Capítulo 36
— Preparados para conhecer o povo de Cáceres? — Antonella pergunta com uma animação incomum, pelo menos para uma pessoa envergonhada e um tanto introvertida como ela.
— Com certeza! — Respondo pelo grupo.
Estávamos indo a pé, Lídia, Luiz, Aisha, Antonella, Lipe, Murilo e eu, rumo a um pequeno povoado, como eles chamaram. Segundo a missionária Nina, iríamos até a casa de uma querida irmã, onde costumava acontecer alguns cultos semanais. Entretanto, nossa missão nesta tarde, seria levar a palavra de Deus para um grupo bastante especial.
Estava curiosa com tanto suspense.
— Esse lugar é incrivelmente belo! — Lipe comenta, admirando a arquitetura local.
— Não sei se vocês sabem, mas Cáceres é a segunda maior cidade da Estremadura, e tem um dos mais bem preservados conjuntos medievais da Europa. — A italiana começa a tagarelar — É conhecida como Ciudad Monumental, e foi listada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1986.
— Não se assustem com a Antonella, ela é historiadora, saberá responder qualquer coisa que vocês perguntarem. — Aisha nos explica.
— Aisha! — Exclama a menina/mulher baixinha, já ficando vermelha novamente.
— Eu gosto de história. — Tento deixa-la confortável, e parece ter funcionado, pois ela ergue o rosto com os olhos brilhando.
— Sério?
— Sim! Amo conhecer a história de cada lugar, principalmente de onde estou presente no momento. — Ofereço um sorriso simpático.
— Não seja por isso! — Bate palmas antes de recomeçar suas explicações — Cáceres foi fundada pelos romanos em 34 antes de Cristo, com o nome de Norba Caesarina. Mas foi com a chegada dos árabes, no século 12, que prosperou...
A pequena viagem até a casa da irmã, que não me recordava o nome, foi regada a muito conhecimento cultural. O que para alguns de nós, missionários que não foram preparados como o grupo Spain, era algo importante, mesmo que ficássemos aqui por pouco tempo.
— Bem, chegamos! — Murilo toma a palavra, pela primeira vez desde que saímos do casarão.
— Señora Olivia! — Aisha grits, chamando a proprietária.
Pouco tempo depois, uma senhora que aparentava ter uns setenta anos, aparece na pequena sacada do andar superior.
— O portão está aberto, querida Aisha, podem entrar! — Grita com a voz rouca.
— Vamos! — A minha nova colega de quarto, ajudada por Murilo, abre os grandes portões de ferro nos dando passagem.
Diferente da maioria das edificações, que vimos até agora em Cáceres, o casarão da senhora Olivia não possuía a fachada de tijolinhos e pedras aparentes. Só então percebi que as demais casas, que seguiam após o local onde estávamos, também não era assim.
— Antonella! — Aproximo-me da italiana.
— Oi! — Pergunta com um sorriso retraído.
— Porque esta casa, e as demais — Aponto para o lado de fora — são diferentes das edificações que vimos anteriormente?
— Porque estamos saindo do centro histórico. — Sorri amigavelmente e continua a caminhar.
— Estou me sentindo uma idiota. — Sussurro.
— Eu também! — Lídia se aproxima, acompanhada de Lipe.
— Não fiquem assim, meninas, basta lembrar que o centro histórico de Cácere, Ciudad Monumental, tem um conjunto de arquitetura árabe, romana e cristã! É um lindo cenário arquitetônico. — Felipe explica com convicção.
— Ajudou bastante! — Respondo com sarcasmo.
Nossa conversa findou ao entrarmos em uma espécie de pátio, onde havia cerca de uma dúzia de crianças correndo de um lado ao outro. Em um canto mais afastado, alguns poucos adolescentes.
— Sejam bem-vindos a sua primeira missão! — Aisha abre os braços em direção a todas aquelas pessoas.
— Uau! — Luiz parece impressionado — Realmente temos um grupo especial por aqui.
Concordamos, ainda observando a movimentação.
Há poucos metros de nós, a senhora Olivia aparece acompanhada de uma jovem mulher. Ela se aproxima de nós com um grande sorriso estampado em sua face.
— Como é bom ter vocês conosco nesta tarde! — Estende a mão, com um pouco de dificuldade, em nossa direção. Assim que nossas mãos se tocam, percebo que a dela tremia sem parar.
— É um prazer estar aqui, señora Olivia! — Digo, sentindo uma emoção diferente atingir meu coração.
Após algumas explicações da parte de Murilo e Aisha, nos dividimos em três grupos. Lídia e Antonella ficariam com as crianças de até dez anos, visto que não tinham muitas crianças pequenas; Lipe, Luiz e Murilo com os adolescentes; Aisha e eu com os pré-adolescentes, o que não me surpreendeu. Tenho certeza que eles já conheciam o meu "currículo" e minha experiencia com eles.
Em menos de dez minutos estávamos entrando na sala destinada a nós. Algo chamou minha atenção: tinham apenas 4 pessoas, e todas do sexo feminino.
— Boa tarde, meninas! — Aisha saúda.
— Boa tarde, tia Aisha! — Elas retribuem em uníssono
— Hoje nós teremos mais uma pessoa conosco. Esta é a tia Agatha. Ela é do Brasil! — Sussurra a última parte, como se fosse um segredo, e elas vão à loucura. Quando dei por mim, estava sendo bombardeada por diversas perguntas.
— Tia, é verdade?
— Tia Agatha, você ficará conosco?
— Tia, me leva para o Brasil?
Mas de todas elas, uma ganhou minha atenção.
— Tia, você também trouxe uma bíblia para nós?
Olhei para minha companheira com certa dúvida, e ela meneou a cabeça positivamente.
— Sim, Jade, nós trouxemos mais algumas partes da bíblia para vocês! — Ela responde.
— OBAAAA! — Gritam em euforia.
— Mas tia, eu não posso levar para casa! — Uma outra menina respondeu com tristeza — Minha mãe me disse que da próxima vez que eu aparecesse em casa com isso — Ela tira um maço de folhas rasgados da mochila — Ela não só me bateria, como me impediria de vir para a creche da senhora Olivia.
Sinto um aperto no peito. Sinal de que a nova realidade estava começando a dar as caras.
Aproximo-me dela e me abaixo, ficando em sua altura.
— Não precisa se preocupar, princesa! — Tento acariciar o seu rosto, mas ela se afasta em um rompante. Logo percebo que algo estava errado. Levanto-me e volto ao meu lugar, ao lado de Aisha — Nós iremos ensina-las sobre a palavra de Deus, de uma forma que ela fique bem guardada aqui — toco em meu peito — e aqui — em seguida, em minha cabeça — e todas as vezes que vocês precisarem lembrar de alguma coisa, basta pedirem ao Espírito Santo!
— O nosso melhor amigo! — Jade, uma das meninas, responde com convicção.
— Exatamente! — Troco olhares com Aisha, que me encoraja a prosseguir, e dou início à aula.
***
— Devo dizer que estou impressionada, Agatha! Você se saiu muito bem com as meninas. — Aisha comenta ao se aproximar de mim.
— Elas que me impressionaram. — Respondo, sem tirar os olhos do céu alaranjado, do entardecer. Estávamos fazendo o caminho de volta para o casarão — É tão difícil ver um pré-adolescente com tanta sede e desejo pela palavra de Deus.
— É algo novo para elas, entende? Porque mesmo possuindo pais cristãos, elas não têm acesso às escrituras. — Sua explicação faz total sentido para mim — Elas estão conhecendo uma verdade completamente diferente do que foi passado para elas.
— E pelo que eu pude ver, são elas mesmas que querem aprender. Não é? — Encaro-a rapidamente.
— Isso mesmo! — Ela abre um largo sorriso.
— A senhora Olivia faz um lindo trabalho com eles.
— Na verdade, tudo começou com uma simples canção. — Comenta.
— Canção?
— A senhora Olivia nasceu em um lar cristão, onde seus pais eram católicos. Entretanto, ela teve um lindo encontro com Jesus. Uma experiência única, que a mesma ama contar. — Ri ao se lembrara de algo — Após se converter, ela vivia louvando. Segundo ela, era uma forma de trazer a presença de Deus para o seu lar, sem que seus pais desconfiassem da sua conversão.
— Uau!
— Mas o que era bom durou pouco. Assim que seus pais descobriram, a colocou para fora de casa. — Suspira — Mas até isso foi a mão de Deus, pois foi aí que ela teve a oportunidade de conhecer o senhor Otávio, seu marido.
— Eu não o vi na creche. — Comento inocentemente.
— Ele faleceu há uns dez anos. — Responde de forma sucinta antes de retomar a história — Com orientação de Deus, eles se mudaram para cá e abriram uma creche. Através desta creche, houve a primeira conversão aqui em Cárceres, após longos anos.
— Que história incrível! — Comento com certa emoção na voz — Mas onde entra a música?
— Ah sim, a música. — Ri mais uma vez — Como tinha dito, a senhora Olivia amava cantar, e quando abriram a creche não foi diferente. Em um desses momentos de louvor, uma pequena criança se rendeu aos pés do Senhor. A presença de Deus era tão grande, que a menina chorava pedindo para ser de Jesus também!
— Louvado seja Deus, Aisha! Só de você contar essa história eu consigo sentir a presença de Deus de uma forma especial! — Mostro meu braço — Olha! Estou toda arrepiada.
— Amém! — Ela concorda — Emociono-me toda vez que lembro desse testemunho.
— Será que esta menina continua no caminho do Senhor? — Questiono e ela ri abertamente, chamando a atenção de alguns.
— Sim, essa menina não somente continuou no caminho, como teve um chamado lindo! E através dele, muitas pessoas tiveram, e têm tido, a oportunidade de servir a Cristo de uma forma diferente. Assim como você e eu. — Ela me encara e depois fita o casarão, que só então percebi termos chegado.
Então minha ficha cai.
— A criança, é a missionária Nina? — Questiono, ainda incrédula.
— Isso mesmo! — Responde.
— Jamais imaginaria algo do tipo. — Falo, mais para mim mesma.
— Pois é, tem pessoas que você olha e não dá nada. Mas não faz ideia da história linda que Deus escreveu para a vida dela. — Só percebo que estou parada no meio do caminho, quando Aisha me encoraja a continuar — Vamos?
— Claro! — Volto a caminhar, ainda com as palavras da minha nova irmã em Cristo, martelando em minha mente.
>>>><<<<
O agir de Deus não tem limite! Ele faz como quer e usa quem quer da forma que Ele quer! Louvado seja Deus!
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Att.
NAP 😘
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