Capítulo 11

John

— Caralho, que dor é essa? — Confesso que nunca havia sentido nada parecido em toda a minha vida.

Abro os olhos lentamente e dou uma rápida olhada a minha volta. Não foi um pesadelo, realmente estou em um hospital.

Logo, flashes de memória surgem diante de mim e eu me dou conta do quão fodido eu estou. O que era para ser uma breve fugidinha ao Brasil tornou-se uma grande tragédia.

A correria até o aeroporto, as intermináveis horas de voo, o desembarque rápido e ansioso no galeão, o terrível acidente.

Será que pessoas morreram lá? Porque eu senti que passei bem perto da morte. Mas no meio de toda esta bagunça, eis que a coisa mais incrível e inesperada acontece. Quem poderia imaginar que aquela garota meiga e aparentemente frágil se tornara uma médica e ortopedista? Esta é uma das áreas mais agressivas da medicina, pelo menos para quem olha de fora. E ela desempenhou seu papel com muito talento. Não é preciso ser da área para saber o quão fodido eu estou. Pelo que fui informado, a fratura foi bem grave, e o procedimento durou horas. Quando abri os olhos e me deparei com ela e com suas mãos em mim, me dei ao luxo de desmaiar. Senti um impacto em meu peito e entreguei-me aos seus cuidados com toda confiança. Não existiria nenhum outro lugar no mundo em que eu gostaria de estar, senão em suas mãos.

A princesinha cresceu, tornou-se uma linda mulher, e caiu como um anjo novamente em minha vida.

Preciso vê-la, falar com ela. Pensei que sentiria raiva ao encontrá-la, mas estava completamente enganado quanto aos meus sentimentos.

Acho que estou ainda mais apaixonado que há sete anos.

— Até que enfim, bela adormecida, pensei que você iria dormir para sempre — Vejo o meu amigo entrar todo agitado.

— Oi para você também, Wagner — Respondo mal humorado.

— O que foi agora, está sentindo dor? Quer que eu chame alguém? Cara, você precisa sair logo desta cama. Você não faz ideia da merda que você fez saindo da Inglaterra daquele jeito. Os caras estão loucos, estão me pressionando para obter notícias mais detalhadas sobre seu acidente. E aquela doutora gostosona que cuidou de você só me passou o básico. Mas vou ficar atento e, assim que ela voltar, eu vou falar com ela.

Gostosona? Ele a chamou de... Ah, mas era só o que me faltava.

— Fique longe dela, ouviu? Não ouse chamá-la assim novamente.

— Ih, cara, apaixonou-se pela doutora, John? — Nem preciso dizer que ele caiu na gargalhada — Cara, qual é o seu problema com as mulheres brasileiras? Você está noivo da Kate, lembra-se?

— Não acredito, você não... Ah, deixa isso para lá. Meu noivado com a Kate é uma farsa, e você sabe disso melhor do que ninguém. Sua mentira, seu problema. Agora chame uma enfermeira que estou a ponto de enlouquecer de tanta dor.

— Ok, ok, mas nós precisamos conversar sobre tudo isso. É sério, temos que ajeitar as coisas, ou você pode dar adeus a sua carreira. Entende isso?

— Sim, cara.

Ele não a reconheceu, melhor assim. Vou dar um jeito de falar com ela a sós e aceitar as suas desculpas. Afinal, o que é o amar senão o ato de perdoar?

Ele sai e eu me perco novamente em meus devaneios, esperando ansiosamente por ela.

Koany

Acordei ainda pior do que eu estava antes de deitar-me. Sinto-me como se estivesse sido atropelada por um trem. Ainda bem que estarei no plantão da noite e tenho todo o dia para descansar, colocar minhas ideias em ordem. Preciso falar disso com alguém ou vou enlouquecer, então lembro-me daquela que sempre esteve ao meu lado. Sem hesitar, toco em chamar.

— Alô! — Ela atende prontamente.

— Alô! Karen, sou eu, Koany — Falo em um fio de voz ao ouvi-la depois de tanto tempo.

— Oi, tudo bem? Nossa, há quanto tempo não nos falávamos. Liguei há seis meses, mas me disseram que você estava em cirurgia e... Bom, que ótimo que ligou!

Não contenho as lágrimas e as deixo rolar livremente, banhando todo o meu rosto. A imagem de minha mãe surge com força diante de meus olhos, e a angústia por não a ter mais para me acalentar toma conta de mim novamente.

— Meu Deus, amiga, o que aconteceu? Acalme-se e me conte para que eu possa ajudá-la.

— Ele voltou, Karen. Depois de todos esses anos longe, sem nenhum telefonema, e-mail, SMS, nada contendo uma explicação, um motivo pelo qual ele me deixou... Finalmente ficamos frente a frente. E eu estou me sentindo ainda mais perdida e magoada do que eu estive durante todo esse tempo.

— Calma, Koany, há muito mais nesta história toda. Como assim ele voltou? Ele te procurou? E o que disse quando soube do bebê? Você contou a ele?

— Não, ele não sabe sobre o bebê. Foi eu quem o atendi quando ele deu entrada na emergência depois de um acidente de automóvel, e eu agi como a médica que sou, cuidei para que ele não morresse. Karen, ele esteve quase morto em minhas mãos... — Não consigo terminar a frase e o soluço pelo choro sobrepõe-se sobre a minha voz.

— Koany, que loucura! O destino está fazendo sua parte, não é? Então o jogador famoso do acidente de ontem nos arredores do aeroporto era ele.

— Sim, era sim — Sussurro entre um soluço e outro.

— Vou falar com o Jaime, e viajo ainda hoje para o Rio, amiga. Você não está sozinha, e vai ser muito bom nos encontrarmos. Tem uma coisa que preciso falar com você, mas só pessoalmente. Vou deixar a pequena Sue e a babá aos cuidados de minha mãe, e sigo de avião para ganhar tempo. Até mais, princesa. Fica bem!

— Até!

Ela me chama pelo apelido carinhoso que outrora fazia-me sentir como uma criança entre elas. Sendo a mais novinha da turma, eu era muito mimada pelas duas, e confesso que eu gostava. Logo sinto saudades dos bons tempos que vivemos juntas, das loucuras que elas faziam e me levavam junto. Por várias vezes, quase fomos pegas matando aula para aprontar alguma travessura adolescente. Até eu vir para o Rio, a Lúcia ir estudar fora do país e a Karen casar-se com o Jaime.

O toque do meu telefone tira-me de meus devaneios.

— Oi!

— Está vestida, gostosa? — A voz do Guilherme soa animada do outro lado da linha.

— Oi, Gui, claro que estou. Por que a pergunta?

— Então desce aí que vou te levar para ver uma coisa.

Ele parece-me eufórico ao falar, mas eu estou acabada. Não sinto a menor vontade de sair.

— Podemos deixar para outra hora, Guilherme? É que eu não estou muito animada e...

— De jeito nenhum. Se não descer, vou subir aí e trazê-la sobre os ombros. Então, o que vai ser?

Sei que ele é meio louco quando se trata de me animar. Sendo assim, visto um jeans, camiseta, sapatilhas, e desço ao seu encontro.

— Onde vamos?

— Curiosa demais, vai ter que esperar.

Mal posso acreditar no que meus olhos veem.

Ao adentrar a grande sala de um apartamento muito bonito e luxuoso, o que vejo é uma decoração absurdamente romântica.

Há rosas vermelhas espalhadas por todo o ambiente.

Sobre uma mesinha de centro, toda em vidro com bordas metalizadas, há um balde de gelo com uma garrafa de Moet & Chandon e duas taças. Um sofá, em couro na cor branca, que contrasta com o vermelho das rosas, assim como também os detalhes em forma de cascata que caem elegantemente dos dois lados de uma cortina. Um grande tapete felpudo na cor cinza, combinando com o móvel preto que se encontra logo abaixo da televisão de plasma 52", cuidadosamente instalada ao centro da parede principal. Sobre o móvel, um arranjo de rosas, porta-retratos contendo fotos dele. Dentre eles, um com uma foto minha.

Fico estática olhando tudo a minha volta, sinto as mãos dele tocarem os meus braços levemente e deixo minha cabeça pousar em seu peito.

Um silêncio constrangedor toma conta do ambiente.

Viro-me, ficando de frente para ele. Seus olhos estão brilhando e fixos em mim.

— Guilherme, o que significa tudo isso?

— É para você, princesa. O que foi, não gostou das rosas? Já sei, você prefere outra cor ou outro tipo de flores. Desculpe, eu... — Ele anda pela sala desconcertado e esfregando a testa com as pontas dos dedos. Está visivelmente nervoso, o que não é típico de meu amigo — Eu deveria saber essas coisas, afinal, sou seu melhor amigo, não sou? Mas também você nunca me disse. Toda mulher gosta de rosas, em especial as vermelhas, estou errado?

— Gui...

— Olha, Koany, vou falar de uma só vez o porquê de tudo isso, OK? Depois você pode fazer o que quiser, mas, por favor, preciso que me ouça.

Ele pega as minhas mãos e me conduz até o centro da sala. Suas mãos estão geladas, e é notável o seu desconforto. Posso afirmar que ele vem preparando tudo isso já há algum tempo, pois, se o lugar fosse alugado, não haveria tantas coisas pessoais dele por aqui. Então eu me calo, e dou espaço para que ele possa falar.

— Olha, já faz algum tempo que comprei este lugar. Venho planejando a reforma há alguns meses e, como sabe, a casa em que moro é de meus pais. Minha estadia lá sempre foi provisória. Mas nunca foi minha intenção morar aqui sozinho. Tenho uma proposta para te fazer e, antes que diga não, gostaria que levasse em conta todos os bons e maus momentos que dividimos juntos, mesmo morando separados.

Sentamos no sofá, um de frente para o outro. Em momento algum ele solta minhas mãos. Olho-o com ternura, pois sei exatamente o que ele vai me dizer.

— Koany, eu te amo! Apaixonei-me perdidamente por você desde o primeiro dia em que a vi. Sei que você tem uma história e que não sente o mesmo por mim, mas não aguento mais fingir para você, para nós.

Abro a minha boca para falar, mas ele coloca o dedo indicador em meus lábios pedindo silêncio.

— Nunca foi só sexo, Koany, pelo menos não de minha parte. Preparei este lugar para você, para nós. E gostaria muito de tê-la aqui comigo todos os dias. Dormir e acordar ao seu lado, sem ser expulso no meio da noite. Não estou te propondo casamento ou um compromisso hipócrita desses nos quais as pessoas ficam amarradas umas às outras por uma assinatura em um papel. Não. Quero apenas estar mais próximo, tê-la sem reservas, poder te abraçar em público e te beijar quando sentir vontade, independente de quem esteja por perto. Mas se amanhã um de nós decidir seguir outro caminho, não haverá nada que nos impeça, ou qualquer burocracia que dificulte esta decisão.

Continuo olhando para ele, sem notar que as lágrimas rolam livremente pelo meu rosto. Sou incapaz de pronunciar qualquer palavra. O choro intensifica-se e ele puxa-me para seu colo, aninhando-me em seus braços.

— Ei... Tudo gemeu estou aqui, acalme-se, me perdoe. Não foi minha intenção deixá-la triste.

Abraço-o ainda mais forte e choro copiosamente. Ele espera pacientemente que eu me acalme, levanta-se, vai até a cozinha e volta com um copo de água nas mãos. Tomo todo o líquido e respiro fundo três vezes. Deposito o copo sobre a mesinha e volto-me para ele.

— Guilherme, eu sei o que sente em relação a mim, e sinto-me até um pouco mal por isso. O que você fez aqui hoje é muito lindo, muito fofo. Mas não é tão simples assim. Tentei me apaixonar por você, Gui, juro que tentei, mas tem coisas sobre mim que não contei a você, e que, de certa forma, me impedem de seguir em frente.

— Peço desculpas por armar esse circo todo aqui, Koany, mas foi com a intenção de agradá-la que o fiz. Por que não me conta o que houve com você? O que fizeram a você, princesa, que a quebrou dessa forma? — Quanto mais ele tenta me acalentar, mais eu me entrego ao pranto, e deixo sair em forma de lágrimas toda dor, mágoa e tristeza que há em meu coração.

Fico aninhada em seu colo por um bom tempo, e ele espera pacientemente pelo meu tempo. Não posso mais adiar essa conversa. Sendo assim, ainda deitada em seu colo, olho para ele com ternura, e começo a relatar para ele toda a minha história. Quando eu termino, sua expressão é indecifrável. Ele me toma em seus braços e me abraça apertado, com carinho. Não é um ato de um homem apaixonado, mas sim do meu grande amigo, e eu retribuo com satisfação. Era exatamente o que eu precisava naquele momento, e ele sabia.

— Viu? Eu disse a você que havia muito sobre mim a conhecer ainda. Você só conhece a Dra. Koany aparentemente feliz e realizada. O lado negro da minha vida eu costumo guardar só para mim.

— Eu sinto muito, princesa, por tudo que aconteceu a você. Está na cara que esse idiota não a faria feliz, ou não teria ido embora quando você mais precisava dele ao seu lado. Eu jamais faria tal coisa, nem por todo o dinheiro do mundo. Mas isso é passado, e não muda em nada o que sinto por você, minha doutora gostosa. Sei que está confusa e machucada, mas eu sou paciente — Ele fala divertido enquanto beija cada pedacinho do meu rosto, até chegar em minha boca. Sorrio também — Temos algumas horas até o nosso plantão, e eu quero aproveitar cada minuto dele para estar com você — E a distribuição de beijos continua descendo para meu pescoço e chegando até o meu colo — Quero estrear cada cantinho desse lugar, e uma possível negativa não é uma opção aceitável.

Estou ferrada! Ele sabe exatamente o que fazer para me deixar totalmente sem ação, entregue ao desejo e ao tesão que nos toma toda vez que nossos corpos se juntam. Não sei explicar essa tensão sexual, mas gosto muito dessa química. Devo admitir que sou uma quase viciada em sexo, mas com um homem desses te tentando sempre que há oportunidade, não poderia ser diferente. Fecho os olhos por alguns instantes, meu corpo escorrega sobre o sofá quando eu arqueio meu abdômen ao sentir o calor de sua língua contornando o meu umbigo. O calor toma meu corpo e incendeia meu sexo, preciso disto tanto quanto ele. Sinto um líquido gelado em minha barriga e, antes que eu perceba, sinto o calor de sua boca que já está colada em meu umbigo, sugando todo o champanhe que ali estava.

Não preciso nem falar que isso me deixou quente como o inferno, meu tesão era quase palpável e o safado sentia isso. Arranquei sua camisa de uma só vez e levei as mãos ao seu zíper.

— Ei, Doutora, por que a pressa? Temos muito tempo ainda.

— Você. Dentro. Agora — Balbucio, rouca de desejo. Sentindo a urgência em minhas palavras, ele colocou-se de pé e terminou de tirar sua roupa assim como a minha. Tomou um gole do champanhe sem tirar os olhos dos meus. E passou a taça para que eu tomasse. Pegou um morango, levou-o a boca assim que o líquido deslizou em minha garganta, colocando-o entre os dentes. Tomou-me em um beijo meio mastigado, misturando o sabor da fruta com a bebida, e isso foi sexy pra caralho! Continuamos a nos beijar com urgência e luxúria, nos tocando, sentindo um ao outro, nos entregando totalmente ao prazer.

Quando eu pensei que ele ia finalmente me penetrar, ele me pegou no colo e caminhou comigo até o quarto, que estava tão bem decorado quanto o restante da casa. Colocou-me no chão e encaminhou-me rumo a uma poltrona que se encontrava próxima a uma grande janela de vidro.

— Para que vir para o quarto se não pretendia usar a cama?

— Porque imaginei você de quatro neste móvel todas as vezes que olhei para ele, desde o momento em que o coloquei aí. Agora vire-se e empine esse bumbum lindo para mim. Vou te foder bem duro agora, e fazê-la esquecer toda essa merda que tanto a incomoda — E assim ele fez.

O trânsito está um caos e, só para variar, estamos atrasados. Meu telefone toca insistentemente dentro da bolsa, olho no visor e vejo que é do hospital. Logo que entramos, vejo as enfermeiras mais agitadas do que é de costume. Penso que a emergência deve estar uma loucura, e então avisto a Miranda.

— Oi, está tudo bem? Não a vi desde a cirurgia do... — Hesito em pronunciar o nome de John ao me lembrar que o Guilherme está ao meu lado — Do paciente de ontem.

— É eu tive um probleminha pessoal para resolver, mas já está tudo bem. Seu paciente não está.

— Não? Por que? O que aconteceu com ele? Eu disse para me biparem caso fosse necessário — Automaticamente saio em disparada para me trocar e ir logo examiná-lo, deixando o Guilherme e a Miranda parados atônitos diante do meu desespero. Visto meu jaleco, penduro meu estetoscópio no pescoço e sigo em direção ao quarto em que ele está. Passo feito um furacão pelos dois novamente e eles me seguem. Entro no quarto e me lanço sobre ele para conferir o que tem de errado. Nem mesmo ele entende meu rompante, mas logo abre um lindo sorriso, o mesmo que há anos me encantou.

— O que está sentindo? Dor? Febre? Alguma tontura? — Bombardeio-o de perguntas, lendo o prontuário à procura de alguma anotação importante das enfermeiras. Miranda e Guilherme continuam estacados de pé me observando. Olhei para ele, que continuava sorrindo lindamente para mim e depois para os dois.

— Doutora Miranda, você me disse que ele não estava bem — Falo encarando-a com um olhar quase mortal. Começo a me sentir sem graça ao constatar que minha reação foi um tanto exagerada. O olhar enigmático que o Guilherme direciona a mim me deixa ainda mais desconfortável. Sei que ele percebeu o que está acontecendo, agora é só juntar dois mais dois e ele saberá quem é o deitado ali, e o motivo do meu total desespero pela possibilidade de um agravamento em seu quadro clinico.

— Eu só ia te falar que ele estava com um péssimo humor, mas você não me deu tempo para terminar.

Coloco o prontuário sobre a mesinha e me aproximo dele novamente.

— John, esse é o Dr. Guilherme, nosso neurologista, e a Dra. Miranda você já conhece. Sente alguma dor? — Pergunto sem graça e sem olhar para ele, examinando seu peito, na altura de seu coração. Pelo calor que sinto em meu rosto, sei que estou corando.

— Dra. Vasconcelos, posso falar com você um minutinho, lá fora? — O Guilherme fala apontando para o corredor.

— Não, Doutor, não vê que ela está me examinando? — John responde por mim com um tom divertido na voz, sem tirar os olhos de mim.

— Koany... Por favor.

— Eu já volto — saio, deixando-o notavelmente contrariado. O sorriso já não está mais lá.

Sigo atrás do Guilherme, que anda em minha frente com uma mão na cintura e a outra nos lábios. Ele anda de um lado para o outro pensativo, e finalmente me encara:

— O que foi aquilo lá dentro? O que exatamente foi aquilo?

Não sei o que dizer. Gostaria de ter uma explicação lógica para a minha reação, mas acho que nem eu mesma consigo acreditar no que senti. Fiquei em pânico com a ideia de que ele poderia ter piorado e surtei, não poderia perdê-lo novamente.

— Não foi nada demais, Gui. Eu só me assustei, pois a cirurgia dele foi um tanto complicada e, você sabe, ele poderia ter perdido a perna. Só precisava me certificar que não havia acontecido nada de grave. Me assustei quando a Miranda disse que ele não estava bem — Enquanto eu falava, ele me analisava, e eu ficava ainda mais nervosa e com medo do que eu estava sentindo.

— Não gostei de como ele olha para você — Foi tudo o que ele disse após alguns minutos olhando fixamente em meus olhos. Beijou minha testa e saiu.

JOHN WILDER

A noite para mim foi um tormento. Estou sentindo muita dor ainda, mas não é nada se comparado ao tamanho da ansiedade por vê-la novamente. Acredito que o plantão dela tenha acabado, pois não a vi durante toda a noite. Nem preciso dizer que não consegui dormir, né? Sempre que alguma das enfermeiras entrava para ver como eu estava, eu olhava na esperança de que fosse ela, o meu anjo, meu lindo anjo que voltara para mim. Preciso falar com ela, já não há nenhum resquício da mágoa que eu carreguei comigo por todo esse tempo.

Eu a amo! Voltei por ela e vou lutar por ela, não importa o quanto isso me custará. Pois nem todo o dinheiro do mundo pagaria pela felicidade de tê-la novamente em meus braços e fazê-la minha outra vez.

Tive uma noite de merda e um dia pior ainda. O Wagner voltou à Inglaterra para tentar amenizar o resultado de minha loucura junto ao clube. Os caras estão loucos com o fato de eu estar fora, impossibilitado de jogar. Mas eu não estou nem aí. Por mim, que cobrem a multa por quebra de contrato, não pretendo voltar tão cedo para lá. Já tenho dinheiro suficiente para toda uma vida, e acho que chegou o momento de gastá-lo.

Estou divagando em pensamentos e com um péssimo humor, não vejo a hora de me livrar deste gesso e estar livre desta cama de hospital. Então a vejo surgir como um furacão e adentrar o quarto em que estou. Meu bom humor à casa torna e eu sorrio para ela, demonstrando total satisfação ao vê-la.

— O que está sentindo? Dor? Febre? Tontura? — Ela me bombardeia com perguntas e, em seu lindo rosto, vejo preocupação e medo. Eu arriscaria dizer até que ela está assustada, mas por mim, tudo bem. Sei que o que causou essa reação nela foi o seu interesse em meu bem estar. Isso é um sinal de que ainda há algum sentimento naquele coraçãozinho de menina que um dia foi meu. Só não gostei da forma como aquele Doutor Guilherme a encarou, e ainda a tirou de perto de mim chamando-a pelo primeiro nome. Tu provavelmente tens algum envolvimento, constato. Mas ele não perde por esperar, não pretendo perdê-la por nada nem por ninguém. Koany Vasconcelos será minha novamente, e desta vez para sempre.

Koany

Como eu previa, a emergência está um caos. Meu plantão mal começou e eu já tive que entrar em cirurgia, mas até que foi bom. Preciso estar ocupada o máximo de tempo possível, para não cair na tentação de entrar naquele quarto e fazer com que o John fale de uma vez por todas tudo o que eu preciso ouvir. Encosto-me no balcão para analisar alguns prontuários, e sou surpreendida com a visão de minha amiga Karen chegando. Meu coração se enche de alegria, amo-a como a uma irmã. Corro para abraçá-la. Ficamos ali por um bom tempo, abraçadas, sinto-me em família estando junto a ela.

— Olá, minha querida, como você está? — Pergunta ela, gentilmente puxando-me de volta para seu abraço protetor.

— Ah, Karen, muito melhor agora, minha amiga. Que bom que você veio, eu estava mesmo precisando ver alguém que me entenda e que me ouça.

Saímos juntas, vamos até uma lanchonete e, enquanto comemos, aproveito para relatar a ela tudo o que aconteceu desde o fatídico acidente envolvendo o John. Chorei muito mais uma vez, mas desta vez me senti aliviada, pois ela me entende, acompanhou todos os acontecimentos desde o princípio e sabe exatamente o que John Wilder significa para mim. Mas ela está estranha, parece querer me dizer alguma coisa e as palavras não saem.

— Karen, o que foi? Eu estou aqui tagarelando e chorando, e nem deixei que você falasse, não é? Me diz, o que gostaria de falar-me de tão importante que não poderia ser por telefone?

— Então, minha amiga, quisera eu não ser a portadora de mais notícias ruins, mas infelizmente preciso lhe dizer algo.

— Fala logo, Karen, o que foi?

— Seu pai, Koany, ele não está nada bem. Depois daquele AVC que o deixou naquela cadeira de rodas, ele nunca mais foi o mesmo. A tristeza e a solidão não têm sido boas companheiras. Ele só fala em você, delira a noite chamando seu nome, e a Carmem diz que ele quase não come.

— O problema de meu pai é a culpa, Karen. Sua tristeza é saber que ele matou sua própria esposa, não pelas saudades que sente de mim.

— Não fale assim, Koany. Precisa perdoá-lo, foi um trágico acidente. Perdoe-o por ele e por você mesma, amiga. Todos nós cometemos erros, mas poucos são os capacitados para exercer o ato do perdão. E este é libertador, nunca ouviu os dizeres "Aquele que não consegue perdoar aos outros, destrói a ponte por onde irá passar"? Então, vai se sentir menos angustiada quando finalmente se entender com seu pai e, assim, poderá seguir em frente sem nenhuma mágoa ou ressentimento em seu coração. Acredite.

— Não, Karen, não dá. Não posso perdoá-lo, é da vida de minha mãe que estamos falando. Ele a tirou de mim e eu nunca vou perdoar tal coisa.

Ficamos por mais alguns minutos e logo apresso-me em voltar. A Karen segue para o apartamento com a promessa de que falaremos mais sobre o assunto papai assim que meu plantão terminar e eu estiver em casa. Ao voltar, sinto uma incontrolável vontade de ir até o quarto do John, estar com ele, cuidar para que ele esteja confortável. É, eu sou uma idiota, mas uma idiota completamente apaixonada. Entro e vejo que ele dorme tranquilamente. Ajeito o cobertor e sento-me na poltrona ao lado da cama, e fico ali, a velar seu sono. Sou tomada por pensamentos e lembranças de momentos felizes que vivemos. Poucos, de fato, mas intensos em tal proporção que até se parecem recordações de toda uma vida. Tomo sua mão e a acaricio levemente, o calor que emana de sua pele faz meu corpo estremecer de desejo, permaneço assim a contemplar seu semblante calmo e tranquilo a dormir. Minhas pálpebras tornam-se pesadas e eu adormeço também, mergulhada neste mar de emoções que somente ele é capaz de provocar em mim.

Koany

Sou despertada pelo bip do meu Pager. Sobressalto na poltrona e sinto que minha mão ainda segura a dele. Olho para ele assustada, e encontro seus olhos a me observar. Tento soltá-lo, mas ele me detém. Ele tem o braço esquerdo elevado acima do corpo apoiando sua cabeça, e em seus lábios há o sorriso mais doce, sexy e envolvente que meus olhos já viram. Como é lindo, e como eu o amo! Continuo olhando-o totalmente sem graça por ter sido pega.

Minha intenção quando entrei em seu quarto, era somente desfrutar da bela imagem daquele corpo lindo e deliciosamente sexy ali, deitado naquela cama. Tive que me segurar para não me jogar sobre ele e deitar-me ao seu lado, cobrir aquela boca de beijos e aconchegar o meu corpo ao seu, por um tempo suficiente que acalentasse meu coração da imensa saudade que sentia. Viro meu rosto para o lado, desviando meu olhar do dele, em busca de uma boa desculpa para estar ali, mas em pé do lado de fora, encarando-nos através do vidro, está o Guilherme. Seus olhos pousam em nossas mãos ainda entrelaçadas e eu retiro-a rapidamente. Ele olha para mim e sai. Johnata, que observou toda a cena, voltou a prender-me em seu olhar. Acredito que tirando suas próprias conclusões do que acabara de acontecer.

— Ele é seu namorado? Marido talvez? Não vi nenhuma aliança em seu dedo.

— Não! — Prontifico-me a responder — Apenas um amigo. Preciso ir, minha presença se faz necessária no PS. Com certeza, algum acidente — Sorrio sem graça e totalmente sem ação. Ele tem o dom de provocar essas reações em mim.

— Precisamos conversar.

— Eu sei, mas acho que este não é um bom momento.

Saio do quarto sentindo o tremor de minhas pernas, resultado das breves palavras que trocamos, e do intenso olhar em que estive cativa por alguns instantes.

Ele ainda mexe muito comigo. Quando ele está por perto, perco totalmente o controle, e volto a ter os mesmos sentimentos e reações de quando nos conhecemos, de quando nos apaixonamos. Precisamos mesmo ter essa maldita conversa. Ele precisa mesmo me fazer entender o porquê de ter ido embora, de não ter esperado por mim como combinamos, e o porquê nunca mais me procurou.

Deus, são tantas perguntas a serem feitas, e tantos fatos a serem revelados... Fico imaginando qual será sua reação ao saber do bebê. Às vezes, acho que eu nem deveria contar, afinal, ele não participou de nada. Principalmente de minha dor. Na verdade, deu as costas sem se importar de como eu me sentiria. Talvez eu tenha mesmo sido só mais uma de suas conquistas.

Sou mesmo uma tola, bastou ele aparecer para eu cair de quatro por ele novamente. Não, preciso me conter, não vou me iludir e voltar a sonhar com um mundo perfeito ao lado de Johnata Wilder, eu não posso.

— É ele, não é?

Dou um pulo, levando a mão ao peito ao assustar-me com a voz do Guilherme.

— Ai, Guilherme, que susto! Quase me mata do coração.

Entro na sala de repouso dos médicos e ele me segue em silêncio, seguindo-me com os olhos, analisando cada movimento meu.

Evito encará-lo.

— Por que não responde a porra da minha pergunta?

— O que foi mesmo que você me perguntou? — Sinto-me desnorteada com o susto.

— Aquele cara, o seu paciente. O famoso John Wilder é o mesmo cara que a abandou grávida e sofrendo o luto de sua mãe, não é? Só não consigo entender o que a senhorita fazia lá, de mãos dadas e com o olhar preso ao dele. Visto de fora, Koany, parecia a cena de um casal apaixonado que quase foi separado por um grave acidente.

Neste momento, ele está tão exaltado que me dá arrepios, nunca o vi tão nervoso. Na verdade, ele nunca havia falado assim comigo.

— Gui, não é bem assim — Digo virando de costas.

— Quando pretendia me contar? Porque ontem, quando você me contou sua história com ele e depois gemeu em meus lençóis, entregando-se mais uma vez para mim, a senhorita já estava a par do retorno daquele crápula e preferiu omitir o fato. Fiz planos, propus dividir a minha casa, a minha vida com você. No entanto, minhas chances já eram nulas naquele momento. Devo comprar um terno? Espero que não me convide para ser seu padrinho, pois ficaria viúva antes mesmo de chegar ao altar.

— Guilherme!

Fecho a porta e me volto para ele.

— Quem é você, hein? Porque com certeza não é o amigo doce e carinhoso que conheço.

Sinto-me assustada, nunca o vi assim tão irritado, tal reação não é digna de meu amigo. Ele me olha intensamente, e tudo o que vejo é raiva e fúria em seu olhar. Ele ameaça dizer alguma coisa, mas desiste, segura meus dois braços com certa força e me beija com possessão. Em seguida, sai batendo a porta com certa violência me deixando ali, meio tonta e completamente incrédula diante do que acabara de acontecer.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top