Capítulo 20

Corro para fora do prédio sem ter um rumo certo. A única coisa que eu desejava naquele momento era ficar sozinha. Precisava colocar os pensamentos em ordem.

Ao sair da edificação, olho ao meu redor e percebo que algumas pessoas já me encaravam com curiosidade. Provavelmente meu rosto estava vermelho e inchado. Abaixo a cabeça e tento colocar minha mente para funcionar. Consegui me lembrar de apenas um lugar.

Sem pensar duas vezes, corro entre as poucas pessoas que estava do lado de fora e sigo para o jardim secreto. Lá era pouco movimentado, provavelmente ninguém me acharia.

Assim que me encontrei sozinha naquele lugar, não consegui nem chegar ao banco, me lancei na grama umedecida e ali fiquei. Tentava falar, mas nada saia dos meus lábios, absolutamente nada. Já não havia mais lágrimas para rolar, restava apenas a dor da traição.

De todos os meus sentimentos, o que mais gritava era a mágoa que tentava dominar o meu coração. Como eu pude ser apunhalada por aquele que dizia me amar. Como Ângelo pôde ter feito aquilo comigo? Ele destruiu qualquer chance que eu tinha de viver os meus sonhos. De viver a minha história de amor...

Só de imaginar que as coisas poderiam ter sido diferentes... Ele não tinha o direito!

A ira crescia em meu interior, gritava por uma explicação.

Tateio meus bolsos em busca do meu celular, mas nada encontro. Lembro-me de quando saí da sala correndo sem levar nada. Deixei tudo para trás, bolsa, casaco, celular...

Suspiro pesadamente antes de me levantar. Eu precisava tirar essa história a limpo com o meu irmão.

Caminho a passos firmes, orando para que Vicente tivesse deixado a sala sem perceber que minhas coisas ficaram por lá. Estava tão distraída com os meus pensamentos que não percebi quando cheguei perto do prédio administrativo.

— Águi, preciso falar com... — Levanto a cabeça e encontro Théo a menos de dois metros de mim. Ele para de falar ao me ver — Agatha, o que aconteceu com você? — Diminui a distância entre nós e me analisa com olhos preocupados.

— Eu não quero falar com ninguém, Théo. — Tento dizer com a voz firme.

Ele me encara por alguns segundos antes de responder.

— Compreendo, mas o que eu tenho para falar é muito sério. — Suas palavras me causam arrepios e a mesma sensação que eu estava sentindo pela manhã volta com tudo.

Levo a mão ao coração e o pressiono.

— Você está se sentindo bem? — Pergunta preocupado.

— Preciso me sentar. — Digo passando por ele e entrando no prédio administrativo.

— Doutora Agatha, como vai? — Flora me cumprimenta ao entrar na recepção

— Olá, dona Flora! Já estive melhor... — Ofereço um pequeno sorriso e me sento.

O doutor me entrega um copo com água e eu agradeço.

— O que aconteceu, Théo? — Questiono após beber todo o líquido.

Inicialmente ele parecia inseguro, mas logo adota uma postura profissional de seriedade, o que me preocupa. Normalmente agíamos assim quando tínhamos más notícias para dar aos familiares dos pacientes.

Levanto dando um passo em sua direção.

— Diz de uma vez! — Peço impaciente, mas cheia de preocupação.

— Agatha, ligaram da sua casa... — Arregalo os olhos.

— O que aconteceu com papai? Minha mãe está bem? — Seguro seus braços sentindo o desespero tomar conta de mim.

Com delicadeza ele segura os meus braços e diz calmamente.

— Não aconteceu nada com os seus pais, Águi. Eles estão,fisicamente, bem e seguros.

Solto um suspiro aliviado, mas ao contemplar o olhar aflito do homem à minha frente, a preocupação volta.

— Foi a sua amiga. — Engole em seco e se aproxima devagar.

— A Hel? — Choramingo e ele assente.

— Ela sofreu um acidente de carro essa manhã... — Coloco as mãos na boca e dou alguns passos para traz, sendo seguida por ele — E infelizmente não resistiu.

Paro na mesma hora, ao ouvi-lo. Minhas mãos que estavam no rosto caem pesadamente pelas laterais do meu corpo.

A única coisa que consigo fazer é negar com a cabeça freneticamente.

— Não... — Sussurro.

— Eu sinto muito! — Ele tenta me abraçar, mas eu o empurro para longe.

— ISSO NÃO TEM GRAÇA THÉO! — Grito com histeria — NÃO MINTA PARA MIM!

Ele não diz nada, simplesmente me olha com pena e tristeza. Encaro dona Flora, que nos observava espantada com os olhos marejados.

— Por-Por favor! — Imploro começando a sentir a dor em meu peito aumentar — Diz que isso tudo é uma grande brincadeira de mal gosto! — Ele abaixa o olhar e nega com a cabeça — DIZ! — Grito avançando nele. —DIZ, THÉO! — Bato em seu peito com toda a minha força — POR FAVOR! — Ele me envolve em seus braços acariciando minha cabeça enquanto me debatia.

— Sinto muito, Águi! — Sussurrava entre meu cabelo.

— Eu... Eu não consigo... Respirar! — Ele se afasta rapidamente, mas sem me soltar. Pressiono meu peito na tentativa de amenizar a dor. Minha cabeça explodia e o meu corpo começava a dar sinais de fraqueza.

Estava prestes a gritar novamente quando ouço a voz de Vicente.

— Agatha! — Olho para a direção da porta e o vejo correndo em nossa direção, com meu celular em uma das mãos e a respiração falha.

Ele para de correr e se aproxima lentamente. Quando chega a centímetros de mim eu recebo a confirmação em seu olhar. O mesmo olhar de quando recebera a notícia da morte de sua mãe estava lá.

— É verdade... — Digo a mim mesma, mas ele assente.

Fechos os olhos e a última coisa que me lembro, foi de ter ouvido pessoas gritando o meu nome. Depois disso eu apaguei.

***

— Ela vai ficar bem, deve acordar a qualquer momento. — Escuto a voz de Théo em baixo tom. Abro os olhos devagar.

— Ela já está acordando. — Dessa vez a voz era de Caio. Olho para ele, que estava ao meu lado direito — Como você se sente?

Aos poucos me recordo dos últimos acontecimentos. Sento-me rapidamente na maca da enfermaria e sinto a cabeça latejar. Fecho os olhos e respiro devagar.

— Quer um remédio para dor? — O doutor toca meus ombros e eu o encaro sem qualquer tipo de expressão.

Deixo a maca e começo a andar devagar, mas sou impedida por uma mão segurando o meu ombro.

— Onde pensa que vai? — Caio.

— Eu vou para Rio! — Consigo dizer, após engolir o nó que já tinha se formado em minha garganta novamente.

— Você não está em condições de ir, Águi. — Ele se coloca em meu caminho.

— Caio, é melhor sair da minha frente! — Fecho os olhos e respiro fundo, não queria descontar nele, mais uma vez, minhas dores — Eu preciso ir!

— Mas o Vice está preparando...

— Eu não me importo com o que o Vicente esteja fazendo! Eu vou para o Rio agora mesmo e ninguém irá me impedir!

Passo por ele e caminho a passos largos. Chego no estacionamento e percebo que meu carro não estava lá. Sem conseguir controlar meus sentimentos e emoções, arrasto-me em um dos carros sentando no chão. Olho para o céu e pela primeira vez desde que recebi uma das piores notícias da minha vida, começo a chorar.

Não conseguiria explicar, mas não sentia absolutamente nada, apenas a vontade de chorar. Estava anestesiada.

— Venha, eu te levo. — Olho para o lado e vejo Théo agachado próximo a mim.

Assinto com a cabeça e aceito sua mão para me ajudar a levantar. Entro no carro e fecho os olhos, não queria conversar com ninguém, mesmo já sabendo que Théo respeitaria o meu momento.

A viagem passou rápida demais, ou eu que estava completamente desligada de tudo o que se passava ao meu redor. Só desperto quando pela primeira vez em menos de cinco horas, Théo fala comigo.

— Agatha, para onde você quer ir?

Olho para ele e penso por alguns segundos antes de responder.

— Para a casa de-dela. — Minha voz sai embargada.

Após vinte minutos chegamos em frente à casa da minha melhor amiga, o meu segundo lar. O aperto em meu coração, que não desapareceu em momento algum, se intensificou ao contemplar vários carros parados na rua.

Antes mesmo do doutor estacionar, eu destravo a porta e saio correndo do carro.

— AGATHA! — Ele tenta me chamar, mas eu o ignoro.

Entro na casa dos Amorim e estaco com a cena que presencio. Tia Carmem apoiada na bancada da cozinha americana sendo sustentada e abraçada por Ricardo, os dois estavam aos prantos. A sala estava lotada de pessoas, no entanto, não saberia dizer quem, pois não prestava atenção em mais ninguém, apenas nas duas figurara próximas a cozinha.

A passos lentos me aproximo da minha segunda mãe, e ao notar minha presença, ela se desfaz delicadamente do toque do genro e vem ao meu encontro.

— Águi... — Envolvo-a com meus braços. As lágrimas rolavam pelos meus olhos sem nem perceber. Os soluços que saíam de nossas bocas eram como trovões naquela sala silenciosa — Ela se foi, Águi! A minha menininha se foi... — Diz me apertando em seus braços.

Nada consegui dizer, a dor era absurda demais! Era como se uma parte do meu coração tivesse sido arrancada à força. Minha boca abria e fechava, mas só saíam soluços e mais soluços.

— Shhhh, pode chorar, minha filha! — Ela acaricia meus cabeços e sussurra — Eu sei como está doendo!

Era para eu estar consolando-a e não o contrário, não?

— Dói muito! Muito! — Minha voz sai esganiçada devido a minha tentativa de reprimir a dor.

— Eu sei! Eu sei... — Sua voz começa a falhar e seu corpo a pesar sobre o meu.

Percebendo o que estava acontecendo eu começo a ficar em alerta. Olho para os lados e vejo alguns homens, entre eles estavam o meu pai, o pastor Pedro, Ricardo, Théo, Paulo e Rafael. Théo e Ricardo vem ao nosso encontro sem eu precisar dizer uma palavra, e retiram tia Carmem, que acabara de desmaiar nos meus braços a levando para o sofá.

Vou para a cozinha e pego um copo, mas quase o deixo cair. Minhas mãos tremiam como nunca tinha visto e meus olhos estavam embaçados pelas lágrimas que ainda permaneciam ali.

Sinto duas mãos em meus braços, mãos quentes e muito bem conhecidas por mim. Fecho os olhos e me jogo em seu colo.

— Mamãe! — Ela me envolve em seu abraço materno enquanto me escondo entre seu pescoço — Ela não deveria ter ido, mamãe! A Hel não! — Não sabia se estava gritando ou sussurrando, na verdade pouco me importava, só não aguentava mais ficar calada.

— Cátia, leva esse copo d'água para Carmem, por gentileza. — Ela pede para uma senhora que apareceu na cozinha enquanto me consolava.

— Por que Deus a levou, mamãe? Dói tanto, mamãe! Onde ela está? — Afasto-me de seus braços — Eu quero vê-la! Eu preciso!

Tento voltar para a sala, mas seus braços me impedem.

— Querida, acalme-se! Infelizmente você não poderá vê-la! — Diz a última parte com os olhos cheios de água.

Nego veemente com a cabeça e dou às costas para ela, seguindo em direção ao Ricardo.

— Águi! — Ele me abraça assim que me vê — Obrigada por vir... — Sua voz falha e ele funga respirando fundo — Ela... Estava tão animada com a sua chegada hoje! — Abaixa o rosto e começa a chorar silenciosamente — Eu a amava mais do que jamais amei alguém, Águi! Espero que tenha conseguido demostrar isso... Enquanto ela ainda estava entre nós.

Abraço-o mais uma vez. Assim como tia Carmem e eu, Rick estava sofrendo. No entanto, dos três ele tentava ser o mais forte, mas nem os mais fortes suportam tudo.

— Rick! — Seguro seu rosto entre minhas mãos o olhando profundamente — Tenha certeza que ela sabia e sentia todo o seu amor! — Minha voz começa a falhar, mas eu respiro fundo e continuo — Ontem, quando conversamos... pela última vez... — Mais um soluço alto sai dos meus lábios — Ela me disse que se sentia a mulher mais feliz e amada desse mundo por ter pessoas tão especiais em sua vida. — Assinto com a cabeça e continuo — E ela estava certíssima!

Ele fecha os olhos com força antes de soltar uma lufada de ar.

— Obrigada, Águi!

Meia hora depois, após tia Carmem recobrar a consciência, seguimos para a nossa igreja, onde ocorreria o velório. Em todo o tempo fui amparada e acompanhada. Estava modo off para tudo e todos. Pensava apenas na dor que a morte da minha melhor amiga me causava.

Apenas ao chegar no templo, entendo o motivo de não podermos vê-la. O acidente foi tão feio que o corpo precisaria ser velado com o caixão fechado.

Em alguns momentos antes do velório ser iniciado, tive algumas crises e quase cheguei a desmaiar, mas em todas fui amparada. Queria me manter consciente. Precisava!

Nosso pastor toma a frente da reunião e começa a falar.

— Irmãos, infelizmente nos reunimos hoje aqui para nos despedirmos da nossa queria e amada Helena Amorim... — A voz do pasto Pedro denunciava sua emoção e tristeza — A pequena Hel não era apenas uma ovelha para mim, mas sim uma de minhas filhas. Tenham certeza que se eu estou aqui... fazendo esse velório, é porque estou sendo sustentado pelo próprio Deus. — Olha para o caixão — Assim como, a irmã Carmem, estou me despedindo de uma filha.

O pai de Helena nunca fora presente em sua vida. Tinha sumido antes mesmo da minha amiga começar a andar. O nosso pastor e meu pai eram as duas figuras paternas que a minha amiga tinha, e mesmo assim ele sempre fora extremamente amada e mimada pelos dois.

Esse pensamento me fez sorrir tristemente.

Tia Carmem chorava debruçada sobre o caixão, sendo amparada por Ricardo e sua mãe. Ao seu lado estávamos eu, minha família e a família do pastor Pedro.

Toco o objeto de madeira e fecho os olhos. As lágrimas tinham cessado há algum tempo, mas foi só imaginar o corpo estraçalhado da minha amiga em minha frente, que as lágrimas e o desespero começam a tomar conta de mim novamente.

Dou alguns passos para trás sacudindo a cabeça em negação. A respiração começa a falhar, mas sinto duas mãos virando o meu corpo para si e me acolhendo em seus braços fortes e aconchegantes. Respiro fundo e fecho os olhos. Não precisava olhar em seu rosto para saber que realmente era ele.

Apoio minha testa em seu peito tentando controlar a respiração e sinto suas mãos descendo e subindo pelas minhas costas. Em poucos minutos o meu corpo relaxa e eu sinto o meu corpo e minha mente serem anestesiados mais uma vez.

Em meio ao desespero, não prestei atenção nas palavras ditas pelo nosso pastor, apenas a parte final, que me encheu de esperança e uma pontada de alegria.

— Nosso maior consolo é sabermos que ela foi para o Pai, e que em breve nos reencontraremos outra vez, em um lugar onde o próprio Deus estará conosco. Ele nos será por Deus, e enxugará todas as lágrimas de nossos olhos e a morte já não existirá mais. Não haverá mais luto, nem choro e nem dor, porque as coisas velhas já passarão! Eis que tudo se fará novo!

Alguns glorificavam, outros como eu choravam, mas sentiam o consolo do Espírito Santo.

Sem dizer uma palavra, Vicente nos guia para fora da igreja, acompanhados dos outros irmão, familiares e conhecidos. Mamãe se aproxima de nós e enlaça nossos braços, em seguida enxuga uma lágrima que rolava pelo meu rosto e me oferece um pequeno sorriso, que me faz sorrir de volta.

Entro no carro de papai junto com ela. Apoio minha cabeça em seu ombro e fecho os olhos sentindo sua mão acariciando as minhas. E assim seguimos, em silêncio até o cemitério.

>>>><<<<

Não sei vocês, mas eu costumo me colocar no lugar de cada personagem. E eu confesso que esse capítulo foi um dos mais difíceis que já escrevi até hoje! Eu chorei tanto sentindo a dor, o consolo e ouvido a voz do próprio Deus falando comigo.

A verdade é que o ser humano nunca está preparado para perder. Quando mais perder uma pessoa querida, não é mesmo? No entanto, a única certeza que eu tenho é que Ele jamais nos desamparará! Estará ao nosso lado em todo tempo, mesmo quando permitimos que a dor e o desespero nos segue, momentaneamente. Até nesses momentos o Espírito Santo estará nos ajudando a passar por isso!

Espero que não fiquem chateados comigo, pois essa é a vida! Essa é a realidade! E como já dizia Salomão:

"É melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa,
pois a morte é o destino de todos; os vivos devem levar isso a sério!"

Eclesiastes 7.2

Att. NAP 🥺

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