Capítulo 5


Quase 4 meses depois da morte de Adam, Samanta estava quase normal agora, seus olhos tinham novamente o brilho de antes e ela conseguia formar pensamentos coerentes sobre o que aconteceu entre eles sem se sentir chorosa ou mal, lembrar dos planos e executar não doía mais. Ela havia aprendido a lidar bem com tudo o que aconteceu, varrer as lembranças para debaixo do tapete e fazer disso uma experiência doce ainda que dolorosa. Logan não permitiu que ninguém mexesse no escritório de Adam, e como a demanda de advogados pelo espaço era pequena, não foi um problema em si. Na tarde da próxima segunda feira, logo depois da chegada de Jon, novamente, em Saratoga, eles fariam isso. Ele passava cada vez menos tempo na cidade, aparentemente os negócios requerem mais a sua atenção do que ele se permitia admitir.

Na manhã da segunda, depois de um final de semana intenso entre ela e os amigos, estudando para a primeira rodada de provas do curso, ela levantou com a intenção de continuar, porém, o peso do anel de noivado ainda em sua mão, fazia algo doer dentro do seu peito, retirando a jóia guardou onde achava melhor, foi a última lágrima que ela se permitira derramar pelo falecido noivo.

- Bom dia, princesa!

- Bom dia, melhor bailarina do mundo.

Assim que Jaque olhou diretamente para ela, notou uma leveza diferente em seus olhares. Concluiu que o tempo havia a curado, porém, não sabia que a verdade era que precisava apenas tirar aquele lembrete diário da vida que perdeu. Para Jon, bastou um olhar para entender que ela havia finalmente se dado o tempo do luto e aprendido a lutar com o que estava vindo na sua direção, Sam era inteligente e sabia que não havia jeito melhor de lidar com tudo além de frente. Ela era tão incrível, como Adam pôde, era a única pergunta em sua mente.

- Oi, Jon. Não sabia que estava por aqui já. Que bom que voltou.

- Eu não perderia isso por nada, estarei aqui pra você.

- Obrigada.

Ela sorriu honestamente para ele, pela primeira vez em muito tempo. Assim que Logan chegou, Jaque que já havia desmarcado as aulas daquela tarde, foi com Sam no banco de trás do carro, enquanto os homens foram na frente. Não havia nada relacionado aos processos que ele cuidava para ser limpo, disso os outros advogados cuidaram. Ela ia apenas ajudar a limpar sua mesa e tirar seus objetos pessoais do lugar. Ao entrarem o cheiro dele ainda estava impregnado nas paredes, eles olharam para Samanta.

- Está tudo bem, gente... Não é como se eu pudesse me esquecer do cheiro dele...

Os livros seriam doados, assim como a calculadora e os móveis, não fazia sentido guardar nada disso. O computador por outro lado e como observado por Logan, faria bem para ela, já que o próprio estava nas últimas. Enquanto mexia numa das gavetas, ela achou um aparelho de celular, estranho... O telefone dele estava com ele no momento do acidente, o que seria aquele? Assim que tentou ligar, notou que a bateria estava morta.

- Logan... Esse telefone é da empresa?

- O que?

- Esse telefone, estava aqui numa das gavetas, é da firma?

- Não... Não usamos telefones da empresa, só o fixo e o email.

- Estranho...

Antecipando o que ela poderia ver ali, Jon tentou dizer a ela para doar também, encarando os olhos quase negros do amigo, ela apenas sorriu e a curiosidade foi muito grande. Assim que ela colocou o aparelho no carregador e ele deu sinal, ela ligou.

- Sam, porque não olha isso em casa?

- Porque eu não sei o que tem aqui e se for algo que deva ser entregue aos chefes do Adam?

- Então deixe Logan verificar...

- Deixe de bobagem, Jonathan. Vamos finalizar isso aqui enquanto o aparelho inicializa.

Como ele pôde ser tão ingênuo? Não havia nem mesmo pensado em dar uma olhada no escritório de Adam antes de deixar a Samanta ajeitar tudo. Agora ela poderia ver coisas que seriam impossíveis de ele não permitir, já que Jaque e Logan pareciam mais focados em obedecer o espírito mandão dela que retornava com força total.

As caixas foram se enchendo de livros e dissertações, os quadros e diplomas seriam entregues para Ellen que não pareceu muito feliz em ficar de fora daquele rito mas não questionou porque considerava que a probabilidade de limparem o depósito dele era mais promissora. Era a vida de uma pessoa pronta para ser entregue nas mãos de alguém que ainda estava vivo, isso deixava Sam pensativa sobre tudo o que estava acontecendo à sua volta e a volatilidade da existência humana. Ela podia lidar com alguns problemas a frente, faria isso por tudo o que aprendeu com Adam. Ele a fazia tão bem que era difícil imaginar a vida sem sua presença efusiva e a forma como ele cuidava de tudo, ainda sim, estava ela ali de pé depois de tantos meses.

Com a ajuda dos amigos, é claro.

O telefone inicializou e com ele uma sequência de bipes inconvenientes, várias mensagens de texto, aparentemente, chamadas perdidas piscavam na tela e assim que Samanta se virou para olhar seus olhos se encheram de lágrimas.

O protetor de tela era a foto de uma criança, impossível dizer que não era próxima de Adam, ela tinha seus olhos, sorriso e as covinhas emoldurando bochechas gorduchas, provavelmente entre três e quatro anos, o cabelo castanho se movimentando em torno do rostinho enquanto ela sorria para a pessoa que havia tirado a foto. O que caralhos...

Logan e Jaqueline se aproximaram dela e assim como Sam, estavam surpresos porém ninguém se atreveu a dar um pio. Jon sabia que a situação por si era embaraçosa demais para colocar em palavras. Ainda vidrados olhando para a tela, o telefone começou a tocar e assim que vibrou pela primeira vez, Samanta deu um pulo e largou a coisa como se estivesse viva e pronta para atacar a qualquer momento. Ninguém se moveu para pegar, as respirações de todos estavam presas em suas gargantas, ainda que ela olhando para Jonathan, soubesse exatamente que para ele, aquilo não era uma surpresa.

O toque cessou e com ele um apito indicando que uma mensagem foi enviada para o correio de voz.

- Sam...

- Porque não parece estar surpreso, Jon?

- Não estou... Podemos conversar?

- Cara, como assim você não está surpreso, a menina é a cara do Adam.

Sorrindo com escárnio para o amigo, ele apenas tomou a mão de Sam enquanto saíam do escritório de Adam. Era melhor conter a explosão dela em algum lugar menos público. Colocando a morena no carro, dirigiu até o local onde haviam feito o piquenique na segunda semana dele em Saratoga. Ele gostava do lugar e era bom que ela se sentisse à vontade para ouvir o que ele tinha a dizer. Quando parou o carro, ela tinha o olhar vidrado encarando o painel do carro e pensando no que era toda essa bagunça que sua vida havia se tornado. Não havia nenhum motivo no mundo para isso estar acontecendo com ela. Ou havia?

- Sam... Eu sinto muito.

- Sente pelo que exatamente? Por ter mentido para mim ou por ter acobertado o Adam?

- Sam, olha só, eu só fiquei sabendo bem depois. Posso te contar o que eu sei, mas, não coloque a culpa de nada em mim.

- Então fala, tudo o que você tem para dizer de uma vez. Eu decido quem culpar.

- Quando Adam foi para a NYU eu fiquei feliz porque o teria mais perto, mas, ele estava muito focado em estudar e eu precisava garantir a minha cadeira no conselho, então nunca tínhamos muito tempo para sair e nos divertir os dois. As poucas folgas prolongadas dele eram passadas aqui com você... Pelo que ele me disse, depois dos exames finais e antes da graduação, ele acabou aceitando sair com alguns dos colegas de turma... E, entre eles estava a Beatrice.

O estômago de Samantha embrulhou. Como ele pôde fazer isso com ela? E porque Jon escondeu isso?

- Era por isso que você estava aqui o tempo todo? Por isso ficou na cidade? Na chance de elas aparecerem você ia ser o cavaleiro de armadura dourada para salvá-las de mim?

- Não, eu fiquei porque eu queria te proteger. Não queria que você soubesse, foi o que o Adam fez por três anos. Ele queria te proteger.

- Ele mentiu pra mim, essa mulher se escondeu... Eu não me sinto melhor em saber que ele queria me manter ignorante sobre o fato de que essa criança existe. Eu me sinto muito mal com isso. Me sinto traída.

- Sam, eu não queria que você soubesse porque essa era a vontade do Adam, não entende? Ele fez tudo o que pôde para te manter protegida. Ele te entendia e amava como o ar que ele respirava, uma atitude estúpida não pode mudar o que você pensa sobre ele.

- Mas, muda, Jon. Muda tudo. Eu não o estou culpando por ele ter feito a estupidez de engravidar alguém... Eu estou puta porque ele escondeu isso de mim.

- Ele não deveria ter feito. Eu sinto muito, de verdade.

- Me leva pra casa.

- Tem certeza?

- Não... Eu nem tenho mais casa.

- Pode vir comigo para Nova York. Eu posso te ajudar melhor lá.

- Sem querer ofender, mas, já ofendendo. Eu dispenso a ajuda...Acho que já tive a minha cota dessa merda pra uma vida.

- Você está falando palavras feias...

- E você está começando a me irritar.

- Mais duas coisas... Eu sou o padrinho da Manoela. E, eu preciso do telefone para falar com a Kimberly.

- Quer realmente me convencer que é tudo o que você sabe sobre isso?

- Adam me disse que eu deveria manter assim, eu sou padrinho dela porque sou o único além dele que sabia sobre ela. Ele poderia ter escolhido o Logan. Mas, acho que isso não seria legal já que a Jaque te contaria uma hora ou outra, enfim...

- Fica com o maldito telefone, fica com tudo... Não quero saber

- Se quiser, pode ir ficar na minha casa na capital. Elas terão que vir aqui...

Sam o olhou pela primeira vez com lágrimas represadas nos olhos, a irritação deu espaço a algo desconhecido em seu peito e ela queria gritar. Além de Adam, elas também viriam para a cidade onde ela morava para tomar conta do que quer que desejassem fazer ali? Porque ele não podia se resolver com elas na casa dele?

- Ellen?

- Sim, vou dar a ela a chance de conhecer a neta.

- Oh, céus... Não posso me ausentar no meio do semestre letivo, Jon. Mas, não quero conhecer nenhuma delas.

Antes de se arrumar para partirem, Jon saiu do carro deixando Sam com os próprios pensamentos, à essa altura do campeonato, a chance de ela se apaixonar por ele estava escapando entre seus dedos, mas, não havia muito que pudesse saber, ela havia descoberto e por mais protetor que ele se sentisse sobre seus sentimentos, realmente não lhe dava nenhuma margem para discussões. Ela tinha o direito de estar brava com ele, com Adam e com o mundo em volta. Se havia alguma coisa que ele fazia bem, era entender esse tipo de sentimento. Quando se assustou ela estava ao seu lado.

- Sei que tem sido difícil para todos nós. Eu só não consigo ainda entender como alguém que jurava me amar tanto, poderia fazer o que ele fez. Não parece um amor muito grande.

- Ele te amava, tanto que fazia quaisquer outros sentimentos parecerem em vão.

- É no que tenho tentado acreditar.

- Está pronta para voltar?

- Eu não queria nem ter vindo aqui...

- Mas precisava, e, às vezes, não fazemos apenas o que desejamos.

- Oh, agora você é o dono da razão?

- Só por um acaso, sim...

Ela sorriu novamente para ele, aquela fileira de dentes bem alinhada e as covas aparecendo nas bochechas conforme ela se aproximava mais e abraçava seu corpo perto do seu. Seriam longos os próximos dias.

- Sobre todo o restante, obrigada. De verdade.

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