Capítulo 2
Jon só podia estar tentando irritá-la. Até mesmo sua voz falando ao telefone era entediante e a fazia querer arrancar aquele sorriso convencido dele da cara. Estava tomando café da manhã com Jaque e Logan quando eles começaram a se levantar, Logan ia para o escritório e Jaque para o instituto de dança. Como bailarina profissional a amiga sempre dava aulas em dois turnos e inclusive havia se disposto a ajudar Sam nas aulas de anatomia.
- Eu não quero saber, pedi para que fizessem isso há mais de uma semana. Quero saber porque ainda não foi feito.
Aquele humor não era o matinal comum do homem que estava sempre sorrindo. Ele foi para a varanda e com despedidas o casal saiu deixando Sam para trás. A rotina era essa. Ela estudava de manhã em casa, trabalhava de tarde e suas aulas começariam logo em breve no período da noite. Era uma rotina simples para ser seguida. Ajudavam-se na manutenção da casa e faziam tudo o que era possível para não querer se matar durante a passagem dos dias. Teria pouco mais de um ano para arrumar sua vida e conseguir se mudar, isso faria bem para todos.
A porta da varanda foi batida quando ela estava de costas e colocando café na xícara, ela continuou sentada onde estava.
- Não se pode contar com ninguém, não é?
O sorriso característico estava de volta naquele rosto, os dentes brancos alinhados sorriam para ela, enquanto seu corpo magro entrava através do portal da sala. Ela podia vê-lo em toda sua glória matinal, com um pijama comprido e os cabelos bagunçados parecendo que havia acabado de acordar de um pesadelo.
- Porque você está aqui, Jonathan?
- Como assim, porque?
- Porque você ficou aqui, porque não vai fazer o que quer que faça quando está na sua casa?
- Sam, eu...
- Você o que? Nem parece que amou Adam, ou que sente a falta dele.
Ela se retirou da mesa deixando um pensativo Jonathan para trás. Os olhos negros dele tinham algumas lágrimas represadas, ela havia batido tão fundo em uma ferida que talvez nem mesmo ele pudesse ter chegado. Ela não notara em suas lágrimas, nas olheiras, na falta de apetite ou em qualquer outro sinal de luto e dor que ele tinha. Estava tão mesquinha em sua agonia, que não percebeu os sinais de ninguém além dos seus.
Aquele não era o momento de ela ser altruísta, sempre cuidava de todos em volta, não faria muito mal cuidar de si mesma, ainda que a achassem egoísta. Só ela sabia o que estava acontecendo fundo em sua alma. E não achava que pudesse ser julgada por ninguém em volta.
A manhã foi enfurnada entre livros, aprendendo tudo o que havia esquecido desde que saíra do colegial anos atrás, tentando fazer com que seu cérebro funcionasse e saísse do modo automático no qual se enfiara desde que havia recebido aquela notícia devastadora. Biologia e química, eram suas novas melhores amigas. Ela queria pelo menos ter uma noção do que estudaria dali para frente e que isso facilitasse a volta à uma rotina mais saudável que incomodar os amigos.
Não percebeu no entanto, quando Jonathan estava fitando suas costas e procurando por um motivo para se aproximar. Ele sempre achou que eram perfeitos um para o outro, Adam e Samantha eram como fogo e gasolina numa maneira poética de se colocar. Havia um balanço interessante entre eles, algo que ela sempre colocava em equilíbrio nele. Apesar de amá-la como nunca poderia colocar em palavras, quando foram apresentados alguns anos atrás, ele simplesmente concluiu que ela estava melhor como amigo.
Ele havia crescido na cidade também, dois anos mais velho que Adam e Logan, eram amigos por proximidade e gostos. Depois que seus pais resolveram se mudar da cidade para a capital do estado, ele vinha ocasionalmente e recebia a visita dos amigos praticamente em todas as férias do ano letivo. A amizade durou anos e com ela, a proximidade de Samantha tomou um rumo inesperado. Ele invejava o amigo, de certa forma.
Apesar de ser uma pessoa profissionalmente realizada e ter conseguido se firmar na carreira que escolheu, nunca conseguiu encontrar nenhuma mulher que despertasse tanto seu interesse e apreço quanto a morena que se negava até mesmo a olhá-lo nos olhos. Ele sempre vivia numa corda bamba com ela. A pouca proximidade que tinham parecia ter se desfeito como um laço desfeito em menos dias do que ele gostaria.
Antes de se sentir um stalker pior do que já se sentira até aquele momento, rumou para o próprio quarto, havia telefonemas para fazer e pessoas com quem falar. Ele não esperava que tivesse de ficar tanto tempo ali, estava se esgotando a disponibilidade de tempo que ele tinha para aquela empreitada, mas, jamais sairia dali sem ter a certeza de que estava tudo certo.
Mesmo depois de um mês em que ela parecia mais humana novamente, nada de sinais. Ele deveria saber melhor que isso e procurar não fazia sentido, não tinha ideia de onde elas poderiam estar.
- Sam, cheguei.
Jacqueline chegava sempre no mesmo horário, pontual como um relógio suíço. Seus cabelos presos num coque muito apertado, fazendo sempre a morena se perguntar se ela não tinha dores de cabeça constantes.
- Estou descendo.
As escadas eram silenciosas, e os costumeiros passos sorrateiros da mulher também. Ao chegar à cozinha visualizou a amiga num collant preto com uma saia longa e sapatilhas. A verdadeira bailarina encarnada logo ali na cozinha.
- Vou começar a fazer o almoço. Quer me acompanhar?
- Claro, já estudei durante boa parte da manhã, acho que parar agora até vai me fazer bem. Tenho que estar no trabalho à uma da tarde, hoje.
O relógio sobre a geladeira marcava onze e quarenta e cinco. Ótimo horário para começarem a fazer o almoço. Com uma refeição para quatro pessoas pronta em menos de trinta minutos, Sam não podia mais esperar por Logan. Ele não tinha horários fixos para estar em casa como as mulheres e isso fazia a rotina do almoço uma roleta de surpresas.
- Jonathan, almoço.
Nos primeiros dias dessa rotina, a morena fuzilava a amiga com os olhos, conforme eles foram passando, ela caminhava para uma indiferença prática. Não fazia sentido continuar gritando com ele, ainda que as verdades pudessem ser mais dolorosas para ela do que eram para ele. Quando desceu de banho tomado, ele cumprimentou Jaque e disse em poucas palavras que ia fazer uma viagem à capital, tratar de assuntos pessoalmente e que retornaria em uma semana.
Provavelmente a decisão de ir era devido à animosidade de Sam, ela não o queria por perto apesar de nem saber ainda que precisava dele por perto. Ver aquele anel pesando em seu dedo fazia com que ele se sentisse mal por não ter conseguido dizer à ela ainda. Criaria coragem quando retornasse, ele tinha certeza disso.
O restante do dia passou-se de maneira tediosa, o trabalho foi apenas mais do mesmo, assim como cada um dos aspectos dos últimos 40 dias. Não era possível que já houvesse passado tanto tempo, e, ela mal se desse conta disso. Durante a noite ela rumou para a escola técnica da cidade, a única que tinham. A senhora da recepção passou os documentos que ela deveria levar, as aulas começavam no início do semestre letivo, o curso tinha duração de um ano e meio, sendo que o último semestre era praticamente um estágio ostensivo no hospital da cidade.
Poderia parecer um passo pequeno, mas, ela estava caminhando na direção de seus sonhos. Adam não havia deixado muita opção, à não ser essa. Lute por si mesma. Faça por si mesma, orgulhe-se de quem você é.
Não que ele não houvesse dito tudo isso à ela durante toda a vida. Ele era uma pessoa diferente... as lágrimas vinham só de ela pensar nele dessa forma. Não havia um motivo no mundo para que ela se sentisse bem na ausência dele.
Os documentos foram preenchidos, as cópias de seus comprovantes foram feitas e ela estava oficialmente matriculada no curso técnico de enfermagem. Seu corpo mal cabia tantas vibrações que tomavam conta dele. A felicidade começou a irradiar dela e pouco mais de vinte minutos depois entrava na casa de Jaque e Logan com o maior sorriso desde que Adam partiu.
- Eu consegui, finalmente consegui. Estou tão feliz.
A sombra que ela viu na cozinha contrastava com a sua alegria, Jon estava todo de preto com os cabelos penteados para trás. Seu jeito sombrio a fez lembrar de coisas negativas, mas, foi eclipsado pelo abraço sincero que recebeu dos demais amigos.
- Estamos orgulhosos de você.
- É! Estamos sim! Birita para comemorar.
Jaque e Sam se sentaram à mesa enquanto Logan trazia os copos e uma garrafa de vinho. Enquanto os copos eram enchidos e esvaziados, Jon apenas a observava. O leve rubor em suas bochechas e a forma como ela sorria, virando copos e mais copos de bebida, os dedos dela envolvendo o copo frio o tocando só com as pontas, o contrair do nariz dela negando qualquer coisa que era dita à ela... até a forma de ela fechar os olhos e piscar longamente estava dando à ele visões libidinosas.
"Controle-se, filho da mãe."
Seu cérebro estava entrando em combustão com tanta confusão à sua volta, ele queria agarrá-la e dizer a ela o quanto era apaixonado. Será que seria julgado por ela quando dissesse que sempre foi? Ele não sabia o que fazer, então estava bebendo como os demais, virando copos da bebida doce enquanto sorria e fingia prestar atenção em todos de maneira igual.
Longe dessa verdade, só tinha olhos para ela.
- Então... preciso realmente pensar no que fazer ano que vem, terei estágio supervisionado de acordo com eles.
- E vai fazê-lo.
- O problema é o meu trabalho, só se eu pegasse algum plantão de sete da noite às sete da manhã. Isso vai me dar poucas horas de sono, mas, vai valer a pena.
- Não sabia disso, Sam. Vamos dar um jeito, não é Logan?
- Claro meu docinho de coco cremoso. Vamos fazer tudo pela Sam.
- Eu acho que ele já está muito bêbado. Jaque... Vai com ele para cima e eu dou um jeito aqui na cozinha.
- Não estou nada bêbado, senhorita sabichona.
- Eu acredito que esteja meu amigo alcoolizado. Vão logo.
- Você é a melhor, Sam...
- Sim, agora a docinho vai me colocar na cama depois do banho. Ela tem um jeitinho todo especial de fazer isso, não é?
Vermelha o quanto sua pele permitia ficar, Jacqueline levou o noivo para o andar de cima. De maneira aparente, Sam havia se esquecido da presença negra de Jonathan... Ele estava tão quieto e a observava como se fosse um pedaço de carne prestes a ser mastigado. Provavelmente era outro que estava mais que bêbado.
- Havia me esquecido de você aí...
- Percebi.
- Vai querer continuar bebendo ou posso recolher os copos e as garrafas? Nossa! Como conseguimos beber quase cinco?
- Mulheres adoram vinho... É praticamente genético.
- Você entende de mulheres, não é?
Ela não sabia se era o vinho ou ela mesma falando. Nunca trocava muitas palavras com ele. Havia algo de misterioso em torno de Jon e sua reputação, assim como toda sua vida. Adam nunca comentava sobre o que ele fazia para ganhar a vida, ela sabia por algo que era algo relacionado à uma empresa de grande porte... Nada além. E, como nunca havia se sentido curiosa à esse respeito, até aquele momento parecera bastante irrelevante.
- Entendo um pouco, é claro. O manual completo não acredito que nenhum homem vivo tenha.
- Nem nenhuma mulher também... O ser humano por si, não tem manual. Que ideia boba.
Ela sorria e estava com as bochechas ainda mais afogueadas pensando em sexo pela primeira vez depois da morte de Adam. Algo no movimento daquela boca vermelha e aqueles olhos pretos sobre ela, junto com os cabelos que de tanto puxar ele tirou do lugar... Era de certa forma tão lindo. Por isso todas as mulheres queriam abrir as pernas pra ele.
- Deveriam. Mulheres tem muitas nuances, totalmente diferentes dos homens, que são até bastante simples. Precisamos de pouco para nos sentir felizes de fato.
- Um par de pernas e um boquete bem feito, não é?
Ela não dirigia palavras à ele, o evitava como se fosse algum tipo de praga a ser extinta e de repente estava falando sobre pernas e boquete? O que havia naquelas garrafas? Não podia ser vinho. Sua ereção discordava de seu pensamento e pedia a ele para continuar falando bobagens. Era a forma mais fácil. No entanto, seu cérebro como sempre, ganhou a batalha.
- A senhorita precisa de um banho quente e cama. Está começando a delirar.
- Não estou não.
Jon se levantou e após juntar os copos e as garrafas, colocar o que era necessário no lixo e limpar o que podia ser limpo, se virou. Samantha estava com a cabeça repousando sobre o braço, debruçada sobre a mesa e com os cabelos castanhos em cascata sobre eles, espalhados pela mesa. Seria a maior das visões de paz para ele, caso não estivesse começando a roncar de maneira muito audível.
- Sam, acorda...
Ele cutucou, chamou e pediu para tudo que era sagrado para que ela acordasse por si e subisse. Mas, seus dias de sorte pareciam longe do alcance e ela apenas resmungou algo inteligível.
- Okay, princesa. Vamos para a cama, então.
Pegou a mulher no colo e com certa dificuldade subiu com ela pelas escadas. Sam não era pesada, mas, o álcool o estava fazendo uma de suas vítimas. Ao entrar no quarto que ela ocupava, os livros e cadernos que usava para estudar estavam sobre a cama, depois de afastá-los da melhor maneira que conseguiu depositou a mulher e acabou de ajeitar tudo à sua volta. Ela parecia um anjo quando perdia aquelas rugas entre a sobrancelhas, fazia com que ele quisesse beijar seus lábios e mantê-la nessa paz.
De maneira coordenada ele tentou tirar seus sapatos e meditou se seria bom deixa-la dormir de jeans mesmo. Concluindo que tirar suas roupas seria invadir sua privacidade, ele apenas se afastou tremendo levemente. Depois de cobrir seu corpo, beijou sua testa de maneira gentil e estava se virando para sair do quarto quando a ouviu sussurrar.
- Você não devia ter me deixado aqui assim... não devia.
Havia um caminho grande a ser percorrido até seu coração, e, ele faria o que fosse necessário para isso acontecer.
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