Capítulo 02
Ricardo
Desde que minha mãe se foi, minha vida é uma grande merda! Tenho sempre que ser o filho perfeito que ajuda na empresa da família, dando orgulho a memória da mãe morta e pro pai que trabalha duro pra dar o melhor para os filhos.
Dar tudo.... Hum! Se eles soubessem o tudo que ele dá, não idolatrariam o "Sr. Theophilo".
A falta da minha mãe, passou a ser um lugar dentro de mim, insubstituível. Ela se foi quando eu tinha apenas 07 anos, um acidente que poderia ter sido evitado, ou apenas a morte dela, se eu soubesse fazer ao menos um processo de respiração boca a boca. Talvez se um médico socorrista estivesse no local as coisas teriam sido bem diferentes, desde então, venho vivendo minha vida com uma culpa que não deveria carregar e um sonho que não posso realizar, pois sou empregado da empresa do meu pai, que trabalha praticamente de graça, graças a beleza que herdei da minha mãe. E mesmo odiando tudo que envolve o mundo da moda, das fotografias, da televisão, sou obrigado a aparecer em revistas e programas de TV, fazendo comerciais e divulgando todos que contratam a grande T.F. Publisher, ou seja, sou um modelo por obrigação e mal pago!
- Ricardo, você não vai pra Ilha, esquece! Seu irmão precisa da família unida, no dia da premiação. - Meu pai está tentando me impedir de dar a festa mais aguardada na Ilha Grande, em Angra dos Reis.
- Que se exploda a premiação! Não vou abrir mão da minha festa, contratei novos funcionários e paguei a todos!
- Só quem tem a perder é você, Ricardo. Não se esqueça do que já te falei!
- Dane-se você, seu dinheiro e sua família. Estou pouco me fudendo pra isso! E já que essa será minha última festa, vou curtir. Adeus... papai! - Cuspi minhas últimas palavras.
Coloquei a mochila nas costas e sai batendo a porta de entrada da mansão dos Theófillos. Não se engane achando que estou me gabando. Cada palavra sai de mim com escárnio e repulsa! Odeio essa casa, essa família, essa cidade e tudo que está à minha volta.
É por isso que sempre fujo, no fim do ano, para o único lugar que me deixa respirar em paz, a ilha Grande, meu paraíso particular. Lembro de ir pra lá com minha mãe, são as únicas lembranças boas que tenho, e provavelmente essa serão minhas últimas férias, já que meu queridíssimo pai quer vender a ilha. Mas prometi a mim mesmo que não vou pensar nisso. Tenho uma semana e meia para esquecer meus problemas e fingir que minha vida é perfeita.
Entro no carro e começo a dirigir até a próxima cidade, onde vou pegar o barco daqui algumas horas. Meus amigos já foram pra lá e esse ano pedi que contratassem funcionárias novas para trabalhar na ilha, assim me divirto um pouco também. Gente jovem e sem condições financeiras, sempre acham que podem se dar bem comigo, mas quem sai ganhando, todas as vezes, sou eu!
Não me reprima, caro leitor. Você no meu lugar ia querer o mesmo, só diversão!
O caminho se mostrou mais rápido do que o normal e logo avistei a entrada para o centro da cidade. Depois da reforma que fizeram, ficou até bonita. Deixo o carro em um dos estacionamentos e vou pro cais.
Pulo para dentro da lancha reservada a mim e observo os novos empregados subindo no outro barco, que disponibilizei só para eles. Certeza que já estão comentando sobre o tamanho do barco, impressionados com o que o dinheiro pode fazer, isso já facilita muito nas conquistas. Algumas garotas me chamam a atenção, enquanto meus amigos também as observam de perto.
- Até que enfim chegou, Neto. Agora, já podemos ir.
- Calma, Michele, deixa a gente observar as novinhas primeiro - Esse foi o Maumau, não perde nunca a oportunidade de falar uma gracinha.
- Cala boca, Maurício! - Recriminei meu melhor amigo. - Não se preocupe Mimi, logo chegaremos e você poderá desfilar seu novo biquíni para todos admirarem.
- Só quero que você admire, Neto. - deslizou os dedos compridos pelo meu braço, me dando um sorriso pra lá de safado, sei muito bem o que pretende.
- Qual é, Mimi? Já falamos sobre isso, não temos mais nada! - Dei uma piscadela e ela saiu batendo os pés, mimada do jeito que é.
Nós tivemos um caso há um tempo, mas como eu já disse, ela é passado e eu, só quero diversão.
- Olha aquela gatinha, Ricardo! - Maurício me cutucou - Cabelos loiros e curtos, óculos escuros, pele devidamente bronzeada e...
- Para de falar, Maurício! - Interrompi meu amigo e continuei observando a moça que ele descrevia - Aquela garota não sabe, mas vai ser minha, custe o que custar!
- Você nem sabe se ela vai querer dormir contigo, mané!
- Pelo preço certo, todas querem! - Afirmei convencido de que, mais uma vez, conseguiria o que quero.
Maurício bufou e foi se juntar ao restante do grupo com nossos colegas. Ele tem valores, principalmente quando se trata de dinheiro e valores familiares, que contradizem com as minhas atitudes, mas isso nunca atrapalhou nossa amizade, Maumau não se mete nas minhas escolhas e eu não me meto nas dele.
Continuei parado, encostado na lateral da lancha e observando a garota. Algo nela prendia meu olhar e não conseguia ou talvez não queria mesmo, desviar meus olhos de seu corpo levemente bronzeado. Senti o tremor do barco, assim que Hugo, o marinheiro, acionou o motor. A garota colocou os óculos no cabelo, aceitou a água que um dos manés lhe ofereceu e então notou a lancha passando por eles. Ela me viu, mas diferente do que eu esperava, pareceu não se impressionar com o que via então, voltou a conversar com o mané da água.
Alguém vai ser demitido, se ficar no meu caminho.
Voltei para perto dos meus amigos e me joguei na proa ao lado de todos. Eles estão animados, a música alta e as bebidas, rolam solto. Eu deveria estar me divertindo da mesma forma, mas estou inquieto pelo simples fato de ter sido ignorado. Ah fala sério, olha pra mim, não sou o tipo de pessoa que é ignorada. Não vou deixar isso barato!
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