Capítulo 7

Por todas as fadas de FairyTopia. Ou algo equivalente. Jonathan não podia estar vendo aquilo! Num momento nada oportuno, antes mesmo que ele conseguisse se levantar, Manoela saltou praticamente na mesa de Samanta e começou a apontar para ela. Incrivelmente, a menina parecia conhecê-la. Com Sam debruçada desmaiada sobre a mesa, a única coisa que ele pôde fazer, foi tomar uma respiração funda e seguir na direção dela. A morena provavelmente nem havia reparado no amigo ali na mesa lateral da pequena lanchonete, ela deveria estar na aula àquela hora.

Pela palidez dela, ele julgava que a conversa com Ellen não havia ido bem, então a deixou respirar sozinha por alguns momentos, antes de o impossível acontecer.

- Tio Jon! - A menina gritou assim que o viu, e sorriu largamente antes de agarrar uma de suas pernas.

- Oi, meu docinho! Tudo bem com você?

- Tudo sim. Mamãe disse que nós vamos ficar uns dias aqui, cadê o papai?

- Olá, Jonathan.

- Oi, Kimberly. Tudo bem? Eu vou só levar a Sam pra casa. Quer me esperar aqui?

- Podemos ir com você.

- Certo.

Depois de pagar a conta e sair carregando a morena na direção do seu carro, Jonathan notou que precisaria da cadeirinha para levar Manu. Ela estava sorridente, falando como uma pequena matraca, fazendo perguntas sobre a cidade, e, quando Adam viria vê-las. Até que num momento mais, ela começou a olhar para Samanta com curiosidade.

- A tia Sam vai ficar bem?

- Claro, docinho. Ela vai ficar ótima. Só está cansada e ficou emocionada de te ver. - Olhando pelo retrovisor, notou o nítido desconforto de Kimberly. Ele não sabia os detalhes da concepção de Manoela, mas, tinha certeza de que não foi nada como Adam pintou. O bom moço. - Quando ela acordar, vai ver como ela tem os olhos mais lindos do mundo.

- Ela é linda, papai vivia falando sobre ela, não é, mamãe?

- Sim, meu amor. Seu pai amava muito a Sam.

Imersa num desmaio sem sono, ele deixou que a mulher descansasse e quando chegaram na casa de Logan e Jaque, pôde ver que ambos estavam em casa. Isso daria muito o que falar, mas, não tinha tido muito tempo para pensar antes de trazê-las consigo.

- Logan e Jaqueline estão em casa, vamos... Vou levar a Sam para a cama, e vocês podem se apresentar.

Alheia ao desconforto da mãe, a criança pulou assim que a porta foi aberta, liderando o caminho à frente da mãe e de Jon que tinha Samanta nos braços. Era autoritária como a filha de advogados, ainda que a pouca idade desse a ela um charme diferenciado.

- Jaque? Me ajude aqui!

- O que é, Jonathan?

- Vá na frente, preciso colocar a Sam na cama.

- O que diabos acontece...

Antes de a morena conseguir finalizar a frase, deu de cara com uma cabeleira de cachos castanhos claros e lindos olhos sorridentes encarando seu rosto. Ela sorriu para a pequena e assim que mirou Kimberly entendeu a situação. O que ainda estava nublado era apenas o fato de Samanta estar aparentemente dormindo nos braços de Jon.

- Alguém vai ter muito o que explicar.

- Pode apenas esperar eu colocar a bela adormecida na cama?

- Claro! Vamos lá... Logan, venha fazer sala.

- Já vou amor... Oh, meu deus. O que é isso?

- Eu sou a Manu.

Estendendo a mão de dedinhos fofos ela se apresentou sorridente, enquanto Jaque e Jon iam levar a amiga desacordada para o próprio quarto.

- O que diabos aconteceu, Jonathan?

- Eu nem sei ao certo, marquei de encontrar Kimberly e Manoela na lanchonete porque achei que a Sam ia para a aula depois de falar com a Ellen, no entanto, antes mesmo de eu conseguir impedir, Manu foi na direção da mesa da Sam, que desmaiou assim que a menina começou a dizer seu nome. Ela não parou de perguntar por Adam desde que me viu.

- Ela ainda não está sabendo?

- Acho que a Kimberly não contou.

- Pelos deuses. E agora? Ela espera que você conte?

Sam estava deitada na própria cama, a amiga retirando seus sapatos e colocando seu material de estudo na mesinha enquanto conversava com Jonathan. Foram meses tão pesados que a única forma de ver Samanta descansar, era naqueles momentos em que a exaustão falava mais alto do que ela podia suportar. O quarto, uma bagunça sem fim de materiais de estudo, roupas, sapatos e tudo o que a morena possuía. Era um quadro tão diferente do controle com o qual estavam acostumados quando olhavam para ela.

- Sam surtou?

- Não... ela simplesmente desmaiou.

- Estranho... Mas, bom, ela precisa descansar.

- Sim, não discordo. Vou descer para falar com a Kimberly, pode ficar com a Manu um pouco?

- É claro!

Depois de dar um beijo na testa de Sam, ele desceu as escadas pensando apenas em como resolver esse problema da vez, todas as certezas sobre o que ele tinha do que faria, foram esquecidas assim que olhou para Manoela e se lembrou de como Adam a amava como um fruto seu, ainda que não convencional. Era problema atrás de problema e ele era o único capaz de resolver. Não havia como ser de outra forma.

Tomando as mãos de Kimberly foi na direção da varanda e começou a contar tudo o que aconteceu nos últimos meses. A partida repentina de Adam, e a forma como Sam havia descoberto sobre Manu e o fato de que ela não queria conhecê-las. Essa parte, particularmente dolorosa para ele dizer e difícil de digerir, foi recebida com algo de graça, a mulher e Adam não tinham nada, não havia como quando ela tinha certeza do amor dele por Sam. O engraçado era que ela não soubesse disso por si. Enfim, os sentimentos.

- Sobre Manu, eu vou continuar pagando a pensão dela se você desejar, é claro. Sei que não precisa e que ela vai sentir muito mais falta da presença de Adam do que do dinheiro, mas, se eu puder ajudar.

- Pode, na verdade, ela gosta de você e sente falta do pai, ainda que só o visse por um dia a cada quinze dias... Ela gostava da presença dele, vai ser mais fácil se ela tiver você ao lado.

- Ah, sim, é claro! Eu vou fazer o que puder por ela e por você também, não se preocupe com isso.

- Não estou preocupada. Na verdade, queria que a Samanta tivesse reagido diferente.

- Depois de seis meses da morte de Adam, ela ainda chora quando ninguém vê, acho que descobrir que ele tinha uma filha e que ela não tinha ciência disso era algo que ela não tinha como superar dias depois de descobrir. Fiquei sabendo que seus pais morreram, ele me contou... Eu sinto muito.

- Sim, agora somos apenas Manoela e eu naquela casa gigante que me dá arrepios. Mas, estamos indo bem. Já faz um ano e meio que eles se foram, ela raramente os menciona agora.

- É triste que ela já tenha perdido tantas pessoas importantes com tão pouca idade.

- Não é muito diferente de você, pelo que ouvi dizer.

- Adam tinha o mau hábito de falar mais do que deveria.

- Ele te amava como um irmão.

- Sim, e, filhos são o que deixamos de herança para o irmão amado... Com certeza.

Sorrindo um para o outro, Jon a levou para dentro e pegaram a visão de Jaque e Logan conversando com Manu, que aparentemente estava com fome e comendo como uma pequena leoa a torrada que havia ganho de Jaque. A pequena não parecia nem um pouco desconfortável mesmo na presença de pessoas com as quais nunca havia se encontrado antes. Ela gostava da atenção que estava recebendo e foi ficando ainda mais confortável conforme o tempo havia passado.

Olhando no relógio, Jon constatou que ficou pouco mais de uma hora conversando com Kimberly, o que era algo entre um alívio e uma sentença. Sam ainda estava dormindo, o que por si não era espanto, mas, ele precisava saber se ela estava bem.

- Vou checar a bela adormecida e já desço.

- Claro! Manu já está bem ali e eu duvido que queira ir para qualquer lugar.

Subindo os degraus de dois em dois, ele entrou no quarto depois de uma batida suave. Sentada na cama com a cabeça entre as mãos e os joelhos separados, Sam fitava o chão com afinco ferrenho. Nem mesmo um guindaste seria capaz de levantar a cabeça da morena. Ele não podia ver seus olhos, mas pelo brilho no chão, viu que ela estava chorando.

- Sam?

- Agora não, Jonathan.

Ótimo, eles haviam regredido para nomes completos.

- Sam, a Manu... ela não tem culpa.

Como suspeitava, assim que ela levantou a cabeça pôde ver que ela estava com os olhos marejados, as lágrimas haviam manchado seu rosto e o nariz escorria aquele líquido grudento que parecia até meleca de bebês. E, ainda sim, ele só queria agarrá-la e beijar seus lábios até fazê-la esquecer o motivo pelo qual estava chorando.

- Não... Ela realmente não tem culpa. Mas, ele tinha, e aquela mulher também tem. Eu disse que não queria saber delas, não queria vê-las... Porque fez isso?

- Em minha defesa, achei que fosse para a aula hoje.

- Sim, eu ia. E, essa defesa está falha... Já que eu vivo nessa cidade e poderia encontrar com elas em qualquer lugar.

- Sam, tem outro motivo para elas estarem aqui... Eu sou padrinho dela, como te disse, e, ela é herdeira do Adam. Eu precisava que elas viessem também, para que ela conhecesse a avó.

- Não faça isso com ela, pobrezinha, Ellen não é o tipo de avó que eu desejaria para uma criança.

- Ainda sim, pensou em ter os filhos do Adam.

- Com ele ao meu lado, eu teria sem medo. Ela me chamou lá ontem para pedir o anel de noivado de volta, acredita?

- Por isso você estava com aquela cara... Faz sentido.

- Que cara?

- De alguém que acabou de ter o coração quebrado.

Jon se aproximou dela de maneira sorrateira, sorrindo levemente em conforto e pousou uma das mãos sobre a bochecha da mulher com carinho. Eram amigos, por Deus. Ele faria tudo para tirar alguns sorrisos abertos dela. Porém, não parecia o momento correto para continuar fantasiando com ela.

- Se não quiser, não precisa descer eu digo para ela que você está dormindo ainda. Mas, vai perder uma grande oportunidade de conhecer um ser humano incrível. A Manu é maravilhosa. Inteligente, alegre, risonha e ela amava o Adam.

- Jogando culpa diretamente no meu colo? Mereço isso?

- Não estou jogando nada no seu colo, só acho que você devia se permitir, afinal de contas, elas vieram o caminho todo até aqui, te faria bem dar alguns passos na direção dela também.

- Certo... vou demorar ainda alguns minutos para descer, tomar um banho e depois eu estarei lá.

- Sem pressa. Venha no seu tempo.

Sorriram e se despediram e assim que ele fechou a porta ela mirou o olhar diretamente no porta-retratos sobre a prateleira perto da porta. O sorriso de Adam na sua direção, a pupila dilatada sobre o castanho claro, e aquelas covinhas que agora a lembravam Manoela. Era a personificação de seus sonhos. Não faria mal dar a ela uma chance para também fazer parte de sua vida e entrar em seu coração.

Levantando-se com uma visão nova de sua vida, ela caminhou na direção do banheiro no corredor, a visão de seus olhos embaçados pelas lágrimas, as bolsas escuras sobre os olhos e os cabelos jogados por todos os lados não davam a ela a ilusão de que um banho apenas ia resolver as questões. Não faria mal tentar, no entanto.

De ducha tomada, com uma troca de roupas limpas e algum corretivo leve espalhado sob os olhos, ela desceu as escadas, caminhando na direção da pequena criatura que Adam havia gerado sem a sua ciência.

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