| Capítulo 20 | Você não precisa mudar, o mundo pode mudar de ideia

Era como se eu estivesse em uma encruzilhada, olhando para caminhos desconhecidos que se construíam lentamente à minha frente. Cada decisão parecia mais crucial do que nunca, e a incerteza do futuro provocava sinfonias desagradáveis aos meus ouvidos. Mesmo enfrentando esse conflito interno, eu tentava manter o otimismo, mas era algo tão denso que escapava facilmente das minhas mãos. Era difícil de sustentar, de reunir forças, de fazer a luz brilhar desse lado.

A certa distância, eu avistava os organizadores da empresa de formaturas diante do palco. Cada palavra emitida pelo microfone revelava detalhes sobre a celebração que iria selar essa trajetória de maneira triunfante.

— Agora vou passar a palavra para a comissão de formatura — anunciou a organizadora.

Logo depois de se retirar, estudantes de outra turma do terceiro ano subiram alguns degraus. A chegada do pequeno grupo ao palco provocou aplausos vigorosos, acompanhados de gritos e assobios. Com o microfone em mãos, um garoto continuou, compartilhando mais uma informação indispensável.

— Sei que a maioria de vocês estava nos cobrando sobre a viagem de formatura. Pedimos desculpas pelo atraso, pois precisávamos contatar os locais e aguardar o retorno. Cada um de vocês receberá uma folha com as propostas, contendo as principais informações: destino, duração da viagem, cronograma, valor e formas de pagamento. Pedimos que votem na opção desejada, marquem na folha e depois entreguem a um dos membros da comissão. A votação será encerrada na sexta-feira, e no sábado vamos divulgar o resultado, com transmissão ao vivo na página do colégio no Facebook.

Por fim, ele agradeceu a atenção de todos e entregou o microfone para a diretora, que precisou colocar ordem devido ao comportamento de alguns alunos na plateia. Após isso, ocorreu a distribuição dos papéis e, finalmente, fomos liberados.

Após a redução do tumulto para acessar a saída, eu e meus amigos deixamos o auditório. Reparei que a maioria dos alunos ocupava o corredor, envolvidos em discussões que se mesclavam ao ambiente.

— Temos quatro opções: Ouro Preto, Beto Carrero, Solar das Águas Quentes e Morretes — Lu avisou. — Vamos votar na primeira? — propôs.

— Sei lá, achei a última opção mais legal, porque a ida vai ser de trem — Marcelo disse.

— Mas vai demorar horrores pra chegar lá. Ouro Preto tem aquelas construções magníficas e repletas de história — ela argumentou.

— Vou votar no Beto Carrero — avisei.

— Então cada um escolhe o que quiser — Lu concluiu. — Só pelo fato de vocês não votarem naquele parque aquático, foi um alívio. Não sei quem teve a ideia idiota de colocar essa opção, sendo que a maioria dos adolescentes tem fogo no...

— Muito sem noção — Marcelo a interrompeu, impedindo que a palavra de baixo calão escapasse.

torcendo pra que esse local não ganhe... imaginem a confusão que iria dar — ela completou.

Eu e Marcelo concordamos com a cabeça. Como já havíamos tomado nossa decisão, abri a mochila, retirei o estojo e entreguei uma caneta para cada um. Assinalamos as alternativas escolhidas e caminhamos em direção às escadas. Assim que chegamos ao térreo, avistamos alguns membros da comissão e entregamos os papéis.

A última aula não aconteceu, pois a reunião se estendeu além do tempo previsto. Com a autorização da pedagoga, fomos liberados mais cedo. Marcelo teria que esperar seu pai, e eu e Lu seguimos em direção ao ponto de ônibus.

Em poucos minutos, começamos o trajeto rumo ao terminal. Nossa conversa ecoava pelo interior do transporte, manifestando nossas expectativas para a excursão. O tom animado trouxe uma dose de harmonia, que fez surgir uma faísca singela, mas suficiente para demonstrar audácia em enfrentar a penumbra que tanto me afligia.

O intervalo na manhã seguinte anunciava meu encontro com Elisa e as meninas. Àquela altura, Lu e Marcelo já estavam acostumados a não contar com minha companhia durante os quinze minutos. As encontrei no lugar de sempre, acomodadas na calçada lateral do bloco, onde os raios dourados do sol proporcionavam uma iluminação agradável.

— Lana! Que bom que chegou! — Dani anunciou, sorridente.

Cumprimentei as meninas e me incluí no círculo de quatro pessoas.

— Advinha quem está de blusa nova? — Lívia cantarolou.

Reparei que Elisa vestia o moletom bordô que havia comprado na loja. Se não me engano, era de uma série adolescente. Analisei a peça: na parte frontal, havia uma logo estampada em branco com dois tacos cruzados e a inscrição "Beacon Hills Lacrosse". Na parte de trás, estava o nome "Stilinski" em letras maiúsculas brancas, com o número "24" abaixo.

— Eu simplesmente amo Teen Wolf. Essa blusa ficou linda em você — Lívia elogiou.

— Acho tão autêntica. Agora me deu vontade de comprar uma — Dani comentou. — Tenho que confessar que a Elisa está demonstrando ter bom gosto — acrescentou.

Elisa sorriu para elas.

— Me sinto melhor agora, porque antes estava me sentindo esquisita — ela admitiu, um pouco retraída.

— Você só está fazendo o que gosta; não tem nada de esquisito — rebati.

Lívia e Dani se entreolharam e concordaram com a minha afirmação.

Dedicamos os minutos restantes a diversos assuntos, e a junção de palavras e risadas tornava o ambiente suave e satisfatório. Assim que o intervalo terminou, me despedi das meninas, entrei no bloco e caminhei pelo corredor em direção à sala. Inesperadamente, senti a vibração do celular. O retirei do bolso da calça, desbloqueei a tela e interrompi a caminhada. Era uma mensagem de Elisa.

Elisa: Segui seus conselhos e deu certo. Me senti segura com os elogios e agora quero aumentar minha autoconfiança.

Sorri para a tela e digitei uma resposta.

Alana: Que incrível! Agora você precisa colocar em prática. Viu só o que eu te falei? É só ser você mesma.

Logo após o envio, ela digitou e a mensagem apareceu de imediato.

Elisa: A blusa de moletom foi bem fácil, mas o restante... Aff, sou péssima em fazer combinações.

Naquele instante, uma oportunidade clareou meus pensamentos.

Alana: Eu posso te ajudar com isso.

Entrei na sala e me dirigi até minha mesa.

Elisa: Tem como você vir aqui em casa no sábado à tarde? Eu te passo o endereço.

Arrastei a cadeira e me acomodei. Empolgada, meus pés reagiram à proposta, dando leves pisoteios no chão.

Alana: Pode contar comigo!

Meus amigos apareceram no momento em que bloqueei a tela. Fixei os olhos no quadro, e meus anseios projetaram uma iluminação intensa novamente. Era chegada a hora de colocar em prática a segunda etapa: investigar. Enquanto minhas emoções se reuniam, preparei-me ansiosamente para o deslumbre cromático que estava prestes a visitar o cenário devastado de Elisa.

O ônibus biarticulado com destino ao terminal percorria o trajeto rapidamente. Após alguns minutos, o coletivo chegou à plataforma e desembarquei em meio a vários passageiros.

Passei pela catraca de saída e iniciei o percurso. Acessei o Google Maps para facilitar meu deslocamento em tempo real. Depois de seguir as coordenadas, virei à direita e avistei a residência. Em poucos passos, contemplei a vista através das grades brancas do portão.

O sobrado se destacava pela cor verde-oliva, com detalhes em branco que adornavam as molduras das janelas e a porta, criando um contraste elegante. A tonalidade marfim do telhado piramidal harmonizava com a cor principal, reforçando a estética acolhedora do imóvel. As duas janelas da frente eram amplas, e no segundo andar, uma varanda charmosa apresentava um guarda-corpo decorado com detalhes em pedra, oferecendo um espaço convidativo para apreciar a vista. Na frente, um jardim esplêndido cativou meu olhar, composto por uma pequena palmeira cujas folhas longas e graciosas balançavam suavemente ao ritmo da brisa. Flores de amor-perfeito em roxo, azul e amarelo criavam uma sinfonia de cores, formando um cenário encantador.

Elisa acionou a abertura do portão por meio do controle e me recepcionou. Perto da garagem, notei um vaso pendurado carregado de samambaias. No canto, outros dois vasos continham espada-de-São-Jorge e babosa.

Ao adentrar na sala de estar, o aroma de lavanda invadiu meu olfato, transportando-me para uma realidade exuberante. Elisa me conduziu até as escadas, em direção ao seu quarto. No entanto, ao chegarmos ao corredor, uma melodia em volume exagerado irrompeu. Pelos acordes, identifiquei que era rock.

— De novo? Que droga, Michel! — ela resmungou, irritada.

Sua irritação trouxe agilidade, e sua mão pousou na fechadura, abrindo a porta e amplificando o som em nossos ouvidos.

— Será que dá pra diminuir o volume?! Estou com visita! — pediu, em voz alta.

A abertura revelou o dormitório de seu irmão mais velho. A decoração do pequeno espaço refletia sua preferência pelo tema geek. Além da mobília tradicional, havia uma ampla mesa de escritório de madeira clara, com um computador gamer iluminado por fitas de LED coloridas. Acima da escrivaninha, uma enorme prateleira exibia figuras de ação e mangás.

Franzi a testa ao notar a presença de uma calopsita ao lado do computador; não era comum encontrar aves de estimação na minha realidade.

Michel desocupou a cadeira giratória e foi ao encontro da irmã. Sua imagem não passou despercebida, pois seus traços eram semelhantes aos de Elisa. O rapaz aparentava ter vinte anos, era alto e um pouco robusto. Seus cabelos castanhos eram ondulados, e ele usava óculos de grau com armação quadrada. Sua vestimenta simples consistia em uma calça jeans, uma camiseta preta de manga curta e um par de chinelos.

— Foi mal, não sabia que você estava com sua amiga. Estou programando um sistema e acabei me empolgando. Isso que dá trabalhar ouvindo música — ele explicou, com um tom de voz grave. Em seguida, notou minha presença. — A propósito, sou o Michel, irmão da Elisa. — Estendeu a mão para me cumprimentar.

Retribuí o gesto e também me apresentei. Ele voltou para a escrivaninha e reduziu o volume da caixa de som JBL.

— Gostei da calopsita — falei.

— Ah, esse é o Goku — ele apresentou a ave.

Reprimi uma risada pelo nome.

— Obrigada por diminuir o som — Elisa disse. — Vamos deixar você resolver essa programação, sei lá do quê.

— É o preço que se paga por cursar Engenharia da Computação — brincou ele.

Elisa curvou os lábios em um sorriso e fechou a porta. Em seguida, me direcionou até seu quarto, que ficava após o banheiro.

— Sabe qual o nome da música que estava tocando quando chegamos aqui em cima? — indaguei.

— É Florescent Adolescent, do Arctic Monkeys — respondeu. — Ele é fascinado por essa banda.

Memorizei o nome para ouvir depois.

Entramos no cômodo e reparei na organização que realçava cada móvel e os itens de decoração. A disposição da mobília era quase idêntica à do quarto de Michel, diferindo apenas pela cor branca das paredes e pelas tonalidades rosa-claro e amarelo presentes na cama e na cortina.

Inesperadamente, percebi um gato de pelagem branca repousando na cama, em meio às almofadas decorativas.

Eles realmente adoravam animais de estimação.

— Cuidado com a Celeste — avisou. — Ela não gosta de ser interrompida durante o sono.

Concordei com a cabeça e me acomodei lentamente na beirada do colchão.

— Ela foi meu presente de aniversário quando eu completei doze anos. Eu sempre estava sozinha, então me deram uma companheira. Ela tem olhos azuis tão lindos... azul celeste — contou.

Elisa abriu a porta do guarda-roupa.

— Não se preocupe, ela não ataca — avisou.

Meus olhos se encantaram com a felina. Acariciei vagarosamente seus pelos, sentindo a maciez deslizar pelos dedos.

Com as sacolas em mãos, ela fechou o guarda-roupa e depositou-as sobre o carpete felpudo.

— Ok, vamos começar — anunciou.

Corrigi a postura e me levantei. Inesperadamente, um estrondo musical atingiu nossos ouvidos, fazendo Celeste despertar assustada. Michel havia se empolgado novamente.

Piá do djanho! — Elisa berrou.

— É só ignorar — orientei. — Precisamos focar nas combinações.

Ela suspirou, tentando se acalmar. Despejei as roupas sobre a cama e reparei que ainda estavam com a etiqueta da loja.

Dei espaço para que minhas inspirações me guiassem. Ao longo dos minutos, dediquei meu tempo a criar visuais alternativos, organizando as peças para alcançar a harmonia desejada.

— Gostei dessa — ela apontou para as roupas. — A saia rodada, jaqueta jeans, tênis e a camiseta deram um resultado bem legal.

— Que tal você provar e tirar suas conclusões? — recomendei. — Vou sair do quarto pra te dar mais privacidade. Assim que você sair, podemos dar palpites.

— Boa ideia. — Sorriu.

— Só não se esqueça de remover as etiquetas — alertei.

Retirei-me do cômodo e fechei a porta. Observei o corredor pacato enquanto aguardava a revelação de sua nova aparência.

Em pouco tempo, uma voz desconhecida manifestou-se, rompendo a quietude da casa.

— Cheguei! — exclamou, em um tom lento e levemente rouco, resultado do desgaste das cordas vocais.

Os segundos se arrastaram sem resposta. Permaneci em silêncio, pois não identifiquei o indivíduo e era minha primeira vez na casa. Subitamente, o ruído dos sapatos sobre os degraus se aproximou. No mesmo instante em que Elisa abriu a porta, outra presença apareceu.

— Vô Abel! — ela exclamou, surpresa. — O que você fazendo aqui em cima? A mãe já te disse mil vezes para evitar subir as escadas — advertiu.

Admirava o idoso de estatura alta, cuja postura refletia a idade avançada. A calvície evidenciava os anos passados, enquanto seu bigode branco acrescentava um toque de distinção ao rosto. Sua pele mostrava rugas profundas, marcando sua experiência de vida, e a expressão facial transmitia sabedoria e tranquilidade.

— Oras, eu fui comprar ração no aviário do outro lado da rua. Celeste e Lineu não tinham o que comer e faltava alpiste para aquele pássaro de moicano — respondeu. Abafei o riso com a mão, divertindo-me com a última frase dita. — Depois cheguei aqui e ninguém me respondeu. Então fui ver onde vocês estavam — explicou.

— Tinha esquecido que a ração da Celeste só dava para hoje de manhã. Obrigada, vô — ela respondeu.

— E aonde você vai tão charmosa assim? — indagou, percebendo as roupas novas que ela vestia.

Pra lugar nenhum — respondeu, um pouco envergonhada pelo elogio. — A Alana está me ajudando com as combinações.

Ela me apresentou ao avô, e retribuí o cumprimento. Abel era avô materno e morava com eles havia alguns anos.

— É muito bom ver que minha neta tem mais uma amiga... — Ele pausou, analisando as vestimentas. — Nem sabia que você tinha comprado roupas novas — constatou.

— Como assim? Achei que você já tinha mostrado — sussurrei para ela.

Elisa negou com a cabeça.

— E você comprou mais coisas? — Abel questionou. Minha amiga assentiu. — Quero que me mostre tudo — pediu, animado.

— Tipo um desfile? — sugeri.

— Isso mesmo, Elisa vai desfilar para nós.

Dei um grito de entusiasmo e pulei. Ela cruzou os braços, demonstrando receio.

— Acho que não vai dar certo. Sabem que não gosto de me apresentar — admitiu.

— Elisa, lembra do que eu te falei no shopping? Tipo, não tenta mudar quem você é só pra agradar os outros ou pra se encaixar nas expectativas deles. Sério, continua sendo você mesma! O mundo sempre mudando, e você não precisa se moldar a ele. O mais importante é ser autêntica, porque as coisas ao seu redor podem mudar sem que você precise deixar de ser quem é — aconselhei.

— Concordo com a sua amiga — Abel comentou.

— Tudo bem, são dois contra um — ela disse, levantando as mãos em gesto de rendição.

— Vou esperar você na sala, pois o sofá é confortável — ele avisou.

Abel virou-se e caminhou em direção às escadas, descendo cuidadosamente devido à sua dificuldade de locomoção.

— Como as combinações já estão montadas, vista cada uma e apresente. Você pode alternar os sapatos, se quiser — orientei.

— Vou tentar.

— Qualquer coisa me mande uma mensagem. Estarei na sala com seu avô.

Desci as escadas rumo à sala de estar. Assim que entrei no cômodo, percebi que Abel estava acomodado no sofá retrátil, acompanhado por um cachorro da raça vira-lata. O toque do meu All Star sobre o piso chamou a atenção do animal, que correu em disparada em minha direção e pulou. Fiquei estática, sem reação.

Prontamente, o idoso ordenou em voz alta que o cão se afastasse. Para minha sorte, o animal obedeceu e se acomodou no tapete.

— Acho que o caramelo gostou de mim — deduzi.

— Esse é o Lineu, nosso cão de guarda.

Sentei-me no estofado, posicionando-me ao lado de Abel.

— É um nome bem diferente.

— Fazer o quê? A Bernadete é fã de "A Grande Família" — respondeu.

Além de se afeiçoarem aos animais de estimação, a família demonstrava criatividade nos nomes.

Abel levantou-se vagarosamente.

— Um desfile precisa ter música. Venha, preciso que me ajude a pegar alguns discos — pediu.

Franzi a testa, confusa. Ele disse "discos"? Apenas obedeci e me levantei.

Ele se aproximou da vitrola azul, que estava posicionada sobre o rack, emoldurada por um espelho retangular que enfeitava a parede. Como seus movimentos eram limitados, precisei me agachar para abrir a porta de baixo.

— Pegue a caixa que está com a etiqueta "anos 70, 80 e 90".

Localizei o objeto e o retirei, segurando-o com as duas mãos, devido à quantidade de discos de vinil. Coloquei a caixa sobre o rack. Enquanto Abel dedilhava, observei algumas capas e reconheci artistas que marcaram a época: Mamonas Assassinas, Roberto Carlos, Secos & Molhados, Michael Jackson, Madonna, Bee Gees e Cyndi Lauper. Ele interrompeu a busca e retirou um disco do cantor Billy Joel.

— Perfeito — disse, animado.

O aparelho tinha funcionalidades adicionais, como a capacidade de avançar as músicas manualmente. Abel levantou o braço da vitrola e posicionou cuidadosamente o disco na faixa desejada. Fiquei admirada pela sua precisão, mesmo com os dedos trêmulos. Após ligar o aparelho, o disco começou a girar e a canção Uptown Girl preencheu o ambiente.

Retornamos aos nossos lugares e, em questão de segundos, Elisa desceu as escadas exibindo a primeira combinação. Aplaudimos sua aparência, apesar da timidez que a fazia evitar o contato visual e manter uma postura acanhada.

— Se solta mais. Corrija a postura e ande com mais confiança — orientou seu avô.

Ela assentiu com a cabeça e subiu as escadas para fazer a troca.

Durante aquelas horas, meus ouvidos se entregaram às melodias do passado, tingindo meu humor com tonalidades suaves. Elisa transformou sua postura e, a cada combinação que desfilava, irradiava um brilho crescente. Contemplei suas escolhas, percebendo como cada peça se ajustava com perfeição, realçando sua essência de maneira encantadora.

Os sorrisos, os aplausos e as palavras de reconhecimento soavam como sinfonias de motivação. Era a melodia que ela tanto precisava, e finalmente seu interior a acolheu. Àquela altura, já sabia que o brilho sutil que a envolvia havia conquistado um espaço digno.

Naquele instante, as esperanças se enraizaram em mim, trazendo a previsão de que suas inseguranças estavam destinadas a desaparecer.

Elisa desfilou a última vestimenta ao som de Boogie Shoes. Finalizamos com aplausos vigorosos e gritos de empolgação. Após um agradecimento sorridente, ela retornou ao quarto para trocar suas roupas novas por algo mais confortável.

— Não me canso de dizer a Elisa o quanto ela é linda. Sei que ela ignora, mas faço isso para que ela se sinta melhor — Abel confessou, com um semblante que transbordava orgulho.

— É tão bonito ouvir isso — falei, emocionada. — Que ideia incrível propor um desfile.

— E de tocar as músicas — completou. — Eu estava com saudade de ouvi-las. Aproveitei muito essa época com a Antônia; dançávamos e adorávamos festas. — Ele suspirou, entristecido. — Que minha esposa esteja em um bom lugar — lamentou.

Expressei minhas condolências. O ruído da porta se abrindo revelou a chegada de Bernadete na sala de estar.

— Saí da floricultura quase agora e resolvi passar no mercado para comprar algumas coisas. Vou fazer café da tarde.

Ela olhou para o lado e constatou nossa presença.

— Alana! Nem sabia que você estava aqui. Até já conheceu meu pai.

Levantei-me do sofá para cumprimentá-la. Sem esperar muito, Elisa retornou à sala.

— Deixa que eu te ajudo com as sacolas, mãe.

Bernadete dividiu as compras e entregou uma parte a Elisa.

— Nos divertimos muito hoje — Abel comentou.

— E que diversão foi essa? — Bernadete indagou.

— Vamos contar quando todos estiverem à mesa! — respondeu Elisa, diretamente da cozinha.

O céu escurecido anunciava a chegada da noite, acompanhado de trovoadas que ecoavam pela imensidão, indicando que a chuva poderia cair a qualquer momento. Bernadete fez questão de me oferecer uma carona até o terminal, para evitar que eu fosse atingida pela tempestade durante o trajeto.

Enquanto aguardava o próximo ônibus, retirei o celular da bolsa e desbloqueei a tela. Fui surpreendida por várias mensagens de áudio da Lu no nosso grupo. Presumi algumas razões para tantas mensagens, e uma delas se destacou em minha mente: a votação da viagem de formatura. Movida pela curiosidade, acessei a conversa e ouvi a primeira gravação.

"Está feliz, Marcelo?!"

Sua voz furiosa provocou certo incômodo em meu ouvido. Reduzi o volume.

"Sério, tô muito puta da cara. Era para Ouro Preto ter ganhado! É por meio deste áudio que dou a triste notícia: Morretes é o vencedor das votações!"

Notas da autora: Que capítulo incrível! Amei o desfile da Elisa :)

E os animais de estimação da família dela? Muito fofos! Ah! E o vô Abel também não fica de fora!

Alana está conseguindo cumprir com as etapas. Esperamos que Elisa consiga superar, diante de toda essa ajuda.

Contagem regressiva: Faltam 10 capítulos para terminar o livro :(

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