Capítulo 10
Lara e eu caminhávamos de volta para o dormitório. Tínhamos acabado de jantar com os outros no refeitório. O restante do dia passou voando, e a aula dada por Théo no turno da tarde foi super importante e interessante.
Após o episódio do almoço, não vi Lídia ou os irmãos Ferraço em lugar algum. O que me deixou um pouco preocupada.
— Aquele não é o Caio? — Minha colega de quarto aponta para um jardim um pouco escondido.
Forço a visão para tentar reconhecer a figura masculina sentada a alguns metros de nós.
— Acho que sim... — Suspiro — Nos vemos no quarto.
Sem esperar por uma resposta, caminho em direção ao jovem cabisbaixo. Tal ato me fez lembrar dos acampamentos de verão e inverno. Sempre que os irmãos Ferraço brigavam, o mais novo se isolava em um canto afastado de tudo e de todos. Apenas uma pessoa conseguia quebrar a barreira invisível que era erguida por ele.
— Posso me juntar a você? — Pergunto com cautela ao me aproximar.
Surpreso por me ver ali, ele simplesmente dá de ombros e chega um pouco mais para o lado me dando espaço para sentar.
— O dia hoje foi extremamente cansativo, estou exausta! E olha que foi apenas o primeiro. — Tento puxar debilmente uma conversa.
— Águi, não sou mais um menino de dez anos! — Resmunga olhando para o céu, fazendo-me sorrir.
— Pelo menos funcionou. — Ele me encara com incredulidade — Isso é um bom sinal! Acho que ainda tenho jeito com a coisa. — Digo fazendo-o soltar uma leve risada — Viu! Consegui até arrancar uma risada de você!
— Só você mesmo! — Responde voltando seu olhar para o céu.
— Eu sei que está preocupado, maninho! E compreendo sua aflição.
— É bom saber que pelo menos uma pessoa me compreende! — Responde irritado.
— Vocês dois se desentenderam, não foi? — Cruzo as pernas e apoio as mãos no banco me inclinando um pouco para frente.
— Ele é um inconsequente, Águi! — Bufa — Nós já tínhamos conversado sobre isso antes de virmos para cá. Ele disse que não faria nada estúpido novamente!
— Está dizendo que fazer a vontade de Deus é estupidez? — Pergunto com incredulidade, não conseguindo me conter.
— Estou dizendo que outras pessoas poderiam ir no lugar dele! O Missionário Théo também é médico, para que irem vocês três? Sem contar que há outros enfermeiros e técnicos para auxilia-lo.
Respiro fundo antes de começar a falar.
— Caio, me responda uma coisa com sinceridade. — Ele me olha com desconfiança, mas concorda — Por qual motivo você decidiu vir para cá?
Alguns segundos se passam antes de obter minha resposta.
— Estou aqui a serviço do Rei, para cumprir o meu chamado. — Sussurra.
— E se por acaso os papéis se invertessem? O que você faria se alguém estivesse precisando dos seus serviços em um lugar perigoso?
— Eu... — Ele se vira ficando de frente para mim — É claro que eu ajudaria, Águi! Estou aqui para isso!
— Acredito que todos presentes no CEM fariam o mesmo. — Ofereço-lhe um pequeno sorriso — Inclusive o seu irmão.
— Eu só não quero que nada aconteça com ele. — Acaricio sua bochecha.
— Você se lembra da passagem em que Jesus contou para os seus discípulos sobre a necessidade de sua morte e ressureição? — Ele assente — Pois bem, você se lembra da reação de Pedro quando soube?
— Pedro ficou irritado e o repreendeu. — Resmungou desviando seu olhar para o céu. O que me fez dar uma pequena risada.
— E o Mestre fez o mesmo com ele. — Suspiro e também encaro o céu nublado — No entanto, em seguida ele reúne a multidão, juntamente com os discípulos, e começa a dar algumas instruções: Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa e pelo evangelho, a salvará. Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderia dar em troca de sua alma?
Olho de soslaio para ele.
— Sabe o que eu entendo com essa passagem, maninho? Que para servir a Jesus nós precisamos renunciar. Se nós realmente fomos crucificados com Cristo, como Galatas 2.20 diz, já não somos nós que vivemos, mas Ele vive em nós. E do que adiantaria preservarmos a nossa própria vida se há muitas almas por aí que estão clamando por socorro? — Seguro sua mão e sussurro — Não podemos ser tão egoístas assim.
— Eu sei! E me sinto um idiota pelo modo como tenho agido e pensado, mas sinceramente, eu não faço ideia de como o papai e eu ficaríamos se o perdêssemos também! — Enterra o rosto entre as mãos e desaba. Sua voz sai abafada quando retorna a falar — Foi assim que nós a perdemos, Águi! Você mais do que ninguém sabe disso.
Ao ouvir suas palavras meu coração se aperta. Toco com delicadeza suas costas e o puxo para um abraço. Sinto suas lágrimas molharem meu ombro.
— Pode chorar, querido, eu estou aqui! — Tento consola-lo, mas ao mesmo tempo sentia que estava sendo consolada por ele também. Depois de alguns minutos recomponho-me e volto a falar — Caio, eu nunca falei isso para ninguém, nem mesmo para o seu irmão naquela época. — Ele se afasta um pouco e me encara com curiosidade. Seus olhos estavam inchados e vermelhos devido o choro — Mas eu quero que saiba que a sua mãe foi, e ainda é, a minha maior motivação e exemplo para querer estar aqui hoje!
Seus olhos se enchem de água novamente, e assim que as lágrimas começam a rolar eu as enxugo com o polegar.
— Ela morreu por amor a Cristo! Você tem noção do que isso significa? — Desta vez quem desaba sou eu, tamanha emoção que sentia ao falar de Gabriela Ferraço — Sua mãe foi uma grande missionária e mulher de Deus! Uma das minhas maiores referência e motivo de grande orgulho para todos nós, meu querido!
Caio me puxa para mais um abraço, dessa vez os dois chorávamos copiosamente. A atmosfera naquele momento era inebriante, podíamos sentir a presença do Espírito santo nos envolvendo e consolando.
— Obrigado! — Ele sussurra — Obrigado por estar de volta para nós, Águi!
Sorrio com suas palavras. Ao abrir os olhos me deparo com Vicente a poucos metros, parado nos observando. A iluminação não estava favorável, então não consegui ver sua expressão. Pigarreio e me afasto de Caio.
— Acho que tem alguém querendo falar com você. — Volto meu olhar para seu irmão e ele faz o mesmo.
— É, acho que precisamos resolver algumas coisas. — Se levanta e me ajuda a fazer o mesmo — Falando nisso... — Ele enfia as mãos no bolso e encolhe os ombros — Vocês já conversaram?
Sua pergunta me pega de surpresa.
— Bom, nos falamos hoje na aula. — Dou de ombros.
— Não! Digo conversar mesmo, Águi.
— Ainda não.
— Pois vocês precisam fazer isso o quanto antes. — Segura-me pelas laterais dos braços — Por favor, me prometa que farão isso amanhã mesmo.
— Tentarei!
Ele me puxa para um abraço mais uma vez.
— Boa noite, maninha!
— Boa noite, Caio! — Afasto-me e sigo em direção a Vicente.
— Está tudo bem? — O mais velho pergunta assim que me aproximo.
— Sim. — Fito meus pés. Ainda era estranho estar na presença dele novamente — Ele está te esperando. Boa noite!
Passo por ele, mas sou impedida por sua mão segurando o meu pulso.
— Será que nós podemos conversar mais tarde? — Seus olhos intensos fitam os meus me deixando um pouco desorientada.
— Acho melhor deixarmos para amanhã, estou bem cansada. Pode ser? — Desvencilho-me do toque.
— É claro! Me desculpe! — Enfia as mãos nos bolsos de sua calça — Boa noite, Águi.
Viro-me e sigo meu caminho.
À medida que me afastava sentia que uma parte de mim estava ficando para trás. Aperto meus passos e em pouco tempo entro no prédio. Assim que passo pelas portas, encosto-me na parede fria e fecho os olhos. Automaticamente minhas mãos vão para o pingente em formato de estrela.
— Por que você ainda tem esse efeito sobre mim? — Sussurro para mim mesma.
Desencosto-me da parede e subo as escadas. Ao entrar no dormitório vejo Lara e Lídia sendas na cama. A primeira estava com sua roupa de dormir e a segunda com um roupão e uma toalha enrolada na cabeça.
— Aí está você! Já estávamos preocupadas. — Lídia comenta se aproximando de mim.
— Nós que deveríamos dizer isso! Você sumiu a tarde toda! — Respondo colocando a bolsa em cima da bancada de estudos.
— Disse exatamente isso para ela! — Lara comenta fazendo um coque em seu cabelo.
— Longa história... — A loira caminha de volta para a sua cama sem animação.
— Primeiro eu vou tomar um banho. Depois você nos conta o que aconteceu. — Pego minhas coisas e entro no banheiro.
Tomo um banho rápido, coloco um conjunto de moletom cinza e faço minha higiene pessoal.
— Prontinho! Agora podemos conversar. — Sento em minha cama encostando-me na cabeceira — Por que não assistiu as aulas do turno da tarde?
— Precisei resolver algumas coisas, mas sinceramente, fui uma completa inútil. — Comenta desanimada.
— Não diga isso! — Lara joga um travesseiro na loira que resmunga em seguida.
— Tenho certeza que está exagerando! — Digo tentando reanimar minha colega.
— Estou falando sério, Águi. — Cruza as pernas como de índio. Confesso que tal ato me deixava agoniada.
Viro meu corpo e fico de frente para ela.
— Ei, é falta de educação dar as coisas para os outros, dona Agatha! — Lara reclama e eu dou risada.
— Então sente aqui ao meu lado. — Toco no colchão.
— Sério? — Pergunta surpresa e eu a olho com a sobrancelha arqueada — O que foi, esqueceu que sua mãe e o Caio falaram que você é um pouco antipática.
Reviro os olhos e volto a encarar Lídia.
— Então, Lili... — Enfatizo seu nome — Como estávamos falando, seja lá o que você tentou fazer, creio que deu algum fruto sim, pois tudo o que fazemos gera uma consequência, boa ou ruim, mas gera.
— Espero que tenha gerado algo bom. Só não queria ver os dois brigados. — Dá de ombros.
— Está falando dos irmãos Ferraço? — Lara pergunta o que estava em minha mente.
— Sim. Mas sem sucesso, pois os dois nem perceberam minha presença.
— Que bad! — A morena comenta deitando de bruço ao meu lado.
— Mas você ficou a tarde toda com eles? — Questiono.
— Bom, depois eu fui para sala do diretor e fiquei por lá com o meu namorado enquanto eles conversavam sobre alguns assuntos.
— Namorado? — Pergunto com certa surpresa na voz — Digo, não sabia que seu namorado também estava aqui. — Sorrio.
— Está sim! — Ela comenta um pouco envergonhada enquanto balançava as pernas.
— Que legal! Mas por favor descruza as pernas! Sua postura está horrível e ficar por muito tempo nessa posição pode provocar dores nos joelhos e causar hipercifose em sua coluna! E pelo que eu tenho percebido, você tem costume de ficar assim. — Aponto para ela que arregala os olhos azuis.
Lara gargalha fazendo o colchão sacudir abaixo de nós.
— Nossa, você falou como o Vicente agora... — Ouvir tal nome me fez recuperar a seriedade.
— Vicente? — Questiono.
— Sim! — Lara responde por ela — Vicente Ferraço, o namorado da Lili.
>>>><<<<
Só digo uma coisa: 🤭
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