Capítulo 12
A noite passou lenta e agonizante. E por mais que o cansaço dominasse todo o meu corpo, minha mente não desligou um só minuto. Por isso escutei quando o despertador de Lídia tocou às 6:30 da manhã.
Fecho os olhos assim que percebo a movimentação nas duas camas. Não queria falar com ninguém, e com toda certeza as meninas tentariam entender o que aconteceu na noite anterior com minha súbita saída.
As duas cochicham algumas coisas em baixo tom, provavelmente para não querer me acordar. Cerca de trinta minutos depois Lídia diz que precisa sair mais cedo para encontrar com o Gabriel, pelo que entendi este era o missionário que estava à frente do grupo de odontologia.
— Pode parar de fingir, Águi! Eu sei que você está acordada. — Surpreendo-me ao ouvir a voz de Lara ao lado da minha cama.
Abro os olhos devagar, mas continuo encarando o teto constrangida pelo episódio de ontem.
Após me consolar na escada, Lara me trouxe em silêncio para o quarto, separou novas roupas, pois as minhas estavam ensopadas, e me colocou no banho. Não fez sequer uma pergunta, apenas permaneceu ao meu lado no momento da dor.
— Como está se sentindo? — Pergunta gentilmente.
— Quebrada! — Resmungo antes de empurrar o edredom para o lado e levantar — Meu corpo todo dói.
— Não conseguiu dormir, não é?
— Exato! — Encaro-a pela primeira vez naquele dia.
— Por que não fica descansando pela manhã? Se estiver bem disposta na parte da tarde você assiste as aulas. — Sugere se afastando para mexer em sua bolsa.
— Acho que farei isso mesmo. — Fecho os olhos e coloco a mão na cabeça que latejava.
— Toma! — Pego o remédio oferecido por ela junto com o copo de água.
— Obrigada! — Coloco o comprimido na boca e o engulo com a ajuda do líquido — Lara, sobre ontem eu...
— Você não precisa falar nada, Águi! Sério! — Toca meu ombro — Eu estarei aqui para te ouvir quando você realmente quiser conversar, mas agora acho que a única coisa que você quer fazer é descansar.
Sorrio e concordo com a cabeça. Entrego o copo para ela e me deito novamente.
— Obrigada pela compreensão! — Sussurro e ela simplesmente me oferece um sorriso sem dentes.
— Não há de quê! Agora descanse, preciso descer para o café! — Deposita um beijo em minha testa e se afasta.
— Boa aula! — Sussurro já com os olhos fechados.
— Bom descanso!
***
Respiro fundo antes de entrar no refeitório, provavelmente todos estariam ali.
Para a minha surpresa apenas Lara, Caio e Lipe estavam lá. Lara é a primeira a me ver e acena logo em seguida. Sigo para a mesa e me junto a eles.
Saúdo-os com um "boa tarde" e me sento ao lado de Lara.
— Está melhor? — Ela pergunta em baixo tom.
— Sim!
— Que bom! — Sorri largamente — Você viu os lanches que deixei em sua mesa de cabeceira? Espero que tenha comido, mocinha!
— Vi sim, muito obrigada, mas não precisava ter se incomodado! — Apoio os cotovelos na mesa.
— Não vai comer nada, Águi? — Lipe pergunta com desconfiança.
— Acabei de comer! — Ele dá de ombros e volta a atenção para a refeição à sua frente.
Em todo o tempo evitei encarar Caio, com certeza ele desconfiaria de que algo estava errado comigo.
— Olha só, faltam cinco minutos para começar a aula! Preciso correr para escovar os dentes. Fui! — Lara se levanta e sai correndo para o banheiro feminino.
— E eu preciso fazer o mesmo. — Nos vemos mais tarde, Águi!
— Até mais, Lipe! — Acompanho meu amigo se afastar com o olhar até perde-lo de vista.
Ao escutar o pigarreio vindo do jovem à minha frente, suspiro derrotada.
— Está com uma cara péssima!
— Obrigada pela sinceridade! — Respondo com ironia — Vamos, também precisamos ir.
Pego minha bolsa e vou na frente, mas logo ele me alcança.
— Quer me dizer o que aconteceu? — Pergunta com uma falsa inocência na voz.
— Não!
— Mas eu já imagino o que tenha acontecido! O meu irmão é um... — O interrompo virando-me subitamente para ele e toco em seu peito com o indicador.
— Olha, Caio, eu realmente não quero falar do seu irmão. Então, por favor, sem mais perguntas ok?
Ele ergue as mãos em sinal de redenção.
— Tudo bem, não está mais aqui quem falou. Desculpa! — Resmunga chateado.
Concordo e volto a seguir meu caminho. Quando já estava próxima ao edifício onde aconteceriam as aulas, viro para me despedir de Caio, mas percebo que ele não estava atrás de mim. O arrependimento bate na mesma hora.
Suspiro e entro no prédio.
— Aí está você! — Lara me puxa pela mão — Pensei que chegaria atrasada, mas ainda falta um minuto.
Entramos na sala e um falatório tomava conta do ambiente. Por um instante me senti na faculdade novamente. Tal pensamento me fez sorrir.
— Até mais tarde, Águi! Qualquer coisa estou do outro lado da sala. — Pisca para mim e se afasta.
Olho para onde os médicos costumam ficar sentados e suspiro aliviada ao constatar que Vicente não estava lá, apenas o missionário Théo. Caminho em sua direção e o saúdo assim que me aproximo.
— Boa tarde, Théo! — Ofereço um pequeno sorriso.
Será que receberei uma bronca?
Ele se levanta ao ouvir minha voz e sorri.
— Agatha! Fiquei preocupado com você, como está?
— Estou bem. Quer dizer, agora estou melhor. Me senti indisposta pela manhã, então resolvi ficar descansando. — Ajeito a bolsa no ombro.
— A Lara nos falou sobre você, disse que não se sentia bem. Fico feliz por estar melhor! — Diz com sinceridade.
— Obrigada! — Agradeço.
— Agatha! — Faço uma força sobrenatural para não revirar meus olhos ao ouvir a voz do Vicente. Minha vontade era de ignora-lo, mas meus pais me deram a melhor educação que uma pessoa poderia receber, então viro apenas o rosto para ele sem nenhuma expressão — Está melhor? A Lara disse...
— Estou! — Volto minha atenção para o médico à minha frente.
— Você poderia me dar licença, Théo? — Peço passagem.
— É claro! — Diz abrindo o caminho. Tomo meu assento ao seu lado direito. A aula começou logo em seguida tapando qualquer brecha para outras conversas.
Desta vez me forço a concentrar toda a minha atenção no que o professor explicava. Graças ao Théo, que estava entre Ferraço e eu, consegui focar na aula que foi sensacional.
No fim ficamos o professor que ministrou a aula, Théo e eu. Pedi para que Lara me esperasse do lado de fora. Tirei algumas dúvidas com o pastor Ricardo, que me explicou com facilidade tudo o que precisava saber.
Théo me acompanhou até o lado de fora e se despediu assim que Lara chegou.
— Vamos comer algo? Estou faminta! — A morena me pergunta com entusiasmo.
— É, eu também estou. — Digo sem muita animação.
Enquanto caminhávamos para fora do prédio, avisto um trio que faz meu estomago revirar. Caio, Vicente e Lídia conversando. Paro na mesma hora. Minha colega de quarto me olha com desconfiança, mas não fala nada.
Forço meus pés a continuarem, torcendo para passarmos despercebidas pelos três, mas infelizmente isso não acontece.
— Águi! Você me preocupou! — Lídia me puxa para um abraço. O que me deixa totalmente desconfortável.
— Estou bem! — Tento me afastar com delicadeza.
— Fico aliviada! — Ela olha para Lara e sorri — Estávamos esperando vocês duas para jantarmos.
— Estávamos indo para lá! — A morena responde e eu quase berro.
— Não! — Elas me olham assustadas e eu me recomponho — Quer dizer, vocês irão, eu vou direto para quarto.
— Mas você acabou de me dizer que estava com fome, Águi! — Lara cruza os braços e me olha de cara feia.
— Sim, mas eu lembrei que ainda tenho algumas coisas no quarto para comer. — Antes que elas falassem mais alguma coisa eu me viro para os irmãos Ferraço. Caio me lança um pequeno sorriso e Vicente encara seus pés. Pigarreio antes de falar — Caio, podemos conversar por um instante?
Ele assente e segura minha mão.
— Podem ir na frente, pessoal! Encontro vocês no refeitório. — Eles concordaram e se afastaram — Fala que o teu servo ouve!
Reviro os olhos e sorrio ao perceber que ele não estava chateado comigo, ou pelo menos não aparentava.
— Olha, eu queria te pedir desculpas pela forma como me comportei mais cedo. Descontei minha irritação em você. Por favor me perdoe, Caio!
Ele coloca as mãos para trás das costas e me olha pensativo. Depois começa a mexer na areia com o pé.
— Vou pensar em seu caso, dona Agatha Tavares!
— Espero que pense com carinho! — Inclino a cabeça para o lado fazendo biquinho.
— Como resistir a esta carinha? É claro que te perdoo, maninha! — Diz me puxando para si. Seu abraço era tão bom, sempre transmitia a sinceridade e o carinho que ele sentia. Caio não era mais aquele baixinho rechonchudinho. Agora era um homem feito, alto e até um pouco musculoso.
— Te amo! — Sussurro.
— Eu também amo você! — Ele deposita um beijo em minha testa e se afasta — Sabe, você consegue ser bem fofinha quando quer...
— E você acabou de pôr um fim em meu momento fofura! — Pisco para ele e o forço a caminhar ao meu lado.
— Pena que durou pouco. — Ri — Vai mesmo comer no quarto?
— Vou sim. Preciso fazer uma ligação importante.
— Tudo bem, eu te acompanho até o dormitório. — Concordo.
Depois de ser deixada pelo cavalheiro do Caio em frente ao prédio, subo as escadas devagar. Entro no quarto e caminho até a cama. Retiro o celular do bolso e começo a digitar.
Respiro fundo e sento na cama encostando na cabeceira. Após três toques ela atende.
— Amiga, já estou morrendo de saudades! Eu sei que não passou nem uma semana, mas saiba que você faz muita falta e...
Ela para de falar assim que escuta o soluço teimoso que sai da minha garganta. Coloco a mão na boca, na tentativa de conter os próximos, mas sem sucesso.
— Águi? O que aconteceu, amiga? — Helena pergunta com preocupação.
Já não aguentava guardar tudo aquilo só para mim, então sem pensar duas vezes decido contar.
— Ele está namorando! — Outro soluço escapa, dessa vez ainda mais alto devido a dor que voltara a martelar o meu machucado coração.
— Ele quem, Águi? Não me diz...
— O Vicente, Hel! Ele está comprometido! — Digo e começo a chorar copiosamente.
— Acalme-se amiga, por favor! Você quer que eu vá para aí?
— Não, eu preciso sair daqui! Por isso estou te ligando. — Digo com desespero na voz.
— VOCÊ QUER FUGIR DAÍ? — Grita.
— Claro que não, Hel! Por Deus! — Reviro os olhos mesmo em meio à lágrimas.
— Então o que você tem em mente?
— Preciso passar o fim de semana na sua casa. — Digo incerta, sem saber se aquilo realmente seria o certo a ser feito.
— É claro que você poderá vir, amiga! Quer que eu peça ao seu pai para te buscar? — Pergunta.
— Também não. Não quero que ninguém saiba, preciso ficar um tempo sozinha e longe de tudo aqui.
— Você será muito bem-vinda, Águi! Tenha certeza que terá um colo te esperando quando chegar. Eu amo muito você!
— Obrigada, minha irmã! Eu também te amo!
>>>><<<<
"O amigo ama em todos os momentos; é um irmão na adversidade."
Provérbios 17.17 ♥️
Bem verdade não?! 👆🏼
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Att.
NAP 😘
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