Capitulo 5
Corri poucos passos e me joguei no chão de lado, com as mãos ao redor de Aurora. O som da explosão fez minha cabeça doer. Levantei desorientada, havia sangue respingando em minha roupa. Pedaços de zumbi estavam por todos os lados, a rua banhada em sangue, como uma cena de filme. O posto pegava fogo, o cheiro de fumaça era insuportável. Aurora chorava sem parar, tentava acalmá-la ao mesmo tempo que tentava me acalmar, tinha um zumbido persistente em meus ouvidos.
— Você está bem? — Otávio perguntou, tocando em meu ombro. Assustei-me, não o tinha visto se aproximar.
— Sim — murmurei.
Ele e Ayla estavam mais sujos que eu. Vi a menina chutar um pedaço de pé, a vontade de vomitar era absurda.
— Vamos para aquela casa, parece a mais segura daqui. — Otávio apontou para uma residência com muros enormes, cobertos por arame farpado.
Segui atrás dele, dando uma mamadeira de água para Aurora, que já estava mais calma.
— Ayla, me passa o grampo. — ele pediu para sua filha.
Ayla logo pegou do bolso de sua calça um grampo de cabelo.
Observei atentamente o homem destrancar o portão com enorme destreza, digna de um ladrão.
— Você é um ladrão, soldado ou assassino? — perguntei sem me conter.
— Você não gostaria de saber — ele falou rindo enquanto Ayla empurrava o portão.
Seu riso foi cortado ao ver uma arma sendo apontada para a cabeça de Ayla.
Minha mente pareceu ficar em branco.
A mão da mulher tremeu ao perceber que sua arma estava apontada para uma criança, sua mira se elevou para minha direção, porém, quando viu Aurora, que virou o rosto em sua direção, sua pele se tornou pálida.
— O que vocês querem? — ela perguntou, agora apontando a arma para Otávio.
O medo era nítido em seus olhos. Ela tinha uma arma apontada para seus invasores, mas tinha mais medo de nós do que nós dela.
— Só queremos um lugar para ficar até as coisas se acalmarem. Não vamos fazer nada, já iremos embora.
A mulher parecia ter uns trinta anos, sua descendência asiática era nítida, com longos cabelos pretos e olhos puxados. Tinha intensas olheiras negras e estava tão magra que parecia doente.
— Vocês foram mordidos? — ela perguntou nos analisando.
— Se tivéssemos sido mordidos, não estaríamos tão bem, minha senhora — Otávio falou, sua voz cautelosa. Estava parado, mas sua mão não soltava de sua arma, seu olhar atento não saia das mãos da mulher.
Ela nos encarou, sua expressão era de desorientação.
— Mãe! — uma voz de criança ressoou de dentro da casa.
A mulher olhou para trás e logo para nosso grupo novamente. Ao mesmo tempo, Otávio atirou em um zumbi que apareceu na esquina.
— Entrem — ela falou suspirando.
O quintal da casa era lindo, repleto de flores, uma grama tão verde que nem parecia real.
— Mamãe, quem são eles? — um menino perguntou. Ele usava uma cadeira de rodas.
Quando o vi na varanda, entendi a preocupação dela. Não teria como fugir com ele, deveria ser desesperador não saber como salvar seu filho naquele caos, e qualquer pessoa poderia significar o fim para eles.
— São amigos da mamãe, meu amor — ela respondeu sorrindo.
— Oi, sou Otávio — ele falou alegremente.
— Meu xará, me chamo Otávio também, e essa é minha filha, Ayla. — o homem falou apontando para a menina, que sorriu, acenando para o menino.
— Eu me chamo Blair, e essa é Aurora — falei, dando um beijo em sua testa.
— Como a bruxa? — ele perguntou, mas diferente da zombaria que eu estava acostumada, seu olhar transmitia admiração.
— Sim, como uma bruxa, mas boazinha — brinquei.
— Buxa — Aurora gritou, fazendo todos rirem por um segundo.
Estávamos na cozinha enquanto as crianças e Aurora brincavam na sala vendo um DVD. A internet já havia parado totalmente, mas a luz ainda persistia.
— Eu tenho um bom estoque de comida, já que evitava ir ao mercado com frequência. Tenho uma horta no fundo. Viveremos bem por um tempo, mas depois disso, eu e meu filho morreremos — ela falou encarando o nada.
Fiquei sem palavras ao vê-la dizer aquilo tão diretamente. Não conseguia responder ou digerir aquelas palavras. O olhar de Valentina não era de desespero, e sim de desesperança, de alguém que já aceitou o seu fim.
Minha cadeira na mesa me dava visão da sala. Observei Otávio descer da cadeira de rodas usando as mãos e sentar no chão, logo começando a fazer caretas para Aurora rir. Meu coração de mãe se quebrava ao ver que uma criança não teria ajuda.
Olhei para Otávio, que estava sentado em minha frente. Era óbvio que ele entendia meu olhar, perguntando se podíamos ajudar, mas sua única resposta foi sinalizar um leve "não" com a cabeça.
— Aqui na rua de trás tem um mercadinho e uma farmácia. Você tem uma arma, pode ir aos poucos buscando comida lá. Talvez esse caos se acalme daqui a um tempo, ou chegue ajuda — falei algo que nem eu acreditava, mas precisava dizer algo para diminuir o peso em minha consciência.
— Ninguém vai nos ajudar. Até meu marido nos abandonou logo que Otávio sofreu o acidente, não aceitava um filho paralítico. Nessa situação, ninguém se arriscaria por nós — a amargura era nítida em sua voz.
Sem ao menos nos olhar, ela se levantou e foi até a pia, como um robô, vivendo no automático. Otávio me fez sinal para levantar e o seguir, sua expressão não era boa.
— Precisamos ir embora daqui — ele falou, parecendo perturbado.
O cheiro de fumaça era forte mesmo dentro de casa, me enjoava. Somente nesses momentos lembrava que estava grávida.
— Por quê? Está tudo bem. Quando as coisas melhorarem lá fora, nós vamos.
Otávio segurou meu pulso abruptamente, me assustando. Seu olhar encarava o meu de uma forma desesperadora. Por segundos, senti um medo terrível, não parecia o mesmo homem brincalhão de sempre.
— Eles vão morrer, Blair — ele falou em um sussurro, mas era notável o terror em sua própria fala. — Eles só estão esperando a morte, você não entende isso? Eu não posso ficar aqui e ver isso acontecer, eu vou pensar nisso pelo resto da minha vida. Uma criança inocente... e eu não posso ajudar, Blair.
A forma como ele falou me dava arrepios, ainda mais ao repetir meu nome. Ele soltou meu braço e colocou a mão na cabeça, andando de um lado para o outro até ir para a janela.
Fiquei parada no mesmo lugar. Não era mentira, era isso que me doía, nada do que ele falou era mentira. Olhei para o menino, tão sorridente, vendo desenho com Ayla e Aurora, cantando a canção de abertura de Backyardigans.
Me dava um pouco de esperança ver Aurora rindo e feliz em um momento como aquele.
— Mamãe! — gritou ao me ver, correndo ao meu encontro e tropeçando no caminho.
No momento em que a peguei no colo, só conseguia pensar o quão doloroso seria se minha única opção fosse esperar a morte, minha e de minha filha. Sabia que, até Valentina chegar naquele nível de aceitação, devia ter sofrido mais que tudo.
— Eu vou sair e buscar suprimentos para eles nas casas vizinhas. Todas nessa rua já estão vazias, pelo menos assim ela estará mais tranquila — Otávio falou após se acalmar.
— Você tem certeza? Isso pode ser perigoso. A explosão pode atrair mais zumbis e pessoas... Nem todos são confiáveis — falei ao lembrar de todos os filmes de zumbi que assisti. Os vilões eram sempre os humanos.
— Eu enfrentei um hospital cheio de enfermeiras zumbi, e você quer falar algo? — ele perguntou rindo.
Ele saiu de casa sem ao menos falar com Ayla. Eu entendia aquilo, se se despedisse, mostraria que não acreditava realmente que ia voltar.
Estava sentada com Aurora quando a energia acabou. Aquilo foi a última coisa que ainda fazia o mundo parecer ter um pouco de chance de se reerguer. Agora não tínhamos mais internet, muito menos luz, seria impossível sair à noite.
— Filho, vamos tomar banho — Valentina falou, aparecendo na sala. Seu olhar parecia mais sem esperança que antes.
Já estava quase anoitecendo quando Otávio voltou, carregava uma sacola enorme nas costas. Não sabia se o comparava com o Papai Noel ou o velho do saco.
— Pai, quem mandou você sair sem me avisar? — Ayla perguntou brava.
— Para que te avisar? Se eu sabia que ia voltar para buscar minha princesinha — ele falou, piscando para a filha, que riu.
Um alívio me invadiu ao vê-lo de volta, já me preocupava com ambos. Um nó se formava em minha garganta ao imaginar vê-los mortos futuramente.
Otávio despejou toda a comida sobre a mesa: inúmeros pacotes de macarrão, feijão, arroz, biscoitos e outros não perecíveis. Aquilo duraria uns 3 meses para duas pessoas. Até remédios havia trazido.
— O que é tudo isso? — Valentina perguntou ao chegar na cozinha, seus olhos logo se encheram de lágrimas.
Seus olhos arregalados se voltaram para Otávio, que sorriu sem graça.
— Obrigada! Muito obrigada! — ela falou se ajoelhando e se curvando, igual aos asiáticos dos doramas.
— Não! Levante-se, está tudo bem, fiz o mínimo — ele falou, a erguendo pelos braços.
— Muito longe disso, você deu mais tempo de vida para mim e meu filho — ela falou. — E esperanças.
O final fez meu coração se acalmar, talvez tudo ainda desse certo. Ter um "talvez" era melhor que uma certeza ruim.
— Obrigada, tio. Que Deus te abençoe — o menino falou sorrindo.
A noite chegou rapidamente. Adiamos nossa ida para a manhã seguinte, não havia o que fazer no escuro.
Valentina fez um banquete de carne, devíamos aproveitar antes de tudo apodrecer. Aurora se empanturrou com carne moída e batata, seu prato favorito.
O amanhecer chegou em um piscar de olhos. Meu corpo doía e pedia mais descanso, sabia que o avanço da gravidez estava gastando minhas energias.
Aurora catucava meu rosto, tentando me acordar enquanto ria. Sempre acordava cheia de energia.
— Mamãe — falou, enfiando o dedo em meu nariz, me fazendo rir.
— Já acordei — respondi, a abraçando. — Bom dia, meu amor.
Aurora batia palmas e ria, pulando em meu colo. Aquilo me dava forças para enfrentar mais um dia daquela realidade. Até sons de batida na porta já faziam meu coração acelerar, o medo era constante em tudo.
— Bruxa, está na hora do café! Já vamos embora — Otávio falou por trás da porta.
— Já vamos! — respondi me acalmando.
— Vamos trocar essa fraldinha para encher a pança — falei rindo para Aurora, que já tentava correr da cama. Odiava trocar fraldas.
A mesa estava cheia de bacon, linguiça, salsicha e pães. Sentia que aquela seria a última refeição daquele nível por um longo tempo.
— Bom dia, princesinha — Otávio falou sorrindo, e Aurora já pulou para seu colo.
A cena parecia um filme. Ayla fazia cócegas em Aurora, que ria no colo de Otávio enquanto segurava um pedaço de pão na mão. Valentina sorria ao lado de seu filho, naquele dia, seu semblante finalmente tinha uma leveza. Um momento que eu queria gravar eternamente na minha mente.
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