| Capítulo 26 | Precisamos voar sozinhos, antes que nos ensinem como
Depois daquele instante, o sentimento de decepção tornou-se uma companhia constante, como uma bagagem pesada demais para ser abandonada. Minha tão esperada trajetória já apresentava obstáculos logo no início, dificultando o ritmo dos meus passos.
Após relatar a discussão para Lívia, retomei minha caminhada até a portaria, que dava acesso ao ponto de ônibus mais próximo. Dentro do transporte público, durante o trajeto rumo ao centro da cidade, meus pensamentos insistiam em exibir o cenário atual: após tanta dedicação em tentar consertar estruturas que não me pertenciam, agora me via distante, sem qualquer previsão de retorno.
Com as tonalidades acinzentadas dominando novamente minhas emoções, fui obrigada a presenciar mais um acontecimento desalentador: minhas esperanças se tornavam cada vez mais escassas. Minhas tentativas de iniciar um novo ciclo não haviam surtido o efeito desejado. Era sempre o mesmo roteiro: deixar o currículo no banco de talentos, aguardar respostas que demoravam a chegar e, quando chegavam, traziam explicações diretas de que não fui aprovada.
Me perguntava quantas vezes teria que passar por frustrações até chegar na realização. Apenas queria uma oportunidade que pudesse suavizar, trazendo cantigas de boas mudanças.
Entretanto, quanto mais ansiava pela melodia, mais me deparava com o silêncio.
Quando cheguei em casa, a exaustão me atingiu de imediato. Precisava de um descanso depois de tantas horas caminhando pelas calçadas de petit pavé e suportando a superlotação do ônibus. Entrei no quarto e larguei a bolsa com a pasta sobre a cama. Sentei-me na beirada do colchão e soltei um suspiro frustrado.
— E aí, como foi? — Flavia perguntou da porta do cômodo. Levantei a cabeça para encará-la.
— Não foi nada bom — respondi, com tristeza. — E, para piorar, hoje não está sendo um grande dia.
— Dá pra perceber pela sua cara — constatou. — Quer me contar o que aconteceu?
Ela se sentou ao meu lado, tentando tornar a conversa mais confortável.
Suspirei e relaxei os ombros antes de começar.
— Fui ao colégio buscar o histórico escolar e, ao sair do bloco, encontrei as amigas da Elisa. Foi quando me disseram que ela andava com atitudes péssimas, a ponto de elas romperem a amizade. Tentei conversar com a Elisa sobre isso, mas a discussão ficou cada vez mais intensa. No final, desisti... E nossa amizade também chegou ao fim — confessei, com a voz trêmula.
Minha irmã apoiou a mão no meu ombro, exibindo um semblante carregado de pesar.
— Sinto muito por isso — lamentou. — Também passei por algo parecido no ano passado. É tão triste quando amizades acabam.
— Não queria que terminasse assim... — Respirei fundo e entrelacei as mãos. — Eu estava ajudando ela a recuperar a autoestima. Senti que era meu dever fazer algo, porque o sofrimento dela parecia com o meu. Por isso, insisti para irmos às compras no shopping, para ela desfilar para o avô, tirar fotos em parques, dançar em uma festa... Só queria o bem dela.
Flavia me olhou surpresa.
— E ela ainda brigou com você? — perguntou, incrédula. — Sério, não sabia que você fez tudo isso por alguém. Tô admirada — completou, com um sorriso tímido.
— O que me preocupa agora é como continuar ajudando, já que ela não quer nem me ver mais.
— Acho que ainda dá para fazer algo por ela, mas talvez de outra forma... — fez uma pausa breve, procurando as palavras certas. — Talvez envolvendo outras pessoas nessa missão.
Levantei-me da cama, um tanto hesitante.
— Quem poderia ajudar? Flavia, eu sou a única que sabe sobre o problema dela e... — pausei a fala.
Naquele instante, as palavras formaram uma resposta concreta em minha mente. Era uma nova chance que eu não poderia desperdiçar.
— É isso! — exclamei. — Posso estar longe, mas a família da Elisa está mais próxima. — Arqueei as sobrancelhas, empolgada. — E já sei exatamente com quem contar primeiro.
Tomar a decisão de alterar o rumo do plano foi uma escolha precisa e significativa. Enquanto caminhava vagarosamente em direção à floricultura, seguindo as coordenadas do Google Maps — já que nunca havia visitado o estabelecimento —, ainda buscava reunir as palavras certas para iniciar a conversa. Um anseio inquietante dominava minhas emoções, pois sabia que aquele assunto não deveria ser tratado com irrelevância.
Era período da tarde, e Elisa não trabalhava na loja, já que frequentava o curso pré-vestibular presencial duas vezes por semana — uma informação que descobri em suas redes sociais.
Quando meus passos cessaram diante da porta de vidro, minha mão pousou no puxador de inox. Respirei fundo. Era um momento que dependia exclusivamente da minha voz. Assim que empurrei a porta, o som suave de um sino anunciou minha chegada.
— Boa tarde, em que posso ajud... — Bernadete interrompeu a frase ao me avistar. Arqueou as sobrancelhas e abriu um sorriso. — Alana! Que surpresa boa te ver novamente.
Ela se afastou da prateleira onde organizava arranjos de rosas e caminhou em minha direção para cumprimentar-me.
— O Michel está por aqui? Preciso falar com ele.
— Ele saiu há uns trinta minutos, foi buscar alguns produtos para a loja — explicou, ajustando o avental rosa-claro.
Por um instante, me arrependi de não ter enviado uma mensagem antes, evitando desencontros.
— É que fiz uma entrevista aqui perto e decidi passar para falar com ele pessoalmente — menti, de forma breve. — E como estão as coisas por aqui? — mudei de assunto.
— Tudo na mesma. As vendas estão estáveis, mas devem aumentar, já que estamos em maio, o mês das noivas. Fora isso, está tudo tranquilo. Meu pai continua ativo, o Michel está quase se formando na faculdade, e a Elisa... bem, ela teve uma mudança incrível.
— Fico feliz por eles. — Sorri de forma contida. — Então, você notou algo diferente na Elisa.
Bernadete gesticulou para que eu a acompanhasse até a prateleira onde estava trabalhando minutos antes.
— Todos nós percebemos — respondeu enquanto retomava a montagem dos arranjos de rosas vermelhas. — Foi uma mudança muito boa. Ela começou a se cuidar mais, até emagreceu um pouco. Está mais radiante do que nunca — disse, com visível orgulho.
— Eu também notei. Sempre vejo as fotos dela nas redes sociais — comentei, forçando um sorriso. — Parece que está cada vez mais envolvida com maquiagem, moda e até exercícios físicos.
Bernadete interrompeu os movimentos e me encarou, surpresa.
— Sabia que nunca vi a Elisa se exercitando?
— Nem tomando medicamentos ou indo ao nutricionista? — perguntei, sentindo o arrepio de uma desconfiança súbita.
Ela negou com a cabeça, pensativa.
— Às vezes, ela pula refeições dizendo que está focada nos estudos e que comerá depois. Nessa época de vestibular, os jovens ficam tão dedicados e ansiosos que acabam não se alimentando direito. Talvez seja por isso que ela perdeu peso — concluiu.
Antes que pudesse formular uma resposta, o ronco de um motor soou do lado de fora, interrompendo o fluxo das palavras que já estavam na ponta da minha língua.
— Acho que o Michel acabou de chegar — avisou Bernadete.
Agradeci com um sorriso discreto e deixei a floricultura, dirigindo-me ao veículo estacionado.
A certa distância, avistei Michel abrindo o porta-malas para retirar algumas mercadorias. Aproximei-me com passos firmes. Assim que notou minha presença, ele se voltou, equilibrando pequenas caixas nos braços.
— Você por aqui? — perguntou, surpreso. — Não lembro de ter te visto antes na floricultura.
— É minha primeira vez aqui, na verdade.
Quando o bagageiro do carro ficou vazio, fechei o porta-malas como um gesto de cortesia.
— Se veio atrás da Elisa...
— Não é por causa dela — interrompi. — Preciso falar com você.
Michel franziu o cenho, confuso.
— Falar comigo? Sobre o quê?
— Sobre a Elisa. De uns tempos pra cá, ela tem agido de forma estranha. Brigamos feio, e, desde então, ela não fala mais comigo.
— Eu soube disso. Ela comentou sobre as amigas falsas e disse que encontrou outras meninas mais legais. Também contou que você foi injusta com ela.
— Só pode ser brincadeira — rosnei, irritada. — Tem muito mal-entendido nessa história! Ela tá tendo hábitos que não correspondem com a Elisa que conhecemos. Primeiro, ela está fútil. Segundo, ela quer ser aceita por todos usando sua nova imagem. E terceiro, ela...
— Emagreceu — interrompeu, o tom de voz grave.
Engoli as palavras que estavam prestes a sair e assenti. Michel suspirou, claramente aborrecido, e colocou as caixas no chão para aliviar o peso.
— Não é fácil falar sobre isso, mas a verdade é que minha irmã escondeu algo de vocês.
Minhas pulsações aumentaram o ritmo. A aflição dominou meu semblante.
— Como já deve saber, a Elisa sofreu bullying desde a infância, tudo por causa de sua aparência. Sempre se sentiu deslocada, como se fosse a única diferente. Na adolescência, começou a pensar que, se fosse igual aos outros, deixaria de sofrer. Foi aí que seus hábitos alimentares mudaram.
— Eu sabia que havia algo errado, mas ela nunca quis me contar — murmurei, com a voz trêmula.
— Descobri por acaso, antes mesmo de ela te conhecer. Nossa mãe estava viajando, e o vô ainda não morava conosco. Eu tinha saído pra jogar RPG e voltei mais cedo. Quando cheguei, ouvi barulhos vindos do banheiro. Preocupado, abri a porta e... lá estava ela, forçando-se a vomitar.
Um abalo repentino atingiu minhas emoções, provocando fissuras que poderiam se despedaçar a qualquer instante.
— Então era bulimia... esse tempo todo — concluí, a voz tomada pela tristeza.
— Sim. E houve outros episódios depois — revelou. Percebi que meus olhos ficaram marejados. — Em uma dessas vezes, precisei levá-la ao hospital. Sempre implorei para que ela parasse com isso. Nossa mãe não sabe, porque a Elisa me fez prometer que nunca contaria. Ela não queria ser um problema a mais.
Michel desviou o olhar, abatido.
— Minha irmã me transformou no confidente de seus segredos, mas ela não entende o peso que isso tem. Não é só a dor dela. É minha também.
Senti um aperto no peito, enquanto a desolação ameaçava me engolir. Respirei fundo, tentando me recompor. Não era hora de ceder ao desalento, mas de agir.
— Isso não pode continuar assim — declarei, com firmeza. — Precisamos resolver isso agora. Vamos contar para a Bernadete.
Michel arregalou os olhos, alarmado.
— O quê?! Ela vai surtar!
— É para o bem da Elisa. Precisamos parar de ocultar essas dores. Vamos entrar naquela loja e contar a verdade. Sei que não será fácil, mas é o que deve ser feito.
Michel suspirou, olhando para o céu como se buscasse coragem.
— Tá legal. Vamos fazer isso.
Michel se abaixou para recolher as caixas, e juntos caminhamos até a entrada da floricultura. O ambiente, envolto por um silêncio predominante, parecia antecipar a revelação iminente. Cada passo ressoava como um prenúncio, marcando o compasso do momento em que apenas a verdade teria o poder de cicatrizar ou devastar.
— Deixe-me ajudá-lo com isso — disse Bernadete, aproximando-se com a habitual cordialidade. Michel entregou-lhe as caixas, que ela depositou sobre o balcão com cuidado. — Amanhã faço a conferência. Está quase na hora de fecharmos. E não se esqueça de buscar sua irmã no curso — alertou, alheia ao que se passava em nossas mentes.
— Bernadete — comecei, sentindo o peso da confissão prestes a escapar. — A Elisa está ultrapassando os limites. Era sobre isso que conversávamos lá fora.
Ela ergueu uma sobrancelha, curiosa, mas ainda tranquila.
— O que tem ela? Para mim, está tudo normal.
— É isso que você acredita — Michel respondeu, interrompendo a calma com sua voz grave. — Mãe, o que vou dizer agora é muito sério, e não pode ser ignorado. E a Alana está aqui como testemunha, pois apenas nós dois conhecemos o fardo que Elisa carrega.
O rosto de Bernadete perdeu parte de sua cor, um traço de preocupação tomando forma.
— Vocês estão me assustando — admitiu, sua voz trêmula e incerta.
Michel respirou fundo, tentando reunir coragem para expor seus sentimentos.
— Acho que já deve ter percebido que a Elisa sempre foi tão retraída. Foi uma forma que ela encontrou para se proteger das ofensas, as quais recebe desde quando tinha dez anos. Tantas palavras que ela acumulou no interior se tornaram em uma montanha de inseguranças... E a dor de sentir destruído é insuportável.
— Ela me contou sobre isso — acrescentei, a voz trêmula. — Falou sobre o bullying e do garoto que partiu seu coração. Ela sempre se diminuía na minha frente, dizendo que era insuficiente e se comprava com os demais. Então percebi que ela tinha baixa autoestima.
— Foram esses comentários maldosos que a fizeram moldar uma ideia de que se fosse mais atraente todos iriam aceitá-la. E infelizmente ela acreditou nessa ilusão. Por isso que ela quis mudar o corpo, mas não está sendo de uma maneira saudável.
Bernadete levou uma das mãos ao peito, seus olhos fixos no vazio como se tentasse desvendar o mistério por trás das palavras.
— Sempre soube que a Elisa sofria, mas achei que fosse algo passageiro. Também passei por zombarias na escola, e hoje isso não me afeta. Sempre dizia que ela deveria ignorar, que logo superaria.
— Cada pessoa reage de uma forma, mas vamos combinar que é inadmissível ser ridicularizado só por ser quem realmente é — argumentei, minha voz firme.
Michel, com os olhos marejados, voltou-se para a mãe, sua expressão tão pesada quanto o que estava prestes a revelar.
— Não foram apenas comentários maldosos. Foram feridas que se aprofundaram, mãe. Feridas que ela tentou enterrar sob uma máscara de controle... mas que a levaram a atitudes drásticas — ele hesitou, respirando profundamente. — O que resultou na bulimia... Você sabe muito bem o que é isso, né?
A verdade escapou dos nossos lábios como uma lâmina, cortante e precisa, que rasgou o véu de tranquilidade que Bernadete parecia carregar. Seu semblante, antes firme e sereno, desfez-se num mosaico de incredulidade. Sua voz não se manifestou, apenas seus olhos piscaram, como se quisesse apagar a revelação que pairava em sua mente.
— Minha Elisa? — murmurou.
Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas estas se recusaram a cair, como se até o choro tivesse sido paralisado pelo choque. Cambaleou levemente, segurando-se no balcão, enquanto o espaço ao nosso redor, florido e iluminado, parecia contrastar cruelmente com a cena de desmoronamento à nossa frente.
O silêncio tornou-se insuportável, uma tempestade que rugia dentro de nós. Michel, inquieto, mexia nas mãos como quem busca no gesto um consolo inexistente.
— Mãe, nós vamos ajudá-la — disse ele, sua voz quebrada, mas determinada.
Os soluços da mulher vieram como ondas furiosas, submergindo qualquer resistência.
— Por que ela não me disse? Por que eu não percebi? Eu devia... tê-la protegido. Como deixei isso acontecer?! — choramingou, desesperada.
Comovido pela reação dela, Michel se aproximou e a envolveu em um abraço, tentando reunir os pedaços que estavam prestes a desabar. Minhas emoções se misturavam com o peso daquela cena, despertando uma melancolia pungente ao observar cada feição alterada, o arrependimento na voz e as lágrimas que escorriam dos olhos.
— Elisa me pediu para esconder isso da senhora, porque tinha medo de sua reação. Ela sempre a viu batalhando por nós e achava que você não merecia mais um problema. Eu me sentia mal por não contar a verdade — confessou ele.
— Tudo bem, meu filho — sussurrou ela, com a voz suave, mas cheia de dor.
Ambos se desvencilharam do abraço, e um silêncio sereno tomou o ambiente, como uma pausa após a tempestade de palavras carregadas de angústia.
— Precisamos nos unir. A Elisa precisa de nós mais do que nunca. O apoio da família é essencial — falei, com firmeza.
Bernadete limpou os olhos com as mãos e suspirou, tentando se recompor.
— Eu vou ajudá-la, custe o que custar. Ela é minha filha, e eu não vou deixá-la sofrer sozinha — declarou, com determinação.
E ali, entre aquelas flores, que agora pareciam ser testemunhas de uma dor silenciosa, senti que a promessa dela trazia consigo uma melodia sutil, prenunciando um recomeço. Um recomeço forjado em dor, amor e na força de três seres que, mesmo despedaçados, ainda escolheram lutar.
Dentro do transporte público, ainda revisitei as cenas que se desenrolaram, agora que uma nova alternativa havia pavimentado o caminho. Com os danos de Elisa finalmente expostos, era hora de começar a reconstrução. A aflição que antes dominava meus pensamentos foi se dissipando aos poucos, à medida que a esperança se acendia, acalmando a ventania gélida que me consumia.
Foi então que, em dado momento, meu celular vibrou incessantemente no bolso da calça, interrompendo os devaneios. Movida pela curiosidade, decidi desbloquear a tela. Era uma ligação da minha mãe. Franzi o cenho, confusa, e resolvi atender.
— Mãe, daqui a uns vinte minutos chego em casa — avisei, com voz alta, tentando não atrapalhar os outros passageiros.
— Tenho uma boa notícia pra você! — exclamou, empolgada. — Conversei com uma amiga de longa data e ela me disse que está precisando de alguém para trabalhar na papelaria, no cargo de vendedora.
Arregalei os olhos, surpresa. Nesse momento, o biarticulado começou a se aproximar das plataformas de desembarque, sinalizando sua chegada ao terminal de ônibus. Decidi permanecer no veículo, pois minha parada seria no próximo terminal.
— Eu ouvi direito? Você disse papelaria?
— Sim, e fica no mesmo bairro onde moramos. Eu comentei com ela que você estava buscando seu primeiro emprego, falei das suas qualidades e ela se interessou... mas tem uma coisa.
As portas do ônibus se fecharam, e o motorista retomou o percurso assim que o sinal ficou verde.
— E qual seria? — perguntei, intrigada.
— Ela agendou sua entrevista para amanhã.
Notas da autora: No momento encontro-me em pedaços com a cena da revelação. No entanto, foi necessário expor a verdade, pois só assim é que a missão retornará seu percurso.
Que as coisas comecem a melhorar para a Elisa.
E vamos desejar boa sorte na entrevista da Alana.
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