Capítulo 17

Koany

— Pai! Meu Deus, não acredito no que está acontecendo.

Tantos anos longe, curtindo mágoa e rancor, e agora ele está aqui, desfalecido em meus braços. Sou puxada para trás, tentam me tirar de cima dele. Não quero soltá-lo.
Choro implorando o seu perdão.

— Me perdoe, papai, por favor. Me perdoe por ter sido tão má todos esses anos — Grito aos prantos sobre seu corpo.

Se todos soubessem o quão bem nos faz o ato de perdoar, ninguém alimentaria sentimentos de mágoa, rancor ou ódio dentro de si. Há várias coisas que nos quebram, machucam, deixam marcas que nem o tempo é capaz de apagar. Mas o perdão é libertador, apaga as marcas, cura as feridas e cola o que se quebrou. Rachaduras na alma são incuráveis, mas quando perdoamos e recebemos o perdão de alguém, temos a chance de começar do zero, deixar para trás o que nos machucou, e seguir adiante, com o coração limpo, a alma calma e a consciência tranquila.

Jaime continua chorando próximo ao corpo de papai também. Karen está com ele, consolando-o. Dona Carmem me abraça, e eu fico cada vez mais confusa.

A Dra. Alessandra e sua equipe de enfermeiras entraram no quarto assim que tudo aconteceu. Após examiná-lo, ela proferiu as palavras que estou tão familiarizada a dizer. Mas ouvi-las saindo da doca da médica de um ente querido não foi nada fácil.

— Hora do óbito, 17:38.

Os aparelhos são desligados e somos convidados a nos retirar do quarto para que sejam feitos todos os procedimentos para o laudo médico e liberação do corpo. Nos encaminhamos para uma sala de espera, onde havia cadeiras bem confortáveis, e eu agradeci a Deus por isso, pois mal tenho forças nas pernas para me sustentar de pé. Este hospital definitivamente não é o meu lugar preferido no mundo. Aqui perdi três pessoas que eu amava com todas as minhas forças: mamãe, meu filhinho, e agora meu pai.

— Ah, minha amiga, como você está, hein? Eu sinto tanto por vê-la passar por isso novamente — Karen fala toda carinhosa e me abraça meio de lado. Deixo minha cabeça em seu ombro e permaneço em silêncio, as palavras sumiram por alguns instantes.

Levanto um pouco a cabeça e vejo Jaime, ainda na mesma posição e ainda choroso, nossos olhos se encontram. Eu me viro para a Karen com olhar interrogativo, e ela entende exatamente qual é a pergunta que não quer calar. Ela me entende, sempre foi assim. Ela me conhece como ninguém.

— Eu sei, princesa, você está confusa e se perguntando como o meu marido passou de motorista a seu irmão, não é?

— Karen, motorista ele não é desde que se casou com você e foi trabalhar com seu pai. O que eu não estou entendendo é essa merda de irmão. Como assim?

— Ele vai te contar toda a história, minha amiga, e eu acho melhor que isso seja feito logo de uma vez. Por que não vamos lá para a minha casa? Você come alguma coisa, relaxa um pouquinho e vocês conversam sossegados. O que me diz? Koany, há muito mais coisas nesta história que você nem imagina. Surpreendeu até a mim, que sempre convivi com vocês e nunca soube de nada. Mas não cabe a mim te falar isso, e sim a seu irmão. Ele está louco pelo seu abraço.

— Tudo bem, podemos ir sim, mas precisamos cuidar da papelada, a funerária, o velório...

— Ei, não se preocupe com isso. Já liguei para o meu pai e ele vai cuidar de tudo. Pode ficar tranquila, minha cunhada! — Ela fala, carinhosamente segurando o meu rosto entre as mãos, e dá um leve sorriso na tentativa de me animar.

Saímos os quatro a caminho da casa deles. Dona Carmem não quis ir para a fazenda sem mim, e eu gosto muito da ideia de tê-la comigo, me sinto protegida. É como se mamãe estivesse comigo. O percurso é todo feito no mais absoluto silêncio.

Assim que chegamos, me acomodo no amplo sofá que eles têm na sala e ouço passinhos correndo em minha direção.

— Titia! — A pequena Sue se joga em meu colo e eu a abraço emocionada, como se tivesse acabado de conhecê-la. Volto a chorar, não de tristeza, agora de emoção.

— Oi, meu amor, você se lembra da titia? Faz tanto tempo que nos vimos, que saudade... — Falo, apertando-a ainda mais.

— Puquê tá cholano tia? Tá dodói, tá?

— Não, princesinha, titia está feliz por ver você.

A Karen a pega dos meus braços, levando-a para a cozinha juntamente com Dona Carmem e a babá, me deixando a sós para conversar com o meu irmão. Nós olhamos e eu intimo-o.

— Acho que você tem algumas coisas para me contar, não é, senhor Jaime? Sou toda ouvidos, pode começar, porque estou com a cabeça girando até agora com essa história.

— Eu sei, eu já havia planejado uma viagem até o Rio de Janeiro para te fazer uma visita e te contar o que andava acontecendo por aqui. Mas não deu tempo.

— Então... Minha mãe, como você sabe, veio do Norte à procura de emprego. A família dela era muito pobre, e assim que ela chegou a maioridade, eles a enviaram para cá, na tentativa de que ela tivesse uma chance de uma vida melhor do que eles poderiam dar a ela. Chegando aqui, seu primeiro emprego foi em um bar, que era muito bem frequentado por sinal, inclusive por seu pai, pelo nosso pai. Ela era muito bonita, e seu pai e os amigos dele se encantaram por ela assim que a viram, e pediram exclusividade em seus serviços. O dono do lugar que sabia que dinheiro ali não era o problema, então designou a minha mãe a tarefa de servi-los enquanto eles ali estivessem. O Sr. Robert era um homem muito bonito, e minha mãe também se encantou por ele. E eles acabaram passando a noite juntos, em um hotel aqui da cidade. Minha mãe conta que, quando ela acordou, a única prova de que tudo não passou de um sonho foram as notas bem altas que seu pai, o nosso pai, havia deixado para ela em cima da mesinha de cabeceira. Ela se sentiu a pior das mulheres, afinal, ela era uma garçonete, não uma prostituta, mas era exatamente assim que ela estava se sentindo. Assim sendo, ela vestiu-se, pegou o dinheiro e tocou a vida, voltando para o seu trabalho no bar. E foi lá também que ela conheceu o Sr. Jair, o homem que me criou como filho em silêncio a vida toda, sem jamais dizer a ninguém que minha mãe casou-se grávida de mim. Mas ele nunca soube quem era meu pai biológico, até alguns meses atrás.

— Meu Deus! Sua mãe escondeu isso a vida toda? Por que só agora, Jaime? Poderíamos ter tido um relacionamento de irmãos. Meu pai nunca soube?

— Calma que vou chegar lá. Continuando... O seu Jair já era agregado na fazenda do nosso pai quando eles se casaram, mas minha mãe não sabia quem era o patrão. Imagina o susto que ela levou quando chegou lá e foi apresentada ao jovem casal de patrões, e constatou que era exatamente o pai do filho que ela carregava na barriga.
Por sorte, nosso pai não a reconheceu, pois estava bêbado demais para lembrar-se do rosto dela. Então, vendo que não fora reconhecida, ela calou-se, e assim o fizera até meu tio aparecer e estragar tudo.

— Tio? Que tio, Jaime? Essa história está cada vez mais confusa, nunca soube de tio nenhum seu.

— É, nem eu... Minha mãe tinha um irmão mais velho e quatro mais novos. Quando ela se descobriu grávida, ela ficou desesperada e resolveu ligar para pedir ajuda. Esse irmão mais velho dela era o protegido de um outro fazendeiro do Norte, que o tratava como um filho, e chegou a treiná-lo para ser seu braço direito nos negócios da família.
Quando minha mãe contou toda a história, ele queria vir aqui e obrigar o homem a assumir o bebê e também a minha mãe, para que ela não se perdesse na vida. Mas mamãe não quis nem ouvir o que mais ele tinha a dizer, pois ela nem sabia onde encontrar o tal senhor que a confundira com uma prostituta. Meu tio jurou que iria tirar essa história a limpo e que se vingaria. Afinal, ela era sua única irmã. Mas os dias foram passando e logo ela ligou de volta para contar sobre o casamento com o Pai Jair, e ele se aquietou. Nove anos atrás, meu tio veio a esta cidade para tratar de negócios, e procurou por mamãe até descobrir onde morávamos. Eles nunca mais se encontraram pessoalmente e minha mãe ficou muito feliz com sua visita. Neste mesmo dia, quando ele e meu Pai Jair andavam pela propriedade, nosso pai apareceu na varanda com você abraçada a ele, despedindo-se e entrando no carro, onde eu a esperava com a porta aberta para levá-la para a faculdade. Ele é um homem muito esperto, bastou nos ver juntos para matar a charada.

Ali, naquele momento, ele soube quem era o meu pai. Ficou calado e voltou para a nossa casa. Assim que ficou sozinho com mamãe, ele a colocou contra a parede e a fez confessar, alegando que nossos olhos a denunciaram. Então ela não teve como negar e, a partir deste dia, ele começou a arquitetar uma terrível vingança contra o homem que, em seu julgamento, aproveitou-se da irmã dele.

Jaime faz uma pausa e respira fundo. Percebo que está sendo tão difícil para ele quanto para mim, que continuo olhando-o incrédula, tentando absorver tanta informação. Quando eu acho que já ouvi tudo, ele solta o ar dos pulmões e lança a última bomba de uma só vez.

— Meu tio, Koany, é Anselmo de Andrade, o agiota que destruiu a sua vida e a vida do nosso pai.

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