Capítulo Doze
Daniel Vamps:
Materializei-me na sala do escritório de Marshall e, para ser honesto, havia esquecido como o mundo dos seres humanos carecia de luxo. Uma mesa com um computador ocupava o espaço, e no canto havia um modesto sofá onde me acomodei enquanto aguardava sua volta.
As cores das paredes da sala-de-estar, no entanto, eram dolorosamente vivas para os meus olhos sensíveis. O som da porta se abrindo capturou minha atenção, e imediatamente me deparei com Marshall entrando, seus olhos se fixando em mim.
— Que surpresa agradável, Daniel — Marshall comentou, trancando a porta atrás de si. — Vai ficar por muito tempo ou está aqui apenas para obter mais do meu sangue, por causa do que aconteceu ontem? Não pediu quando fui à sua casa esta manhã.
Balancei a cabeça negativamente, pois a última coisa que queria era depender do sangue de Marshall para sobreviver.
— Vou ficar apenas alguns minutos, no máximo. — Respondi, mostrando a sacola com as roupas. — Trouxe um presente para você.
Tentei sinalizar amigavelmente, embora meu corpo não fosse o melhor para expressar sentimentos, e Marshall ergueu uma sobrancelha, claramente intrigado.
— Em outras palavras, não sou exatamente a pessoa mais expressiva quando se trata de emoções. — Admiti, meu tom de voz neutro. — Já que estou agindo de forma tão obediente, por que não?
Antes que eu pudesse continuar, houve uma batida na porta, e Marshall me indicou que me escondesse sob a mesa.
Fiz o que ele sugeriu e observei silenciosamente enquanto ele abria a porta. A voz de sua amiga Megan ecoou na sala.
— Marshall, você não vai acreditar no que consegui! — Megan exclamou. — Quatro ingressos para um show de stand-up.
— Você gosta desse tipo de coisa? — Marshall perguntou, e seus passos se aproximaram da mesa onde eu estava escondido.
— Minha melhor amiga, Kelsey, adora, e como o aniversário dela está chegando, eu vou levá-la, juntamente com seu irmão, para assistir ao show. Juliano disse que não vai, então estou perguntando a você. Aceita o convite? Comprei seis ingressos, já que Kelsey vai me apresentar oficialmente à namorada dela, que é como um mito. A mulher nem quis mostrar uma foto!
Marshall riu descontraidamente.
— Acho que vou conseguir ir. — Ele concordou. — Mas ainda falta um ingresso.
— Você pode levar alguém da sua vizinhança, talvez um dos caras do seu prédio esteja interessado? — Megan sugeriu, e ouvi Marshall ponderando.
Fiz o meu melhor para entender sua mensagem, mas acabei apenas batendo minha cabeça na mesa em frustração.
— Você conhece alguém, não é? — Megan insistiu. — Como você e Kelsey têm coragem de esconder um romance de mim assim? Me conta quem é o sortudo!
Marshall riu mais uma vez.
— Não tenho ninguém em mente, mas vou verificar com alguém e te aviso. — Ele respondeu, parecendo convencer Megan, que soltou um suspiro de alívio e saiu da sala.
Voltei para perto de Marshall quando ele trancou a porta e fiz uma pergunta que estava me incomodando.
— Quem é essa pessoa que você vai convidar para o show de stand-up? — Indaguei.
Marshall hesitou por um momento antes de responder.
— Você. Como um gesto de agradecimento pelo que aconteceu ontem. Sua irmã me contou que você costumava gostar de fazer piadas. — Ele disse com um sorriso.
Olhei para ele com irritação, finalmente percebendo que ele estava me forçando a sair da minha concha.
— Tudo bem, eu irei, mas não posso garantir que vou gostar. — Concordei, e ele sorriu amplamente.
— Ótimo, não aceitarei um não como resposta. — Ele disse, indo até a sacola e começando a examinar seu conteúdo. — Essa roupa que você trouxe parece bem interessante.
Ele olhou para a roupa e depois para mim, claramente intrigado com a escolha.
— Não, eu realmente não posso aceitar isso. — Ele começou a recusar, mas neguei com a cabeça.
— Você pode sim. Considere isso um presente, uma forma de agradecimento meu e do meu pai por você ter nos ajudado com o seu sangue. — Falei com sinceridade, esperando que ele entendesse.
Inclinei-me e saí da sala, fechando a porta atrás de mim antes que ele pudesse oferecer uma resposta definitiva.
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Há uma coisa que se ganha nesse mundo quando se vive por tanto tempo. Descobre-se aquilo sem o qual não se pode passar, as necessidades simples e as pequenas alegrias que definem a vida. Não se trata de comida ou abrigo, não são as coisas básicas que o corpo exige, essas são um luxo. Trata-se das coisas que mantêm a alma viva, que trazem alegria e tornam a vida imortal suportável por tanto tempo.
Uma dessas coisas para mim é visitar a casa onde os Lobos da Cidade, uma alcateia que habita o centro do bosque de nossa propriedade, vivem. Nesse mundo, existem os Lobisomens, amaldiçoados e atrelados à lua para transformações incontroláveis, e os Shifters, que têm o dom de controlar suas transformações na lua cheia e podem ser diversos animais, não apenas lobos.
Quando abri a porta, fui recebido por cumprimentos calorosos e pessoas trabalhando em esculturas. Observava com admiração como eles talhavam a madeira, retirando pedaço após pedaço até revelar a forma que habitava dentro dela. Era uma habilidade de conhecer quando parar, quando haviam ido longe demais, um gesto a mais poderia arruinar a obra.
No centro de tudo, estava o líder da alcateia, conversando com meu irmão Geovane. Me aproximei deles, e o líder fez uma reverência em minha direção.
— É uma surpresa vê-lo aqui, Daniel. Pensei que estaria aproveitando a noite com algum desconhecido. — Geovane disse com um sorriso irônico, me fazendo revirar os olhos.
— Eu não me envolvo tanto assim com desconhecidos. — Respondi emburrado.
— Dos sete dias da semana, seis você acorda na cama de alguém que mal conhece. — Geovane cruzou os braços diante do peito. — Pense antes de responder. Quando foi a última vez que passou a noite em casa, sem ir a um clube ou para a cama de um desconhecido?
Aquelas palavras me deixaram sem resposta e Geovane aproveitou a oportunidade para ostentar seu sorriso superior, sabendo que me havia pegado.
— Deixemos isso de lado. Não vou discutir com você. — Murmurei antes de me voltar para o líder da alcateia. — Sobre o que vocês estavam conversando?
— Líder Adrian está nos informando sobre um conhecido dele que encontrou um jovem com habilidades recém-descobertas. O garoto está se escondendo em seu quarto, tentando lidar com essa revelação. — Geovane explicou. — E agora, ele vai atrás desse garoto para trazê-lo até aqui.
— Entendo que seja pedir muito às pessoas que são proprietárias deste lugar, mas ele é alguém essencial para a história do clã Vamps. — Adrian acrescentou. — Meu amigo ouviu falar da família Good, e ao que parece, este garoto é um descendente dela.
Meu queixo caiu diante dessa revelação. A família Good, uma linhagem de bruxos, havia sido considerada extinta há séculos.
— Geovane, você deve ir atrás desse garoto. — Afirmei, e meu irmão me olhou como se estivesse doendo por dentro. — Devemos ajudá-lo a entender e controlar suas habilidades.
Geovane permaneceu em silêncio, sua expressão refletindo uma luta interna.
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Levou dias para Geovane finalmente concordar em ir atrás do garoto, e ele partiu de casa no dia em que Marshall me convidou para o show de stand-up. Como eu já suspeitava, a melhor amiga de Megan era minha cunhada.
— Você está namorando Lilly Vamps e não me contou! — Megan exclamou, apoiando-se no ombro do irmão de Kelsey. — Vocês dois são como irmãos para mim, e nenhum de vocês me disse nada. Nem mesmo Marshall me contou que estava saindo com Daniel Vamps.
— Não estamos namorando — Marshall e eu respondemos imediatamente enquanto avançávamos na fila.
— Desculpa, Megan. Queríamos ver até onde isso iria antes de contar. — Kelsey explicou. — O que podemos fazer para você não ficar magoada?
— Façam um bolo de floresta negra gigante para mim — Megan respondeu com um sorriso. — Então, perdoarei e darei minha bênção.
— Kelsey sabe cozinhar? — perguntei a Lilly.
— Sim, ela cozinha muito bem — Lilly respondeu. — De onde você acha que eu tirei os salgadinhos que coloquei na nossa geladeira?
Megan tocou a palma da mão de Lilly enquanto as bochechas de Kelsey ficavam vermelhas.
— Lilly, cuide bem da minha amiga e de tudo o que ela merece. — Megan disse.
— Gaston, como vai o trabalho? — Megan perguntou, olhando para mim por um momento, enquanto Gaston parecia um pouco envergonhado antes de responder.
— Vai muito bem. — Ele disse, e Megan assentiu.
— Marshall, você está preparado para amanhã? Afinal, seus pais e avô estarão chegando. — Megan comentou.
— Estou nervoso, e quem está pior do que eu é o Juliano — Marshall falou, e me lembrei de termos conversado sobre isso antes. — Mas isso é o que acontece quando você não conta que estava doente e quase morreu.
Lilly olhou para mim, e era evidente que Ricky era um idiota por não ter dado uma desculpa melhor para o afastamento de Marshall. Entramos no clube com o show já começando, e devo dizer que foi bastante agradável de assistir.
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Gostaram?
Até a próxima 😘
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