| Capítulo 27 | Toda chance que tem, é uma chance de aproveitar
Meus pensamentos estavam imersos, uma tormenta silenciosa que se recusava a partir. A manhã gélida parecia espelhar a inquietação que me habitava, enquanto meus passos ecoavam pela calçada, abafados pelo vento que assobiava entre as árvores e arrastava folhas secas pelo chão. As palavras dentro de mim, desordenadas, tentavam se alinhar, preparando-se para as perguntas da entrevista de emprego. Ainda que me esforçasse para manter o foco, o anseio comprometia o ritmo da minha respiração. O frio de Curitiba parecia não vir apenas do lado de fora, mas também brotar do meu interior, uma ventania que agitava minha alma e desestruturava minhas emoções.
À medida que me aproximava do estabelecimento, algo simples capturou meu olhar, como uma promessa de delicadeza. Dentre as construções que dominavam a avenida principal, a placa da loja emergia como um convite silencioso. Um tsuru, perfeitamente dobrado, erguia suas asas como se estivesse prestes a voar. O fundo amarelo pastel emanava uma suavidade acolhedora, enquanto o papel branco destacava-se com um toque etéreo. Pequenas estrelas douradas ao redor reluziam como fragmentos de um sonho. O nome "Papelaria Tsuru", em uma fonte moderna e delicada, aparecia em cinza profundo, completando a cena.
Por um instante, minha tempestade interior cessou. Permaneci estática, absorvendo os detalhes daquele lugar que, talvez, pudesse ser a porta para uma nova fase da minha vida. E eu estava pronta para entrar.
Assim que adentrei o ambiente, minha atenção foi capturada pela organização impecável das prateleiras, repletas de produtos dispostos como obras de arte. Caminhei com calma em direção ao balcão, onde esperava encontrar Cíntia, a proprietária da loja.
Em poucos segundos, sua figura surgiu com um sorriso discreto.
— Alana! Que bom que chegou... e pontualmente — saudou, animada.
Cíntia me recebeu com gentileza, exibindo um ar de profissionalismo que parecia inato. Embora perto dos 45 anos, ela trazia consigo uma beleza serena e atemporal. Seus cabelos curtos e ruivos brilhavam sob a luz, emoldurados pelos óculos de armação vermelha que acentuavam a profundidade de seu olhar. A calça jeans ajustada e o suéter branco felpudo refletiam a delicadeza de sua essência.
— Como esse horário é mais tranquilo, podemos fazer a entrevista aqui mesmo. Será breve — explicou, deslocando-se para o computador.
Cíntia deslocou-se em direção ao computador, que ficava do outro lado do balcão. Em seguida, ligou a tela e acessou a caixa de e-mail, a fim de abrir meu currículo.
— Pelo que vi você tem o ensino médio completo, inglês intermediário, é pontual, organizada e comunicativa — afirmou, enquanto analisava cada palavra. — Fico feliz que tenha se interessado pela vaga, pois descobri recentemente que estou com artrose, o que me prejudica em alguns movimentos. E como já conheço sua mãe desde o ensino médio e ela dá aula de pilates, decidi me inscrever para amenizar as dores que sinto. Aí durante uma conversa nossa, ela comentou comigo que você estava em busca do seu primeiro emprego.
Concordei com a cabeça. Assim que Cíntia finalizou a leitura das minhas informações, seus olhos voltaram a encarar meu semblante.
— Vou fazer algumas perguntas e, dependendo das respostas, definiremos sua aprovação.
Respirei fundo, tentando estabilizar as palpitações. Era hora de deixar a coragem tomar as rédeas.
— Você gosta de lidar com o público? Como se imagina ajudando os clientes? — indagou.
Minhas mãos começaram a suar e as palpitações se intensificaram. Era momento da coragem me guiar mais uma vez. Corrigi minha postura logo em seguida.
— Você gosta de lidar com o público? Como acha que seria ajudar os clientes a encontrar o que procuram?
Sem esperar muito, as palavras se reuniram, prontas para escapar.
— É legal lidar com pessoas. Acho que seria gratificante poder ajudar os clientes a encontrar exatamente o que precisam, ainda mais em um lugar com tantos produtos interessantes.
— Ótimo... vejamos a próxima pergunta sobre situações práticas — falou, pensativa. — Caso o estoque de um item esteja em falta, mas o cliente precisa dele, como você informaria essa situação?
Minha consciência alvoroçou, a fim de impedir que o silêncio se prolongasse. Buscar respostas por pressão era algo que precisava aperfeiçoar.
— Eu... explicaria que o produto está em falta no momento e ofereceria alternativas, como outros produtos similares. Também poderia verificar quando o item estará disponível novamente.
Ela assentiu com a cabeça e ajeitou os óculos.
— Certo. Agora um questionamento sobre adaptação e aprendizado: Você já participou de atividades que exigiram organização ou responsabilidade? Pode me contar como foi?
Instantaneamente, os momentos passados de quando era estudante surgiram em forma de uma claridade, espantando qualquer sombra que ousasse se aproximar.
— Na escola, eu era responsável por organizar trabalhos em grupo e sempre deixava meu material bem arrumado. Já ajudei em eventos, como atuar no estande para atender as pessoas, também aprendi a lidar com tarefas práticas e horários.
— Tudo bem, vamos para a próxima pergunta: Como é a sua disponibilidade de horário? Está aberta para trabalhar aos finais de semana, se necessário?
— Tenho disponibilidade total, inclusive para os fins de semana.
Suspirei lentamente. Era uma resposta que já estava habituada em usar.
— Ok. Agora a última pergunta: Por ser seu primeiro emprego, como você imagina que será conciliar trabalho e outras atividades pessoais?
Tentei o máximo em não arregalar os olhos. Mantive meu semblante sereno, embora as palavras parecessem ter me abandonado. Retomei o foco nos pensamentos e a autoconfiança me mostrou mais uma vez que eu não estava sozinha.
— Acredito que será um aprendizado importante. Estou pronta para priorizar o trabalho e organizar minha rotina para equilibrar tudo. Também quero me dedicar e sei que posso ajustar meus compromissos pessoais para atender às necessidades da loja — concluí, o tom de entusiasmo na voz.
Por um instante, nossos olhares ainda estabeleciam uma conexão, até que Cíntia suspirou e voltou a observar meu currículo em formato pdf diante da tela. O silêncio parecia pesar a atmosfera, fazendo com que o passar dos segundos se arrastasse vagarosamente. Uma espera tão angustiante, a qual não saberia se a chave me concederia a abertura esperada.
— Com todas essas respostas, ainda não entendo por que não foi contratada antes.
Suas palavras me impressionaram.
Relaxei os ombros, permitindo que a esperança renovada me preenchesse.
— Então significa que...
— Sim, você está contratada!
Assim que a notícia ecoou em meus ouvidos, foi como sentir o som inconfundível de uma chave girando em uma fechadura enferrujada, destrancando o que antes parecia inalcançável. Por tanto tempo, bati àquelas portas com o peso das minhas esperanças, apenas para ser recebida pelo silêncio impenetrável. Mas naquele instante, uma luz irrompeu pela fresta, não apenas iluminando o espaço à minha frente, mas incendiando meu coração com uma força renovada. Era a oportunidade que tantas vezes escapara das minhas mãos, agora firmemente ao meu alcance. Cada negativa passada parecia desvanecer, transformada em degraus que me conduziram até aqui. Agora, ao me deparar com essa abertura finalmente conquistada, senti a brisa de um novo começo e o chamado para atravessá-la. Era um mistério saber o que me esperava do outro lado, entretanto, seria conduzida por momentos repletos de novas possibilidades e desafios, a qual faria da coragem uma luz ainda mais intensa para me impulsionar adiante.
E naquele instante, permiti que a esperança conduzisse meus passos.
Assim que a novidade foi compartilhada com minha família, minha mãe fez questão de preparar um jantar especial, um gesto para celebrar a nova etapa que eu estava prestes a iniciar. Como ainda precisava realizar o exame admissional, abrir uma conta no banco e providenciar a cópia de alguns documentos, o início no trabalho estava marcado para a próxima semana.
À noite, reunidos na sala de jantar, desfrutamos de um momento acolhedor, repleto de conversas e risadas que preenchiam o ambiente como uma melodia tranquila. A lasanha de queijo e presunto, preparada com esmero, era mais do que um prato; era um símbolo de celebração, trazendo notas de conforto ao meu paladar. O clima eufórico que pairava no ar carregava promessas de um período repleto de conquistas, enquanto meu pai, ainda buscando sua própria oportunidade, também se deixava envolver pela esperança renovada que parecia contagiar nossa família.
Após terminarmos a refeição, ajudei a organizar e limpar os utensílios da mesa. Quando tudo estava em ordem, segui para o meu quarto em busca do celular. Assim que liguei a tela, uma notificação da rede social chamou minha atenção. Entusiasmada, abri o aplicativo e vi que se tratava de algumas mensagens de Michel.
Michel de Castro: Lana, resolvemos conversar com a Elisa o quanto antes, pois minha mãe estava muito aflita com toda a situação. Foi algo bem tenso, com muitas vozes embargadas, sentimento de culpa e lágrimas. Minha irmã confessou tudo e agora vamos apoiá-la pra acabar de vez com esse distúrbio maldito.
Michel de Castro: Minha mãe vai marcar consulta com profissionais para ajudar a Elisa. E, mais uma vez, muito obrigado por me incentivar a revelar tudo isso, agora sinto que as coisas vão mudar pra melhor... Ah, e como foi sua entrevista de emprego? Deu certo?
Um sorriso escapou enquanto lia as mensagens. Digitei rapidamente uma resposta, sentindo-me satisfeita. Finalmente, as ruínas que atormentavam Elisa começavam a dar lugar a algo novo. Era o momento de juntar forças para erguer os destroços e iniciar um período de reconstrução, afastando as sombras que haviam se instalado em seus dias. Ainda que minha presença não fosse constante, sabia que minhas ideias estavam lá, guiando cada passo de sua trajetória.
A penúltima semana de maio chegou envolta em uma sinfonia de expectativas. Acordei mais cedo do que o necessário, incapaz de permanecer deitada enquanto o alvoroço sacudia meu peito. Afinal, era o primeiro dia da minha experiência profissional, um marco que cantava as notas do meu rito de passagem.
Era uma canção tão esperada, que finalmente conseguiu me encontrar.
Minha escala seria de segunda a sexta, das 9h às 18h, e aos sábados até as 14h. O som suave da minha respiração preenchia o quarto enquanto eu terminava de me arrumar. Flavia ainda estava no colégio, e o silêncio ao meu redor parecia amplificar o peso da ocasião. Reunindo toda a coragem que acumulei ao longo dos anos, mantive firmeza no meu propósito, sem dar espaço para qualquer indício de desmotivação.
O trajeto a pé até a papelaria era pontuado por um anseio repleto de encanto, um sentimento que consumia minhas estruturas e, paradoxalmente, me fortalecia. Assim que atravessei a entrada do estabelecimento, encontrei Cíntia aguardando minha chegada para iniciar as primeiras orientações.
— E aí, preparada para seu primeiro dia? — perguntou, com um sorriso encorajador.
Concordei com a cabeça, retribuindo o sorriso. Em seguida, ela se dirigiu ao balcão, abaixando-se para procurar algo. Quando se levantou, notei que segurava uma camiseta amarela idêntica à que estava usando.
— Ainda bem que consegui pegar sua camiseta a tempo na confecção. Essa é tamanho P. Agora vista seu novo uniforme — disse, animada.
Minhas mãos tocaram o tecido de algodão, macio e confortável, ideal para horas de trabalho. Dirigi-me ao banheiro para vestir o uniforme. O amarelo vibrante destacava a essência da loja, enquanto o pequeno bordado em forma de tsuru, delicadamente posicionado no lado esquerdo da peça, capturava a identidade do lugar. Como estava frio, coloquei minha jaqueta por cima, deixando o zíper aberto para que o uniforme permanecesse visível, facilitando o reconhecimento pelos clientes.
Ao sair do banheiro, Cíntia apontou para uma prateleira abaixo do balcão do caixa.
— Pode guardar seus pertences aqui — indicou, com gentileza. — Como acabei de abrir a loja, vai demorar um pouco até os clientes aparecerem. Vou aproveitar para te dar algumas dicas de atendimento.
Foquei minha atenção em cada palavra enquanto ela continuava.
— Quando um cliente entrar, sorria e cumprimente-o de forma educada. Isso mostra que você está disposta a ajudar. Escute com atenção o que ele precisa e procure nas prateleiras. Assim que finalizar a venda, encaminhe o cliente ao caixa para que eu prossiga com o pagamento. E... — fez uma breve pausa, refletindo. — Acho que estou esquecendo alguma coisa...
— Eu também vou conferir as encomendas de mercadorias e organizar o estoque? — sugeri.
— Vamos com calma, está bem? Primeiro, você precisa pegar experiência no atendimento ao público. Depois, vou te ensinar sobre o estoque e as conferências. É muita coisa para aprender de uma vez, e não quero que você se confunda.
— Concordo, é melhor assim. Então, por enquanto, só vou atender os clientes. Isso vai ser fácil — afirmei com determinação.
Inesperadamente, o soar da campainha na entrada anunciou a chegada do primeiro cliente. Meu sorriso ensaiado já estava no rosto quando uma senhora se aproximou, segurando uma bolsa de couro que parecia pesada demais para seu tamanho.
— Bom dia, moça. Preciso de um bloco de papel canson A4 — pediu, com uma voz que trazia o peso do tempo.
Retribuí o cumprimento e a conduzi até a prateleira onde os papéis estavam organizados. Observando atentamente as dimensões descritas nas embalagens, o localizei com facilidade. Minha experiência anterior com esse tipo de material no ensino médio ajudou a evitar qualquer dúvida.
Comemorei com um sorriso ao realizar minha primeira venda. Assim que a cliente deixou a loja, Cíntia esboçou um semblante alegre, demonstrando orgulho pela minha atitude.
No decorrer das horas, o início da minha trajetória parecia descomplicado, fazendo-me acreditar que meus passos seguiam o curso correto. Contudo, bastou a aparição de um obstáculo para provocar um tropeço inesperado. Encarava o rosto da mulher de meia-idade que aguardava minha resposta, sentindo o suor frio brotar.
— Sabe se aqui tem cadernos de gramatura alta para aquarela? — repetiu a pergunta, com um leve tom de impaciência.
Com a mente tomada por uma ligeira confusão, comecei a caminhar pelo espaço em busca do item solicitado, examinando cada produto nas prateleiras. A mulher me seguia de perto, seus passos sincronizados aos meus, enquanto sua paciência parecia se dissipar no ar.
— Mocinha, estou com um pouco de pressa. Se não tiver, volto outro dia...
— Vou perguntar para a gerente. Por favor, aguarde um momento — pedi, mantendo o tom educado.
Apressei os passos em direção a Cíntia, que atendia outro cliente no fundo da loja.
— Desculpa interromper, mas você sabe se temos cadernos de gramatura alta para aquarela? Procurei em vários lugares e não consegui encontrar.
— Te acompanho até lá.
Suspirei aliviada ao ouvir suas palavras.
— Só um instante — ela disse ao cliente que atendia. — Já volto para pegar sua tinta de carimbo.
A agilidade de Cíntia ao localizar o item era impressionante, um contraste evidente com minha insegurança. Agradeci silenciosamente enquanto levava o caderno até a cliente, que esperava com uma expressão visivelmente irritada.
— Finalmente! Estava quase indo embora — reclamou, sua voz carregada de desagrado.
— Peço desculpas pela demora. Este era o último pacote disponível — expliquei. — Precisa de mais alguma coisa?
— Não, só isso mesmo.
Enquanto Cíntia finalizava a compra no caixa, a mulher sequer se deu ao trabalho de retribuir minha despedida. Sua indiferença cortou como uma flecha gelada, ferindo a claridade que me habitava.
O restante do expediente revelou uma realidade bem diferente daquela que imaginei. As tarefas se alternavam entre momentos de tranquilidade e desafios intensos. Sendo meu primeiro dia, ainda me faltava conhecimento sobre diversos produtos, o que me obrigava a recorrer frequentemente a Cíntia, atrasando seu ritmo de trabalho. Nos períodos de maior movimento, minha falta de experiência parecia pesar ainda mais.
Quando as tonalidades do fim da tarde anunciaram o fechamento da loja, senti o cansaço misturado à promessa de descanso. Enquanto Cíntia desligava o computador e vestia seu sobretudo, ela se aproximou da minha pessoa.
— Alana, preciso conversar com você sobre hoje. Sei que foi seu primeiro dia e saiba que é normal ter dúvidas sobre os produtos de papelaria. Pelo que percebi você é bem educada e atenciosa com os clientes, mas precisa ser mais ágil. A partir de amanhã, faça exercícios de memorização, comece a visualizar os produtos nas prateleiras enquanto não tiver clientes, assim você vai conseguir se familiarizar aos poucos — aconselhou.
Começamos a caminhar pelo corredor em direção à saída. Entrelacei os dedos.
— Obrigada pela dica, prometo que vou melhorar. E, mais uma vez, peço desculpas por te atrapalhar toda hora, mas eu não sabia que existia papel couchê brilhante, refil de agenda tamanho personal, lápis dermatográfico e papéis fotográficos matte e glossy... Sério, nem sabia que existia essas coisas.
Assim que as luzes foram apagadas, ajudei Cíntia a abaixar a porta de aço.
— São muitos nomes diferentes, mas com o tempo você pega o jeito. É questão de prática. Ah, quer que eu te leve até sua casa? Estou indo pela via rápida e não é muita contramão.
Concordei, aceitando o gesto generoso e ela destravou o veículo em certa distância. Enquanto Cíntia trancava a porta com certa dificuldade, entrei no carro e me acomodei no banco do carona. Durante sua demora, aproveitei para verificar as redes sociais.
Diante do feed do Facebook, a primeira postagem revelou uma foto de Elisa. Pelo lugar que estava, presumi ser na sacada de um shopping. Sua figura refletia uma jovialidade vibrante, com roupas que acompanhavam as tendências e um sorriso espontâneo.
Sua mudança exterior era nítida, como pétalas que acabaram de florescer, mas havia alguns detalhes que surgiam em forma de espinhos. Embora nossas trocas recentes tivessem sido ásperas, sabia que ela enfrentava batalhas silenciosas. E meu apoio nessa reconstrução não iria passar despercebido. Decidida em minha atitude, resolvi curtir e comentar sua postagem, mesmo que não obtivesse resposta, pois meu outro lado ainda se importava com sua pessoa. Não podia simplesmente virar as costas por causa de palavras desagradáveis, pois havia sombras que a atormentavam. E como luz, não poderia deixar que dominasse toda a sua estrutura.
Afinal, todos precisam de um raio de sol para se aquecer, pois é assim que conseguirão brilhar.
Em duas semanas, minha experiência no atendimento ao público evoluiu de maneira eficiente, permitindo que eu realizasse mais vendas e adquirisse novos aprendizados que se fixaram profundamente em minha mente. À medida que meu desempenho se tornava cada vez mais satisfatório, Cíntia decidiu me treinar para operar o caixa, realizar a conferência dos produtos e organizar o estoque. Com isso, conseguimos revezar as tarefas sem sobrecarregar ninguém, fazendo o ritmo das vendas crescer de forma constante.
Junho chegou, carregado de expectativas, pois era época de festa junina. Os itens de papelaria se tornaram os mais procurados, e para tornar a loja ainda mais atraente, Cíntia decidiu encomendar materiais usados na confecção de decorações e adereços, com o objetivo de alcançar um faturamento acima da média.
Como as tardes costumavam ser mais ociosas, Cíntia optou por reunir as sobras de TNT para criar bandeiras típicas de festa junina. A variedade de cores disponíveis seria perfeita para enfeitar os arredores da loja. Com barbante, tesoura e cola quente, começamos o trabalho. Enquanto ela se encarregava de recortar, eu fiquei responsável por colá-las no barbante.
— Isso me fez lembrar quando o Luiz e eu fazíamos as bandeiras para enfeitar a sala de aula onde ele estudava. Os coleguinhas ficavam admirados. Sempre ia às apresentações de festa junina, e teve uma vez em que ele dançou a música "Na sola da bota" — comentou, nostálgica, com um sorriso que transbordava alegria.
— Já dancei essa música no primário e também "Clima de rodeio".
— Essa música não pode faltar. — Riu suavemente. — Essas fases passam tão rápido. Agora, ele está com vinte e dois anos e faz faculdade de Biomedicina, em Minas Gerais. Antes de se mudar, ele me ajudava na loja, já que meu marido trabalha como supervisor de produção numa empresa.
Dobrei a parte superior do TNT laranja e passei um pouco de cola quente, fixando-o cuidadosamente no barbante, tomando cuidado para não me queimar.
— Mas vejo essas mudanças como portas abertas para algo novo, e você foi uma dessas portas — disse, olhando em minha direção enquanto colocava as bandeiras recém-cortadas sobre o balcão. — Sei que meu filho está seguindo o caminho dele, mas isso me deu a oportunidade de te contratar e perceber que você tem um potencial imenso.
Sorri, agradecendo com um gesto de gentileza, e continuei com a colagem das bandeiras.
— Só estou fazendo meu trabalho, mas agradeço pelo reconhecimento.
— Pelo menos estamos dando conta da loja. Ainda lembro de quando inaugurei em 2010; aluguei um espaço pequeno, mas não desisti, e agora tenho uma loja maior, localizada em uma avenida movimentada. A papelaria sempre foi meu sonho. Desde criança, tive contato com artesanatos e origamis, influenciada e incentivada pelos meus avós maternos, que eram japoneses. Desenvolvi um apego maior pelo origami, tanto que resolvi fazer cursos para aprimorar minhas habilidades. Depois de um tempo, até realizei oficinas de origami em algumas escolas municipais.
— Caramba, que legal! Agora entendi o motivo de você consumir coisas da cultura japonesa... E é por isso que a papelaria tem o nome Tsuru.
— Acertou!
Nos encaramos, e nossas risadas preencheram o ambiente. Finalmente colei a última bandeira, mas decidimos pendurá-la no dia seguinte. Observei o cordão extenso, carregado de cores vivas, que trouxe uma essência agradável.
— Lana, vou precisar ir ao atacado buscar as mercadorias que encomendei. Fica no bairro aqui perto, então não vai demorar muito. Enquanto isso, cuide da loja. Agora que você já está mais habituada, consegue lidar com tudo — pediu, educada.
— Pode contar comigo. O horário da tarde é mais tranquilo, então consigo dar conta.
— Acho que antes das quatro estou de volta. Qualquer coisa, me ligue.
Assenti com a cabeça. Cíntia pegou as chaves do carro e saiu do estabelecimento. A uma certa distância, ainda pude ouvir o ruído do motor até que se afastou, desaparecendo da minha audição.
Apenas minha companhia habitava o local. O silêncio se instalou nos arredores, trazendo uma sinfonia de sossego. Decidi caminhar vagarosamente até as prateleiras próximas à porta, para vigiar a loja com mais atenção.
Em poucos minutos, o vibrar do meu celular interrompeu o momento tranquilo, despertando uma curiosidade inesperada. Franzi o cenho, confusa. Retirei-o do bolso traseiro da calça jeans e logo percebi que era uma ligação. O número que apareceu no identificador não estava salvo em minha lista de contatos, o que me fez presumir que fosse uma ligação de telemarketing. Pensei em recusar, pois não costumava atender números desconhecidos, mas uma outra possibilidade surgiu em minha mente, como uma esperança oculta. Com os olhos ainda atentos à loja, deslizei o dedo na tela para aceitar a chamada.
— Oi, é a Alana que está falando?
As primeiras palavras romperam o momento brando, ressurgindo sensações amargas. Senti as palpitações aumentarem. Por um instante, me vi imersa naquele cenário, onde tudo se desmoronava, e eu estava sozinha, prestes a ser soterrada pelos destroços. Era aquela voz, mais uma vez. A voz que alastrou as rupturas, a voz que me fez sentir as piores dores.
A voz que eu nunca imaginei que pudesse voltar a ouvir.
Notas da autora: E a nossa Alana está crescendo! É, a vida adulta não é fácil, mas fico feliz que as coisas estão dando certo para ela.
E a mensagem do Michel nos encheu de esperança, vamos continuar na torcida por Elisa!
E de quem será que é a voz do outro lado da linha? Por essa Alana não esperava...
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top