| Capítulo 23 | Não há melhor tempo para brilhar, você é uma estrela

A luz suave iluminava o auditório, onde cada pessoa parecia brilhar intensamente. Era o fim de uma etapa, e a emoção pairava no ar como uma melodia delicada, tocando os corações com um misto de contentamento e melancolia.

Quando meu nome ecoou pelo salão, uma série de arrepios percorreu minha pele. Caminhei em direção à mesa de honra; cada passo era uma batida de uma canção que marcava o ritmo dos anos que se passaram. O canudo simbólico em minhas mãos representava uma conquista e uma esperança. Aquele momento era uma composição de memórias, reunindo tantas experiências que, juntas, moldaram a essência de quem me tornei.

Ao final da cerimônia, as despedidas se aproximaram, silenciosas e inevitáveis. Os abraços eram como refúgios temporários, o último toque antes de nos aventurarmos no desconhecido. Cada sorriso carregava uma emoção, e as lágrimas escorriam como forma de celebração. O murmúrio das vozes se misturava ao som dos passos, criando uma sinfonia de partida.

Observei os arredores por um instante, absorvendo cada detalhe, como quem tenta capturar a essência de um momento para eternizar. A atmosfera estava repleta de nostalgia; senti que a realização carregava uma promessa de novos começos, embora acompanhada pela névoa de incertezas.

Assim que devolvi a beca a um dos funcionários do evento, fui ao encontro de Lu e Marcelo.

— E dezembro já começou com fortes emoções... caramba, foi incrível! — comemorou Marcelo, ajeitando a gola da sua camisa social preta.

— Agora é se preparar para o que está por vir — falei.

— Pelo menos teremos várias novidades — comentou Lu. — O Marcelo em Portugal, eu e a Lana na faculdade...

— Falando em Portugal, vou fazer uma festa de despedida no sábado que vem, pois no final do mês vou viajar para Arraial do Cabo — interrompeu ele, com um brilho nos olhos. Curvei meus lábios em um sorriso eufórico. — Vai ser na minha casa, a partir das sete horas. E podem levar alguém, se quiserem — acrescentou.

— Pode confirmar minha presença! — exclamei, animada.

— Nem preciso falar; você já sabe minha resposta — brincou minha amiga.

O semblante de empolgação dominou o rosto dele, e a harmonia das nossas emoções nos levou a mais um abraço coletivo.

Após a despedida, saí do auditório acompanhada da minha família. Enquanto caminhávamos pelo estacionamento em direção ao veículo, um forte impulso atingiu minha consciência, refletindo uma luminosidade indispensável. Era a oportunidade perfeita para colocar em prática a próxima etapa de Elisa: dar o meu melhor.

Retirei o celular da bolsa de pedraria, desbloqueei a tela e acessei o chat de Elisa. Digitei uma mensagem rapidamente.

Alana: Elisa! Começa a escolher sua melhor roupa, pois teremos uma festa para ir no próximo fim de semana.

O progresso gradual de Elisa era evidente, como se o desapego ao sombrio estivesse com seus dias contados, dando mais espaço para o retorno da claridade que um dia a pertenceu. Embora suas ruínas oferecessem conforto, a ponto de ela resistir a escapar, minha persistência se tornava constante, formando uma força repleta de motivação que a fazia ver o outro lado das situações das quais tanto se recluía. E a festa foi uma dessas oportunidades.

Após conseguir convencê-la com meus argumentos, estava em seu quarto no sábado à tarde, cercada por prateleiras e cabides repletos de roupas, o que despertou uma enorme indecisão. Eu já havia preparado minha mochila com roupas e maquiagem, mas a pergunta que pairava no ar era como iríamos da casa dela até o local que Marcelo havia indicado.

— Não espere que eu tenha roupas de balada ou algo do tipo — avisou Elisa, enquanto retirava peças do guarda-roupa e as juntava em seu braço.

— É só vestir o que te faz bem — respondi.

Ela depositou as roupas acumuladas em cima da cama.

— Só quero ver como vamos conseguir achar um look bom — disse, colocando as mãos na cintura e bufando. — Depois das compras no shopping, as opções aumentaram, mas a sensação é que não tenho nada para vestir.

— Mulheres sempre sentem isso, eu te entendo — constatei. — Mas vamos dar um jeito.

Observei as peças com cautela, imaginando se as combinações correspondiam ao evento. Mostrei a primeira sugestão, mas Elisa recusou. Ao longo dos minutos, as reprovações eram constantes de ambas as partes, tornando a decisão ainda mais difícil.

— Sabia que ia ser missão impossível — reclamou, sentando-se na beira do colchão.

— Não vamos perder as esperanças. Já olhamos tudo o que estava em cima da cama, mas ainda deve ter algo nos cabides.

— Pode procurar à vontade, porque eu desisto — declarou.

Revirei os olhos, avancei em direção ao guarda-roupa aberto e comecei a busca. Arrastei os casacos e jaquetas de inverno para o lado, até que um toque suave despertou meu interesse. Franzi a testa e decidi retirar a peça do suporte de metal. Foi então que meus olhos entraram em sintonia de encanto.

— E esse vestido lindo aqui? Caramba, você iria ficar maravilhosa com ele — apresentei, segurando-o pelo cabide.

O vestido azul-royal, que chegava aos joelhos, exibia uma saia levemente rodada, um decote sutil em V e alças finas que demonstravam elegância. O tecido acetinado, liso e com brilho delicado fluía suavemente. A parte superior, com seu corte transpassado, moldava-se ao corpo antes de se expandir na saia, num tom sólido e sem detalhes extravagantes.

Elisa levantou-se e analisou a vestimenta.

— Ganhei de aniversário quando fiz quinze anos, foi minha família que deu. Eles insistiram para eu provar, mas eu estava com muita vergonha e me sentia feia por ter algo tão bonito. Pra não gerar discussões, usei o vestido só para cantar os parabéns — contou.

— É perfeito para a festa. — Sorri.

— Confesso que tem um valor sentimental, pois naquele dia a cor me destacou muito. E eles sempre me diziam o quanto eu estava linda naquele dia... Me senti acolhida.

— Viu só? Achamos algo que te faz bem. Agora experimenta o vestido — pedi, entregando-o cuidadosamente em suas mãos.

Caminhei em direção à porta entreaberta.

— Não tenho nada pra vestir — resmunguei, em tom de sarcasmo. Elisa riu e fechou a porta no momento em que saí.

Em poucos minutos, a abertura revelou uma Elisa radiante, despertando em mim uma admiração pela autoconfiança recém-conquistada.

— Você está deslumbrante — elogiei, boquiaberta.

Elisa curvou os lábios em um sorriso singelo.

— Tem toda razão; realçar algo em si mesma dá uma sensação diferente... estou gostando de me permitir vivenciar isso — admitiu.

— É bom ouvir isso. Mas agora precisamos decidir qual sapato vai combinar — falei, observando seus pés descalços.

— Não vou usar salto nem que a vaca tussa! — protestou.

Reprimi uma risada e retornei ao quarto, onde começamos a procurar os calçados dentro do guarda-roupa.

— Queria tanto que meu tênis combinasse com o vestido — lamentou Elisa.

Arrastei uma caixa da prateleira de baixo, abri e me deparei com um par de sapatilhas prata, com aparência impecável.

— Acho que esse vai ficar bonito — confirmei, esticando a caixa para ela.

— Tinha até me esquecido. Ganhei da minha tia de presente — constatou.

Uni as sobrancelhas.

— Quantos presentes você quase nunca usou?

— A maioria. — Suspirou, chateada. — O problema era comigo; parecia que tudo ficava esquisito em mim.

— Mas hoje não! Esta noite, você vai brilhar! — incentivei.

Ela sorriu timidamente.

— Nós vamos — acrescentou.

Aquele momento de preparação me fez sentir a promessa de novas experiências e momentos que estavam por vir. A canção Dancing Shoes – Arctic Monkeys era reproduzida pelo autofalante do meu celular, aquecendo nosso espírito jovem com uma sensação eufórica.

Quase uma hora depois, o rosto de Elisa se destacava com uma maquiagem elaborada, enquanto eu enrolei seus cabelos com o auxílio do babyliss. Admirei sua imagem, que realçava o marco da fuga dos escombros, indo ao encontro da luz que tanto ansiava encontrar. O destaque das cores evidenciava sua aparência, trazendo uma nova versão que a confortava.

Aproveitei o tempo restante para iniciar minha produção. As peças selecionadas consistiam em uma saia com paetês dourados, uma camisa social branca e um par de saltos de bico fino da cor preta, criando um visual equilibrado e apropriado para a ocasião. Optei por alisar o cabelo, intensificando a estética da minha imagem. Meu rosto maquiado refletia sutileza e glamour, com tonalidades cintilantes que brilhavam com a expectativa de diversão.

Nosso reflexo diante do espelho transparecia um vislumbre mais intenso, como se nossa essência estivesse revelando um destaque que tanto esperava ser exposto.

— Agora que estamos prontas, vou solicitar um motorista de aplicativo — avisei. Elisa concordou com a cabeça.

Peguei o celular que estava na mesa de cabeceira, liguei a tela, cliquei no ícone e digitei o endereço para calcular o valor do percurso. Solicitei a corrida e o motorista estava a cinco minutos de distância.

— Quem diria que eu fosse me sentir tão bonita? — ela questionou, de maneira hilária, enquanto se movia de um lado para o outro, fazendo a saia do vestido balançar. — Se eu estivesse usando esse vestido no sétimo ano, iriam me chamar de bujão de gás — brincou.

Bloqueei a tela e me posicionei ao seu lado. Meus olhos encaravam nossa imagem.

— Imagina eu usando essa saia no oitavo ano? Iriam me chamar de perna de flamingo — admiti, reprimindo uma risada.

— Lá vem a Free Willy! — disparou, em tom de sarcasmo.

— Olha! A Olívia Palito — debochei, fazendo sátira com os colegas que praticaram bullying.

— Vai tampar o poço! — ela continuou.

— Vareta! — Cruzei os braços. — Se bem que estou mais para palito de dente, porque sou baixinha — brinquei. Elisa riu.

— Cuidado para não sair rolando, sua chupeta de baleia! — Colocou as mãos na cintura.

— É tão magra que passa pelas grades do portão! — vociferei, de maneira cômica.

— E a dieta? Comeu?

— Vê se coloca pedras no seu bolso pra não sair voando!

A última palavra dissipou-se. Nos encaramos por um instante, e nosso sorriso permitiu o ecoar das gargalhadas.

— Isso é que é maturidade — confessei, controlando o ritmo da respiração.

— Maturidade? — Uniu as sobrancelhas.

— Lógico. Olha só para nós agora! Acabamos de dizer palavras que nos destruíram e hoje nem nos importamos... Maturidade é isso. É rir de algo que já nos fez chorar um dia.

Elisa ficou em silêncio. Seus olhos pareciam transmitir uma emoção que trazia alento, carregando um compromisso de propor uma reconstrução marcante.

O momento foi interrompido assim que meu celular notificou que o motorista havia chegado.

— Vamos nessa — falei, determinada.

Notas da autora: Essa festa vai render!

E que superação incrível das nossas meninas. Elas estão arrasando muito!

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