Capítulo 26
Hoje completa exatamente seis meses em que estávamos no CEM, e daqui a dois meses estaremos em campo. Tal pensamento me causa um certo nervosismo e uma alegria imensa.
Os últimos meses foram intensos e extremamente cansativos. A maioria das vezes em que eu me reunia com o pessoal, era para estudarmos, cultuarmos juntos ou estarmos em reuniões sobre a viagem missionária.
Aos fins de semana alguns voltavam para suas casas e outros permaneciam por aqui. Eu escolhi permanecer no sítio a maior parte deles. Principalmente neste último mês, já que meus pais estavam de férias em Manaus, na casa de alguns parentes nossos.
Minha relação com Ângelo estava neutra. Não nos víamos, pois todas as vezes que voltava para casa, ele evitava ir para lá afim de não me causar desconforto, segundo mamãe. Estava morrendo de saudades da minha sobrinha e cunhada... Tudo bem, estaria mentindo se dissesse que não sentia falta do meu irmão também.
Já tinha tomado uma decisão, aproveitaria que meus pais estavam chegando de férias, para poder passar na casa do Ângelo e termos uma conversa civilizada de uma vez por todas. Apesar de tudo, eu o amava muitíssimo e meu coração ansiava por essa reconciliação.
Caminho até o prédio administrativo, rumo a sala do pastor André, que pediu para me chamarem.
— Bom dia, dona Flora! Como a senhora está? — Cumprimento-a dando um beijo estalado em suas bochechas.
— Estou ótima, querida Agatha! — Diz me entregando uma xícara de café, como de costume.
— Obrigada pela preocupação! — Pego e me sento no sofá da recepção — Muito trabalho por aqui?
— Hoje até que está tranquilo. Tem dia que isso daqui não para, menina! — Pega a pasta que estava em cima da mesa e enfia em uma das gavetas do armário — Você mesmo viu na semana passada. — Suspira antes de preparar uma xícara de café para si.
— Pois é, eu me recordo... — Coloco o objeto na mesa e cruzo as pernas — O pastor André está com alguém lá dentro?
— Misericórdia! — Coloca a mão na cabeça — Já ia me esquecendo, ele pediu para você entrar assim que chegasse aqui. — Dá a volta na mesa e me estende a mão — Venha! Eles já estão lhe esperando há algum tempo.
— Eles? — Questiono, mas sou ignorada.
A adorável senhora bate na grande porta de madeira, e de dentro do cômodo ouvimos o pastor nos dando permissão para entrar.
— Obrigada, dona Flora! — Agradeço e entro em seguida.
— Bom dia, pastor André! — Saúdo com um sorriso no rosto.
— Bom dia, senhorita Agatha! — Levanta da mesa — Fico feliz que tenha chegado! Estou precisando dar uma saída, mas quero que fiquem à vontade. Se precisarem de algo, basta chamar a dona Flora. — Diz olhando para o homem a sua frente.
— Pode deixar, pastor! — Assim que escuto sua voz paraliso no mesmo lugar.
O mais velho vem em minha direção, enquanto o outro se levanta do assento e me encara com temor.
A porta se fecha atrás de mim, despertando-me dos meus desvaneios. Respiro fundo e caminho até ele, que me oferece o lugar ao seu lado. Ao invés de tomar o assento, aproximo-me e o envolvo em um abraço.
— Senti tanto a sua falta! — Enterro o rosto em seu peito.
Ele parece se surpreender com minha atitude, mas logo me envolve em um abraço apertado.
— Eu também, irmãzinha! — Uma das mãos de Ângelo acaricia meu cabelo — Você não sabe o quanto!
Nos afastamos pouco depois. Sento em sua frente e o fito com um sorriso bobo dançando em meus lábios.
— Veio me ver? — Pergunto, mesmo já sabendo a resposta.
— Vim! Depois de tanto tempo, queria saber como você estava. — Ele apoia os antebraços nos joelhos e entrelaça as mãos — Mas eu vim principalmente para resolvermos nossa situação, Águi! Não podemos mais continuar assim!
Assinto concordando, pois eu pensava o mesmo.
— Não tivemos a oportunidade de conversarmos, e eu sei que também não tenho muito o que explicar. Simplesmente fiz uma burrada ao me meter em sua vida e tomar uma decisão que só cabia a você escolher.
Segura minhas mãos entre as suas e me fita com tristeza.
— Infelizmente não tem como eu voltar no tempo e mudar essa situação... Mas eu realmente sinto muito por ter te feito sofrer ainda mais, irmãzinha! Eu realmente julguei mal o Vicente, e me arrependo amargamente. Por favor me perdoe! — Aproximo minhas mãos do seu rosto.
— Eu já te perdoei há um tempo, Anjinho! — Ele sorri com o apelido carinhoso que eu dera a ele quando éramos crianças — Na verdade, já tinha planejado em passar em sua casa na semana que vem, quando fosse para o Rio.
— Obrigada, Águi! — Me puxa para um abraço — Eu amo você! A única coisa que eu desejo é vê-la feliz!
— Também amo você! — Beijo seu rosto — Onde estão Ângela e Verônica?
— Provavelmente estão no refeitório. Ângela estava com fome, e já é quase meio-dia, então Nica foi lá esquentar a comida dela. — Explica.
— Que maravilha! Vamos, estou doida para vê-las! — Puxo-o pelas mãos e saio da sala.
— Vocês são muito parecidos! — Dona Flora comenta olhando de Ângelo para mim.
— Alguns pensam que somos gêmeos! — Meu irmão comenta se achando.
— Deixa de ser exagerado! — Empurro-o com as mãos fazendo os dois rirem.
Nos despedimos da senhora e fomos em direção ao refeitório. Ângelo contornou minha cintura com uma mão e assim seguimos. Chegando lá avistamos as duas sentadas em uma mesa, de frente para um homem. Vicente.
Olho rapidamente para o meu irmão e não percebo nenhuma mudança de expressão. Suspiro aliviada.
— Já alimentou a pequena fera? — Pergunta à esposa, dando um beijo em sua testa antes de seguir para a filha, que ignora o colo do pai e vem correndo em minha direção ao me ver.
— DINDINHA! — Abaixo ficando em sua altura e estico os braços a agarrando — MINHA DINDINHA!
— Como eu te amo, minha bonequinha! Estava com tanta saudade! — Encho-a de beijinhos e ela começa a gargalhar.
— Não falei que ela faria isso, tio Vicente! — Diz olhando para o homem que nos observava a poucos metros de nós.
— Pois é! Você conhece a sua tia muito bem! — Comenta abrindo o sorriso que fazia o meu coração acelerar. Nesses últimos meses, nós dois achamos nos afastando um pouco, o que achei muito bom, pois só assim conseguiria ter mais chances de tirá-lo dos meus pensamentos. Entretanto, não estava funcionando tão bem como eu desejava.
Desvio o olhar, encarando Ângela em meu colo.
— Esse é o nosso costume, não é, pequena? — Pergunto e ela concorda com a cabeça.
— Dinda, você está muito bonita! Me coloca no chão para eu poder te ver direito. — Faço o que ela pediu e dou uma volta no lugar. Minha bonequinha começa a bater palmas e rir — Ela não está muito bonita, tio Vicente?
Nossos olhos se encontram por um momento e ele abre um pequeno sorriso, claramente desconcertado.
— Está sim, pequena! — Abaixo a cabeça constrangida.
CONSTRANGIDA!
Infelizmente, só Vicente consegue me deixar desse jeito, até hoje.
Ângelo pigarreia chamando nossa atenção. — Vicente, podemos conversar?
Ferraço confirma se levantando em seguida. Os dois saem do refeitório nos deixando sozinhas.
— Como você está cunhada? — Ela pergunta me abraçando.
— Estou ótima agora! — Abro um sorriso sincero.
Estava tão feliz de ter resolvido as coisas com o meu irmão. Sentia uma paz invadir meu interior.
Obrigada, Jesus!
— Que bom que vocês se entenderam! Não aguentava mais o seu irmão, estava um porre!
— Imagino! — Digo penteando a cabelo de Ang com as mãos.
— Águi! — Olho para trás e sorrio ao ver Lara.
— Oi, amiga! Venha conhecer uma parte da minha família. — Convido com animação.
Ela logo se aproxima abraçando minha sobrinha e cunhada.
— Prazer! Sou a Lara Porto!
— Prazer, Lara! Sou Verônica Tavares, cunhada da Agatha. — Diz pegando a filha no colo, que enterrava o rosto no pescoço da mãe — Quem vê assim até pensa que é envergonhada.
Comenta nos fazendo rir. Lara olha para mim.
— Eu acabei de ver um homem muito parecido com você lá fora conversando com o Vicente. Ele é o seu...
— Meu irmão? Sim! — Respondo com um sorriso.
— Então vocês finalmente se entenderam? — Eu confirmo com a cabeça e ela me abraça — Glórias a Deus, amiga!
Depois de um tempo, Ângelo e Vicente voltaram conversando amenidades. Meu irmão, cunhada e sobrinha almoçaram conosco e ficaram no sítio por quase duas horas, até o horário da nossa próxima aula.
Assim que nos despedimos dos três, seguimos direto para a sala. A essa altura Lídia, Théo e Gabriel tinham se juntado a nós.
— Onde está a Sam, Biel? — Pergunto me aproximado dele.
— Precisou fazer uma viagem de última hora hoje de manhã. — Responde com um suspiro.
— Está tudo bem? — Óbvio que não né, Agatha!
— Não muito, mas vai ficar, em nome de Jesus! Minha sogra sofreu um AVC e o meu sogro viajando. Ela estava sozinha em casa, e pela misericórdia de Deus, não aconteceu nada pior porque a vizinha que estava no quintal a socorreu quando ouviu um barulho vindo de dentro da casa de dona Ednalva.
— Jesus! A Samanta deve ter saído daqui com o coração apertado! — Comento com pesar.
— Ela estava preocupada, mas antes de ir nós oramos e entregamos toda essa causa diante de Deus. — Como estávamos indo na frente dos outros, chegamos primeiro na sala. Ele abre a porta e me dá passagem — Nós sabemos que o inimigo está furioso conosco, Águi! Estamos nos colocando na posição, como guerreiros que se preparam para a guerra. E o que está por vir é uma verdadeira guerra!
— É verdade, Biel! E justamente por isso devemos redobrar a atenção e vigiarmos ainda mais com tudo o que fazemos, falamos ou pensamos. Estava conversando com Deus esses dias, e Ele colocou algo em meu coração. Como você que dará a aula hoje, queria saber se poderia falar com o pessoal no final.
— É claro, Águi! Fique à vontade, só que no lugar da aula de hoje o pastor André fará uma reunião conosco. Mas deixa que eu falarei com ele.
— Tá certo! Obrigada! — Agradeço sorrindo.
Despeço-me de Gabriel e sigo para o meu lugar, ao lado de Vicente e Théo. Desde quando "se declarou", o doutor cumpriu com sua palavra de não ficar correndo atrás de mim, o que foi um grande alívio.
Os dois estavam quietos demais. Eles eram grandes amigos, irmãos em Cristo, companheiros de quarto, colegas de profissão e parceiros de missões. Normalmente, antes das aulas começarem, eles ficam conversando, brincando ou zoando um ao outro. No entanto, hoje o clima estava estranho entre os dois.
Vicente balançava a perna direita sem parar. Théo tinha suas mãos entrelaçadas em frente ao corpo, mas cutucava os dedos que já estavam vermelhos.
— O que está acontecendo? — Pergunto inocentemente.
— Nada! — Os dois respondem ao mesmo tempo. Trocam olhares e bufam em um sincronismo perfeito.
Foi impossível não rir. Eles me fitam como se eu fosse uma pessoa maluca e eu respiro antes de voltar a falar.
— Tá lega, quem vai abrir o bico? — Cruzo os braços e olho de um para o outro — Desembuchem! — Pedi sem paciência.
— Quer mesmo a verdade, doutora? — Théo pergunta para mim, mas seus olhos fitavam o homem ao meu lado esquerdo.
— Alencar... — Vicente fala em tom de aviso.
— Bom dia, meus queridos! — O pastor André diz acabando com qualquer chance de eu descobrir o que tinha acontecido com os doutores. Ele entra acompanhado de Sabrina, sua secretária, que há alguns meses descobri ser sua filha.
— Salvos pelo pastor André! — Sussurro, ajeitando-me na cadeira — Mas depois da aula vocês não irão escapar.
Vicente balança a cabeça negativamente e Théo abre um sorriso lateral. Reviro os olhos e foco no pastor que acabara de subir no palco.
>>>><<<<
Aiii gente, amo um momento de reconciliação ❤️ e nas histórias parece algo tão fácil, mas "na vida real" é tão difícil. Só quem já passou sabe como é pedir perdão e liberá-lo. Fere muito o nosso orgulho, não é verdade? Oh seres humanos complicados que somos nós, só Deus para ter misericórdia e nos ajudar!!
Enfim, estamos nos aproximando do fim da primeira fase dessa história, e em breve o momento mais esperado por esta autora que vos escreve, chegará!
Entretanto, gostaria de fazer uma enquete aqui, E PRECISO MUITO QUE TODAS AS LEITORAS QUE ACOMPANHAM ESSA HISTÓRIA, respondam. 🙏🏼🙏🏼🙏🏼 A primeira fase terá aproximadamente 33/34 capítulos, e só Deus sabe quantos terão a outra fase... Gostaria de saber se vocês preferem que eu divida em outro livro, ou preferem que continue aqui mesmo. Corre o risco do livro ficar gigante. 😅
Respondam a enquete aqui: 1 para que tenha apenas um livro ou 2 para dividi-lo em dois 😉
Por favor, não esqueçam de votar no capítulo ⭐️ e não deixe de participar da enquete 😬🙏🏼
Att.
NAP 😘
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