Capítulo 15


Koany

Chego em frente ao meu condomínio e entro correndo feito uma louca em direção aos elevadores.
Sei que eu não deveria ter saído da casa do Johnata daquele jeito, mas a Dona Carmen só me chamaria se a situação estivesse realmente muito grave, ela sabe que encontrar meu pai não é algo que eu sinta prazer em fazer.

Sete anos e eu ainda não consegui perdoá-lo pela morte de minha mãe.

Meu pai sempre foi um homem muito importante. Já nasceu em berço de ouro e nunca teve que batalhar por nada na vida dele, mas nem por isso ele deixou de lutar com unhas e dentes para manter o patrimônio dos Vasconcelos.

Sempre foi apaixonado por minha mãe, disso eu não tenho a menor dúvida. Mas sempre foi muito cafajeste para com ela na mesma proporção. Sempre inventava uma viagem ou outra para cair na esbórnia e se jogar nos braços de mulheres interesseiras que só visavam o dinheiro dele.

O senhor Robert sempre foi um homem lindo, confesso. Mas custava prestar? Minha mãe não merecia passar por tudo aquilo, e ele não sabia sequer disfarçar suas aventuras.

Mas ela o amava tanto que fechava os olhos para tudo o que ele fazia, e por amor a mim também. Segundo o que conta a Dona Carmem, eu fui a luz que Deus enviou para iluminar a vida de mamãe.

Nossa! Quanta saudade eu sinto dela!

Saio do elevador, ainda mergulhada em meio a esses pensamentos, e paro em frente à porta do meu apartamento, sem perceber que parado ali, encostado no batente da porta, estava uma escultura de homem lindo com as mãos no bolso me esperando.

— Guilherme!

— Oi, linda, surpresa ou decepcionada em me ver?

— Feliz Gui, muito feliz.

Corro e me jogo, enlaçando-o pelo pescoço. Eu estava com muitas saudades dele.
Ele me solta depois de algum tempo e pega as chaves da minha mão.

— Quero falar com você, bonequinha. Podemos entrar?

— Claro, Guilherme, que pergunta... Você sabe que pode aparecer quando quiser. Como não atendeu minhas ligações e quase não nos encontramos no hospital, pensei que você não queria me ver. Imaginei que você precisasse de um tempo depois do que rolou lá na sua casa na última vez em que estivemos juntos.

— Estou aqui para me despedir, Koany. Minha bonequinha!

Congelo.

— Não vai brigar por eu chamá-la assim? — Ele fala enquanto eu, sem reação, permaneço calada olhando para ele.

— Você pode me chamar como quiser, mas está se despedindo de mim? Gui, o que você viu lá no hospital...

— Não, gostosa, estou me despedindo do Rio de Janeiro. Um amigo me falou sobre o projeto Médicos Sem Fronteiras e eu me senti tentado a aceitar. Você sabe que eu sempre quis fazer algo assim, acho que será uma grande oportunidade para realizar esse sonho. Ficarei fora por um ano, mas não poderia deixar de vê-la antes de viajar.

Ele me puxa para seus braços e permanecemos assim por alguns minutos. Só então eu vejo o quanto eu precisava de estar com ele.

— Guilherme, você sabe que tenho um carinho enorme por você e prezo muito pela nossa amizade, mas quanto aos seus sentimentos por mim... — Sou silenciada por um beijo de molhar calcinhas, tão urgente quanto a minha necessidade de ser possuída por ele. Mas ele interrompe as carícias, me deixando entorpecida de desejo e ansiando por mais, muito mais.

— Adeus, minha linda, minha bonequinha — Sai sem falar mais uma palavra sequer, e eu permaneço no mesmo lugar, assistindo a única chance de salvação que cogitei para a minha vida ao longo destes sete anos passar pela porta de saída da minha casa e da minha vida.

Tomo um banho rápido e faço uma pequena mala, tranco o apartamento e sigo para o hospital.

Explico para o diretor o motivo de minha ausência dos próximos dias e ele prontamente me dispensa. Assino uma licença de 15 dias e pego a estrada.

Governador Valadares, aí vamos nós.

Koany 

Estou exausta.

A viagem foi bem cansativa. Apesar de eu ter feito várias paradas durante o percurso, sinto-me muito cansada.

Chego à fazenda já no finalzinho da tarde. Nostalgia define perfeitamente o que sinto neste momento.

A lembrança de uma família reunida à mesa para as refeições desperta-me saudade, sou tomada pela tristeza de saber que nem por um milagre terei isso novamente. Ver minha rainha abrir os braços e me receber todos os dias quando eu chegava da escola é uma delas. Ouço passos vindos do corredor.

— Olá, minha menina, você veio mesmo! Que bom que está aqui!

Abraço a mulher franzina de cabelos grisalhos que me conhece desde sempre. Depois de todas as perdas familiares, ela é o que de mais próximo eu tenho de família, tirando meu pai. Mas esse eu faço questão de evitar, até o dia de hoje.

— Ei, Dona Carmem, como está a senhora, hein? Que saudades eu estava deste abraço!

— Eu também, minha filha, eu também.

— Quer me contar o que aconteceu?

— Claro, sente-se aqui que vou lhe dizer como tudo aconteceu.

Ouço cada palavra sem interrompê-la uma única vez e, quanto mais ela fala, mais a raiva cresce dentro mim. Deus ensina-nos a amar ao próximo como a nós mesmos, mas não seria nada demais o próximo colaborar, não é?

— Vamos, Dona Carmem, se não posso fugir de estar com ele, que façamos isso de uma vez. Mas ele que não espere que eu me comova e o perdoe pelo que fez a mamãe. Neste momento, depois de tudo o que a senhora me contou, sinto apenas um pouco de pena.

O maior vilão que assombra as pessoas, tirando-lhes a paz de espírito, é a culpa, e este é o maior dos problemas do Sr. Robert.

Acredito que ele vai sair dessa, mais alguns dias e ele estará em casa novamente. Ele vai me explicar exatamente o que ainda o prende a aquele homem horroroso, nem que isso seja a última coisa que ele faça na vida.

Tenho minhas diferenças com o papai, mas ninguém ameaça uma pessoa da minha família e sai impune.


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