Capítulo 28
Duas semanas se passaram desde que iniciamos nosso propósito de oração. Acabara de voltar do Rio, da casa dos meus pais. Meu carro continuava comigo, desta forma não dependia de ninguém para me locomover.
Pego a mochila e caminho para o dormitório. No meio do percurso avisto Théo sentado em um banco lendo um livro. Sorrio com a cena e me aproximo devagar.
— Bom dia, Espírito Santo...? — Pergunto assim que consigo ler o título.
Ele desvia seu olhar da leitura e me fita com um sorriso largo.
— E aí, doutora! — Levanta-se para me cumprimentar com um beijo em minha mão — Como foi a viagem?
— Foi tranquila, mas estou exausta! — Suspiro pesadamente.
Théo solta uma pequena risada e retira a mochila de minhas costas.
— Vamos, te acompanho até o dormitório. — Coloca a mochila no ombro esquerdo e me incentiva a caminhar.
— Obrigada!
— Por nada! — Apoia a mão livre em minhas costas — Senti sua falta...
Dou risada e nego com a cabeça.
— O que foi? — Me encara com a testa franzida.
— Ainda gosta de mim! — Sou direta, como sempre.
Ele tenta, mas não consegue segurara a gargalhada.
— Sinceramente, eu nunca conheci uma mulher como você, Agatha Tavares! — Dou de ombros, mas mantenho um pequeno sorriso nos lábios — Sim, continuo gostando de você, mas pelo visto você leva esse assunto na brincadeira...
Paro de caminhar e o encaro.
— Não é verdade, Théo! Eu só...
— Eu sei, eu sei! — Toca o meu ombro — Só estou brincando, ok?
— Sinto muito, mas esse assunto é um pouco delicado para mim! — Fito meus pés — Não quero me envolver com ninguém no momento.
— Sei que o seu coração está fechado, isso está bem claro, Águi! — Encaro-o e ele me dá um sorriso torto — Mas saiba que eu não desisto tão fácil, doutora! — Pisca e volta a caminhar.
— Eu não sei o por quê — Corro para acompanha-lo — Mas com você as coisas são diferentes. Sabe, se fosse com qualquer outro homem, eu iria evita-lo a todo custo e me afastaria completamente. Todavia isso é uma missão impossível, visto que estamos juntos praticamente o dia todo nos últimos seis meses. Sem contar que eu realmente gosto muito de você, Théo! — Ele me olha com os olhos brilhando — COMO AMIGO! — Falo rapidamente e ele ri — Sempre deixei isso bem claro... assim espero! — Sussurro a última parte.
— Claro não, transparente! — Reviro os olhos.
Pego minha mochila de seu ombro, assim que chego no prédio.
— Eu só não quero que ninguém saia machucado, doutor! — Digo séria.
— Eu tenho noção dos riscos que estou correndo. Fique tranquila! — Assinto e quando estava prestes a me despedir, ouço a voz de Caio.
— Águi! — Viro em sua direção e o vejo correndo até nós — Preciso conversar com você!
— Ok, só irei deixar a mochila lá em cima e...
— Não! Eu carrego pra você! — Olha para Théo e sorri — Desculpa aí, Théo, mas vou precisar rouba-la um minutinho. — Diz me puxando.
— Calma aí, Caio! — Reclamo ao sentir minha sandália sair do meu pé — ESTOU DESCALÇA, GAROTO!
Ele para de andar e começa a rir ao ver o meu estado. Crispo os olhos em sua direção e coloco a sandália novamente. Ajeito o vestido e nego a mão que ele estende em minha direção.
— Negativo! Agora eu lhe acompanharei como uma verdadeira dama. — Passo por ele com o queixo erguido.
— Mulheres... — Resmunga atrás de mim — Vamos para o jardim ao lado no refeitório.
Concordo e sigo até lá.
— Pois não? — Viro-me cruzando os braços — Em que posso ser útil?
— E por que você acha que quero algo? — Cruza as mãos atrás do corpo me encarando.
— Pobre, Caio! Eu te conheço não é de hoje, querido! — Decido sentar no banco, pois pelo visto não seria uma conversa muito rápida.
— Tudo bem, é o seguinte — Ele senta ao meu lado apoiando os antebraços nos joelhos — Você sabe que eu estou apaixonado pela sua amiga...
— Para ser sincera, achei que já tinha até desistido. Passou tanto tempo desde sua confissão...
— Tá, tá! Deixa de implicância! — Reclama me fazendo rir.
— Sim, eu sei que você é apaixonado pela Lara. E aí, já chegou o tempo de se declarar?
— Como você sabe? — Ele me olha com espanto.
— Ué, maninho, só estou ligando os pontos! — Cruzo as pernas e me encosto no banco.
— Faz sentido! — Diz pensativo — Enfim, eu queria a sua ajuda para poder conversar com ela. Sabe, para orarmos, da mesma forma que você e o meu irmão oravam. Isso se ela aceitar, é claro!
— Entendo! — Digo fingindo que aquele comentário não tinha me afetado — Quanto a Lara, acredito que você não terá tanto problema...
— Como assim?
— Você sabe que eu te amo, certo? — Pergunto com delicadeza e ele concorda — Mas às vezes dá vontade de te dar umas sacudidas para deixar de ser lerdo, homem!
— Mas...
— Não percebe que a Lara é caidinha por você? — Caio arregala os olhos e nega com a cabeça. Ele estava hilário com a nova descoberta — Qualquer pessoa a quilômetros de distância perceberia. Mas eu te entendo... Está perdido em seus próprios sentimentos! Já passei por isso. — Suspiro nostálgica.
— Você tem certeza, maninha? — Se joelha em minha frente — Certeza absoluta?
— Por que você não pergunta diretamente para ela? — Ergo a sobrancelha e olho sobre sua cabeça.
Ele não precisa nem virar o rosto para saber que a morena se aproximava de nós.
— Mas e se ela não aceitar. E se eu gaguejar! — Pergunta desesperado — Eu não faço ideia do que falar, Águi! — Sussurra a última parte.
Levanto do banco e ele faz o mesmo, sem deixar de me encarar.
— Abra o seu coração e seja você mesmo! Ela se apaixonou por quem você é, e se Deus está te direcionando para esse momento, tenha certeza que Ele já está no controle de tudo! Amo você, maninho! — Dou-lhe um rápido abraço e me afasto.
— Amiga! — Nos abraçamos rapidamente — Chegou cedo hoje.
— Sim, esqueceu que mais tarde nos reuniremos para fazermos a oração em grupo.
— Mas é só daqui a... sete hora. — Diz olhando para o relógio de pulso.
— Precisava de um tempo para descansar e recuperar as energias da viagem. — Olho de Caio para Lara e dou uma piscada para minha amiga, antes de seguir meu caminho.
Faltavam apenas dez minutos para às 16h, horário que escolhi no relógio de oração para clamar. Ao invés de ir para o quarto, decido orara no jardim secreto.
Minha coluna estava ardendo de tantas horas que eu passei sentada durante a viagem, pois tinha pegado um baita trânsito devido um acidente. Meus olhos ardiam, imploravam para serem fechados. Assim que chegasse no quarto, tomaria um relaxante banho e partiria para a cama.
Chego ao jardim, que estava completamente vazio, como das outras vezes. Apoio minha mochila no banco e dobro meus joelhos.
— Pai, primeiramente eu quero te agradecer pelos livramentos que o Senhor me deu nesse percurso do Rio até Minas. Infelizmente não sei o que aconteceu com as pessoas que estavam naquele carro, mas peço que tenha misericórdia de suas vidas e não permitas que eles partam sem a salvação.
O cantar dos pássaros e o balançar das folhas me enchia de paz.
— Obrigada por estar me ouvindo nesse momento. Sou apenas uma pessoa comum, cheia de pecados e imperfeições, que busca todos os dias se colocar na posição para viver uma vida que te glorifique. — Suspiro — Estou tão cansada, mas não posso deixar de clamar por essa missão que o senhor tem colocado diante de nós. Entrego todos os missionários que estão se preparando para irem para a Espanha e para a Líbia. Pai, não fazemos ideia do que realmente nos espera lá. Temos uma noção muito pequena, mas só o senhor sabe o que irá acontecer. Por favor, nos direcione em todo o tempo, guarde as nossas vidas em Ti e, acima de tudo, cumpra o Teu querer.
Depois de orar por mais algum tempo, abro a minha bíblia e medito da palavra que Deus me direcionou, 1 Pedro 2, alguns versículos em especial ardiam em meu coração:
"...vocês também estão sendo utilizados como pedras vivas na edificação de uma casa espiritual para serem sacerdócio santo, oferecendo sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus, por meio de Jesus Cristo.
Pois assim é dito na Escritura: "Eis que ponho em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa, e aquele que nela confia jamais será envergonhado".
Portanto, para vocês, os que creem, esta pedra é preciosa; mas para os que não creem, "a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular",
e, "pedra de tropeço e rocha que faz cair".
Os que não creem tropeçam, porque desobedecem à mensagem; para o que também foram destinados.
Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.
Antes vocês nem sequer eram povo, mas agora são povo de Deus; não haviam recebido misericórdia, mas agora a receberam.
Por volta das cinco e dez, pego minhas coisas e finalmente vou para o dormitório afim de descansar o meu corpo. Ao entrar no quarto me deparo com Lídia de costas olhando pela janela.
— Hey! — Cumprimento-a com um sorriso, mas quando ela se vira o sorriso logo some — O que aconteceu? — Deixo minha mochila no chão e sigo até ela.
Seu rosto estava vermelho, assim como os olhos que também estavam marejados.
— Podemos conversar? — Seu tom de voz era sério, assim como sua expressão, o que me fez empalidecer na mesma hora. Nunca a tinha visto daquela forma. Isso só poderia significar uma coisa...
— É claro! — Digo por fim.
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Até amanhã!!!
Att.
NAP 😘
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