Orávamos, clamávamos e intercedíamos. Segundo o nosso querido anfitrião, foi projetado especialmente para isso.
Conhecemos mais alguns empregados, que também eram cristãos e moravam na mesma propriedade.
Estávamos em uma de nossas reuniões da madrugada, quando o celular de Gabriel toca. Ele se retira por um instante e logo volta, com uma certa preocupação.
— O que houve? — Vicente questiona, se levantando e indo até o amigo.
— O restante do pessoal não poderá vir. — Diz com cautela, mas era possível ver o nervosismo e a preocupação em seus olhos — Sam me ligou e acabou de confirmar o que Habib tinha nos alertado há alguns dias.
— Eles voltaram a fechar os aeroportos, não é? — O senhor perguntou.
— Sim, nesta noite. — Meu amigo confirma. — Ela acabou de receber um e-mail da linha aérea.
— E agora, o que faremos? Somo apenas médicos e dentistas. Como iremos para o Sabha? — Julia começa a se alterar — Precisamos deles, Gabriel!
— Acalme-se, Julia! Precisamos unicamente da provisão de Deus! — Ele olha para o restante de nós e diz — Vamos intensificar nossas orações, creio que Deus tem um propósito nisso tudo! Preciso fazer uma ligação? Com licença.
Gabriel se vira e sobe a escada que leva ao térreo.
— Mal chegamos e as coisas estão começando a dar errado. — Julia se senta ao meu lado.
— Não é verdade, Ju! — Digo firme — Você veio para cá sabendo que imprevistos poderiam acontecer a qualquer momento. Então vigie! Ao invés de murmurar, dobra o seu joelho e clame a Deus! — Ela abaixa a cabeça e concorda.
— Vocês ouviram o missionário Gabriel — Vicente chama a atenção de todos — Vamos nos colocar de joelhos e orar a Deus. Precisamos de uma direção.
>>>><<<<
Essa Júlia não está vigiando... 🤔 | E esse doutor Alencar gosta de ver o circo pegar fogo 🔥 | Quem está com saudades da Lara e da Sam??
Att.
NAP 😘
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