| Capítulo 4 | Sobre certo tipo de luz que nunca brilhou em mim
Assim como materiais resistentes, mas desgastados, eu também me encaixava nessa categoria. Por mais que houvesse marcas de destruição, eu ainda permanecia de pé. E foi com esse resto de força que avancei para o ano de 2012.
A esperança era meu sustento, pois acreditava que dias melhores viriam. Aquela porta aberta passou a significar muito. Quando entrei na nova sala, observei cada rosto desconhecido. Aquele cenário me trouxe a sensação de que, com o tempo, alguns deles poderiam se transformar em ventanias.
E que finalmente soprariam ao meu favor.
Parei em frente à lousa e analisei as mesas vazias, tentando fazer uma escolha certeira. Mais uma vez, optei pelas primeiras fileiras — por apreciar as aulas e ter menos chances de distração. Caminhei rapidamente até a carteira antes que alguém a ocupasse. Coloquei minha mochila sobre o móvel vandalizado e abri o zíper para pegar minha garrafa. Notei que duas carteiras adiante já estavam "reservadas" por cadernos femininos.
Com a garrafa na mão, segui pelo longo corredor que levava ao pátio, próximo aos banheiros e bebedouros. Enquanto enchia a garrafa, observei o movimento dos alunos, muitos ainda confusos com a organização das turmas, indo atrás de inspetoras para esclarecer dúvidas.
Cheguei cedo e fui informada sobre a mudança de nomenclatura de "série" para "ano". Assim, o que seria a "sétima série" passou a ser "oitavo ano", uma diferença que foi aplicada em todas as instituições, do ensino primário ao fundamental.
Depois de tampar a garrafa, refiz o caminho de volta. O pensamento de minutos atrás voltou à tona. Não pude conter a euforia que crescia à medida que me aproximava da sala. Mas, assim que entrei, aquela empolgação se dissipou instantaneamente, substituída por uma sensação negativa que eu não esperava.
Tudo se apagou.
Minha vontade era pegar minhas coisas e correr para outra carteira, mas a sala já estava completa. Olhei ao redor, incrédula, e me perguntei por que, entre tantas carteiras, escolhi justamente aquela onde Carolina e Roberta estavam.
Não podia ser.
Recuperando-me do choque, retomei meus passos lentamente até o meu lugar. A nova imagem que tinha delas era de garotas que começavam a se destacar: corpos esbeltos, maquiagem mais frequente, bijuterias chamativas e cabelos longos e alisados.
Elas notaram minha presença, mas nenhuma palavra foi dita. Era como se, naquele espaço, apenas as duas importassem. Sentei-me de forma retraída, tentando afastar qualquer pensamento negativo. Olhei ao redor, observando o restante da turma. Aquilo me trouxe um pouco de esperança. Afinal, em uma sala com trinta alunos, eram apenas duas a menos.
Era essa a lógica que eu devia seguir, mas mudar de direção só dependia da minha própria vontade.
O caminho simples ainda estava lá, mas eu não conseguia dar um passo sequer. Minhas tentativas de fazer amigos falhavam sempre pelo mesmo motivo, que já me perseguia há tempos: o medo.
Depois de aceitar a derrota, as semanas se arrastaram em um roteiro de completa solidão, que eu desejava ter terminado muito antes. A essa altura, todos na turma já tinham formado amizades. E eu continuava parada, no mesmo lugar, vendo a oportunidade escapar.
Já era comum o meu individualismo, tanto nas aulas de educação física quanto nos intervalos. Preferia os lugares mais silenciosos nos breves quinze minutos de pausa, onde o silêncio se tornava um alívio.
Até ser rompido por vozes naquele dia.
Quando levantei a cabeça, lá estavam as duas opções que eu havia descartado desde o primeiro dia de aula.
Carol e Roberta pareciam diferentes enquanto me cumprimentavam. Fazia mais de um ano que não as via.
— Espero que você não se importe de a gente ter invadido seu cantinho, mas o pátio hoje está insuportável! — comentou Carol, irritada.
— É por isso que eu gosto de ficar aqui — respondi timidamente, encolhendo os ombros.
— Na verdade, você sempre foi mais quietinha, né? — disse Roberta, com um sorriso de canto. — A gente te conhece bem. Fomos amigas na quinta série, lembra? Junto com a Sabrina e a Larissa.
Carol sentou-se na calçada de concreto, ficando de frente para mim, e logo Roberta fez o mesmo, criando um pequeno círculo.
— E falando na Larissa, ouvi dizer que vocês estudaram juntas no ano passado. Vocês ainda se falam? — perguntou Carol.
Imediatamente, meu sorriso se desfez.
— Bem pouco, mas ano passado ela me ajudou a me enturmar com um grupo... Eu gostava dela — menti, forçando um tom mais animado.
— Depois daquela confusão com a Sabrina... que bom que vocês ficaram mais próximas — comentou Roberta, sorrindo.
— E por que você mudou de turno? — Carol perguntou.
— Por causa do trabalho da minha mãe e porque minha irmã começou a estudar aqui de manhã também — expliquei, tentando parecer casual.
As duas ficaram em silêncio, parecendo entender.
Depois disso, a conversa fluiu naturalmente nos minutos que restavam antes do fim do intervalo. Até que gritos interromperam o diálogo, ecoando do pátio.
— O que tá acontecendo? — perguntei, confusa.
— Briga. Com certeza — afirmou Roberta.
— Vamos ver o que tá rolando? — sugeriu Carol, animada.
As duas se levantaram quase ao mesmo tempo, e eu as segui. Apressadamente, saímos em direção à confusão. De longe, a cena me assustou.
O tumulto era cercado por gritos, xingamentos e celulares antigos, com braços estendidos ao máximo para captar a briga. Com tanta gente amontoada, não consegui ver quem estava no meio do confronto.
Carol e Roberta, movidas pela curiosidade, se aproximaram para tentar entender o que estava acontecendo. Com medo de ficar no meio daquela multidão e ser empurrada, decidi manter distância.
Logo, as inspetoras apareceram para dispersar o tumulto. O intervalo já havia acabado e todos deveriam estar nas salas. Aos poucos, o círculo de estudantes foi se desfazendo, e os dois garotos envolvidos foram levados à diretoria, acompanhados de vaias e insultos.
Carol e Roberta voltaram até mim com pressa. Antes que dissessem algo, respondi que não gostava de me meter em confusões como aquela. Elas se entreolharam e seguimos nosso caminho.
— Primeira briga do ano. Nada de novo pra quem é do turno da tarde — comentou Carol, enquanto entrávamos no pavilhão das salas.
— Como assim? — perguntei, sem entender.
— De uns tempos pra cá, o pessoal da tarde ficou com a fama de ter o pavio curto. Qualquer coisa vira motivo para briga — explicou Roberta, dando de ombros.
— Amiga, lembra da treta do ano passado? — perguntou Carol a Roberta, com um sorriso de quem já sabia a resposta. — Daquelas duas que eram inseparáveis, mas brigaram feio por causa de um ficante?
Roberta fez um gesto afirmativo, e eu senti um arrepio percorrer minha espinha.
— Foi um dos piores barracos da escola — continuou Carol. — Uma delas ficou bem machucada e teve que ir pro hospital. E depois que se recuperou, a outra ainda ficou perseguindo... Coitada, teve que ser transferida para outro colégio.
Não consegui dizer uma palavra sequer. Apenas minha expressão de espanto permaneceu. Naquele instante, percebi que o medo não só me imobilizava, como também bloqueava a ideia que eu havia traçado — me afastar delas. Mas agora, sem ânimo algum, restava-me apenas uma opção: agarrar-me à alternativa que eu mais havia rejeitado.
O passar das semanas revelou um lado da convivência que eu jamais imaginaria conhecer. Aquela aproximação trouxe um comodismo imediato, tanto que, pela primeira vez, eu finalmente pude pintar o quadro de momentos com as cores que tinha a oferecer.
Naquele tempo, meu pincel estava completo. E eu também.
As quatro horas diárias de convivência pareciam insuficientes, tanto que nos levou a marcar um encontro no sábado à tarde. Empolgada, ofereci minha casa, e as duas logo aceitaram.
Buscamos aproveitar o começo daquela tarde com conversas que pareciam intermináveis, acompanhadas pelos lanches que minha mãe fazia para nos agradar. Em certo momento, Carol e Roberta me convenceram a irmos ao meu quarto. Deixamos o quintal dos fundos e entramos pela porta da cozinha, acessando o corredor que levava ao cômodo.
Nossos diálogos e risadas durante aquela tarde pareciam infinitos. Eu e Carol dividíamos o mesmo espaço, sentadas na beirada da minha cama. Roberta preferiu ficar de frente para nós, acomodada no meu puff rosa pink.
— Já que não temos nada pra fazer, que tal nos maquiarmos? — Roberta propôs.
— Não sei se a Lana tem algo, ela sempre tá de cara limpa — Carol comentou.
— Só tenho batom, mas minha mãe tem uma maleta — falei.
Roberta se levantou do puff rapidamente, com os olhos brilhando.
— Legal, pede pra ela!
— Vou logo avisando que não quero deixar meu rosto maquiado — respondi, quase como uma desculpa antecipada.
— Qual é, garota! — Carol exclamou, quase gritando. — Temos treze anos, somos adolescentes, você precisa agir como uma!
Acabei me rendendo, afinal, eram duas contra uma.
— Tá bom — murmurei, me levantando da cama com um suspiro resignado.
Encontrei minha mãe na sala assistindo a um filme. Pedi permissão de forma tranquila e recebi sua resposta positiva. Fui até seu quarto e, com cuidado, retirei a maleta do guarda-roupa. Caminhava em direção à porta do meu quarto com ela em mãos, que estava entreaberta. Assim que entrei e fechei a porta, as duas ficaram encantadas. Coloquei a maleta sobre a cama. Era realmente muito bonita, cor rose gold com detalhes em prata que realçavam a fechadura e a alça.
— Abre logo isso aí! — ela gritou, quase pulando.
— Vou deixar que vocês façam as honras — falei, sorrindo.
As duas avançaram em direção à cama e Roberta tomou a iniciativa de abrir a pequena fechadura. Assim que foi aberta, o deslumbre consumiu seus olhares, como se estivessem diante de um tesouro.
— Caraca, isso aqui é perfeito... — Roberta disse, maravilhada. — Dá pra fazermos makes iguais às das famosas!
— Sim, e podemos tirar muitas fotos! — Carol sugeriu, já pegando algumas coisas da maleta.
— Tá, mas com qual câmera? A do meu celular é uma porcaria — Roberta retrucou, um pouco desapontada.
— Meu pai tem uma câmera digital... uma Sony Cyber-Shot. Posso pedir pra ele — propus.
— Então fechou! Você vai lá falar com ele enquanto eu e a Roberta nos arrumamos — Carol disse, já começando a se organizar.
Assenti com a cabeça e saí do quarto. No final das contas, meu pai deixou que eu pegasse a câmera. Ele tinha uma semiprofissional com maior resolução de imagem, mas estava totalmente fora de cogitação.
Retornei ao quarto e encontrei Roberta aplicando sombra na pálpebra de Carol, concentrada. Fechei a porta suavemente para não atrapalhar.
Reparei que ambas tinham uma sincronia, e eu, com meus passos desengonçados, tentava fazer parte dessa dança. Fiquei sentada e em silêncio a maior parte do tempo, já que não tinha experiência no assunto, tampouco habilidade para pegar o rímel e passar em cílios que não eram meus.
Quando as duas já exibiam lábios e olhares marcantes, chegou a minha vez. Carol tateava dentro da maleta em busca da base e do pó facial. Assim que encontrou, posicionou-se de frente para mim.
— Vai precisar de muita maquiagem, hein? Olha o tanto de espinha que a Lana tem — Roberta resmungou, rindo de leve enquanto analisava os produtos.
Carol reprimiu uma risada. Senti minhas bochechas aquecerem, mas não respondi.
— E não esquece o batom vermelho, senão ela vai sair na foto com cara de criança — ela acrescentou, como se estivesse dando um conselho sério.
Enquanto as cores começavam a se espalhar pelo meu rosto, um ruído profundo ressoava dentro de mim, como um trovão distante, mas ameaçador. E, com a única força que restava, meus olhos fechados conseguiam impedir o que vinha pela frente, de modo que não borrassem toda a maquiagem.
Sem poder manifestar por fora, a tempestade desabou lá dentro.
Aquele resto de tarde foi diferente. Aguentei a tormenta enquanto meu semblante expressava serenidade igual à luz do dia. E como as trovoadas eram intensas e as rachaduras invisíveis se alargavam, preferi não aparecer tanto nas fotos. Queria que meu grito fosse mais alto, mas sabia que, perto delas, não passava de um simples sussurro.
Quando começou a escurecer, nosso passatempo teve que dizer adeus. Acompanhei as duas até o portão e me esforcei ao máximo para uma despedida agradável.
— Lana, não esquece de enviar nossas fotos no chat do Facebook, tá? — Carol alertou.
— Não pode ser pelo MSN? — perguntei.
— Sério, quem ainda usa isso? Estamos em 2012, né? Hora de se atualizar. — Carol riu, lançando um olhar divertido para Roberta, que concordou balançando a cabeça.
— Tá bom. Até hoje eu envio pra vocês. — Sorri, meio sem jeito.
Depois que fechei o cadeado do portão, corri para dentro. Assim que entrei na sala de estar, fui direto ao computador, que por sorte já estava ligado. No primeiro resultado do Google, cliquei na página do Facebook. O layout da rede social me chamou atenção, e soube que seria mais fácil encontrar os perfis. Criei uma nova conta. Depois, com o auxílio do cabo USB, conectei a câmera à CPU para importar as fotos.
Com as imagens no arquivo, fui à procura dos perfis de Carol e Roberta. Agradeci minha boa memória por ter recordado o sobrenome das duas. Enviei uma solicitação de amizade e também as fotos pelo chat. Aproveitei para explorar a rede social, adicionando mais amigos — começando pelos meus familiares — e curtindo várias páginas.
Imediatamente, lembrei que no meu perfil faltavam duas coisas: foto de perfil e capa. Acessei a pasta recente com poucas fotos minhas, procurando por alguma que não destacasse tanto minhas imperfeições — acne e dentes tortos. Finalmente encontrei uma em que Carol me fotografou em frente a uma pequena árvore com flores roxas. Era a menos imperfeita. Talvez, assim como eu tentava ser. Selecionei a foto e logo ela carregou. Resolvi escolher uma capa no Google Imagens e me encantei com uma imagem de fundo de glitter rosa pink.
No decorrer daquele tempo, um novo período de mudanças se iniciou. Aos poucos, eu me desapegava dos acessórios cor-de-rosa e das Barbies que antes preenchiam minha prateleira, substituídas por livros. Minha mente pedia por mudança, e eu obedecia. Algo natural nessa fase.
Já a outra transição não me envolvia. Fiquei de fora mais uma vez, e era isso que me fazia sentir deslocada entre as garotas do colégio. O desenvolvimento começou a transformar seus corpos, tornando suas aparências mais esbeltas e atraentes.
Diante de tanta comparação, um dia assustador chegou. Nunca imaginei que uma aula de educação física pudesse me trazer tanta insegurança.
Aquela aula foi diferente. Em vez de irmos para a quadra de esportes, seguimos para o pequeno auditório. Como estávamos em junho, a professora decidiu fazer uma avaliação nutricional coletiva referente ao primeiro semestre. Nada mais era do que medir a altura e o peso de cada um de nós.
Eu já estava cheia de rupturas, e a qualquer momento os pedaços podiam desabar.
Tudo o que eu queria era fugir dali.
Sentamos em cadeiras de plástico, com vista para o palco onde aconteceria a avaliação. A professora anunciou em voz alta que seguiria a ordem de chamada, e eu era a primeira. Minhas mãos suavam, e a angústia pulsava forte no meu peito.
Por impulso, minha defesa entrou em ação. Levantei-me e caminhei até a professora.
— Preciso ir ao banheiro — murmurei.
— Mas você é a próxima. Isso aqui é rapidinho — respondeu, enquanto prendia algumas folhas na prancheta.
— É urgente — implorei.
Ela ergueu os olhos e me encarou.
— Já que está com tanta pressa, suba no palco. Assim que terminarmos, pode ir — ordenou.
Minha tentativa falhou, e a subida ao palco foi repentina. Ouvi alguns murmúrios enquanto dava passos hesitantes sobre a madeira desgastada. Tirei meu All Star e fiquei apenas de meia.
Ela apontou para o estadiômetro portátil, e imediatamente me posicionei. Encostei-me à régua, com a postura ereta. Fechei os olhos, ansiando para que os segundos passassem depressa. Logo senti o medidor tocar o topo da minha cabeça.
— Um metro e quarenta e nove centímetros — resmungou, anotando o resultado.
Em seguida, gesticulou para que eu fosse à balança. Dei alguns passos trêmulos, já sentindo meu rosto queimar de vergonha. Subi na balança e desviei o olhar da turma. Cada segundo parecia uma eternidade.
— Está liberada — anunciou. — Não disse que seria rápido?
Concordei com a cabeça e desci do palco, indo direto para uma cadeira ao lado de Roberta. Quando me aproximei, ouvi um burburinho.
— Sua amiga é a mais magrinha da sala. Será que a professora se assustou com aquele peso mixuruca? — resmungou uma colega, inclinando-se em direção a Carol.
Carol riu, tentando abafar o som com a mão.
— Com certeza. Acho que ela nem come direito.
— Talvez a professora devesse ter dado uma orientação pra Alana ganhar peso, né? — Roberta acrescentou, com um sorriso malicioso. — Até minha irmãzinha tem mais corpo que ela — zombou, arrancando risadas das outras.
Arrastei a cadeira, indicando minha presença. A colega se virou para frente. Sentei-me em silêncio, sem forças para reagir. Notei que as duas mantinham os lábios apertados, segurando o riso.
As lágrimas começaram a escorrer. Não consegui segurar. Passei o restante das aulas tentando controlar a tempestade de mágoas que se formava dentro de mim. Tudo o que eu não queria era desmoronar na frente de todos.
Assim que a última aula terminou, saí sem me despedir das meninas. Depois de tudo, não tive coragem. Caminhei rapidamente pelos quarteirões, até avistar o portão branco de casa.
Entrei, fechei a porta e corri para o quarto. Precisava de um momento de respiro.
Depois de recuperar o fôlego, fui até o guarda-roupa. Minha ideia era simples: encontrar algo que me protegesse de futuros ataques. Escolhi uma legging preta e uma jaqueta de moletom.
Coloquei a legging por baixo do uniforme, o que melhorou a aparência das minhas pernas, e vesti a jaqueta, que escondia a finura dos meus braços.
Agora, mesmo que estivesse danificada, não podia deixar que tudo desmoronasse. Precisava me proteger.
Conforme as semanas passavam, a recepção ao meu novo "método" parecia ser positiva entre os outros, mas, para mim, os dias oscilavam entre altos e baixos.
Os dias frios eram meus favoritos, pois o excesso de roupas escondia meu peso e, assim, me tornava imune às palavras alheias. Já os dias ensolarados eram os mais difíceis. Mesmo com apenas duas camadas de roupa, a transpiração constante e a dor de cabeça eram companheiras insuportáveis.
O desconforto se tornara parte de mim, um sacrifício necessário para manter a sensação de segurança.
Durante os meses, as fissuras em minha autoconfiança pareciam ter parado de crescer. Em meados de setembro, o sol se escondia por trás das nuvens cinzentas, anunciando uma tempestade iminente.
O sinal estridente indicou o fim da quarta aula e, logo após a despedida do professor, a sala foi tomada por vozes que aumentavam de volume. A inspetora entrou, dissipando as conversas, e informou que o professor de história havia faltado, liberando-nos para o pátio, onde podíamos aproveitar os jogos disponíveis, como pebolim e pingue-pongue.
Eu e as meninas decidimos ficar sentadas em um dos bancos de concreto no pátio lateral.
— Tá um tédio aqui — Roberta comentou, visivelmente entediada.
— Devíamos ser liberadas pra ir embora — concordou Carol, bufando.
— A gente podia jogar com o pessoal da sala — sugeri, referindo-me aos jogos disponíveis.
Carol deu de ombros, e Roberta pareceu ter uma ideia. Seu semblante mudou de aborrecido para animado.
— Podemos sim, mas outro jogo — ela propôs, sorrindo.
— E qual seria? — perguntei.
— Verdade ou Desafio — ela respondeu, empolgada.
Carol levantou-se rapidamente, com o mesmo entusiasmo.
— Vamos chamar a galera!
— Vai ser no pátio? — perguntei, incerta.
— Melhor na sala. A inspetora não vai pegar a gente por lá — Roberta sugeriu, com uma piscadela.
— Lana, você vai pra sala e pega uma garrafa de plástico, enquanto eu e a Ro chamamos o pessoal, tá? — Carol organizou.
— Ok — respondi.
Segui o combinado. Fui até a sala e retirei a garrafa vazia da minha mochila. Fechei a porta com cuidado para não levantar suspeitas. Poucos minutos depois, alguns colegas começaram a entrar e a se sentar em círculo no chão de azulejos.
Carol e Roberta foram as últimas a chegar, completando o grupo. Entreguei a garrafa a Carol, e o jogo começou.
A garrafa girava, decidindo quem perguntaria e quem responderia. Logo percebi que os desafios tendiam a ser embaraçosos, e preferi ficar apenas nas "verdades". Apesar disso, o jogo trouxe muitos momentos divertidos, com desafios engraçados, como dançar de forma ridícula ou cantar desafinado.
Lá fora, as trovoadas ecoavam cada vez mais fortes, arrepiando minha pele. A chuva, que começara suave, logo se intensificou, martelando as janelas.
Depois de algumas rodadas, a garrafa parou, apontando para Carol como a perguntadora e para mim como a desafiada.
— Lana, verdade ou desafio? — ela perguntou, arqueando as sobrancelhas.
— Verdade.
— Ah, não, de novo? — Roberta interveio, exasperada. — Você só escolhe verdade! Dessa vez, tem que ser desafio.
Não pude recusar. Olhei para baixo, constrangida.
— Tudo bem... desafio — murmurei.
— Te desafio a dar um beijo de língua no garoto ao seu lado — Carol disparou.
Arregalei os olhos.
— O quê? Não! — protestei, apavorada.
— Não vale recusar, você sabe — Carol insistiu.
— Todo mundo sabe que você é BV, né? — Roberta zombou. — Tá na cara.
O coro de "beija, beija" começou, acompanhado de palmas ritmadas. O pavor tomou conta de mim. Eu era o alvo mais uma vez, sem defesas.
— Tô fora! — ele disse, ríspido, fazendo quebrar o coro.
Dei um suspiro de alívio.
— Qual o problema? — Carol perguntou, intrigada.
— Não vou beijar essa guria. Ela não faz meu tipo. Parece um palito e tem o rosto cheio de espinhas — ele retrucou, com desprezo.
As risadas explodiram ao redor. Mais uma vez, eu fui atingida. Dessa vez, sem chance de me defender.
— Tadinha dela — uma colega comentou, referindo-se à minha pessoa.
— Na moral, só fico com mina que tem onde pegar — o garoto confessou.
Levantei-me abruptamente, abri a porta e deixei a sala. No corredor, as lágrimas que eu segurava finalmente caíram, acompanhando o som das risadas que ecoavam em minha mente.
Fugi para o banheiro e me tranquei na terceira cabine. Sentei-me no chão frio, encostada na parede, e desatei a chorar. A chuva continuava forte lá fora, espelhando o que eu sentia.
Quando o sinal tocou, enxuguei rapidamente as lágrimas com a manga da jaqueta. Ainda atordoada, voltei à sala para pegar meus materiais. A sala estava vazia, o jogo havia acabado. Joguei a garrafa no lixo e saí.
Sem guarda-chuva, encarei a chuva no caminho de casa. Cada passo era uma luta contra a lembrança das palavras cruéis, e meus olhos voltaram a se encher de lágrimas. E, como o céu, eu também chorei.
Simplesmente não tive coragem de ficar perto das duas depois de tantos episódios desagradáveis. Meus estragos pediam descanso. Não adiantava me agarrar ao companheirismo na intenção de obter momentos divertidos, sendo que também era exposta aos ataques.
Tudo me levou a uma resposta: eu mesma. Se ao menos tivesse hábitos compatíveis, o encaixe seria perfeito, sem ter que enfrentar certas barreiras para garantir minha conquista de ocupar o mesmo espaço que elas.
Fui me afastando aos poucos. Evitava participar das conversas e até mesmo não as esperava mais na frente do colégio para irmos até a banca de revista do outro lado da rua comprar um pacote de balas, como era de costume. Elas não interferiram na minha escolha e também resolveram fazer o mesmo.
Para me refugiar dos demais que preenchiam os espaços do colégio, principalmente no intervalo, a biblioteca se tornou o lugar perfeito. Foi lá que passei os três meses restantes para o ano acabar.
A primeira semana de dezembro despertou um sorriso no meu rosto, assim que fiz os cálculos e obtive os resultados das médias de cada matéria. Por conta disso, não havia necessidade de comparecer às aulas restantes, já que seriam focadas na recuperação de nota para aqueles que precisavam ser aprovados.
— Finalmente... férias — sussurrei com animação, enquanto me chacoalhava de leve.
No mesmo instante, escutei um ruído vindo da fechadura. Em seguida, a porta se abriu lentamente, revelando a presença da minha mãe em meu quarto.
— Posso saber o motivo dessa carinha feliz? — ela indagou, enquanto depositava sobre a cama meu All Star recém-lavado.
— Passei de ano! Isso significa que não preciso mais ir ao colégio — respondi, entusiasmada.
Ela se aproximou e logo me envolveu em um abraço.
— Olha só, meus parabéns. — Deu um beijo no topo da minha cabeça. — Minha filha está crescendo, vai para o nono ano... parece que foi ontem que você tinha onze anos — comentou, emocionada, enquanto acariciava meus cabelos castanhos.
Nos desvencilhamos. Peguei o que ela havia deixado e abri a primeira porta do guarda-roupa, à procura da prateleira ideal.
— Espero que suas amigas estejam na mesma sala que você no próximo ano.
Virei para trás e vi que ela estava sentada na beirada da cama.
Forcei uma expressão alegre.
— Também espero, elas são bem legais — menti, forçando um sorriso. — Mas, se isso não acontecer, tudo bem, vou tentar fazer novas amizades — acrescentei, fingindo uma confiança que eu definitivamente não sentia.
Encontrei a caixa e me estiquei para pegá-la.
— Fico feliz que você tenha melhorado. Viu? Não disse que era só uma fase? — ela comentou.
Guardei o par de tênis, fechei a caixa e a coloquei de volta na prateleira. Fechei a porta espelhada e me virei novamente.
Ela se levantou em seguida.
— Ah, e no próximo ano, seu pai e eu planejamos algo pra você e sua irmã.
Franzi a testa.
— E o que é? — perguntei, curiosa.
Ela apertou os lábios, como se reprimisse a resposta. Depois, caminhou em direção à porta entreaberta, pousando a mão na maçaneta.
— Não posso contar, é surpresa! — cantarolou, enquanto abria mais a fresta.
Assim que ela saiu, um raio de sol invadiu o quarto, irradiando a pouca esperança que ainda restava. Dentro de mim, o espaço vazio se preparava para receber um pouco de sossego, enquanto as rachaduras lentamente começavam a fechar, reduzindo o vão que separava o outro lado.
Dediquei aquele período para estabilizar o que a luz tinha a oferecer, da mesma forma que pude sentir uma parcela de força colaborando ao meu favor.
Porque tudo o que eu não queria era desabar.
Notas da autora: Ah, Alana... todos precisam desabar.
E aguardamos ansiosamente o fim dessa era. Vai demorar um pouco, mas vai passar.
Lembrando que reuni os momentos principais da passagem de tempo, até porque não é o principal foco do livro. E não gosto de ficar enrolando o enredo.
E o que esperar de 2013? E o que é essa tal surpresa?
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