Capítulo 4
Jonathan andava de um lado para o outro, tentando entender os próprios sentimentos, enquanto via o quanto era infeliz em permitir que Sam ainda fosse ignorante sobre o que ele sentia. Seus dedos puxavam os cabelos como se espremê-los fosse a resposta para seus problemas.
- Uma moeda por seus pensamentos.
- Não estou afim, Andreza.
- Você está estranho... Como além de foda, sou sua amiga, se quiser conversar estarei aqui.
- Não quero conversar também...
- Porque me chamou para sua casa então, Jonathan? A gente fica quando está afim, mas, não significa que não podemos conversar.
- É tudo por culpa do Adam.
- Como assim?
- Nada, esquece...
- Tudo bem, a galera está indo para a Miller's, quer ir também?
- Não, vou ficar aqui, tenho uma reunião amanhã pela manhã.
- Ok! Você quem sabe... Quando quiser conversar é só chamar.
O dia de amanhã reservava muitas coisas para ele. Não queria apressar nada no processo, mas, deveria encontrá-las o mais rápido possível caso quisesse concluir o que tinha vindo fazer na capital. Agora que estava começando a entrar no coração de Sam, não poderia dar a volta e desistir. Adam era um filho da puta sortudo que não tinha ideia do que estava perdendo quando cometeu aquele erro estúpido.
O dia amanheceu com o sol na cara do moreno sensual de olhos escuros enigmáticos, seu sorriso era característica apenas dos encontros íntimos, isso incluía no momento apenas a dona de seus pensamentos, Samanta! O que será que ela estava fazendo naquele momento? A morena charmosa que conquistou seu coração sem esforço estava entremeada nele como se fosse uma tatuagem gravada na pele.
Antes de sair para a primeira reunião do dia, conseguiu comer e dar uma boa olhada no espelho, suas roupas já não serviam com a perfeição de antes, o luto havia arrancado dele alguns quilos. Seus cabelos foram penteados com os dedos enquanto concluía sem nenhuma resistência que precisava com urgência de um corte de cabelo.
- Jonathan, é um prazer vê-lo, já que agora parece se preocupar mais em ser babá da namorada do seu amigo falecido.
- Cale a boca, DeShaun. A Sam não precisa de babá.
- Já contou para ela?
- Não consegui ainda, estou tentando encontrar elas, mas ainda não tive sucesso.
- Eu sei, teria vindo correndo, saltitante como um coelho caso tivesse. Eu sei que as coisas não estão legais, mas, você precisa entender, Carter já queria a sua cabeça fora da diretoria... Ficar longe dessa forma, vai só aumentar esse desejo.
- Eu sei! Me deixa em paz, eu só preciso garantir que ela não vai descobrir a verdade, nunca...
Ao mesmo tempo em que desejava que ela soubesse de tudo para tirar de cima de si um peso, ele não queria que ela sofresse mais. Seria certamente um processo doloroso e ele arrancaria o coração antes de permitir que isso acontecesse com sua doce Sam.
- Temos uma reunião agora... Vamos logo antes que o velhote resolva cortar minha cabeça de vez.
A sala iluminada pelas janelas de pé direito alto e toda em vidro era o que se esperaria do escritório executivo de uma das maiores fabricantes de brinquedos da região. Jon era modesto o suficiente para se posicionar apenas como um dos maiores da região, a verdade é que era uma das maiores do país.
De jogos infantis, brinquedos sensoriais e de tabuleiro, o trunfo maior em sua manga na verdade, era ser a única fábrica com um programa de apoio para crianças portadoras de autismo, assim como para as famílias dessas crianças. Passo dado por ele quando três anos antes assumiu a diretoria bem como o acesso irrestrito aos fundos destinados a doações e ações sociais.
O terno bem cortado e o cabelo alcançando as orelhas dele, só davam uma visão que as pessoas que o desconheciam poderiam comprar. Acessível, sorridente, bem disposto a ajudar. A verdade, era que esse disfarce lhe cabia bem. Ele era tímido por natureza e lutava batalhas diárias para estar entre as pessoas 'normais'. Varrendo de sua mente esses pensamentos funestos, caminhou sala adentro e se sentou na cabeceira da mesa de 23 lugares.
O vice-presidente DeShaun Williams vinha sentado diretamente à sua direita e abaixo dele e à esquerda os chefes dos diversos setores da empresa, entre Marketing, Produção, Atendimento ao consumidor, Compras, Vendas... cada um deles disposto a fazer absurdos para que ele caísse de seu cargo.
O mais ameaçador, no entanto, Carter Philips, o velhote que era não apenas seu diretor de comercial e operações, mas também seu padrasto. A vida havia sido pouco gentil com o velho, que mesmo tendo mais de 20 anos de experiência dentro da empresa, foi passado para trás quando Jon assumiu a presidência após se resignar do cargo de Operações. era uma disputa acirrada e complicada, já que o mais jovem tinha relações profundas apesar de mais recentes enquanto Carter era apenas mais um na multidão e não fazia questão de ser apontado como uma pessoa de fácil trato. O amigo e vice no cargo de CEO, sempre garantiu a ele que não seria fácil permanecer no controle da empresa se ele não tivesse pulso firme e ficasse mais atento. Ficar fora por dias para cuidar de Samanta era uma fraqueza que ele não poderia se dar ao luxo naquele momento.
- Vejo que vossa alteza nos honra com sua presença.
- Eu jamais desonrei, Carter. É um prazer vê-lo, como sempre.
- Não diria exatamente um prazer, mas, vamos caminhando, não?
- Já que está mau humorado, vou me direcionar a alguém mais agradável. Como vai Jocelyn? E as crianças?
- Muito bem, senhor.
- Nada de senhor, me chame de Jonathan.
- Oh, é claro, Jonathan... Ainda é difícil se acostumar com isso.
- Já faz três anos que repito a mesma coisa. Já deveria estar ciente. - Piscando de maneira gentil e sorridente para ela, saltou da cadeira e foi para a frente da sala, enquanto as cortinas baixavam. - Senhoras e senhores, é um prazer novamente nos encontrar. Gostaria de começar falando sobre os números dos últimos 60 dias. Vocês verão no gráfico que estamos nos saindo bem. Com relação à nossa concorrência, tivemos um crescimento de 0,6% acima da projeção do nosso setor de Marketing. Obrigada, Dana, você e sua equipe fazem total diferença no nosso trabalho. Agora sobre o setor de produção, eu gostaria de pedir uma salva de palmas para Todd e sua equipe, que fizeram excelentes progressos no aceleramento de liberação.
Demonstrar que estava mais que ciente de tudo o que se passava na empresa, era uma prova de poder sobre Carter. Aquele velho bode jamais poderia sonhar com a possibilidade de que sua mente estava imersa ainda na impressão de cabelos castanhos ondulados passando sobre seu peito nu. Jonathan era um homem conciso, polido, inteligente e muito afiado para todos os outros. Mas, se numa jogada de azar, o padrasto resolvesse abrir a boca, ele teria problemas.
A reunião foi finalizada com todos se sentindo parte de uma engrenagem lubrificada e pronta para a próxima reunião bimestral, bastava que todos se esforçassem com afinco para que atingissem um objetivo comum. Jon engajou toda a empresa na doação de brinquedos durante os últimos dois anos. À cada cem unidades produzidas, cinco iriam para abrigos, clínicas de reabilitação de fisioterapias infantis e outras entidades que cuidam da saúde física e emocional das crianças.
- Sua mãe quer te ver... Ela me pediu para dizer antes de você voltar para Saratoga.
- Ela tem meu número de telefone, porque pediu para você me avisar?
- Não sei, apenas passei o recado.
- Carter... - Seus olhos fitaram o homem à sua frente, DeShaun passou pela porta ainda aberta, fechando-a na saída. - Eu gostaria de falar com você sobre seu posicionamento dentro da empresa.
- O que há sobre isso?
- Já estou sabendo que você gostaria de me remover do cargo. Um aviso, eu não levo muito bem ameaças contra o meu trabalho.
- Eu nunca...
- Sei bem o que você quer, e não me interessa os motivos, Carter. Não me convença a pensar em você de outra forma além de um pequeno estorvo.
- Vai se arrepender disso, Jonathan.
A situação com o padrasto era bem essa, discussões sobre a forma como cada um deles faria a gestão do negócio. De certa forma, Jon entendia o porque de ele parecer cuidar de tudo. Infelizmente, não era a gestão que ele planejava dar à fábrica e assim à toda a corporação.
Sentando-se à mesa assim que a sala foi esvaziada, ele meditou sobre as possibilidades. Poderia continuar caçando as agulhas no palheiro, ou poderia voltar e aguardar que elas se apresentassem. Não faria nenhum mal continuar ao lado de Samantha e aguardar, porém havia mais de sua vida para cuidar. Assim, naquela mesma noite iria visitar a mãe antes de no sábado, voltar para a cidade.
O apartamento vazio, sem os sorrisos dela fariam bem à ele, pelo menos era o que ele dizia a si mesmo, assim que se encontrou parado dentro do cômodo observando a vista da cidade. Para o centro da cidade, e através do rio, podia observar alguns movimentos, padrões. Esse tipo de rotina era bom para a mente dispersa dele. O diagnóstico que os tirou de Saratoga foi compartilhado apenas com Adam, e, ele havia levado seu segredo para o túmulo. Carter sabia, no entanto, faria o que fosse possível para tirar Jon de seu cargo assim que houvesse uma oportunidade. Seus mundos estavam colidindo entre si, ele tinha certeza de que teria menos argumentos para usar com Samanta caso não acelerasse o processo, ainda que nada disso fosse sua culpa.
Os dias estavam passando, ele não poderia continuar brincando de príncipe encantado, principalmente agora que ela parecia entender que ele também estava sofrendo. Porque era tão difícil fazer o certo?
Bastava que conseguisse encontrá-las e prometer o que quer que Adam havia prometido para que elas não se aproximassem de Sam. Passados três meses sem sinal delas, tinha que ter uma explicação. Já havia procurado os registros da mulher por todos os lados. Ela simplesmente desapareceu de suas vistas e assim como ela a criança. Ele tinha que dar um jeito nisso. Não faria bem para ninguém que Sam descobrisse ainda que houvessem passado tantos anos e o homem não estivesse mais entre eles para lidar com as consequências.
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