Capítulo 2
Três dias. Apenas três dias, e o mundo já havia entrado em colapso. A maioria dos canais de TV havia parado de funcionar; os poucos que ainda permaneciam, só repetiam notícias e alertas para ficar em casa.
Lembro-me bem da última notícia ao vivo. Uma repórter apresentava as últimas orientações contra a "pandemia", com o olhar vazio e a voz desanimada. No telão atrás dela, mostrava o exército sendo atacado por aquelas criaturas. Uma infestação incontrolável em São Paulo. Era possível ver sua mão tremendo sobre a mesa. Subitamente, a câmera caiu e gritos foram ouvidos. Mesmo no chão, ainda gravava a repórter. Foi possível ver um homem atacá-la e devorá-la, seus gritos de socorro eram agoniantes. Depois disso, nenhum jornal foi mais exibido.
— Abre a boquinha — falei, sorrindo para Aurora enquanto imitava um avião com a colher.
Aurora era minha cópia fiel: olhos grandes e escuros como jabuticabas, cabelos cacheados e pele morena clara. Ela era o motivo de eu não ter desistido em meio àquele caos.
— Mais! — ela gritou, me fazendo rir. Era sempre esfomeada.
Frequentemente, olhava para o exame sobre o balcão da cozinha. O positivo não deixava dúvidas. Nada era mais desesperador do que imaginar ter que enfrentar o caos lá fora, grávida. A cada pensamento sobre o futuro, meu coração doía. Não existiam mais hospitais, o mundo não melhoraria. Odiava a ideia de não conseguir proteger meus filhos.
"Burra", era assim que eu me sentia. Depois de tudo que passei com meu ex-marido, ainda acabei grávida dele em meio a um apocalipse. Meu lado sombrio desejava que um zumbi o tivesse feito de jantar.
Agradecia por ainda ter internet e luz. Enquanto Aurora tirava sua soneca após o almoço, eu tentava pensar em jeitos de criar uma arma. Logo a luz acabaria e eu estaria ainda mais indefesa. Seria mais difícil entreter Aurora, e isso me apavorava.
Uma ideia maluca me ocorreu: peguei um cabo de vassoura velho que estava na cozinha e tentei fixar uma faca na ponta. Usei tudo que podia: durex, fita isolante, super tek bond, esparadrapo. Enrolei tudo que pude naquela faca. Testava movimentos com ela como se fosse uma lança. Segurando com uma mão só, pesava, mas com as duas parecia fácil. Analisei a faca. Sentia que, no primeiro golpe, ela se soltaria.
— Um prego — sussurrei.
O cabo da faca também era de madeira, então era a única chance de torná-la firme o suficiente. Pregar, evitando fazer barulho, não foi fácil, mas deu certo. Usei todos os pregos que consegui até me sentir segura.
— A mamãe vai proteger você de todos esses defuntos — falei, olhando para Aurora.
Nos últimos três dias, eu havia chegado ao meu limite. Mal comia e me sentia apavorada constantemente, mas decidi ser forte, pois era minha única opção. Sabia que teria que sair dali. Logo, a comida acabaria.
Precisava chegar a um lugar seguro antes do bebê nascer. Eu nem sabia exatamente de quantos meses estava, mas sabia que não conseguiria mais proteger a mim e Aurora sozinha no final da gravidez. A barriga me impediria. Tinha pavor de não conseguir achar um lugar seguro a tempo.
Sons de tiro me chamaram a atenção. Corri para a janela da sala, mas era impossível ver muito além das casas da frente. Nos últimos dias, evitava olhar para fora, pois, toda vez que o fazia, via o vizinho da frente. Seu corpo estava pendurado em uma forca na varanda; o vento o balançava, tornando a visão ainda mais macabra. Uma angústia tomava conta de mim ao pensar que, se não fosse por Aurora, eu poderia ter escolhido o mesmo destino.
Com cuidado para não fazer barulho, abri a janela e inclinei a cabeca do lado de fora. Um homem, de uns 40 anos, atirava em zumbis. Vestia uma roupa preta, parecida com a de espiões de filmes. Tinha um fuzil em uma das mãos e um coldre com pistola e facão na calça. Ao seu lado, uma menina, totalmente careca, segurava um escudo de metal à sua frente. Uma criança de uns 10 anos, extremamente magra.
Vi minha vizinha correr loucamente em direção ao homem e, com um tiro certeiro, ele explodiu a cabeça dela. Uma cena que antes eu só veria em filmes. O homem mantinha a expressão séria, não vacilava e era certeiro em cada tiro. Me perguntava se era um bandido, um mercenário ou um soldado.
Em poucos minutos, vi o homem e a criança entrarem no hospital. Não sabia se eram suicidas ou confiantes demais. Aquele hospital estava lotado daquelas criaturas. Ao ver a menina sem cabelos, imaginei que tivesse câncer. Aquele era um hospital de referência em oncologia infantil.
— Mamãe! — Aurora gritou, segurando minha perna. Nem a tinha visto andar até mim. — Uva!
Peguei-a no colo e dei as últimas uvas que tinha. As frutas haviam acabado. Olhei para a mochila no sofá, onde havia colocado mamadeira, leite, fraldas, lenços umedecidos e o máximo de roupas de Aurora que consegui. Já estava me preparando para ir embora. Me doía não poder levar seus brinquedos e as coisas de que gostava. Para mim, me limitei a uma muda de roupa. Não podia carregar mais peso do que um bebê.
Ao ouvir mais tiros, só conseguia pensar que aquele homem e a menina seriam minha salvação. Me achava louca por pedir ajuda a estranhos em um apocalipse, mesmo sabendo que o ser humano poderia ser pior que zumbis. Mas, pela Aurora, eu arriscaria.
Voltei a olhar pela janela. Eles não haviam saído do hospital. Peguei Aurora e a coloquei no canguru, fechei o casaco por cima dela deixando somente sua cabeça visivel. Agradecia por ela ser tão magra.
Já havia me preparado para qualquer imprevisto: vestia uma calça legging por baixo da calça jeans e um casaco grosso, mesmo com o calor. Se tentassem me morder, teriam mais dificuldade. Me sentia um gênio por finalmente poder usar tudo que li em livros de zumbi.
Olhei pela janela. Os tiros haviam cessado. Tinha medo de que estivessem mortos. O hospital era gigantesco, sempre lotado; o número de zumbis ali devia ser enorme. Se tivessem conseguido sobreviver, seriam minha ajuda perfeita.
Mais de uma hora se passou e nada. Coloquei a mochila nas costas, aflita. Em um ato de coragem, ou pura loucura, abri a porta e saí. Pisar lá fora não era como antes. Senti meu coração palpitar, minhas mãos soarem. Tinha medo, muito medo de morrer. Aurora ria, brincando com meu cabelo. Desejava voltar para casa e deixá-la em segurança. Queria estar apenas sonhando.
Um novo som de tiro me despertou. Olhei para fora e o homem saía do hospital com a menina, ambos sujos de sangue, porém bem e sorrindo. Corri com Aurora. Sem pensar duas vezes, desci as escadas e saí pelo portão.
Quando pisei na calçada, ambos me encararam. Meu coração doía, a ansiedade e medo me apavoravam. Tinha medo de não dar certo, medo de não me ajudarem, medo de morrer. Minha lança improvisada estava na minha mão e vi o olhar do homem a analisar.
Caminhei para perto, mas eles apenas me encaravam.
— Vocês podem me ajudar? Por favor, não tenho armas. Preciso achar um lugar seguro com a minha filha — pedi, em sussurros.
A garota sorriu ao ver Aurora. De perto, eu conseguia ver que ela nem sobrancelhas tinha. Não havia outra explicação a não ser câncer.
— Desculpe, mas não posso — o homem susurrou, olhando para Aurora. — Um grito desse bebê e estamos mortos.
— Ela é quieta, tenho certeza de que não vai chorar. E se algo acontecer, vocês podem fugir sem a gente. Eu só preciso sair daqui — pedi, nervosa.
— Desculpe, mas não posso arriscar a vida da minha filha pela sua — ele falou, pegando na mão da garota. — Vamos, Ayla.
— Por favor! Imagine se ninguém ajudasse sua filha também... Se fosse ela precisando de ajuda... — falei, desesperada. — Eu não posso perder a minha filha! Não consigo me proteger sozinha! Só preciso chegar a um lugar seguro... Me ajude!
Ele virou as costas e seguiu seu caminho, puxando a criança. Alguns zumbis se aglomeravam na esquina, atraídos pelo som dos tiros. Meu coração se apertava ao ver minha única esperança ir embora.
— Ei, gatora! — ele gritou, sem se virar.
— Qual o seu nome?
— Blair — falei, nervosa. — Meu nome é Blair, e o da minha filha é Aurora.
O homem se virou e me analisou. Parecia forte, mas a tristeza em seu olhar era nítida.
— Interessante... Um nome de bruxa e um nome de princesa... Espero que seja uma bruxa capaz de matar zumbis — ele debochou e voltou a andar.
Fiquei sem reação. Não sabia o que responder.
— Venha logo! Não vou ser bonzinho novamente — ele ordenou, e Ayla virou para trás, acenando para que eu os seguisse. Ela era tão fofa e sorria de orelha a orelha.— Quase ia me esquecendo, eu me chamo Otávio e minha filha Ayla.
Corri com Aurora. O peso da mochila e o dela eram cansativos, mas eu não teria outra chance de sobreviver.
— Mamãe vai conseguir — falei, dando um beijo na testa de Aurora e passando a mão na minha barriga.
O homem mirou em um carro distante e atirou. O som do alarme era tão alto que assustou até Aurora. Os zumbis gritaram em resposta e correram na direção do carro; alguns tropeçavam e eram pisoteados. Zumbis surgiam de todos os lados, freneticamente. Era uma visão apavorante. Todos com a boca escancarada, banhados em sangue, alguns sem partes de membros e deformados.
— Se eu fosse você, começaria a correr... ou voar, Blair — Otávio brincou e começou a correr com Ayla.
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