06 :: maldito cheiro de morango

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JEON JUNGKOOK

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| Cinco dias depois|

Ultimamente, quase não tenho dormido, e era claro que esse trabalho estava me custado caro.

Cinco dias se passaram desde aquele show, e minha convivência com aquele garoto parecia estar progredindo... em passos curtos, mas estava menos insuportável que antes.

A tensão entre nós ainda não desapareceu completamente, mas eu esperava que fosse questão de tempo, afinal, meu primeiro pagamento era mais dinheiro do que já recebi em qualquer outro emprego que eu tive. Mais do que na polícia, inclusive.

O salário alto é quase uma taxa de periculosidade por aguentar aquele moleque.

Park Jimin... todo esse comportamento infantil e temperamental dele tinha algum motivo. Não que ser mal educado tenha uma justificativa, mas no caso dele, eu sentia que ele não levava a vida perfeita que tanto demonstrava.

Por mais que ele tentasse me tolerar nos últimos dias, era nítido que não estava confortável com a minha presença, e talvez, eu também não estivesse com a dele. Mas, por algum motivo, eu não queria desistir desse emprego. É claro que o salário era um ponto crucial, mas, não era só por causa disso que eu queria continuar.

Perdido nos meus pensamentos, senti o aroma de comida boa se espalhando pelo meu quarto. Eu sabia que o Tae estava na cozinha, e o cheiro me atraiu como se fosse uma isca.

— Bom dia, cheff.

— Acordou na hora certa, já tô quase terminando aqui.

— Opa, que maravilha!

Nosso mestre cuca veio da cozinha com uma bandeja de sanduíches de pernil e colocou na mesa, junto com um jarro de chá gelado.

Sentei para comer e ele também.

— Meio calórico comer isso à essa hora. — brinquei após uma mordida caprichada.

— De vez em quando não tem problema. Depois você malha e tá tudo certo.

Olhei para todos os lados, já notando a ausência de um certo alguém.

— Cadê o Jin?

Ele terminou de mastigar antes de responder.

— Ele foi para gravadora mais cedo, parece que o diretor vai fazer uma reunião com os idols e trainees.

— Isso deve valer para o Jimin também...

— Provavelmente.

Peguei meu celular pra conferir, mas ainda não tinha nenhuma mensagem dele. Porém, no exato momento em que eu coloquei o celular de volta na mesa, escutei uma notificação.

O Tae riu com a expressão que eu fiz.

— Falando no diabo...

— Pela sua cara, já sei quem é.

Eu realmente não sabia disfarçar, e meu humor mudava completamente quando se tratava desse cara, e era sempre pra pior.

— Vou ir antes que o playboy faça um escândalo...

— Boa sorte, babá.

Levantei e saí com meu sanduíche na mão. Fui comendo até a garagem e só saí quando realmente terminei. Coloquei o capacete e pilotei até a mansão.

Acabei chegando em dez minutos, mais rápido do que o tempo que disse que levaria. Pra minha surpresa, ele já estava do lado de fora, me esperando com um capacete na mão e a pior expressão.

Era só o que me faltava...

— Preciso chegar na Town o mais rápido possível, então vamos de moto — ele disse antes mesmo de eu descer.

— Minha moto não faz parte do contrato de prestação de serviço.

— Mas você faz parte, então, como a moto é sua, automaticamente os dois são meus.

Não era a primeira nem a única vez que notei esse costume dele de querer ter posse de tudo, um típico traço de quem nasceu e cresceu tendo tudo o que queria.

Apoiei o capacete no tanque da moto e meus braços em cima dele.

— Então quer dizer que eu sou seu? Hmm, acho que sou o mais velho aqui, então o certo é dizer que você é meu — apontei para ele e, logo depois, para mim.

Ele ficou com o rosto vermelho na mesma hora e, claro, começou a me xingar.

— Cala a boca, seu louco tarado!

Dei com os ombros, rindo.

— Foi você quem falou que eu sou seu...

Ele franziu a sobrancelha, tentando disfarçar a vergonha com essa expressãozinha de raiva.

— Vamos logo, e chega de papo furado. Se eu atrasar meu pai vai matar nós dois.

— Nós nada, não tenho nada a ver com o seu atraso. Monta logo nessa moto.

Ele montou e continuou resmungando.

— Você atrasou também, tá legal?

Comecei a rir e saí pilotando a moto.

— Chega de falar e se segura — peguei sua mão e a coloquei em mim.

Ele não puxou a mão, muito pelo contrário, manteve na minha cintura, exatamente onde coloquei. Mesmo com as mãos em mim, ele estava distante, o que me atrapalhava pra pilotar.

Quando virei a primeira curva, levantei a viseira e olhei um pouco para trás.

— Preciso que você chegue com o corpo mais perto do meu. Isso é uma moto, não um trenó.

— Idiota...

Sem questionar, ele realmente se aproximou, e muito. Suas mãos deslizaram da minha cintura para meu abdômen, me abraçando. O maldito cheiro de morango começou a me rodear quase instantaneamente, e quanto mais eu tentava ignorar esse perfume, mais eu o sentia e reparava nisso.

Abaixamos um pouco dos nossos corpos para a moto pegar velocidade.

Mesmo através das roupas de frio, eu conseguia sentir o calor do corpo dele contra o meu. Ele me apertava mais a cada curva, como se estivesse com medo de cair.

— Eu não vou te derrubar, fique tranquilo — falei enquanto minha mão se apoiava na perna dele.

Abaixamos novamente e eu acelerei enquanto cortava entre os carros no trânsito.
Enquanto acelerava, a sensação dele tão perto de mim era… estranhamente boa. Não era desconfortável, mas também não era algo que eu estava acostumado.

Cada vez que ele me apertava nas curvas, um arrepio subia pela minha espinha, e eu me odiava por isso. Por que eu gostava dessa proximidade?

Não era só o perfume de morango dele que me distraía, era toda sua existência. Era irritante pensar que, de alguma forma, ele tinha esse efeito sobre mim. Até meus problemas pessoais se tornavam quase nulos e caíam no esquecimento quando eu estava com ele.

Concentrei na estrada, tentando afastar essas sensações. Ele era o meu trabalho, e nada além disso.

Chegamos em exatos sete minutos na gravadora, num percurso que normalmente levaríamos quase vinte minutos de carro, considerando o trânsito. Ele desceu rápido da moto, me entregou o capacete e correu apressado em direção ao prédio da gravadora.

— Obrigado...

E de novo, mais um obrigado dele.

Com mais calma, guardei minha moto no estacionamento e subi para o andar onde ele estaria na reunião. Já no andar, enquanto esperava, fiquei sentado em uma das varandas de descanso da Town. Era um lugar arborizado, com um jardim bem cuidado e algumas mesas espalhadas para quem quisesse relaxar.

O contraste entre o ambiente tranquilo e os pensamentos que me atormentavam era quase irônico. Eu não conseguia parar de pensar na forma como ele se segurou em mim na moto, no jeito que parecia confiar em mim, mesmo com toda a tensão que existe entre a gente.

Eu não deveria me importar, não deveria nem ficar preso nessas sensações estranhas, mas ali estava eu, pensando nisso de novo.

Abri o YouTube para procurar algum vídeo pra me distrair, mas o primeiro vídeo recomendado era um MV dele. Minha reação foi começar a rir com a porra da coincidência...

Eu realmente não conseguia me livrar desse cara de forma alguma.

Mesmo que minha cabeça dissesse não, acabei clicando no vídeo e comecei a assistir cada minuto atentamente. Sua dança era como poesia, e seu corpo parecia flutuar em cada passo. Não só isso, sua voz soava de forma angelical e harmoniosa. Era tudo tão bonito...

— Mas que merda eu tô fazendo? — Fechei o aplicativo com raiva e vergonha de mim mesmo.

E, de novo, mais um cigarro se foi.

[...]

A reunião levou em torno de uma hora. O Jin foi um dos primeiros idols a sair da grande sala, e veio para a varanda quando me viu através das portas de vidro.

— E aí, Jk — ele falou, me dando dois tapinhas nas costas.

— Que susto!

Eu estava tão distraído que nem vi ele chegar.

Enquanto ele contava como foi a reunião, uma voz feminina se aproximou de nós dois.

— Oi, você é o Jungkook? — falou.

Olhei na direção e vi que era a garota do show, a irmã do amigo do Jimin... O que ela estava fazendo aqui? Eu nem sequer lembrava o nome dela.

O Jin me olhou imediatamente, arregalando os olhos como se quisesse jogar ela para mim.

— Vou ir nessa, JK, tenho um compromisso — ele disse, saindo e me deixando sozinho com ela.

Você me paga Seokjin!

— Oi, sou sim. — respondi.

Ela se aproximou um pouco mais, entrelaçando as mãos.

— Bem, queria te agradecer por me levar embora aquele dia do show. Meu irmão já estava péssimo naquele momento.

— Tudo bem, qualquer um ajudaria.

Eu definitivamente não estava afim de conversar.

— Com licença, preciso acompanhar o Sr. Park.

— Ahh, tudo bem.

Me curvei e me afastei dela, sentindo seu olhar me acompanhando até me perder de vista.

Com tanta gente por ali, eu sabia que não teria chances de encontrar o Jimin facilmente, então desci para o estacionamento e enviei uma mensagem avisando que estava esperando.

Depois de alguns minutos encostado na moto, ele apareceu, completamente calado.

— O que foi?

— Cuide da sua vida!

E lá vamos nós de novo, com ele agindo como uma criança mimada e imatura.

— Por que está agindo assim, seu moleque?

— Você é surdo? Me deixe em paz! — Ele aumentou a voz enquanto colocava o capacete, irritado.

— Ok — Subi na moto e ele subiu em seguida.

No caminho, eu podia ouvir sua respiração pesada, como sempre acontecia quando ele estava nervoso. Quando olhei para ele pelo retrovisor e ele me encarou no mesmo instante, não se aguentou e quebrou o silêncio, voltando a reclamar.

— Sabe o que é engraçado? Por que está perdendo tempo sendo meu guarda-costas se pode ser dela?

Agora tudo fazia sentido. Ele me viu com a garota na gravadora. Parei a moto no acostamento e virei para trás, levantando a viseira do capacete.

— Mas que caralho, Park. Você gosta dela? É isso?

— Você está louco? É óbvio que não! — Ele gesticulava com as mãos, irritado.

— Então por que você fica assim quando ela está perto?

— Eu não sei do que você está falando. Vamos embora! — Ele desviou o olhar.

Seus olhos continuavam cerrados e ele respirava alto de tanta raiva.

— Ok.

Eu estava decidido à não gastar energia discutindo com esse playboy, então só voltei a olhar pra frente e liguei a moto.

— Você vai pra sua casa? — perguntei.

— Me joga da porra de um penhasco.

Respirei fundo, tentando encontrar uma paciência que já estava esgotada.

— Vou te levar para sua casa.

Ele ignorou e não respondeu mais. Se eu pudesse, realmente jogaria ele de um penhasco...

Assim que chegamos à mansão, ele desceu da moto e andou em direção à casa com passos pesados, como se marchasse. Passou pela porta, fez questão de olhar para mim e, então, bateu a porta com força.

— Isso só pode ser uma piada — murmurei, olhando para o alto e rindo.

Era estranho admitir, mas quando ele estava bravo, ficava até mais bonito... Mas, de que adianta ser bonito se a personalidade era a pior que já conheci?

Esse emprego estava me deixando maluco.

Após deixar a mansão, fui a uma conveniência próxima, comprei algumas garrafas de soju, sabendo que tinha poucas em casa e estava ansioso para beber ao menos uma.

Quando entrei em casa, o Tae estava deitado no sofá e mexendo no celular. Ao me ver com as garrafas, ele imediatamente se levantou.

— Você leu meus pensamentos — sorriu enquanto abria uma das garrafas — Você voltou cedo hoje, que milagre.

— Pois é, nós discutimos... Deixei ele na casa dele e voltei.

Ele me olhou com uma expressão de suspeita, como se quisesse supor algo.

— Vocês estão parecendo namorados.

Eu estava bebendo quando ele falou isso, e até engasguei.

— T-tá louco?

Ele começou a rir, sem explicar.

— Por que você tá falando isso? Só pode ter ficado louco, mesmo.

— Louco não, esperto, é diferente.

— Vá a merda, Taehyung.

Ele continuou com a mesma risada irônica. Antes que eu pudesse xingar ele um pouco mais, o Jin chegou em casa.

— E aí, meus garotos...

Depois de nos cumprimentar, ele me encarou com os olhos brilhando.

— Por que tá me olhando assim? — perguntei já revirando os olhos.

— Jk, que gata era aquela? Me diz que você pegou o número dela, por favor.

— Não, e nem quero.

Ele coçou a cabeça, tentando entender.

— E por que não quer?

— Me esquece, porra...

Levantei da mesa indo em direção ao meu quarto.

— Volta aqui. De quem vocês estão falando? — Tae perguntou enquanto segurava meu braço.

— Você precisa de ver a garota que o Jungkook conheceu. Ela estava na reunião da Town, acho que vai ser da equipe de moda dos idols.

— Eu não conheci ninguém, Jin, só ajudei ela, para de inventar coisas.

— Sei... — Jin deu uma piscadinha, claramente se divertindo com a situação. — Mas, sério, aquela garota parecia interessada em você.

— Foda-se, tanto faz — falei, tentando encerrar o assunto enquanto puxava meu braço da mão do Tae.

Ele, no entanto, me segurou firme, com um olhar cheio de curiosidade.

— E por que você tá tão incomodado? — Tae perguntou, com um tom mais sério. — Não é do seu feitio ignorar garotas bonitas.

— Só não tô afim, ok? — respondi, encarando ele.

— Hmm... ok, né?! — ele soltou meu braço e se recostou no sofá, me observando com aquele olhar de quem já sacou tudo. Ele não disse mais nada, mas o sorriso de canto de boca deixava claro que ele estava cheio de suposições na cabeça.

— Vocês dois estão estranhos — Jin comentou, rindo. — Primeiro, você, Jungkook, se negando a pegar o número de uma gata dessas, e agora, o Tae agindo como se soubesse de algum segredo. Que merda tá acontecendo aqui?

— Ele tem jogado demais, tá delirando... afaste ele do computador — respondi apontando para o Tae.

Os dois ficaram rindo.

Peguei as garrafas e fui para o meu quarto, deixando os dois para trás.

Fechei a porta do quarto e me joguei na cama, soltando um suspiro. Eu sabia que o Tae tinha percebido mais do que eu queria admitir. E o Jin... Bem, ele estava sempre pronto para fazer piada de qualquer situação. Mas, no fundo, eu sabia que tinha algo dentro de mim que estava mudando. Algo que eu não estava preparado para encarar.

Abri uma das garrafas e dei um gole grande. Afinal, o que havia de errado comigo? Por que eu estava tão afetado por tudo isso? E, principalmente, por que esse moleque estava ocupando tanto espaço na minha mente?

Várias perguntas ecoavam na minha cabeça enquanto o soju queimava na garganta. Eu sentia que, mais cedo ou mais tarde, eu teria que encarar essas respostas, mesmo que eu queira ou não.

[...]

Fiquei enrolando por um tempo no quarto, ouvindo música e fumando, até que meu celular, que estava jogado na cama, vibrou e acendeu a tela com uma única notificação.

Era estranho esse jeito dele de ser a porra de um mal educado, e depois fingir que nada aconteceu. Bem, eu não cresci com o dinheiro que ele cresceu, então com certeza nunca vou entender o jeito de alguém como ele.

Respirei fundo e abri a conversa pra responder.

— Só pode ser brincadeira... — falei sozinho, já sentindo meu sangue ferver.

Não se podia esperar menos de um garoto mimado que achava que tudo acontecia do jeito que ele queria... Olhei no relógio e vi que faltavam pouco mais de vinte minutos, então tomei uma ducha rápida antes de sair.

Passei pela sala e vi o Tae e o Jin jogando.

— Acalmou? — Tae perguntou, me provocando.

— Sim.

— Que bom, meu amigo.

— Falou, vou sair.

Desci para a garagem, peguei minha moto e saí pelas ruas de Seoul.

Quando cheguei na mansão, ele não estava esperando lá fora, mas não demorou a aparecer.

— Vamos com meu carro, eu dirijo — ele disse enquanto descia as escadas e se aproximava.

— Ok.

Entrei no banco do passageiro e ele começou a dirigir, em silêncio. O mimadinho estava usando um chapéu bucket, óculos de grau e uma blusa de frio estilo moletom, como sempre.

— Vestido assim, tentando passar despercebido... Isso seria algum sequestro? Vingança por eu ser seu guarda-costas? — perguntei.

— Poxa, que boa ideia... Bem que poderia ser mesmo, mas infelizmente só vamos a um restaurante que gosto de ir.

— Infelizmente? Era só ir sozinho.

— E ouvir sermão do meu pai? Valeu, não tô afim.

— A culpa disso é toda sua, sofra com as consequências dos seus comportamentos.

Ele me encarou, revirou os olhos e voltou a olhar para a direção.

— Como a polícia aceitou alguém como você? Aceitam qualquer louco recém-fugido do manicômio?

Eu comecei a rir e virei para minha janela, ignorando completamente a provocação dele.

[...]

Assim que paramos em frente ao restaurante, percebi que o estacionamento estava lotado de carros, já indicando que o lugar estava cheio. Isso me deixou com um incômodo imediato.

— Veio comer com seus amigos? — perguntei, esperando que ele ao menos tivesse planejado isso.

— Não, só nós dois.

Eu franzi a testa e cruzei os braços.

— Não é legal eu ficar sentado na mesa com você, Jimin. Sou seu segurança.

— E qual o problema? — Ele me olhou como se eu estivesse dito algo ridículo.

— Todo mundo aqui te conhece, esse é o problema. — Apontei ao redor, já imaginando os olhares e cochichos assim que o reconhecessem.

— Por isso estou disfarçado, dããã. Vamos logo! — Ele saiu do carro com um suspiro impaciente.

Sem outra escolha, também saí e o segui até a entrada. O ambiente era típico de um restaurante movimentado: barulho de vozes misturadas, cheiro de comida fresca, e uma sensação de caos organizado. Jimin escolheu uma mesa perto de uma janela, o que só me fez sentir ainda mais exposto.

Não demorou muito para uma garçonete aparecer, sorrindo simpaticamente enquanto anotava nossos pedidos. E então o silêncio se instalou, denso e desconfortável. Eu estava alerta a cada movimento ao redor, enquanto ele parecia estar em outro mundo. O silêncio entre nós se estendeu, quase ensurdecedor, até que ele finalmente decidiu quebrar.

— Daqui a dois dias vou para os Estados Unidos, então prepare suas malas.

— O quê? — Arregalei os olhos, surpreso.

Ele me olhou como se a minha surpresa fosse a coisa mais absurda que ele já tinha ouvido.

— Não entendi sua pergunta. — Sua voz tinha um tom de tédio, como se eu estivesse falando algo óbvio demais.

— Em nenhum momento seu pai mencionou que eu precisaria sair do país. — Tentei manter a calma, mas a frustração transparecia nas minhas palavras.

Ele soltou uma risada seca, cheia de sarcasmo.

— Você acha que um idol só fica na Coreia? — Ele arqueou uma sobrancelha, se divertindo com o meu desconforto. — Eu preciso viajar, e muito. Se você não consegue acompanhar minha agenda, desista.

Fiquei em silêncio por um momento, evitando entrar no jogo dele. Eu sabia que ele queria me provocar, me desestabilizar, mas não vou ceder. Não posso dar esse gostinho a ele.

— Quanto tempo vai durar isso? — Respirei fundo, tentando manter a voz firme enquanto fazia a pergunta.

— Três dias.

— Ok, vou pensar. — Respondi, sem muita convicção, ainda processando o fato de ter que cruzar o oceano com ele.

Ele cruzou os braços, me encarando com aquela expressão desafiadora que só piorava minha irritação.

— Te dou até amanhã pra me confirmar.

Que pressão do caralho... tudo tem que ser do jeito dele...

Enquanto a gente esperava a comida, ele começou a digitar no celular sem parar. O som das notificações e o incessante clicar dos dedos na tela começaram a me irritar mais do que deveriam. Cada toque parecia amplificar o meu incômodo.

Até que a comida finalmente chegou. Pedimos iscas de carne de porco grelhada com gergelim e duas garrafas de soju pra acompanhar.

Ele largou o celular na mesa e colocou a máscara no rosto.

— Já volto, vou ao banheiro.

Fiquei ali, sozinho, com o soju e meus pensamentos. Tomei mais um gole, sentindo o álcool esquentar minha garganta, enquanto observava o movimento ao redor. Foi então que o celular dele começou a vibrar sobre a mesa, fazendo a tela acender com uma notificação. A mesa era pequena, e o aparelho estava quase ao alcance da minha mão. O brilho da tela iluminou por um instante, despertando minha curiosidade, ainda que eu tentasse ignorar. Mas a proximidade... era tentadora.

Seu erro foi deixar a janela da conversa com seu amigo aberta. A notificação iluminou a tela e, sem querer, meus olhos foram direto para a conversa. Não precisei me esforçar nem um pouco, as mensagens estavam ali, escancaradas.

Parei por um segundo, me perguntando se deveria continuar olhando ou simplesmente ignorar. Mas era tarde demais.

— Hmm, então você fica tirando fotos minhas? — sussurrei para mim mesmo, rindo baixo ao terminar de ler a mensagem.

O que mais você estava escondendo de mim, Park Jimin?

Quando ele voltou para a mesa, sem dizer nada, pegou o celular de volta e continuou digitando. Eu aproveitei aquele momento para olhar pra ele mais de perto. Cada detalhe nele parecia desenhado com precisão: os lábios perfeitamente contornados, o traço delicado do nariz e os olhos que, mesmo focados na tela, transbordavam uma intensidade silenciosa.

Ele tinha aquela mania peculiar de fazer bico quando estava concentrado, e, claro, estava fazendo isso agora.

Eu não conseguia desviar o olhar, como se estivesse preso naquela cena, em cada pequeno movimento que ele fazia. E então, de repente, em uma fração de segundos, ele levantou os olhos e me pegou o observando. Meu coração deu um salto, e tentei disfarçar rápido, desviando o olhar para qualquer coisa ao redor.

— Você não vai comer? — ele perguntou casualmente, levando a garrafa de soju aos lábios, sem perceber o quanto aquele momento me afetou.


— Vou... — respondi com um sorriso contido. Ele me observava de volta, mas, logo depois, desviou o olhar para os lados, talvez tentando disfarçar o desconforto.

Mais de uma hora se passou, entre goles e mordidas na comida. Suas bochechas, agora completamente coradas, entregavam que ele tinha passado do ponto. Eu também sentia o efeito do álcool começando a pesar. O Sr. Park vai me matar se souber que deixei ele beber tanto assim.

— Vamos embora, Park. Você não está bem. — minha voz saiu mais firme do que o normal, tentando soar como uma ordem.

— Eu t-tô ótimo... — Ele tentou argumentar, mas o jeito como ele gaguejava deixava claro que já tinha bebido muito mais do que deveria.

— Ah, sim, eu acredito, mas nós vamos mesmo assim. Está lotado aqui, e alguém pode te reconhecer. — Falei de forma direta, esperando que o senso de perigo o fizesse cooperar.

— Tá... — Ele murmurou, surpreendentemente sem resistência.

Mesmo visivelmente alterado, ele se levantou e conseguiu andar sozinho até o carro, o que era um alívio. Pelo menos não precisaria carregar ele. Quando chegamos ao carro, parei na porta do motorista e estendi a mão.

— Me dá a chave. — exigi, sabendo que ele estava longe de estar em condições de dirigir.

— Você também bebeu... — ele retrucou, ainda tentando argumentar, mas com a voz arrastada.

— Mas não estou bêbado, você está. — Respondi, mantendo a calma. Ele não era o único cansado da situação.

— Que cara chato! — Ele resmungou, mas, mesmo contrariado, me entregou a chave do carro, antes de se jogar no banco do passageiro, arrancando o óculos e o chapéu de qualquer jeito, sem o menor cuidado.

Dirigi por apenas alguns minutos e, como já era esperado, ele apagou. Foi rápido. O silêncio do carro e o efeito do álcool fizeram o trabalho.

Pouco depois, fiquei preso em um trânsito infernal, causado por um acidente à frente. Não havia outra opção a não ser parar junto com dezenas de outros carros. O tédio tomou conta, e, enquanto olhava as pessoas do lado de fora, cada uma lidando com o congestionamento de um jeito diferente, percebi que meus olhos voltavam para ele, vez ou outra.

Ele estava completamente apagado. O cabelo loiro, bagunçado, caía de leve sobre o rosto, já que, antes de desmaiar, ele tinha tirado o chapéu. A suavidade de seus traços adormecidos contrastava com a personalidade teimosa e cheia de atitude que ele tinha acordado. A cada segundo que eu olhava, ficava mais evidente como ele parecia diferente agora, vulnerável de uma maneira que eu raramente via.

Meus batimentos aceleraram de um jeito maluco, e eu só conseguia pensar que devia ter bebido demais. Isso, com certeza, não era normal.

Mesmo tentando me controlar, meus olhos voltaram a se fixar nele, como se eu não tivesse escolha. Pra minha surpresa, ele não estava mais completamente apagado. A cabeça apoiada no banco, os olhos entreabertos, e o jeito como me olhava... meio perdido, meio vulnerável.

— V-vamos na viagem comigo, p-por favor... — Ele gaguejou, a voz baixa e arrastada, enquanto seus olhos pequenos brilhavam, parecendo lacrimejar. E nossa... como ele estava lindo.

Eu me senti estranho pensando nisso, mas era impossível negar. Ele realmente estava.

— Eu vou, tudo bem? — respondi, a voz saindo mais suave do que o normal.

Ele sorriu de leve, aquele sorriso que parecia iluminar tudo ao redor, e logo fechou os olhos novamente, voltando a dormir, dessa vez mais tranquilo.

E de novo, meu peito começou a bater acelerado, como se algo estivesse fora do meu controle. Uma coisa eu tinha certeza: eu nunca mais vou beber soju.

Depois de mais alguns minutos, finalmente chegamos na casa dele. Passei pelos portões e estacionei em frente à entrada.

— Ei, acorda. — Falei, cutucando de leve.

Ele despertou lentamente, abrindo os olhos e se espreguiçando, parecendo ainda mais exausto.

— Como você vai entrar na sua casa assim? — perguntei, observando o quanto ele ainda parecia atordoado.

— Só minha mãe está aí... — Ele murmurou, fechando os olhos novamente, como se estivesse reunindo forças para conseguir sair do carro.

Eu suspirei antes de fazer a oferta.

— Você quer que eu te leve? — Perguntei.

Ele concordou com um aceno de cabeça, e sua respiração pesada me fez perceber o quão cansado ele estava, além de bêbado.

Sem muita opção, coloquei o braço dele em volta do meu pescoço e o puxei para fora do carro, sustentando seu peso enquanto a gente caminhava até a entrada. Cada passo fazia com que eu me sentisse sem jeito, já que entrar na casa dele, especialmente assim, não estava nos meus planos. Mas, pelo jeito, eu realmente não tinha escolha.

A casa era enorme e luxuosa por dentro, algo que já imaginava, mas ver de perto ainda me surpreendia. Cada detalhe parecia feito para impressionar. Para minha surpresa, o silêncio era total, sem sinais de ninguém por perto. Ele me indicou o caminho, e seguimos até uma escadaria imponente que nos levou a um corredor espaçoso, decorado com requinte. Várias portas se alinhavam pelas paredes, todas de aparência sofisticada, até que ele apontou para uma delas: o quarto dele.

Eu abri a porta com cuidado, tentando não fazer barulho. A última coisa que eu queria era chamar atenção, especialmente considerando as circunstâncias em que estamos. Entrei com ele apoiado em mim, e, com cuidado, o coloquei na cama. Assim que o soltei, ele se ajeitou, afundando no colchão de forma quase instintiva.

— Você vai ficar bem? — perguntei, ainda olhando para ele, que parecia cada vez mais distante da realidade.

Ele apenas concordou com a cabeça, os olhos já fechados, sem conseguir formar palavras.

Eu respirei fundo, sentindo o peso do silêncio.

— Eu preciso ir embora. Boa noite, Jimin.

Sem abrir os olhos, ele assentiu novamente, murmurando algo que quase não consegui entender.

— Ob-brig... — ele tentou falar, mas a palavra morreu antes de terminar, o sono o levando de volta.

Olhei para ele por mais um segundo antes de sair do quarto, fechando a porta com o mesmo cuidado. Meu coração ainda estava acelerado, e eu só conseguia pensar em como tudo aquilo parecia estranho.

Atravessei a mansão em silêncio, o som dos meus passos ecoando pelos corredores vazios. Cada canto daquele lugar parecia elegante, mas de alguma forma frio e distante.

Quando finalmente alcancei a porta de saída, respirei aliviado. O ar fresco da noite me fez sentir um pouco mais tranquilo. No estacionamento, avistei minha moto onde havia deixado, e a visão dela me trouxe um certo conforto, como se fosse o único elemento familiar naquele cenário totalmente fora da minha realidade.

Subi na moto, coloquei o capacete e dei partida. O ronco do motor ecoou pelo silêncio da noite enquanto eu acelerava, deixando aquela mansão luxuosa para trás e voltando para a minha realidade. A viagem de volta para casa foi rápida, mas minha mente ainda estava presa no que tinha acontecido.

[...]

O caminho de volta era o mesmo de sempre, mas, de alguma forma, hoje parecia diferente. Desde que comecei nesse trabalho, minhas voltas para casa eram sempre acompanhadas de reclamações sobre o comportamento mimado dele. Mas, dessa vez, havia algo diferente. Eu não estava irritado, não da mesma forma de antes.

Assim que entrei no apartamento, fui direto para o meu quarto. Um banho gelado e demorado era tudo o que eu precisava naquele momento.

Debaixo do chuveiro, fiquei parado, de olhos fechados, enquanto a água caía sobre mim, escorrendo pela minha pele. O som da água ecoava pelo banheiro, mas, na minha mente, o silêncio era preenchido pela lembrança daquele olhar. O jeito que ele me encarou no carro, entreaberto e vulnerável... aquilo não saía da minha cabeça.

— Jungkook, você nunca mais vai beber desse jeito — murmurei, tentando me repreender enquanto deixava a água gelada correr pelo meu rosto, na esperança de clarear meus pensamentos.

Terminei o banho, vesti uma roupa confortável e liguei o aquecedor. Quando me deitei na cama, o cansaço bateu com força. Eu precisava dormir, deixar essa ressaca e esses pensamentos desaparecerem. Mas, mesmo enquanto o sono começava a me dominar, ainda sentia meu coração bater mais rápido do que o normal. Eu realmente tinha bebido demais.

Depois de rolar de um lado para o outro, minha cabeça cheia de pensamentos confusos, finalmente consegui pegar no sono. Era como se cada vez que eu fechasse os olhos, mais imagens e sensações do dia me atormentassem. O olhar dele, as palavras ditas de forma arrastada, o sorriso que me deixou com o peito apertado... tudo isso voltava como um filme que eu não conseguia desligar.

Quando o cansaço finalmente venceu, adormeci com uma certeza inquietante: esse trabalho estava custando a minha sanidade. E, pior, eu não tinha ideia de como recuperar o controle sobre isso.

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Ora ora sioras e siores, o que acharam do capítulo?
Espero que tenham gostado!

Não esqueçam de votar e comentar,

E até o próximo capítulo!

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