| Capítulo 16 | Seu destino talvez te mantenha aquecido
Aquela etapa trouxe uma enxurrada de expectativas, embora aquela silhueta permanecesse no alcance dos meus olhos. Era o que descrevia meu sentimento ao começar o terceiro ano. Afinal, nossa trajetória futura teria mudanças, e estávamos sendo preparados para assumir novas responsabilidades.
A primeira estreia desse período foi finalmente vestir a camiseta personalizada do terceiro ano, algo que desejei desde que entrei no colégio. Saí da cabine do banheiro com passos dançantes e fui ao encontro dos meus amigos, que estavam do lado de fora.
— Você ficou incrível! — Lu elogiou.
— E o tamanho serviu. Jurava que iria ficar enorme — comentei.
— Essa camiseta vai virar nosso uniforme a partir de agora, porque precisamos nos destacar — Marcelo falou.
— Isso aí. Aqui é terceirão! — exclamou minha amiga.
Demos um grito de empolgação e começamos a caminhar em direção à sala, já que tínhamos uma aula vaga.
— Caramba, passou tão rápido. Ainda me lembro do dia em que a Lu me deu um susto, dizendo que ia socar minha cara — lembrei, soltando uma risada amena.
— Parece que foi ontem que éramos do primeiro ano. — Lu suspirou. — Mas olha para nós agora! Estamos a um passo de entrar na vida adulta.
— É, faculdade, tirar a carteira de motorista... — Marcelo acrescentou.
— Carteira de motorista não sei não, pois adorei usar o Uber. Mas quanto à faculdade, pesquisei muito durante as férias e decidi que vou cursar Direito — Lu contou, animada.
— Olha ela! Pelo menos vamos ter uma advogada, porque nunca se sabe quando vamos precisar — Marcelo brincou. Lu riu e deu um soco de leve no braço dele. — Eu ainda estou pensando em Música ou Tecnologia da Informação, pois são áreas com as quais me identifico muito.
— E você, Lana, já decidiu o que vai cursar? — Lu perguntou.
Um nó repentino se instalou na minha garganta. Fiquei cabisbaixa e pensativa por um momento.
— Bem... é que eu ainda não sei o que quero — falei, em voz baixa. — São tantas opções, e descobrir em qual área eu me encaixo ainda é uma tarefa difícil — confessei.
— Amiga, isso é uma decisão importante. Vá com calma ao escolher, até porque só faltam seis meses para os vestibulares — Marcelo me alertou.
Queria dizer alguma coisa, mas o que me restou foi aceitar o silêncio.
E naquele momento, aquela sombra finalmente se aproximou e revelou o que estava por vir. Então eu soube que deveria superá-la. Nada mais que um obstáculo, parado na minha frente, esperando para ser removido a qualquer momento.
No entanto, nem sabia como ou por onde começar.
Adentramos na sala para aguardar a próxima aula e reparei que os colegas já estavam trajados com a camiseta nova, e alguns tiravam selfies para compartilhar a novidade nas redes sociais.
Em poucos minutos, a maioria dos alunos já estavam acomodados nas carteiras. A professora ainda não havia chegado. De maneira inesperada, a inspetora deu uma leve batida na porta aberta, sinalizando sua chegada.
— Vim entregar o informativo semanal — avisou.
À medida que ela passava os papéis com agilidade para cada aluno, reparei em sua aparência de meia-idade. Assim que depositou a folha em cima da minha carteira, sorri como forma de agradecimento.
Peguei o informativo e iniciei a leitura. Os anúncios do colégio não chamaram minha atenção, mas resolvi ir até o final. Quando virei para a última página, o conjunto de palavras despertou um sentimento de esperança que poderia, enfim, me nortear e acabar com aquele empecilho.
Arregalei os olhos e reprimi um grito. Levantei-me rapidamente da cadeira.
— Vocês viram na última página?! — indaguei, empolgada. Lu e Marcelo me encararam, confusos. — O colégio vai disponibilizar aulas de orientação vocacional. Será na parte da tarde, das 13h às 16h, com dois encontros por semana. Meu problema será resolvido! — anunciei.
— Estou impressionada que você foi uma das poucas alunas da sala que leu o informativo — minha amiga admitiu. — E aí, você está pensando em participar?
— Lógico que sim — respondi, sorridente. — Ainda mais que as aulas serão com o professor Gael — cantarolei o nome.
— O quê?! — os dois exclamaram em uníssono.
— Adoro as aulas dele — Marcelo confessou.
— Sim, tanto é que ele é o nosso professor favorito — Lu completou.
— Agora me deu vontade de participar, mas é uma pena que não sobra horário na minha agenda. Tenho curso de inglês na segunda, quarta e sexta. E nos outros dois dias, pratico aulas de piano — Marcelo explicou.
— Eu iria só para prestigiá-lo, mas vou ter que iniciar o estágio este ano, só por causa do curso técnico... culpa dos meus pais que me matricularam naquela porcaria — Lu rosnou a última frase.
— Então vou ter que encarar isso sozinha, mas vai ser para o meu bem — falei.
— Vai dar certo, Lana — Marcelo incentivou. — Você frequenta as aulas, descobre qual carreira seguir e vamos fechar o ano com chave de ouro.
Sorri para eles. Aproveitei que a aula ainda não havia começado e acelerei os passos para me retirar do cômodo. Cheguei rapidamente à sala da inspetora. Controlei o ritmo da respiração e me aproximei dela, que estava com os olhos concentrados no computador.
Assim que ela notou minha presença, ergueu a cabeça lentamente e ajeitou os óculos.
— Gostaria de fazer minha inscrição para as aulas de orientação vocacional — disse.
Novamente, estava inserida numa sala com várias faces desconhecidas. O sentimento de participar da primeira aula reacendeu meu entusiasmo, provocando ventanias suaves que traziam uma sinfonia de agrado.
Para minha surpresa, a maior parte das carteiras já estava ocupada, e me senti aliviada ao perceber que não era a única perdida em relação ao futuro. Embora a maioria dos alunos fosse do primeiro e segundo ano, a cantiga harmônica também decidiu assobiar melodias de alerta, trazendo urgência ao meu tempo de procura, que se encurtava cada vez mais.
Poucos minutos depois de me acomodar na carteira da frente, a presença imediata de Gael acendeu meu espírito de determinação. Observei sorridente enquanto ele depositava os materiais sobre a mesa.
— Boa tarde a todos. Para quem ainda não teve aula comigo, sou o professor Gael e leciono a matéria de redação para as turmas do terceiro ano. Fico muito feliz pela participação de vocês na nossa primeira aula de orientação vocacional — ele disse, com um tom de voz grave e ao mesmo tempo simpático.
Admirava seus traços afrodescendentes e como sua pele negra o destacava com harmonia. Não pude deixar de reparar no seu corte de cabelo black undercut, seu estilo criativo que realçava sua vestimenta e nos óculos com lentes arredondadas. Uma combinação que lhe conferia uma postura de confiança e autenticidade.
Meu interesse foi despertado assim que Gael iniciou seu discurso introdutório sobre escolhas e expectativas para o futuro. Cada palavra aumentava meu anseio de percorrer o novo caminho, mesmo que os portões ainda estivessem fechados. Com o decorrer dos minutos, a dose de autoconfiança me dava a certeza de que meus sonhos em breve ganhariam cor.
Era só isso que eu queria.
— ... A vocação profissional só diz respeito a cada um, afinal, é um voo individual e vocês serão os únicos a determinar o rumo dessa trajetória. Nesse momento, comentários alheios serão dispensados, até porque é seu futuro, suas asas e seu céu de realizações — ele continuou. — Como dizia minha escritora predileta, Cora Coralina, "A verdadeira coragem é ir atrás de seus sonhos mesmo quando todos dizem que ele é impossível".
Aquela citação revigorou ainda mais minhas expectativas. Memorizei cada palavra, no intuito de mantê-la segura em meu interior, onde somente coisas boas tinham permissão de entrar.
— Nossa primeira dinâmica será a Árvore do Futuro — anunciou, animado. — Para isso, vamos montá-la na parede ao lado do quadro. Para fazer as folhas, vou separar pequenos pedaços de papel com os temas: família, amigos, eu e mercado de trabalho, em que vocês irão escrever sua visão de futuro para cada um desses títulos. Depois, vamos juntar todas essas folhas que vocês escreveram e colar nos galhos — explicou. — Vou me ausentar por uns minutos, pois preciso ir à sala da inspetora para pegar os materiais que usaremos na nossa dinâmica. — Ele deu alguns passos para frente e logo pausou a caminhada, como se lembrasse de algo. — Também vou precisar do projetor e do notebook, pois vou passar um vídeo no final da nossa atividade, já que os equipamentos dessa sala estão com defeito.
Abri o caderno para anotar as primeiras ideias antes que elas escapassem.
— Você pode me acompanhar para pegar os materiais? Pois vou precisar de ajuda para carregá-los — sua voz ecoou. Ergui a cabeça e percebi que seu pedido era para outra aluna, situada do outro lado da sala. Retomei meus pensamentos e a caneta começou a deslizar nas linhas em branco.
— Enquanto estiver fora, vão pensando sobre o que escrever. Quero ideias fantásticas! — sua voz grave repercutiu e, em seguida, ouvi o barulho da porta se fechando.
Não demorou muito para que o ambiente fosse preenchido por conversas paralelas, o que me fez perder a concentração. Fiquei estática por alguns instantes, esperando que minhas imaginações estendessem a mão para que pudéssemos prosseguir com a viagem. Depois de alguns minutos, percebi que demoraria até nos vermos novamente, então aceitei a interrupção indesejada.
Bufei, insatisfeita.
Ficou insuportável permanecer naquele cômodo. De maneira ágil, peguei a garrafa vazia e me retirei imediatamente.
Já no bebedouro, coloquei o objeto, abri o registro e o filete de água começou a preencher vagarosamente o espaço vazio. Aproveitei aquele tempo vago para pegar o celular e checar as redes sociais.
Por um segundo, minha atenção retornou para a realidade e foi por pouco que o líquido não transbordou. Suspirei aliviada por ter evitado que uma poça se alastrasse. Tampei a garrafa e meus olhos voltaram para a tela do celular, enquanto caminhava pelo corredor em direção à sala. Estava entretida e completamente focada em cada postagem, à medida que meu dedo arrastava para cima.
Entretanto, o que eu não esperava é que essa atitude me arruinasse em questão de segundos.
Um forte deslize me fez perder a aderência dos pés sobre o chão e o apagão surgiu repentinamente, assim que meu corpo sofreu o impacto da queda.
Ainda estonteada, abri os olhos vagarosamente e constatei a presença de dois vultos.
— Você está bem? — indagou Gael, que aparentava estar preocupado. Consegui reconhecê-lo pela sua voz.
— Eu te ajudo a levantar — uma voz feminina se manifestou.
Ela segurou meu braço e o puxou com força, fazendo meu corpo se desprender do chão.
Em questão de instantes, já estava de pé e recuperei a normalidade da visão. Reparei que meu professor estava mais tranquilo depois do susto, assim como não pude deixar de notar os materiais que ocupavam suas mãos.
— Minha cabeça está doendo um pouco — reclamei.
— Por favor, acompanhe a Alana até a enfermaria, para que ela possa ser examinada e tomar alguma medicação — ordenou. — Não quero ninguém sentindo dores na minha aula; vocês sabem que eu prezo muito pela saúde.
— Tudo bem, mas quanto aos...
— Nem se preocupe — ele interrompeu a garota. — Só me dê a bolsa com o notebook e o projetor, posso carregar essas coisas sozinho, sem problemas.
Ela entregou os objetos e Gael deu um jeito de reuni-los nos dois braços.
— Ah! E da próxima vez, fique atenta com a placa de piso molhado — ele me alertou. — Sorte sua que quase ninguém viu — disse, sorridente.
Reprimi a risada.
— Foi só um descuido; da próxima vez não vai se repetir.
Assim que ele retomou os passos, pude observar a garota que estava ao meu lado. Ela era uma aluna que eu não conhecia. Fiquei admirada com sua estatura um pouco mais alta que a minha e com como sua estrutura física volumosa destacava certa resistência.
— Aqui está seu celular e a garrafa — ela avisou, estendendo a mão para me entregar.
Peguei as coisas e agradeci com um sorriso. Fiquei aliviada por ambas não terem sofrido um estrago maior; houve somente uma trincada na película do celular.
Enquanto caminhávamos rumo à enfermaria, o silêncio se instalou entre nós. Por mais que não tivéssemos afinidade, a ausência de palavras me causava desconforto.
— E aí, o que está achando da primeira aula? — minha voz escapou de imediato.
— Gael tem um discurso muito inspirador, parece ser um ótimo professor — ela comentou, enquanto ajeitava seus cabelos castanhos repletos de frizz.
— Ele é incrível! Quando chegar no terceiro ano, você vai amar a matéria de redação.
— Então vou ter que esperar o ano que vem... espera, você está no terceiro ano?! — indagou, incrédula.
Sua reação foi cômica. Segurei a risada.
— Eu sei, todos confundem por causa da minha aparência rejuvenescida, mas já me acostumei com isso — respondi.
— Caramba, deve ser muito bom aparentar ser mais nova, pois nem parece que você já está quase com os pés na faculdade.
— Nem me fale sobre a faculdade. — Soltei uma risada amena. — Tô rindo, mas é de nervoso — brinquei.
O momento hilário a contagiou, tanto que ela balançou a cabeça e sorriu como se achasse graça do que eu havia dito.
Logo que adentramos, a enfermeira percebeu nossa chegada e nos recepcionou.
— Então, meninas, o que aconteceu?
— Escorreguei no piso molhado do corredor e caí de costas no chão. Bati a cabeça e agora está doendo um pouco — expliquei.
Ela gesticulou para que eu sentasse na maca de exame. Me acomodei na superfície acolchoada e ela começou a tatear cuidadosamente cada parte, na tentativa de encontrar alguma lesão causada pela queda.
— Pelo que percebi, está tudo normal — ela concluiu. — Como você só reclamou da dor na cabeça, vou te entregar um comprimido de paracetamol.
Levantei da maca e voltei a ficar de pé. Sem esperar muito, ela me entregou a medicação e um copo descartável com água.
Engoli rapidamente com a ajuda do líquido e depois agradeci pelo atendimento.
Já do lado de fora da enfermaria, continuamos a caminhada pelas instalações do colégio.
— Fiquei aliviada que não foi nada grave — a garota comentou. — Porque eu vi como tudo aconteceu. Primeiro foi aquele escorregão, depois você perdeu o equilíbrio, chegou a levantar uma das pernas e caiu com tudo no chão.
— O primeiro mico do ano foi pago com sucesso — gracejei.
Ela comprimiu os lábios para não rir.
— Antes de voltarmos para a aula, vamos ao banheiro? — pedi. — Preciso jogar uma água no rosto, é bem rápido.
Ela concordou com a cabeça e mudamos de direção. Entramos simultaneamente no banheiro e fui direto para a primeira pia que avistei. Apertei o temporizador da torneira e minha pele se refrescou com a água fria. Repeti o movimento algumas vezes até esfregar bem o rosto e depois peguei algumas folhas de papel no dispenser. Sequei o rosto completamente.
— Ai, meu Deus! — ela exclamou, assustada. Estremeci com o tom de voz dela.
Me virei para trás.
— O que foi? — perguntei.
— Sua calça rasgou bem no meio da bunda — avisou.
Arregalei os olhos. Era só o que me faltava. Passei a mão pelo tecido do uniforme, procurando o estrago. O localizei em segundos.
— Que droga — rosnei. — Será que dá para ver a cor da minha calcinha?
— Se ela for azul royal, sim — ela respondeu, um pouco envergonhada.
Entrei em desespero.
— Cacete, e agora?! Não posso andar com algo rasgado bem na bunda e ainda por cima deixando uma parte da minha calcinha à mostra. Isso é constrangedor.
— Deve ter sido por causa da queda, o tecido estava gasto e a calça é bem colada — constatou.
— Ah, não — falei, apreensiva.
De maneira ágil, ela tirou sua blusa de moletom e a estendeu para que eu pudesse pegar.
— Amarra na cintura, isso vai esconder o buraco — propôs.
Sorri. Envolvi as mangas na cintura e apertei com um nó.
— Obrigada por ter me salvado, vou devolver sua blusa amanhã no intervalo.
— Sem problemas. Agora podemos voltar.
Nos retiramos e logo dobramos o corredor onde ficavam as salas de aula.
— Que situação esquisita e engraçada — comentei.
— É mesmo, Alana do tombo — brincou.
Ri suavemente. Notei que ela parecia ter se soltado um pouco.
— E você também não pode ficar de fora... — pausei a fala. — ... Qual é seu nome?
— Elisa — respondeu.
— Elisa e suas ideias ágeis.
— Acho que Elisa e suas ideias malucas ficaria melhor — sugeriu.
Paramos em frente à porta. Antes que minha mão tocasse a fechadura, nos encaramos e o riso preencheu o silêncio, tornando nossos momentos mais harmônicos.
Foi previsível que o meu acontecimento inusitado gerasse expressões hilárias, à medida que cada palavra ampliava o relato. Começando pela minha mãe, que soltava gargalhadas enquanto costurava minha calça, até chegar aos meus amigos, de quem eu ouvia novamente o barulho de vozes reagindo de maneira cômica.
— Sério, faltou uma câmera naquele lugar — Marcelo comentou, enquanto tentava amenizar o riso.
— Que pena, uma vídeo cassetada perdida — Lu acrescentou.
— Faustão não curtiu isso — gracejou Marcelo.
Em segundos, os dois voltaram a soltar gargalhadas estridentes. Olhei para os lados do corredor externo e percebi que a maioria dos alunos nos observava, já que o intervalo havia começado recentemente. Balancei a cabeça e sorri. Deixei que o barulho me acompanhasse até que fosse reduzido.
— Sorte minha que pouquíssimas pessoas viram; senão, estaria lascada.
— É, mas isso não nos impede de imaginar a cena — Lu respondeu, sorridente.
Suspirei. De agora em diante, teria que aguentar as piadas sobre algo que eu mesma quis contar.
— Enfim, eu só vou entregar a blusa para a Elisa. Encontro vocês depois, tá bom? — falei de maneira acelerada.
Me retirei em passos apressados, até que meus ouvidos ficassem fora do alcance de qualquer ruído cômico.
Concentrei meus olhos no pátio e analisei atentamente cada canto em busca de Elisa. No entanto, sua presença não estava no meu campo de visão. Até cogitei pegar o celular, mas lembrei que não a adicionei nas redes sociais, o que dificultou ainda mais a procura. Decidi me deslocar até o refeitório, afinal, era um local bem movimentado e a chance de encontrá-la aumentava.
Em certo momento, precisei ficar na ponta dos pés para obter um cenário mais amplo, até que consegui avistar seu rosto à distância. Elisa estava em uma das mesas redondas no fundo e não parecia estar sozinha, já que duas garotas lhe faziam companhia. O entusiasmo se alastrou nas minhas emoções, refletindo-se na curva do meu sorriso discreto.
Minha aparição fez com que as três me encarassem. Um silêncio constrangedor se instalou.
— Alana! — Elisa exclamou, surpresa. — Que bom que conseguiu me encontrar.
— Trouxe seu moletom. — Estendi o braço segurando a peça para que ela pudesse alcançar.
Elisa levantou-se da cadeira e pegou suavemente a peça.
— Obrigada por ter devolvido. Espero que tenha te ajudado.
— Então foi por isso que você não estava usando a blusa hoje — constatou a garota de cabelos lisos e longos.
— A Elisa não desgruda dessa roupa — falou a jovem de cachos negros e volumosos.
— Pois é, mas ontem aconteceu um pequeno incidente e precisei emprestá-la — Elisa explicou.
— Nos vemos na próxima aula de orientação vocacional. — Acenei e comecei a me retirar.
— Pera aí! — sua amiga avisou. Interrompi qualquer movimento e olhei para trás. Percebi que ela me analisava e voltei a apreciar seus cachos magníficos. — A Elisa não nos falou nada sobre você.
— Foi mal, meninas. Esqueci de comentar que conheci a Alana ontem na aula de Orientação Vocacional, devido a uma situação inesperada. Mas agora está tudo certo — contou. — Ela não aparenta estar no terceiro ano, tem dúvidas sobre seu futuro, é bem-humorada e...
— Meu hobby é fotografia, minha cor favorita é roxo e curto músicas antigas — acrescentei, sorridente.
Inesperadamente, a garota de cabelos claros puxou uma cadeira da mesa ao lado e a arrastou para perto.
— Quero saber mais — pediu, curiosa. Em seguida, gesticulou para que eu me acomodasse no assento. — Principalmente na parte do hobby, pois temos algo em comum.
Me acomodei lentamente.
— A propósito, essas são minhas amigas, Lívia e Daniele — Elisa as apresentou.
Era admirável como a aparência delas destacava sua essência jovial. Os cabelos aloirados e longos de Lívia expressavam seu lado espontâneo, junto ao tom de pele claro e à sua estatura mais alta. Daniele não passava despercebida, com seus cachos deslumbrantes e sua pele escura, além de uma estrutura corporal mais desenvolvida.
— Então, gosto de fotografar paisagens, exaltando sua beleza natural e eternizando boas lembranças. Uso uma câmera profissional e crio álbuns no Facebook para cada categoria. Inclusive, as últimas fotos que postei foram da excursão ao Parque Vila Velha — continuei.
— Caramba, você foi naquele passeio?! — Lívia indagou, surpresa. — Queria muito ter ido ano passado, mas só podiam ir turmas de segundo e terceiro ano. Ouvi dizer que foi bem legal.
— Foi uma experiência incrível, aproveitei muito.
— Eu também adoro viagens, inclusive meu hobby é gravar um tour pelos lugares e postar no meu canal do YouTube.
— Agora que a Lívia tocou no assunto de gravar vídeos, eu faço covers de músicas e publico no Facebook e Instagram — Dani revelou.
Esbocei uma reação estupefata.
— Caramba, isso é incrível!... E você, Elisa, tem algo que gosta de fazer? — indaguei, a fim de que ela também participasse da conversa.
— Eu não tenho uma ocupação tão fabulosa quanto a de vocês — respondeu timidamente. — Trabalho com a minha mãe na floricultura e me divirto com meus animais de estimação.
— A floricultura da mãe da Elisa é simplesmente maravilhosa... Ah! E criaram uma página da loja para curtir e seguir — Daniele lembrou.
— Lana, me passa seu perfil das redes sociais — Lívia pediu. — Fiquei curiosa para ver as fotografias.
Sorri para ela e nossos celulares ficaram à mostra. Depois disso, trocamos nossos nomes de usuário e aceitamos as solicitações quase que instantaneamente.
Como a tela do meu celular ainda estava desbloqueada, espiei o canto superior e vi que os minutos se aproximavam para o fim do intervalo. Arregalei os olhos.
— Meninas, preciso ir — avisei. — Falei para os meus amigos que os encontraria depois e o intervalo já está quase acabando.
— Tranquilo, Lana — Lívia respondeu.
Me levantei da cadeira e acenei para elas.
— Nos vemos na quinta, Elisa.
— Até quinta, Lana — ela respondeu.
Minha caminhada frenética pelas instalações do colégio foi imediata. Cheguei ao corredor e reduzi a pressa, pensando na recordação desastrosa que ainda estava fresca. Logo que me aproximei da porta aberta, percebi que Lu e Marcelo ainda não estavam lá.
Me acomodei na carteira e aproveitei o resto dos minutos vagos para analisar as redes sociais das meninas, no intuito de conhecer um pouco mais sobre elas. Fiquei encantada com cada postagem e com o jeito autêntico de Lívia e Dani. Até que uma notificação surgiu na tela, despertando minha atenção:
Elisa de Castro enviou uma solicitação de amizade.
Acreditei que ela havia compartilhado seu perfil pessoal, mas logo me lembrei que ela só havia informado a página oficial da floricultura. Deduzi que provavelmente se esqueceu de mencionar isso naquele momento. Confirmei a solicitação.
Como já havia verificado as publicações das suas amigas e da página, resolvi checar as postagens dela. Nos primeiros segundos, ao arrastar para baixo, percebi que Elisa não postava com frequência, sendo a mais recente há dois meses. Ela basicamente compartilhava trechos de letras de músicas e fotos de animais fofos.
Meu interesse estava quase se dissipando, mas algo inexplicável interrompeu minha partida. Foi naquele momento de análise que um abalo inesperado ocorreu, me transportando para o passado.
As recordações da Alana insegura combinavam com as de Elisa. A primeira peça havia se encaixado. Eu entendia o significado de cada frase de baixa autoestima, especialmente quando exposta em redes sociais, o que era totalmente aborrecedor. Realmente, cada ser é um livro, cujas páginas são reveladas gradativamente.
E eu não tive uma boa impressão dessa primeira leitura.
Bloqueei a tela do celular e fiquei pensativa por um instante. Ainda era cedo para tirar conclusões precipitadas. Então decidi que, para entender toda a sua história, eu precisaria ler os outros capítulos.
Notas da autora: Finalmente o encontro de Alana e Elisa aconteceu!!!
E que forma inusitada de conhecer alguém hehe.
É, Alana, sua aventura só está começando...
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