Capítulo 16
Robert Vasconcelos
Sou Robert Vasconcelos. Sou forte e vou passar por isso. Eu vou, eu preciso...
Repito várias vezes para mim mesmo mentalmente tentando me manter acordado.
Eu não posso morrer ainda. Não sem antes olhar para o rostinho da minha princesinha mais uma vez, contar para ela sobre o irmão, e esclarecer a história toda.
E não me odeiem por isso, eu nunca soube que ele era meu filho.
Confesso que eu desconfiava, mas fui covarde o bastante a ponto de evitar uma situação embaraçosa com a minha família. Necessito que ela me perdoe, principalmente por isso.
Não estou dizendo que ela tem razão quando diz que eu matei a minha mulher, a mãe dela, Maria Vasconcelos, o amor da minha vida.
Como eu poderia? As duas sempre foram o meu porto seguro. Mas eu não sou de tudo inocente.
Sou o único herdeiro do patrimônio Vasconcelos. Meu pai não me deu irmãos. Quando ele e minha mãe morreram, eu era muito jovem e estava começando a minha família, e já sonhava com um filho homem para eu ensinar tudo que aprendi com meu pai e prepará-lo para assumir o meu lugar quando eu morresse.
Mas as coisas nunca acontecem como planejamos. O destino é repleto de surpresas, impossíveis de serem previstas. Então ele me surpreendeu com uma menina, a minha Koany.
Quando ela nasceu, Maria teve uma complicação no parto e ficou impossibilitada de ter mais filhos. Sendo assim, eu não poderia mais ter o herdeiro homem que eu tanto sonhava. Mas eu não poderia amar menos a minha filha por isso.
Tentei prepará-la para ser uma boa administradora e assumir os negócios, afinal de contas, ninguém é eterno. Mas ela nunca demonstrou nenhum interesse. Desde então, eu vivi praticamente duas vidas em uma. Eu tinha a mulher que eu amava em minha cama, e também todas as outras mulheres que meu dinheiro podia pagar. Vivi intensamente a minha juventude.
Quando aquele maldito jogador apareceu em nossas vidas e iludiu a minha filhinha, eu estava passando por uma das crises mais sérias em nossas finanças, péssima hora para tentar me afrontar.
Não deu outra, descarreguei toda a minha fúria sobre ele, e, infelizmente, a minha mulher e minha filha acabaram pagando o preço pela minha ignorância. Tudo não passou de um terrível acidente, eu jamais machucaria a minha mulher, minha companheira de toda uma vida.
Eu e Koany nunca falamos sobre o bebê que ela perdeu naquele fatídico dia. Apesar de querer matar aquele jogadorzinho por engravidar a minha princesa, eu ficaria muito feliz em ser avô. Quem sabe Deus não me mandaria um menininho para alegrar as nossas vidas, não é?
A Dona Carmen pediu que ela viesse do Rio de Janeiro, é tudo o que espero e preciso antes de morrer. Ela tem que saber por mim, e por mais ninguém.
Ouço passos e vozes vindos em direção ao meu leito, não quero falar com ninguém além dela, então finjo dormir.
— Vou deixá-la a sós com o seu pai, Dra. Vasconcelos. Mas lembre-se, caso ele acorde, cansá-lo não vai ajudar.
— Obrigada, Dra. Alessandra, sei exatamente como proceder, não se preocupe.
— Claro, eu que peço desculpas. Vou deixá-los à vontade.
— Obrigado!
Ela veio, graças a Deus ela veio, está aqui. A minha princesinha está aqui.
Viro minha cabeça lentamente e abro os olhos, como está linda a minha menina!
Tento falar desesperadamente, mas o que sai é um monte de palavras desconexas, sequela do maldito AVC que sofri, e pela segunda vez.
Sou mesmo um homem muito azarado. Ela faz menção de tocar a minha mão, mas não o faz. Lágrimas salpicam meus olhos e eu sou todo desespero, eu gostaria muito de sentir o seu toque. Não posso acreditar no que está acontecendo. Quando eu finalmente tenho a chance de me explicar e tentar me redimir, as palavras não saem, continuo tentando e nada. Então choro.
— Não chore, Sr. Robert, o senhor não pode se alterar.
Sua voz é firme e ressentida, mas traz paz ao meu coração. A porta se abre e, juntos com Carmem, estão Jaime e Karen. Com certeza essa velha senhora armou esse encontro e, no fundo, eu me sinto aliviado e muito feliz. Aqui está a minha família, só faltou a minha netinha, a pequena Sue. Mas acho que eu não mereço tanta alegria em um só dia.
— Jaime! Karen! Que surpresa boa, meus amigos!
Eles se abraçam. Como eu gostaria de fazer parte deste abraço, meus filhos... Sinto o meu rosto formigar, minha cabeça dói, a minha visão fica turva e as vozes cada vez mais longe. Todos percebem o meu mal estar e voltam-se para mim.
Deus, não posso morrer agora... Forço o meu olhar no dela, que agora está me olhando fixamente, vejo lágrimas em seus olhos. Minha princesinha está chorando, não chore, princesa...
Em um esforço único, seguro a sua mão e a do Jaime, ao mesmo tempo.
— Não faça muito esforço, papai, vou cuidar de você. Vai ficar tudo bem.
Ela tenta se soltar e eu a seguro firme, não há mais tempo, não para mim.
Fixo nossos olhares, suplicando por seu perdão, e ela entende:
— Eu o perdoo, papai — Ela fala entre lágrimas.
— E peço perdão também por ter desperdiçado tanto tempo de nossas vidas alimentando uma mágoa que tanto nos fez sofrer. Descanse, papai, descanse em paz... Não suporto vê-lo sofrer...
Era tudo o que eu precisava ouvir para morrer em paz. Então viro-me para o meu filho mais uma vez, suplicando a ele, em silêncio, que ele tome conta dela, e apresente-lhe toda a história.
— Não nos deixe, meu pai, não agora.
Ele chora ainda mais, as explicações ficaram por conta dele, não consigo mais... Sinto uma forte pressão em meu peito e minha cabeça eu já nem sinto mais... Começa a me faltar o ar, respiro pesadamente.
Não vejo mais nada. Tudo que ainda reconheço deste mundo mortal é o bip dos malditos aparelhos...
Agora já não ouço mais.
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