Capítulo 1
"Você é muito doce, raio de sol... A melhor pessoa que eu conheço."
Aqueles sonhos sempre com a voz de Adam dizendo coisas amorosas enquanto tocava seus cabelos, sorrindo com os olhos daquele jeito doce que só ele tinha, adorando cada parte da pessoa que ela era... só podia ser um sonho mesmo. Seus olhos se abriram com dificuldade, encarando o teto do cômodo que estava escuro e vazio, as cortinas deixavam passar raios solares entre suas frestas e a faziam se sentir incomodada com a claridade feliz do sol, ainda que não fosse sua culpa ela estar se sentindo mal ainda.
As pessoas tinham deixado que se habituasse à solidão, de certa forma. Levando em consideração que o velório não tinha nem 2 dias completos, pelo menos pararam de aparecer em sua porta com tortas e doces feitos em casa. Logan e Jacqueline foram de extrema importância nisso. O casal de amigos que agora estavam no andar de cima da casa decidindo entre chama-la ou não para morar com eles, eram os melhores amigos do casal feliz. Logan era como Adam, advogado.
Adam...
O filho pródigo da cidade, melhor jogador do seu ano, presidente do grêmio estudantil, sacristão da igreja, voluntário na limpeza do ginásio da escola desde os 10 anos de idade... O cidadão modelo, invejado por todos os caras da cidade, desejado por todas as garotas, um grande cara. Todos invejavam o relacionamento entre eles.
Sam e Adam se conheceram quando ela se mudou com o pai aos 12 anos vinda de Washington onde parte de sua família distante ainda residia, órfã de mãe sempre teve mais amigos meninos e foi num jogo de beisebol que ela conheceu os que agora formavam sua família. Jacqueline, Logan e Adam aceitaram-na como parte da turma e ali iniciou-se o romance.
É certo que nem tudo foram flores. Quando ela ficou órfã de pai aos 16 e se viu sozinha no mundo, quase foi entregue para uma tia que queria ficar com alguma parte da poupança que o pai havia feito para ela, Adam jurou que cuidaria dela e foi basicamente isso que ele fez desde aquele dia. Morar na república tinha suas desvantagens, eles nunca podiam ficar sozinhos, mas, era bom porque não tinha que pagar aluguel. Combinaram de que ele estudaria primeiro e cumpriria seu sonho de se tornar advogado para defender os que precisassem, se casariam e depois ela concluiria o curso de enfermagem que sempre desejou fazer. Era um bom plano.
Assim fizeram... ou pelo menos tentaram. Adam foi para a NYU, como estudante modelo e namorado incrível, o caminho de duas horas e meia dirigindo até o interior era feito alegremente todo final de semana em que ele não tinha de estudar para provas, concluiu com honras o curso de direito, voltou para a cidade mudado e muito mais homem. Ficaram noivos menos de seis meses depois de ele retornar, marcaram a data tão aguardada desde os 15 anos dela e enquanto arrumavam tudo para o casamento, o que incluía alugar uma casa maior, o sonho dela de ser enfermeira foi se adiando.
O emprego de meio período só a deixava pagar as contas mais básicas e havia meses em que faltava, ele disse que daria um jeito. A falta de curso noturno mais rápido e a necessidade de estudar integralmente não a deixariam trabalhar logo em breve, principalmente na época em que fosse necessário o estágio, ele disse que daria um jeito. A vida financeira dela não ser compatível com a dele não era um problema, para aquele homem incrível, tudo sempre se resolvia.
Adam era todo sobre controle e sabedoria com aqueles olhos azuis incríveis que encaravam a noiva com todo amor e devoção que seu coração poderia ter. Eles eram perfeitos um para o outro, loucos de amor e totalmente felizes em estarem juntos à tantos anos. Eles se amavam e apoiavam em tudo então, como Deus foi capaz de tirá-lo dela? A consciência súbita de que naquele momento não tinha nem mesmo para onde voltar, era aterradora.
Com 23 anos, sem fazer ideia do que estava acontecendo em sua vida, preocupada com cada mínimo aspecto do qual ele sempre cuidara, Samanta estava perdida em incertezas e dúvidas, não devia ter ficado tão dependente dele mas estava tão perdida na época que fez sentido. Seus passos foram ouvidos quando caminhou na direção da cozinha, tudo embalado para se mudarem para a casa maior onde morariam assim que voltassem da lua de mel.
- Já acordou, Sam?
- Sim, Jaque. Como você está?
- Essa pergunta é nossa. Como está?
- Viva e respirando como sempre. Dormiram bem?
- Não muito...
- Vou te dar uma das minhas pílulas. Onde está o Logan?
- Está conversando com Jonathan, aparentemente ele vai ficar mais uns dias na cidade.
- Fantástico!
- Porque não gosta dele?
- Nada pessoal. Só o acho infame e sem modos.
- Sim, nada pessoal, posso ver.
A caneca favorita de Adam estava na bancada, virada de boca para baixo como sempre. Paranoico. Um sorriso brincou em seus lábios antes de uma lágrima grossa correr face abaixo antes que a conseguisse parar pelos esforços extenuantes, estava mais que cansada já dos últimos dias em que teve de fingir para todo mundo que ficaria bem. Para Jaque e Logan ela não precisava mentir e fingir. Estava arrasada e sem saber o que fazer da vida naquele momento. Sabia que não precisava esconder suas lágrimas de Jaque, era sua melhor amiga. Pensou em tudo que iam viver juntos e a constatação de que não vai mais acontecer a assustava muito.
- Sam...? Oh, meu amor.
Logan entrou na cozinha e olhou para ela com toda a dor que também tinha no peito. Era como um irmão de Adam. Na cidade, não havia nenhuma pessoa que não o amasse como se fosse da família. O abraço veio forte e quente. Três pares de braços se agarrando como se pudessem curar e retirar a dor que sentiam na alma.
- Sam! Olha só... você não pode ficar aqui sofrendo dessa forma solitária. Vamos fazer um acordo? Você pode morar com a gente até darmos um jeito de ajudar mais que isso.
- Não...
- Sam, por favor, que amigos seríamos se deixássemos você aqui?
- Eu... não sei. Não quero incomodar.
A verdade, é que ela não sabia como agradecer, não conseguiria bancar o aluguel sozinha, era muito pesado para um emprego de meio período. Se dividisse a moradia com Logan e Jacqueline, poderia talvez até tentar fazer algum curso noturno na área que gostaria de se formar, valeria a pena tentar.
- Você vai incomodar se ficar aqui, vamos?
- Vou pensar e...
- As coisas já estão arrumadas. Basta colocar os essenciais no carro e vamos para casa, amanhã colocamos as outras coisas num depósito e vemos depois o que fazer. Vamos logo!
Logan era advogado, como tal, lógica era uma das coisas que mais praticava em seu dia a dia. Sabia que ela não tinha como manter o lugar sozinha, não tinha como trabalhar mais horas se queria cumprir com o curso que já havia combinado com Adam, não fazia sentido ela ficar sozinha acumulando dívidas numa casa onde não ia mais poder morar. Muito melhor ir morar com eles. Jacqueline não se importaria, eram superamigas.
- Samanta Donovan... você tem 3 minutos para se decidir. Esperaremos no carro.
Jaque saiu puxando Logan pela mão e sentaram-se no carro. De repente, olhando para tudo à sua volta, todas as lembranças, ela não saberia lidar bem com elas. Seus olhos foram do descansa copos até as fotos pregadas na geladeira e tudo o que isso significava para ela. Seus anseios e desejos de uma vida com Adam todos encaixotados nos cantos dos cômodos da casa.
Um sobrado charmoso de um quarto no andar superior e três peças no andar debaixo, sua casinha. Ela não queria mais olhar para nada do que estava ali, então menos de 3 minutos após a partida do casal, ela seguiu fechando a chave a porta da frente, com nada além de uma mochila nas costas, seus olhos cheios de lágrimas e os sonhos embalados para viagem.
- Decidiu ouvir a razão, vamos logo que já estou morrendo de fome.
Jacqueline era uma figura divertida e sorridente em seus olhos castanhos e cabelos negros até o meio das costas. Logan observava os sorrisos das mulheres e imaginou que aquele era o primeiro sorriso de Sam desde que receberam a notícia. Como excelentes amigos se conheciam como a palma das mãos.
A chegada na casa foi feita sem problemas, noivos também, o casal ficou feliz de receber a amiga que precisava de apoio no momento, só não poderiam imaginar que a presença de Jonathan ia desconcertar tanto Sam. Os dois nunca se deram bem e ele nunca entendeu o motivo, em sua concepção a amizade entre Adam e o cara era uma coisa positiva, ele era meio exagerado mas parecia ser uma boa pessoa.
A mulher se isolou na varanda deitada na rede com fones de ouvido, provavelmente escutando alguma balada antiga ou um pop no estilo Sam Smith ou Elton John. Seus olhos perdidos no movimento das folhas tocadas pelo vento, enquanto isso Jaque tentava convencer Jon a se comportar com a mulher.
- Você tem que entender que ela passou por muito nos últimos dias, a última coisa que precisa é das suas piadas de mal gosto ou da sua forma típica de irritar as pessoas, está me ouvindo Jonathan?
- Alto e claro. Eu não vou incomodá-la.
O almoço se seguiu com uma situação desconfortável da qual ninguém parecia certo da fonte. Dos três quartos de hóspedes, dois agora estavam ocupados. Samanta levou todos os pertences dela para um depósito e colocou a maior parte das coisas de Adam para doação, era o melhor a fazer e antes que desse conta a primeira semana passou voando como se houvesse algum deus responsável por fazer o tempo voar ao invés de passar na velocidade normal.
A primavera florescia com todos se dando um pouco melhor, apesar de ainda estar magoada com a presença de Jonathan sabia que ele estava ali por algum motivo e não estava interessada em descobrir qual era. Deveria voltar ao trabalho e conversando com Logan descobriu que poderia ser de ajuda para coloca-la num curso noturno, faria enfermagem como sempre sonhou, finalmente. A vida parecia lhe sorrir novamente ainda que houvesse custado a chegar nessa conclusão, sabia que havia uma chance de as coisas realmente melhorarem.
Quando voltou ao trabalho, pouco antes do combinado anteriormente. Não queria ter que lidar com os olhares de pena que encarou. Por viverem numa cidade mínima em tamanho, todos se doíam pelo que havia acontecido entre ela e Adam. Ela se sentia mal por não conseguir corresponder às demonstrações de pena. Com o passar dos anos e a ausência dos pais e agora de seu único apoio, o que ela mais queria era continuar sendo forte.
- Sinto muito por tudo o que passou.
Alvin, um de seus colegas de trabalho disse assim que ela se sentou em sua mesa para voltar ao trabalho.
- Tudo bem, Alvin. Obrigada.
- Fiquei sabendo do acidente no outro dia apenas, eu queria ter ido mas, sabe como é. Martha odeia funerais.
- Não precisa se sentir culpado, eu não teria ido se pudesse.
- Sinto muito, de verdade.
Ela estava fugindo disso, dos pêsames e das palavras que teimavam tentar consolar o seu coração que estava ainda partido. Uma semana longe não era o suficiente para apaziguar a dor que ela sentia. Seus sentimentos estavam confusos e ainda sim ela não queria ser grosseira, principalmente com quem tentava apenas ser gentil.
- Samanta?
- Sim?
- Pode vir à minha sala, por favor?
- Claro, senhor. Só um momento.
Juntou às pressas alguns papéis espalhados em sua mesa, trouxe os últimos dados das análises fiduciárias que estava fazendo antes de tudo acontecer. Seu emprego agora, era a única corda de salvação que tinha por segura nessa bagunça toda que sua vida tinha se transformado. Com a mão pequena bateu na porta do gerente, Joseph era um homem velho, na casa dos 60, tinha um gosto duvidoso para vestimentas usando sempre muito xadrez. Tinha o coração de ouro e sempre era gentil com todos à sua volta.
- Me chamou senhor?
- Sim, sente-se. Por favor. Sam... Como você está, meu doce?
- Não me sinto muito bem, mas, estou pronta para trabalhar.
- Preciso que esteja focada, Sam. Não posso mais te dar folga, mas, posso ajeitar uns dias pra você se recuperar e trabalhar de casa. Pode ser?
- Não... Prefiro trabalhar daqui mesmo, desligar a mente.
- Bom, como quiser. Preciso que aqui esteja focada, ok, meu bem?
- Sim, senhor. Vai ficar tudo bem.
Com o passar dos dias as coisas voltavam à normalidade e ela estava começando a se adaptar à vida sem Adam, a verdade, é que ela estava apenas aprendendo a conviver com a dor. Não era certo que o esquecesse, não é? O anel de noivado sempre em seu dedo mesmo depois de um mês que ele havia se despedido do mundo, era um lembrete constante de que ele havia vivido um amor com ela. E que ele havia sido perfeito.
~~*~~
A Sam não é tão mau humorada quanto parece, gente... É uma fase <3 kkkkk vai passar.
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