piloto

— Mas vem cá, você tem um tempinho livre não? Eu e MinHo sentimos a sua falta. Anda sumido.

— Eu não sei, Jisung.. — Cabisbaixo disse, largando o lápis na mesa enquanto escutava a risada de Jeongin do outro lado da linha. Deveria estar brincando com o pai. — Tenho provas para corrigir e terminar de somar as notas do final do bimestre. Você sabe que eu gosto muito de vocês, mas..

— Sempre um mas. Não vê que está perdendo sua vida ficando escondido nesse apartamento? Eu não gosto de me meter na vida dos outros, mas não tem como deixar você viver assim, Felix..

— Eu estou bem, ok? Eu escolhi isso. — Tombou a cabeça para trás, aquela dorzinha insistente no fundo de sua mente fazendo ser ainda mais difícil. — Felix, você precisa deixar ser ajudado, você vai acabar se matando desse jeito. Você vai passar um tempo conosco sim, e não é discutível. É aniversário do Jeongin, e ele te admira muito. Vai ficar magoado se não vier, e eu não vou deixar que faça isso com o meu filho.

Felix tinha o sonho de trabalhar com moda. Posar para marcas famosas, ser reconhecido por seu estilo e ter seu nome reconhecido, mas a vida adulta o atingiu e então tudo isso se tornou apenas um sonho. Recorreu á virar professor, e nunca se arrependeu tanto.

Trabalhar com crianças pode ser divertido quando se tem jeito, mas a parte estressante e agenda lotada ninguém diz. Isso, bom, se ele não se sobrecarregasse tanto. Pegar dez turmas era algo completamente estúpido, ainda mais quando se são pre-adolecentes com sentimentos a flor da pele. O motivo da tal loucura? Simples, a única forma de não pensar demais e acabar em um caixão florido a baixo de sete pés. E também para se sustentar.

Acendeu um cigarro e observou o céu de New York nublado como sempre. A brisa fria invadia seu apartamento ao mesmo tempo que a fumaça cinza se misturava com o ar, a brecha de sua janela sendo a única rota por onde enxergava. As coisas estavam saindo de seu controle, e ele não sabia como fazê-las parar.

Se encontrou em uma loja de brinquedos algumas horas depois. Seu all star chuck 1970 cobria seus pés ao caminhar adentro. Tinha anúncios grandes em sua frente, preços altíssimos em vermelho ressaltados por uma fonte em negrito ou escritos a mão mesmo; Coitado dos pais, pensou Felix. Ter um filho em meio a uma crise econômica deveria ser péssimo, considerando os preços.

Ou Felix tinha apenas renda baixa mesmo.

Muitas vezes pensou nisso. Como seria se tivesse um filho? A maioria de seus colegas do ensino médio já eram pais e casados. Não que tivesse contato com muitos, um dos pontos baixos da vida adulta que ninguém conta. Jisung e MinHo tinham um filho de três anos e estavam noivos. Enquanto Felix mal conseguia sair com um homem de trinta e poucos anos que lhe deu match em um aplicativo de namoro; Ele nem se recordava quando tinha se submetido a isso mesmo.

Talvez uma roupa fosse melhor. Ou estava correndo inconscientemente dos brinquedos de má qualidade que custavam o olho da cara. Mas roupas também poderiam estar muito caras, até mais se bobiar.. Droga! O que poderia fazer pelo pequeno J com tão pouco dinheiro?

Os pingos de chuva estalavam ao concreto da calçada e a sola de seu sapato não se esforçava para fugir das poças, como fazia quando era jovem. Quando era jovem. Isso o fez parecer tão velho de repente. Quando eu era jovem.. quantas vezes tinha escutado isso de um senhor sonhador e contador de histórias? Muitas, inúmeras, se puder ser mais específico. Sorria sempre que lembrava do homem de meia idade e pele enrrugada que usava muleta e vendia jornais em sua banca, a melhor da cidade, como se gabava. Hoje deveria estar definhando entre quatro paredes de madeira bruta, abaixo de onde pisamos.

Que Deus o guarde.

Felix nunca gostou de centros. Centros sociais, econômicos, populacionais. Tudo parecia apenas uma estação de trem, onde pessoas entravam como figurantes passageiros em sua caminhada. Era até depressiativo pensar assim, sei lá. Você vira seu olhar e encontra alguém não tão bonito ao seu olhar, apressado, tendo seus próprios problemas. Do outro lado uma criança saltitante que tem seu único propósito brincar. E em segundos você pode nunca mais ver os dois. Assim como os dois podem não estar vivos daqui uma semana.

As luzes vermelhas e os faróis eram como raios fortes em sua visão, raios ofuscantes que poderiam facilmente o confundir e então um acidente acontecer. Quando tinha seus seis, sete anos, sentado no banco de trás do Peugeot 206 prata da sua mãe, olhando pelo vidro fechado e atento ao barulho do vento como ruido de fundo, junto a uma música qualquer da rádio e os estalinhos da seta, ele achava normal e divertido como se luzes se expandiam e pareciam sabres de luz foscos em sua visão. Dois anos depois veio o diagnóstico: Astigmatismo de 2 graus e estrabismo leve no olho direito (o que por pouco não resultou na perda de visão total desse olho, mas não importa).

Felix passou em uma padaria antes de pegar um ônibus e voltar para casa. Seu suéter tendo algumas gotículas de água formando bolinhas escuras pelos tecidos amarronzados. Comprou um baguete e uma margarina que encontrou. Enquanto esperava na fila para pagar, viu uma vitrine cheia de doces decorados e bolos de aparência muito boa; Seria muito errado comprar algo pronto para Jeongin? Não seja estúpido, Felix! Claro que é. Nem parece um padrinho de verdade.

Felix desistiu de comprar algum brinquedo e se deu por vencido quando a dor de cabeça falou mais alto. Talvez o cansaço também estivesse falando, de alguma forma. Indo de volta para casa de mãos vazias, exeto pelo carboidrato e gordura saturada nas sacolas brancas, seu dia encerrou por aí. Voltou para casa com os sapatos molhados e a cabeça vazia.

* * *

Era duas da manhã quando Felix acordou no meio da madrugada, enjoado e febril. Era sua segunda noite em claro, e mais uma vez estava sentado abaixo da luz fraca e amarelada do banheiro de seu apartamento, tendo sua pele em contato com os ajulejos brancos e gelados do chão e parede. Seu corpo quente fervia longe do tecido fino do pijama que usava, a parte de cima estando jogada em algum canto do banheiro que a acharia pela manhã.

A madrugada era tão silenciosa. Tinha a sensação que o mundo inteiro estava em silêncio, e apenas ele acordado; O que era ridículo, já que em vários países do mundo é dia, então não, não era apenas ele acordado. Felix gostava da madrugada por isso. Podia falar o que quisesse entre meia noite e uma – mesmo que fosse se arrepender logo cedo. Podia ser quem quisesse entre duas e três; Podia lamentar por não ter ido dormir às quatro.

Felix gostaria muito de ter um animalzinho para chamar de seu. Nesses momentos, e em muitos outros, ele tinha certeza que um bichinho de quatro patas o faria uma companhia muito boa, mesmo que estivesse a dormir. Mas o tal desejo não poderia ser realizado, Felix mal ficava em casa. Coitado seria o animal que o acompanhasse, viveria em uma casa sem cor e vida, sem a devida atenção que mereceria. Felix jamais torturaria um amigo assim.

Acabou dormindo por lá mesmo. Acordou um pouco desorientado e atrasado pela manhã, ainda cansado, ainda na mesma rotina. Pelo menos por algumas horas, ele gostaria de poder sumir do mundo.

A escola estava bem calma para uma Segunda-feira após prova. Claro que vários alunos faltavam, por querer, na maioria das vezes. Eram poucos que estavam lá pelo conteúdo, pela obrigatoriedade, em sua boa parte eram os de recuperação fazendo trabalhos e ganhando nota (pelo menos os que se davam o trabalho).

Das cinco turmas que teve aula hoje, teve menos de dez alunos em cada uma, o que era uma ótima vantagem, não precisaria forçar sua voz e ficar rouco no final da semana, como de costume. Se arrependeu de almoçar na sala dos professores assim que entrou na sala.

— Oi, Felix! Como foi as aulas?

Bangchan, o professor de história alguns anos mais velho que si e adorado por metade dos alunos, apenas por sua aparência bonita. Claro, ele era deveras bonito, e Felix não poderia evitar concordar, mas no momento, ele estava correndo de relacionamentos ou quaisquer tipos de traumas que poderia ganhar. — Ah, não veio muita gente. Foi tranquilo.

Respondeu educado.

— É.. Não veio ninguém na 805. Fiquei o horário todo só passando as notas para o sistema. Sabe como é, né?

— Claro.

Riu fraco. Seus pensamentos os amaldiçoam por ter escolhido ficar ali hoje, e não atrás da escola, como geralmente fazia. A questão é que Bang estava tentando coisas com Felix desde sua primeira semana aqui, e não foi difícil perceber isso: Conversas longas, assuntos muito óbvios ou nada convencionais, ajudas desnecessárias e até o número de celular. Em outras ocasiões, Felix poderia pensar que ele agia daquela forma por ser novo, e também porque os professores mais velhos daqui não são muito.. amigáveis. Porém se passaram dois, três, quatro meses e Bang continuava com desculpas esfarrapadas para conseguir o número de Felix, e até o chamar para sair uma ou duas vezes.

E em todas as vezes Felix foi salvo por 'ligações' inesperadas, problemas com a diretora ou uma reunião familiar. Spoiler: Os familiares de Felix nem moram na Coréia.

Quando os minutos torturantes dentro daquela sala escutando senhoras de meia idade papeando sobre alunos mal educados e mães normalmente incorretas se acabavam e ele juntava seus pertences para sair, veio a terceira tentativa. — Nesse final de semana você tá livre? Nós poderíamos, sei lá, ir numa cafeteria aqui perto e falar sobre assuntos aleatórios. Ou da escola, se quiser.

— Oh, é aniversário do meu sobrinho Jeongin nesse final de semana. Depois marcamos, sim? Tchau! — E saiu apressado, sem olhar para trás enquanto agradecia aos deuses por conseguir arranjar outra desculpa para não sair em um encontro com o australiano. Claro que ele poderia apenas dizer que não estava interessado, mas o encarar pelo resto do ano pelos corredores seria um tanto quanto desconfortável.

Mas voltando ao assunto foco, o aniversário de Jeongin era amanhã e Felix não tinha um presente.

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