Capítulo Vinte e Nove

Daniel vamps:

Depois de cuidar de Marshall, me despedi dele com um beijo na testa e me encaminhei para minha própria casa.

Ao chegar em casa, subi a escada da frente e a porta se abriu antes mesmo de tocar na maçaneta de bronze. Do outro lado, estava Tio Aart, um sorriso de deboche brincando nos lábios, o que me fez revirar os olhos automaticamente.

— Parece que você resolveu voltar para casa e ficar um pouco mais — ele comentou, provocando, fazendo-me suspirar. — Até que o efeito da bebida feérica tenha passado. Seu pai está na sala, finalmente analisando a lista de escolas que Marshall enviou.

— Não parece que ele está gostando muito dessa ideia, no entanto — murmurei, e um silêncio desconfortável se instalou entre nós. Pelos sinais de desagrado que meu tio estava emitindo, era óbvio que ele estava profundamente incomodado com as decisões de Marshall em relação ao futuro de David.

Isso me deixou inquieto, pois sabia que meu tio tinha seus motivos. Para ele, David era como um reflexo, alguém que experimentaria a mesma rejeição e isolamento que ele mesmo enfrentou quando as pessoas descobriram seu lado sobrenatural. Tio Aart já tinha visto amantes e amigos fugirem dele assim que descobriam sua verdadeira natureza, com medo do que ele poderia fazer se sua magia saísse de controle ou se ele ficasse com raiva.

Em vez de reagir com raiva ou tristeza, Tio Aart preferia agir com indiferença, mesmo quando as coisas o incomodavam. Era sua forma de autopreservação.

Com um leve sorriso, eu disse a ele:

— Eu confio nas decisões que Marshall toma. Se ele acredita que David pode se adaptar em algumas dessas escolas, fazer amigos e concluir seus estudos mundanos, então ele está fazendo o que acredita ser correto. Não estou preocupado com o que os outros pensam disso. É uma escolha que só David deve fazer.

Meu tio juntou as mãos, e seus olhos brilharam, claramente impressionados com minha determinação.

— Bem, você deveria se preocupar com essas coisas. David faz parte da família agora, já que seu pai praticamente o adotou, e todos têm o direito de expressar suas opiniões. — Meu tio disse, mas sua expressão continuava inquieta. — Não, não é isso... É a minha intuição como um feiticeiro que viveu por muito tempo.

Sua intuição como um feiticeiro. Eu estava ouvindo isso pela primeira vez. Até então, meu tio não havia demonstrado interesse em nada além de magia. Teria sido mais confiável se ele dissesse que era sua intuição como ser humano. Franzi a testa, mas antes que eu pudesse responder, Aart continuou.

— Pode parecer um pouco ridículo, mas, como um feiticeiro que viveu por tanto tempo, tenho certeza de que tenho algum conhecimento de poderes místicos. Tenha cuidado com o que diz, Marshall é uma pessoa boa, mas tem sangue feérico e é um caçador sobrenatural. — Sua expressão ficou sombria. — O sangue das fadas sempre pode corromper seus descendentes.

— Mesmo assim, eu confio completamente em Marshall e apoiarei suas escolhas. Não vejo razão para me preocupar tanto — declarei, estalando a língua enquanto passava por ele em direção à sala.

— Cuidado, Daniel. O amor pode ser tanto uma bênção quanto uma maldição completa — meu tio advertiu, suas palavras ecoando atrás de mim. Optei por ignorá-lo.

**********************

Três dias depois....

Uma carruagem adornada com o brasão da família real das fadas se aproximava, finalmente estacionando na parte de trás de nossa casa. Na entrada da cozinha, observamos com curiosidade sua chegada. Por alguma razão, Marshall parecia especialmente intrigado com a visita surpresa do rei das fadas.

Naquele momento, apenas nós três estávamos em casa: eu, Marshall e meu pai. Os outros tinham compromissos mais urgentes. David estava na escola, uma decisão que ele tomou por vontade própria.

Os vampiros originais ainda estavam na cidade, cuidando da reintegração de Hampher na sociedade. No entanto, de vez em quando, eles se limitavam a assistir televisão o dia inteiro, imersos em séries e filmes. Eu sabia que Hampher ocasionalmente escapava de suas obrigações para observar David na escola, testemunhando sua tentativa de se encaixar.

— Por que o rei das fadas está aqui? — Meu pai perguntou nervosamente, seus olhos varrendo toda a cena à sua frente.

— Pai, se não se sentir confortável, pode entrar e depois se juntar a nós — sugeri, tentando aliviar sua tensão.

— Estranho entrar agora? Estou ansioso para conhecer o rei das fadas, então não vejo motivo para me esconder. — Meu pai respondeu com uma expressão determinada. — Sou o líder de nosso clã, e receber convidados é um dos meus deveres. Se eu não sair para cumprimentar alguém que ficará na mansão por um tempo, as pessoas podem interpretar mal e pensar que estou desconfortável com a visita. Além disso, seria rude.

— Claro. — Respondi, e Marshall riu da minha reação, apertando minha mão com força.

À medida que nos aproximávamos da carruagem, a porta se abriu, revelando o rei das fadas. Surpreendentemente, ele estava vestindo roupas mundanas, com jeans e uma simples camiseta marrom. Atrás dele, três crianças apareceram: uma criança feiticeira, um jovem feérico e, por último, um humano.

— Desculpe o incômodo, Marshall — o rei das fadas disse, indicando a criança Mundana, que me olhou curiosamente. — Esses são meus filhos, e prometi passar o dia com eles, então tive que trazê-los para nossa reunião.

— Não é problema algum, Milo — Marshall respondeu, e ambos sorriram de maneira cortês um para o outro. — Vejo que seus filhos são muito adoráveis.

A criança feiticeira me olhou e acenou em direção ao meu pai antes de se aproximar dele.

— Este é Sol, Alaric e Flynn — O rei das fadas os apresentou, e Alaric tirou um pequeno livro do bolso para nos cumprimentar. Flynn permaneceu colado ao pai.

— Bem-vindos à nossa casa. Eu sou o líder deste lugar. Se tiverem alguma dúvida, não hesitem em me dizer. — Meu pai falou com uma reverência, finalmente parecendo mais à vontade.

— Não há necessidade de formalidades, hoje só vim para conversar com Marshall. Pode me chamar de Milo Almeida Fairlane — o rei disse, olhando para Sol, que ainda observava meu pai com curiosidade. — Sol, não é educado encarar os outros.

— Mas, papai, ele é um fantasma — Sol disse, e Milo olhou para ele, que voltou para o seu lado. — Por que ele é assim?

— Essa é uma história longa — Meu pai respondeu, sorrindo enquanto a tensão finalmente deixava seu rosto.

**************************

Após o rei e seus filhos entrarem na casa, pude perceber que Milo era alguém divertido, apesar de seus olhos observarem tudo atentamente em silêncio. Para o meu espanto, a reunião deles não tinha a formalidade esperada; era uma conversa informal e descontraída.

Em determinado momento, Milo e Marshall decidiram sair para o quintal. Marshall empunhava seu arco, enquanto Milo segurava duas espadas. Meu pai ficou com as crianças, e eu segui os dois para o quintal.

— Embora eu tenha negligenciado meu treinamento ultimamente, as habilidades que adquiri ainda estão afiadas. Marshall, que tal um treino em dupla? — Milo sugeriu.

— Seria uma honra imensa treinar com o rei das fadas — Marshall respondeu, preparando-se para o combate. A luta começou.

Eu assistia em silêncio enquanto os dois duelavam. Marshall era rápido graças ao seu sangue, mas Milo parecia estar em outro nível de velocidade. Cada flecha lançada por Marshall era rebatida pelas lâminas de Milo, caindo inofensivamente no chão. A batalha estava intensa, e os dois pareciam estar empatados, até que as coisas ficaram tensas rapidamente.

Milo atingiu Marshall com a ponta da lâmina, fazendo-o se desequilibrar e errar um disparo com o arco. A luta chegou a um impasse, e eles decidiram encerrá-la quando ambos estavam ofegantes, sentando-se no chão.

Aproximei-me deles, curioso com a luta que tinha acabado de testemunhar.

— Essa luta foi melhor do que muitas que tive com meus cavaleiros — Milo admitiu, respirando com dificuldade. — Você é realmente habilidoso com o arco.

— E você é impressionante com a espada — Marshall respondeu com um sorriso, dirigindo um olhar preocupado na minha direção. — Eu sei que estava preocupado que alguém se ferisse, mas felizmente nada aconteceu.

— Eu me preocupo com vocês dois — murmurei, fingindo estar irritado, e os dois riram.

Milo então mudou o assunto.

— Como estão lidando com o problema da maldição de seu clã? Maxuel me contou tudo — ele disse, e Marshall olhou para mim, como se pedisse desculpas por compartilhar algo tão pessoal.

Olhei para ele, confuso. As palavras de Milo eram um mistério para mim.

— Pensei que cada feitiço ou encantamento fosse como um pedaço de papel, e a magia fosse como a caneta que usamos para escrever. Deve ser preciso e bem escrito para funcionar corretamente e entender suas consequências a longo prazo — Milo explicou. — Quando há um erro, pode ser muito difícil de consertar ou até mesmo de entender o efeito a longo prazo.

Assenti, processando suas palavras cuidadosamente. Parecia que qualquer erro mágico poderia desencadear consequências devastadoras, e isso se alinhava com o que aconteceu com meu clã.

O rei e seus filhos permaneceram um pouco mais, até que o sol começou a se pôr no horizonte. Finalmente, eles se despediram e partiram.

___________________________________

Gostaram?

Até a próxima 😘

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top