| Capítulo 29 | Se as portas estão fechadas, é para que se abra uma

Havia algo silenciosamente grandioso em saber que eu tinha conseguido ajudar Elisa. Não era apenas a alegria de vê-la mais renovada, mas a descoberta de que os estigmas que carregamos guardam promessas de superação. E depois que ela se reergueu, senti como se também tivesse erguido algo em mim mesma. Os obstáculos que antes revelavam-se trilhas desafiadoras, nos ensinaram a aprimorar a coragem e determinação, pois só assim é que estaríamos preparadas para chegar à conquista tão almejada.

Enquanto pairava em meu universo de devaneios, memórias invadiram minha mente, trazendo de volta gestos, palavras e sentimentos, oriundos de uma trajetória que me concedeu um brilho indispensável, o qual passou a me acompanhar adiante.

E prometi que o guardaria eternamente em meu ser.

A verdade era nítida: não são apenas os momentos agradáveis que nos moldam, mas a forma como enfrentamos as tempestades. Ao ver Elisa se reerguer, percebi que também havia encontrado raízes mais profundas em mim, aprendendo que até os ventos mais impiedosos podem ensinar a arte de florescer.

Aos poucos, meus pensamentos reduziam a intensidade, à medida que voltava a concentrar meus olhos diante da tela do notebook. O silêncio que preenchia o quarto trazia uma sensação de serenidade, embalando o fim de tarde daquele sábado. Ainda sentada na cadeira giratória, hesitava em romper a dança frenética dos pensamentos que insistiam em rodopiar na minha consciência. Eles pareciam conspirar, buscando se unir em algo maior, algo que ainda escapava à minha compreensão.

De repente, meus dedos voltaram a tocar o teclado, como se obedecessem a uma força inesperada. O fluxo de ideias surgiu como uma torrente, preenchendo o vazio da página em branco com palavras que traduziam o que meu coração tanto ansiava dizer. Quando percebi, o enredo começava a ganhar forma, e duas personagens surgiram: Sofia e Laura. Cada palavra parecia conduzir-me para mais perto de algo que eu ainda não conseguia nomear, mas que sentia ser essencial.

Quando finalizei o último parágrafo, uma sensação de realização visitou-me pela primeira vez. Aquele conto breve, mas significativo, parecia uma semente que finalmente encontrara solo fértil. Era minha vocação, que havia me encontrado e, com ela, trouxe uma abertura para um futuro cheio de possibilidades. Sorri diante das páginas escritas, ciente de que ali estava a primeira linha de uma história maior.

Movida pela inspiração, o intitulei como "Entre Encaixes". Minha intenção era dar vida a uma amizade tão profunda quanto as raízes que sustentavam Antonina, uma cidade que respirava história e poesia. Sofia, com sua câmera sempre em mãos, enxergava beleza em cada detalhe, capturando a alma do lugar em suas fotografias. Laura, por outro lado, era como as relíquias da loja de antiguidades de sua família: silenciosa, mas cheia de histórias. Juntas, formavam um vínculo que parecia indestrutível, até que um quebra-cabeça antigo e uma carta misteriosa as colocaram em uma jornada de descobertas, tanto sobre a cidade quanto sobre si mesmas.

Enquanto as duas tentavam desvendar os segredos dentro daquela caixa, perceberam que o quebra-cabeça não era apenas um jogo, mas um convite para explorar memórias, enfrentando sombras que ambas preferiam ignorar. Antonina, com suas paisagens encantadoras, tornou-se o cenário de uma busca que misturava riso e tensão, leveza e dor. A cada peça encaixada, as amigas desvendavam mistérios que conectavam o passado da cidade ao presente delas, mas também encontravam dúvidas e verdades que testavam a solidez da amizade que as unia.

Não era uma história sobre respostas fáceis, mas sobre a beleza de enfrentar os obstáculos e despertar a coragem. Um conto que abordava o pertencimento; sobre como algumas peças, mesmo as mais diferentes, podiam formar algo único e inesquecível.

Respirei fundo, absorvendo a intensidade daquele momento. Espreguicei-me na cadeira, permitindo que o orgulho crescesse dentro de mim como uma chama cálida. Estava diante da minha sonhada aptidão, que finalmente havia se revelado e me concedido as promessas de um futuro promissor.

— Era a escrita, esse tempo todo — sussurrei, sorrindo para mim mesma. O sorriso permaneceu, como se eternizasse a certeza de que eu, enfim, havia encontrado meu lugar.

Durante aquela semana, mergulhei em um turbilhão de pensamentos, revisitando cada palavra que havia escrito como quem tenta decifrar um enigma deixado pelo próprio coração. As frases, antes tão sólidas, agora pareciam ecoar dúvidas em vez de certezas. Cada letra refletia uma pergunta que eu temia encarar: seria este o caminho certo a seguir? Tentei compreender se aquelas palavras me guiariam para um futuro pleno ou para um vazio incerto. O que antes parecia robusto tornara-se frágil, e a incerteza me envolvia. Ainda assim, um anseio persistente sussurrava em minha mente, sacudindo faíscas de esperança que, apesar da hesitação, ameaçavam se expandir.

O dilema continuava a pairar, mas o final de semana trouxe um alívio inesperado: um piquenique com Elisa, Lívia e Daniele. No Parque Barigui, a serenidade parecia se derramar pelo ambiente, acompanhada pelo calor suave de um sol primaveril que aquecia nossas risadas e conversas. As flores ao redor ressaltavam o encanto da estação, refletido em nossas vestimentas leves e coloridas, enquanto compartilhávamos momentos que pareciam feitos para durar.

— Sabe, meninas, com esse lance de escolher um curso na faculdade, eu finalmente entendi que as coisas podem mudar com o passar do tempo — comentou Lívia, pensativa.

Dani, deitada sobre uma toalha florida, sentou-se e tirou os óculos escuros, posicionando-os no topo da cabeça. Ao fundo, "Coisa Linda", de Tiago Iorc, tocava suavemente no celular de Elisa, diretamente da sua playlist no Spotify.

— E qual curso está pensando em fazer? — perguntou Dani, curiosa. — Pelo que me lembro, você gostou de várias opções na feira de profissões.

— Pois é. Há dois anos, eu adorava gravar vídeos para o YouTube e viajar. Mas era só um hobby, sabe? Algo que não fazia sentido levar adiante. Depois que conheci os veteranos de Odontologia, algo mudou em mim. Comecei a pesquisar mais, assistir a vídeos, e agora tenho certeza: é isso que eu quero! — contou Lívia, animada.

— Isso é incrível! — exclamou Elisa. — Lívia vai ser odontologista, eu serei médica veterinária...

— E eu, publicitária — revelou Dani, com um sorriso. — Sempre gostei de cantar, mas sei que não seguiria carreira. Além disso, precisa de muito investimento.

— Sabia! — brincou Lívia, apontando para a amiga. — Na feira, você estava empolgada no estande de Publicidade. Até perguntei para Elisa se você tinha se interessado no curso ou no gatinho que não parava de te olhar!

Dani revirou os olhos e lançou uma bolinha de guardanapo na direção de Lívia, enquanto nossas gargalhadas se espalhavam pelo parque.

— Fico feliz que já tenham encontrado seus caminhos — confessei, recuperando o fôlego.

— Não se preocupe, Lana. Quando você menos esperar, vai...

— Eu encontrei minha vocação! — interrompi Elisa, quase sem perceber.

As três me encararam, surpresas. O sorriso de Elisa surgiu primeiro, antes que ela me envolvesse em um abraço caloroso.

— Isso é demais! Você conseguiu! — comemorou, eufórica.

— Qual curso vai fazer? — perguntou Dani.

— Foi algo estranho... Na semana passada, tive muitas ideias e comecei a escrever. Sempre gostei de literatura, já escrevi poemas, e tenho facilidade com línguas, especialmente inglês. Acho que essas habilidades me levaram a encontrar algo que realmente me define.

— Parece perfeito pra você — disse Lívia, incentivando.

— Concordo. Tem tudo a ver com a Alana — afirmou Elisa.

— Então, temos aqui: uma publicitária, uma odontologista, uma médica veterinária e... uma escritora! — completou Dani, com um sorriso.

— Aspirante a escritora — corrigi, rindo.

— Vamos fazer um brinde! — propôs Lívia, empolgada.

Enchemos nossos copos de plástico com refrigerante, cuidando para não bagunçar a toalha florida. Apenas as migalhas de bolo, sanduíches e salgadinhos escapavam ao controle, mas eram um caos aceitável.

Erguemos os copos ao mesmo tempo, e Lívia limpou a garganta antes de dizer:

— À nossa amizade e ao nosso futuro!

Repetimos a frase em uníssono, nossos sorrisos se curvando em cumplicidade. Quando os copos se encontraram, o som suave do brinde pareceu eternizar aquele momento, como se fosse tingido pelas cores do companheirismo e das promessas que compartilhávamos.

Minha decisão não apenas trouxe boas expectativas, mas também um receio sobre revelar minha verdadeira aptidão. Essa pessoa era Cíntia. Naquela segunda-feira, tentava reunir coragem para fazer a revelação de maneira sutil. Por mais que fosse uma oportunidade especial, sentia que não era o momento propício. Meu futuro dependia dessa escolha, e esconder já não era mais uma opção.

— Antes que algum cliente chegue, preciso falar com você... sobre aquela proposta — minha voz trêmula manifestou-se.

Assim que ela acessou o sistema de vendas, deixou o mouse de lado e me encarou. Engoli em seco.

— E aí, pensou sobre isso?

— Descobri minha vocação, e não tem nada a ver com administração ou comércio. Decidi que vou cursar algo que realmente me agrada, relacionado à literatura, gramática e línguas estrangeiras — confessei, liberando uma parcela de ar, como se me desapegasse da tensão acumulada.

— Isso é bem diferente, pois vejo poucas pessoas interessadas nessa área. Queria muito que você almejasse uma carreira aqui na loja, mas entendo que nossos sonhos nos levam a lugares únicos e significativos — respondeu, com um tom compreensivo.

Entrelacei os dedos e pigarreei, ainda um pouco apreensiva.

— Então você não ficou desapontada comigo? Fiquei com medo de dizer a verdade... — confessei.

— Lógico que não, Alana — garantiu, rindo suavemente. — Você é livre para fazer suas escolhas. Está certa em seguir algo que a deixa feliz.

Essas palavras foram suficientes para dissipar a sensação de tormento que me acompanhava. Restou apenas a luminosidade de um desejo que agora parecia mais concreto. Agradeci à minha chefe pela compreensão e incentivo.

Iniciei minha primeira tarefa do dia verificando os produtos nas prateleiras, para repor o que fosse necessário. Sozinha e distante do balcão, aproveitei o momento para desbloquear o celular. Acessei o navegador e removi a página do curso de Administração dos favoritos.

Era tempo de deixar as névoas das dúvidas para trás e acolher algo novo e definido, que me convidava a explorar um universo repleto de promessas e oportunidades.

No decorrer dos dias, minha decisão trouxe uma segurança crescente, a ponto de me fazer planejar seguir a trajetória que minha vocação delineava. No entanto, antes de dar o primeiro passo, era necessário rever minhas condições. Isso incluía ajustar minha rotina e avaliar se a remuneração seria suficiente para cobrir as novas despesas.

Como era um assunto que não podia ser adiado, decidi aproveitar uma oportunidade tranquila para contar à minha mãe. Naquela noite de sexta-feira, enquanto a ajudava a preparar o jantar, o momento parecia perfeito para iniciar a conversa.

— Mãe, lembra quando eu me sentia perdida no ensino médio por não saber o que queria para o meu futuro?

Ela desligou o fogão, deixando a panela de arroz descansar, e me encarou.

— Sim, lembro perfeitamente. Inclusive, te disse várias vezes que cada pessoa tem seu próprio tempo.

— E você tinha toda razão — confessei, sorrindo de leve.

Minha mãe hesitou, como se procurasse as palavras certas, mas optou por permanecer em silêncio, suas sobrancelhas arqueadas de surpresa.

— Isso é ótimo! — disse, admirada. — Finalmente entendeu que não estava andando em círculos. Olhe só, sua vida mudou: conseguiu um emprego, foi efetivada...

— E descobri minha vocação — interrompi, com entusiasmo.

Os olhos dela se arregalaram.

— Como é?! Você... conseguiu? — murmurou, enquanto um sorriso se formava em seus lábios.

Apoiei o pano de prato sobre a cadeira.

— Sempre esteve na minha frente, mas só percebi agora. Duas semanas atrás, decidi escrever um conto e, desde então, me senti mais inspirada e criativa. Já havia escrito alguns poemas no terceiro ano, mas achava que era só uma bobagem. Esse conto veio para provar o contrário: a escrita é minha verdadeira oportunidade.

— Que maneira linda de descobrir sua aptidão — confessou ela, com os olhos brilhando de orgulho. — Parece que foi ontem que você começou o ensino médio, e agora está prestes a entrar na faculdade.

Entrelacei os dedos, hesitante.

— Era sobre isso que eu também queria falar. Com o pai ainda sem um emprego fixo, não sei se teremos condições de pagar as mensalidades. Além disso, já acabou o prazo de inscrição para a Federal, então só sobraram as particulares, e minha nota do ENEM não atinge a nota de corte.

— Você ainda tem o FIES ou o ProUni como opções. Sua nota do ENEM 2016 é válida para 2018, já que o edital permite usar notas de até dois anos anteriores. Faça o vestibular em outubro e, quando abrirem as inscrições do ProUni em janeiro, você poderá se cadastrar.

Pensei em quanto tempo havia perdido preocupada sem considerar essa possibilidade. Bati na testa com a mão.

— Como pude esquecer disso? Então ainda dá para começar a faculdade ano que vem!

— E deve — afirmou ela, com convicção. — O que está esperando? Vá pegar o notebook e faça logo sua inscrição.

Sorri, abraçando-a com gratidão.

— Obrigada por sempre acreditar em mim.

— Sempre vou apoiar suas escolhas. Agora vá em frente, porque sei que será uma fase cheia de desafios, mas também de muitas realizações.

Nos desvencilhamos e saí da cozinha em passos acelerados. Cheguei ao quarto com passos lentos, mas com o coração pulsando com uma inquietude nova. Quando liguei o notebook, senti o peso de uma decisão que parecia muito maior do que eu. Diante da tela, respirei fundo e abri o site da universidade, aquela que sempre admirei, uma das melhores de Curitiba, onde o futuro parecia ter o brilho de uma promessa. Quando acessei a aba de inscrição, meus dedos hesitaram por um instante, como se o peso daquela decisão carregasse todos os sonhos que guardei em silêncio por tanto tempo. Mas, no momento em que preenchi meus dados, senti algo mudar dentro de mim — era como se, enfim, estivesse alinhando minhas escolhas ao que realmente amava, ao que fazia meu coração vibrar.

Foi um ato de reafirmar quem eu era e quem eu desejava ser.

Quando a mensagem de confirmação apareceu no centro da tela, um sorriso tímido tomou meus lábios. Era como se aquela pequena janela digital carregasse todo o peso do meu futuro, mas também a leveza de uma escolha feita com a certeza nítida. Fiquei ali, encarando o brilho da tela por alguns segundos, sentindo-me ao mesmo tempo corajosa e vulnerável. Aquela inscrição não era apenas um passo em direção ao vestibular; era o início de algo maior, uma jornada que, eu sabia, moldaria não apenas o meu destino, mas quem eu me tornaria ao longo do caminho.

Li as palavras novamente na tela, como se precisasse de uma segunda prova de que aquilo era real, de que eu realmente havia dado esse passo tão esperado. Uma sensação cálida, quase como receber novas raízes para florescer.

Prezado(a) candidato(a),

Sua inscrição para o vestibular do curso de Letras – Português e Inglês foi realizada com sucesso!

Acompanhe seu e-mail e o portal do candidato para atualizações importantes sobre as próximas etapas. Em caso de dúvidas, entre em contato com a nossa equipe de atendimento.

Desejamos boa sorte em sua jornada acadêmica!

Atenciosamente,
Equipe de Vestibular.

Naquele instante, senti como se a intuição sussurrasse que eu pertencia àquele caminho, que cada dúvida e cada tropeço haviam sido necessários para me trazer até aqui. O futuro, antes um véu opaco de incertezas, agora se desdobrava diante de mim, repleto de mistérios aguardando para serem desvendados. Não era só esperança; era a certeza de que eu estava prestes a entrar em algo maior, algo que me transformaria. Sorri, com os olhos brilhando, e, naquele breve momento, tive a nítida sensação de que era o chamado que finalmente havia me encontrado, uma melodia sutil que ecoava no fundo do meu ser e, por fim, eu estava pronta para escutá-la.

Notas da autora: Que emocionante esse encontro da Alana com sua vocação! O mundo é seu, garota, chegou a hora de voar!

Agora nos resta saber o futuro dela e da Elisa. Quais as expectativas?

Te espero no último capítulo.

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